Contra todas as possibilidades

Marta Roque, Coordenadora Editorial
Editorial de Março

 

Erros em política pagam-se caro nas eleições seguintes. Esta é uma lição que todos na sociedade portuguesa deveriam aprender: da política ao espaço mediático; no tratamento da informação e no respeito pela vida das pessoas.

Against all odds a icónica música dos anos 80 expressa bem a delicada situação política que estamos a viver com a indigitação de um primeiro-ministro com maioria relativa de direita.

Dois governos socialistas caíram desde 2022, governos que tiveram todas as possibilidades, até tiveram maioria absoluta com o aval do povo português, algo surpreendente para o próprio António Costa que não escondeu a emoção na vitória eleitoral em janeiro de 2022.

Mas o povo não esquece os desastres políticos deste último governo socialista com Pedro Nuno Santos, Ministro das Infra-estruturas e da Habitação  a cometer actos de irresponsabilidade política no dossier da TAP, seguindo-lhe as pisadas João Galamba a não assumir as falhas no seu próprio Ministério, que até envolveu pancaria com o seu assessor.

A corrupção voltou à espuma dos dias com o envolvimento do primeiro-ministro na caso operação influencer, um parágrafo da procuradora geral da Republica foi a gota de água para a demissão de António Costa. Depois desta queda aparatosa que deixa o pais em crise política, com os cinco detidos da Operação Influencer a saírem em liberdade, em janeiro segue-se a queda do Governo Regional da Madeira com a mega operação da Madeira.

Não há memória de uma operação policial que tenha envolvido tantos meios como neste caso. A Polícia Judiciária pediu ajuda à Força Aérea que forneceu dois aviões, um deles C-130, para o transporte de 300 agentes. Com tanta corrupção saíram todos em liberdade. Alguma coisa se passa com o poder judicial neste país.

Erros em política pagam-se caro nas eleições seguintes. Esta é uma lição que todos na sociedade portuguesa deveriam aprender: da política ao espaço mediático; no tratamento da informação e no respeito pela vida das pessoas.

Contra todas as expectativas Luís Montenegro o líder da Aliança Democrática ganha nestas eleições por uma unha negra, por apenas 54 mil votos de diferença do PS, com o chamado partido de extrema-direita, Chega, a ganhar como 3ª força política, ganhando inclusivamente 2 deputados nas eleições dos emigrantes fora da Europa.

“Não surpreende e era expectável” comenta Gonçalo Ribeiro Telles, Consultor de Comunicação e analista de política na SIC Notícias, em artigo ao Estado com Arte Magazine diz que “era uma questão de tempo para que a influência do movimento da extrema-direita global chegasse a Portugal. “

Um cenário de instabilidade que para os media dita uma legislatura curta, com os dias contados deste governo minoritário.

Mas será que tem de ser mesmo assim?

Vale a pena recordar outros tempos no início da democracia em que os primeiros governos foram de curta duração, quando o Presidente António Ramalho Eanes teve de liderar o país com governos minoritários.

O Constitucionalista Jorge Miranda, um dos fundadores da Constituição portuguesa de 1976, conta no Podcast Estado com Arte, de janeiro, que o cenário mais provável de acontecer nestas eleições seria um governo PSD ou PS com maioria relativa, em que o outro partido abstém-se nas votações em plenário.

Não acredita que o Presidente da República faça nova dissolução, com um governo minoritário.
A acontecer só pode ser dissolvido em setembro, o que seria, para o catedrático da Universidade de Lisboa, um “erro enorme” ter o país em crise durante todo o ano de 2024.
Nesta entrevista o constitucionalista recorda ainda o verão quente e o outono escaldante que retrata no seu livro “Da revolução à Constituição”.
Memórias da revolução de abril onde elenca as datas importantes para a Democracia.
Diz que “só alguém” que foi deputado da assembleia constituinte e “viveu intensamente esse período sabe o que foi.”

Numa altura em que tanto se fala de mulheres no topo das organizações, foi precisamente num dos momentos mais difíceis da jovem democracia portuguesa que Maria de Lurdes Pintassilgo foi eleita primeira-ministra nos idos anos 80, a única mulher a desempenhar este cargo em Portugal, de julho de 1979 a janeiro de 1980.

Onde andam as mulheres na política que desde 2020 estão em regressão em cargos de poder? Temas que vamos acompanhar na edição do 25 de abril.

No ano de comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos conhecer a história da democracia portuguesa é fundamental para apontar soluções para o futuro dos portugueses, que como diz e bem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, “é o povo quem mais ordena”.

No próximo dia 28 de março o primeiro-ministro indigitado, Luís Montenegro, apresentará ao Presidente da República a composição do novo governo e a tomada de posse será a 2 de abril. Vamos iniciar uma nova legislatura, “um virar de página” como aqui escreveu a deputada da AD Évora Sónia Ramos.

Sejamos atentos e responsáveis quando os tempos exigem generosidade e ética política, bem como capacidade de liderança em todas as áreas da vida civil para o bem dos nossos filhos e futuro de Portugal.

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