Os gatilhos são como que uma bala na arma a favor da ansiedade e depressão. São, uma surpresa conhecida, um paradoxo teimoso e um portal para o descontrolo. Pelo menos, para mim, é assim.
Como parte de uma saúde mental pobre sem diagnóstico, passei muitos anos sem me aperceber o porquê de algumas reacções que tinha, ou porque havia momentos em que eu estava bem e de repente deixava de estar ou ainda, perante situações semelhantes, tinha reacções diferentes e por vezes opostas.
Devido ao silêncio a que me acostumei, poderia facilmente afirmar que me tornei nessa pessoa que achava “isto é feitio, é quem eu sou e não há nada a fazer”.
Em consequência disso, os meus gatilhos (que são vários) escapavam-me à observação e simplesmente estavam à espera para emergir e tomar conta do acontecimento.
No meu caso (é preciso dizer sempre que isto é a minha experiência, não venho aqui dizer o que outros devem fazer) optei por fazer terapia, durante um período de mais de 2 anos, onde descobri o que tinha as origens, e claro, os gatilhos. E assim perceber quais eram os meu gatilhos.
Barulhos altos e repentinos estão à cabeça do portal ansioso. Muitas conversas ao pé de mim com volumes diferentes e a minha tranquilidade começa a dar de si. Junto ainda, movimentos muito rápidos que, por uma razão ou outra, não consegui processar e a ansiedade cresce.
Estes são os gatilhos que ainda me apanham de surpresa mesmo que não apareçam sempre que têm oportunidade. Houve já outros que com o tempo desapareceram, talvez por estarem ligados a fases da minha vida que já passei.
Entre eles, estavam o toque do telefone, a campainha da porta e o correio. Eram gatilhos ligados a medos de desconhecidos, ou a pessoas que me poderiam apresentar oportunidades de convivência, como ir beber um café, às quais eu provavelmente iria inventar uma desculpa qualquer para me manter na segurança da minha prisão mental.
Todos os meus gatilhos estão ligados ao medo. Esse medo é antigo, e por vezes ainda me consegue paralisar. Saio do presente e revivo os primeiros medos como se ainda lá estivesse, no passado que deu origem à minha ansiedade.
Os sobressaltos de barulhos inesperados criam a sensação de que algo de extremamente alarmante vai acontecer ou está já a acontecer. De repente já lá estou, naquela situação familiar de stress e raiva que só desaparece com muitas respirações.
Ao longo do tempo fui-me apercebendo que se fico muito tempo sem comer ou se durmo pouco, os gatilhos ficam mais perto de concretizarem o seu propósito e retirarem-me o bem-estar.
As técnicas que uso para me acalmar e voltar a estar no presente sem que os gatilhos disparem os alarmes, são simples embora não sejam 100% eficientes, visto que por vezes é preciso uma distância temporal maior do que a minha norma.
Respirar fundo é essencial. Sentir o ar a entrar e substituir a tensão e depois deixá-la ir para fora. Posso dizer que resulta muitas vezes.
Porém, querer acalmar é ainda mais fundamental. Por vezes estou algo (ou bastante) irritado e ao tentar respirar parece que ainda faz pior. Parece que prefiro ficar tenso naquele momento como que largar a tensão é largar o meu hábito e a minha indumentária mental.
Nesses casos, não há nada a fazer senão deixar passar. Ficar ali até que a dinâmica tome conta e eu saia dali, daquele buraco momentâneo onde sou insuportável.
Andar a pé. Todas as manhãs ando a pé uns quatro quilómetros e observo os pensamentos que tenho. Muitas são as vezes onde repito para mim uma frase pequena que me traga ao agora. Algo simples como, “já passou”, ou “estou aqui”.
Em último lugar, utilizo a energia de uma memória antiga boa ou uma surpresa recente que me lembre que a minha vida é muitíssimo melhor do que eu imagino quando estou mais em baixo.
Como disse acima não existem soluções que resultem todas as vezes em todos os cenários e eu já aprendi a aceitar isso depois de muito tempo a viver com inseguranças, autocensuras e impaciência. De qualquer forma deixo aqui o meu testemunho.
É preciso ser honesto comigo mesmo e aceitar essa parte de mim. Estes são os meus gatilhos e as minhas formas de lidar com isso. E as vossas?


