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Dalila Rodrigues.”A diversidade e pluralidade das regiões é fundamental, remete-nos para um sentido de pertença”

Marta Roque

Dalila Rodrigues, Ministra da Cultura, diz que os “elementos identitários da cultura portuguesa evoluem”,  não é algo “imutável, construímo-nos a todo o instante”, porque a história “evolui a cada década.”

A cultura popular portuguesa espera por “políticas atuantes” no sentido do reconhecimento desta cultura “como expressão artística”, pediu ontem o investigador Luís Esteves no lançamento do livro Casas Regionais em Lisboa. ( Foto: Editora Diário de Bordo)

A Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, disse querer conhecer o roteiro das Casas Regionais de Lisboa no encontro que designou de “viagem admirável e sublime”, por ocasião do lançamento do livro de Luís Esteves sobre cultura popular portuguesa, ontem, no Grémio Literário.

“A diversidade e pluralidade das regiões é fundamental,  remete-nos para um sentido de pertença”, segundo Dalila Rodrigues, que considera que o” movimento de saída e regresso da nossa terra a identidade não é imutável”. Os elementos identitários “evoluem, porque somos o reflexo dessa relação identitária. Construímo-nos a todo o instante. A história evolui a cada década, como a gastronomia,”  esclarece a Ministra da Cultura.
As casas regionais têm esse sentido de integração, “todas as formas de expressão cultural artística têm lugar”.  Dalila Rodrigues defende que o erudito e o popular também podem existir nas casas regionais “há casas mais elitistas, visíveis pelo edifício que corresponde a uma elite social. Outras casas regionais têm menos recursos, mas com um trabalho social muito importante, apesar da menor relevância do ponto de vista arquitetónico, “podem ser mais mobilizadoras do ponto de vista social.”

Existe capacidade de uma dimensão erudita ou mais popular na Cultura Popular “ao valorizar as tradições e os elementos de continuidade cultural”.  A Ministra dá como exemplo a Casa Regional dos Açores representada no documentário Chieira, visionado ontem, baseado no trabalho de doutoramento do investigador de cultura portuguesa. Os jovens desta geração querem saber como era antigamente, “há uma ritualização das práticas tradicionais.

O Folclore é uma expressão da cultura popular,  que está sempre presente. “É identitário e também agrega do ponto de vista inter-geracional. As crianças aprendem a arte popular da gastronomia com as receitas tradicionais, passadas de geração em geração,” conclui Dalila Rodrigues.

Para Luís Esteves, autor do livro  Casas Regionais em Lisboa – Lugares de cultura Popular, Lisboa é uma “manta de retalhos, ainda há uma cultura por explorar, uma cultura underground“, é um universo suficiente para reter a nossa identidade”. Um trabalho muito humano para o investigador.

“O regionalismo não é um conceito, é um sentimento. As pessoas ligam-se às suas terras, como o cordão umbilical que está ligado à mãe, quando nasce o bebé. Senti nesta problemática algo que mexeu com o meu calcanhar de aquiles”, justifica o investigador. Durante o seu percurso académico no Brasil  conheceu as casas regionais portuguesas, em que viu “um fanatismo pela portugalidade que desconhecia, ao ponto de se equipar ao sentimento do futebol ou até mesmo religioso”. Quando regressou desenvolveu este trabalho académico em Portugal.

“O erudito e o popular andam de mãos dadas. As casas regionais dão um empoderamento à cultura popular portuguesa que espera por políticas atuantes desta expressão artística, não é de todo menor. É pobre, mas Portugal também é pobre.” Para o docente universitário “Lisboa de citadino talvez tenha muito pouco, com este resultado com gente que vem de todos os lados. Talvez seja a menina castiça, rural e  provinciana”.

Lança o pedido à Ministra da Cultura de apoio às coletividades que precisam de proximidade. “O Estado precisa de pensar a verticalidade e transversalidade: o que se convive, o que se faz, o que se comunica, o capital político e social.”

José Cesário, Secretário de Estado das Comunidades portuguesas, acredita que os centros de Lisboa e Porto correspondem a um “fenómeno global, encontramos estas casas no mundo”, como por exemplo as Casas Regionais no Brasil.
“Estão lá pela necessidade de identidade cultural de se unirem em torno das tradições, muito em particular pelo apoio social.”
Em França chegou a existir 1000 associações, agora são apenas 300 associações. Estas Casas Regionais eram um ponto de apoio para os imigrantes portugueses puderem encontrar alguém que falasse a mesma língua, procurar emprego, ou como pôr os filhos a estudar.

Casas que em alguns lugares têm o mesmo estilo e noutras não têm, as Casas regionais dos madeirenses e açorianos são das mais tradicionais. “Uma realidade desconhecida, mas é uma realidade global,” explica.
Já no Porto o movimento de casas regionais não é amplo, mas existem algumas. Nos finais dos anos 70 e anos 80 muitas pessoas iam para o Porto antes de irem para França.

Joana Oliveira e Costa, Vereadora  da Inovação e Tecnologia da CML considera as casas regionais como embaixadoras em Lisboa dos locais de origem de muitos cidadãos residentes na capital. “Trazem a alegria das culturas para a cidade de lisboa.”
Na divulgação das culturas regionais há um mundo enorme por explorar, uma porta que Luís Esteves “abriu” e que no entender da vereadora “continua por revelar”.

As vozes da casa do concelho de Ponte de Lima mostraram a expressão identitária de um povo com uma sonoridade particular e única da região do Minho. Seguiu-se a degustação de produtos regionais de Castro Daire com bolo podre e chá ervital.

Foi ainda apresentado o filme documentário Chieira que já ganhou prémios internacionais, fruto da investigação de Luís Esteves que acompanha a cultura popular, através do caso de estudo das Casas Regionais em  Portugal.

Chieira – o documentário das Casas Regionais de Lisboa

O filme/documentário, sobre as Casas Regionais em Lisboa é sobre a vaidade em ser regionalista, retrata as gentes vindas das aldeias para a capital do país, no decorrer do século XX, na procura de melhores condições de vida, assim como o seu protagonismo no desenvolvimento e expansão da cidade, fazendo de Lisboa uma verdadeira “manta de retalhos” de culturas e vivências.

Luís Esteves é Doutor em Arte dos Media, pela Universidade Lusófona em Lisboa, com o tema: “Casas Regionais em Lisboa. Lugares de Cultura Popular Tradicional Portuguesa” e Mestre em Estudos Artísticos, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com convénio internacional ao abrigo do Acordo de Cooperação na Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, Brasil e licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com especialidade iniciada no âmbito do programa Erasmus, em Cinéma et Audiovisuel, na Universidade Sorbonne Nouvelle Paris III, França.

Participou em mais de oitenta projectos, como director, produtor e intérprete em teatro, cinema e televisão, além de professor de artes e formador certificado, em contexto nacional e internacional.

“Chieira” é o seu primeiro filme, recebeu o Prémio Vencedor na categoria de Documentário no White Unicorn International Film Festival – India (Junho-Julho 2022); o Prémio Vencedor na categoria ‘Best Short Doc’ no Rome Prisma Film Awards (Julho 2022); e foi seleccionado para o DRB Films Production Khandesh International Short Filme Festival 2022.

Fez parte ainda da seleção oficial para o GIFFI – Global Independent Film Festival of India – Season 3,  seleção oficial para o Bollywood International Film Festival (BIFF) 2023, da seleção oficial para o 1st AIFF Ahmedabad International Film Festival 2024 e da  seleção oficial para o VI International Heritales Film Festival 2024.

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