António José Seguro foi o grande vencedor da primeira volta, não só por ter sido o mais votado, mas também por o ter feito com uma vantagem muito expressiva sobre o segundo candidato mais votado, numa eleição disputada contra múltiplos adversários. Sobretudo, quando o apoio do PS tardou a aparecer – até porque o anterior líder lhe era hostil – e muita gente não dava muito por Seguro como candidato.
Com esta vitória, António José Seguro dá ao PS uma vitória num ato eleitoral importante, a primeira volta destas presidenciais, calando os que já vaticinavam como certo o declínio do PS. Pelo contrário, o partido mostra que quando é liderado pela sua ala moderada, fiel à sua tradição democrática e não revolucionária, continua a ser um dos principais partidos portugueses.
André Ventura é outro dos grandes vencedores da noite. Sendo o segundo mais votado, irá com toda a probabilidade ser derrotado na segunda volta. Mas também isso será motivo de júbilo para um candidato que, sabendo que irá perder a segunda volta, se irá vitimizar durante toda a campanha, exigindo aos partidos de centro-direita que o apoiem e acusando-os de entregar a presidência à esquerda, discurso que irá colher alguns frutos. Em suma, para André Ventura e para o Chega, todos os objetivos foram alcançados, e o caminho de crescimento do partido continua.
João Cotrim de Figueiredo, mesmo não indo à segunda volta, é também um dos vencedores da noite eleitoral. Consegue um resultado muito superior ao da IL nas legislativas, bate claramente Marques Mendes e torna-se assim o candidato mais votado no centro-direita. O que é um bom indicador para o partido, porque muito embora Cotrim valha mais do que o partido vale neste momento, a verdade é que conseguiu este resultado defendendo ideias liberais, mostrando que as mesmas têm futuro em Portugal.
No seu discurso, Cotrim de Figueiredo, declarou duas coisas importantes: em primeiro lugar, que não daria qualquer orientação de voto aos seus apoiantes para a segunda volta, e em segundo lugar que responsabiliza pessoalmente Luís Montenegro por, ao não ter correspondido ao seu pedido de apoio feito no final da campanha, permitir que a segunda volta seja disputada por um socialista e um populista, sem a presença de um candidato do centro-direita.
Muito embora o raciocínio seja correto no sentido de que o apoio da AD teria permitido a Cotrim de Figueiredo passar à segunda volta, isso apenas seria possível com uma desistência de Marques Mendes, pois caso contrário, nenhum eleitor social democrata compreenderia que o PSD cortasse o apoio a um candidato do partido em plena campanha eleitoral. Isto mesmo tendo em conta os fraquíssimos resultados de Luís Marques Mendes, que na altura não eram previsíveis na sua magnitude. E claro que a derrota do seu candidato não só perante os candidatos do PS e do Chega, mas também da IL, é um embaraço para o PSD.
O Almirante Gouveia e Melo é o mais votado dos derrotados da noite, começou como putativo e quase inquestionável vencedor, mas foi ao longo do tempo, e sobretudo ao longo da campanha, perdendo a sua vantagem inicial. A sua experiência militar e geopolítica podia ser importante neste momento histórico, e a par da sua moderação ideológica faziam dele um bom candidato, mas a falta de experiência noutros temas notou-se durante a campanha e penalizou-o.
Marques Mendes é o principal derrotado deste ato eleitoral, com aquele que poderá ser o resultado mais baixo alguma vez registado para um candidato apoiado pelo PSD, fruto de uma campanha muito fraca. O principal problema é que isso vai trazer grandes dificuldades ao PSD e ao Governo, que muito se esforçaram para o apoiar, pois o partido saiu claramente enfraquecido com este resultado, precisamente porque muito se empenhou no apoio a este candidato.
Nos seus discursos, também Marques Mendes e Luís Montenegro tiveram o cuidado de declarar que não fazia recomendação de voto para a segunda volta. Posição normal do candidato da AD, já que o Governo, atento à repartição de mandatos na Assembleia da República, terá que negociar tanto com o Chega como com o PS ao longo da legislatura.
Os candidatos à esquerda do PS foram todos «eliminados» pelo voto útil em António José Seguro, face ao receio de uma segunda volta entre dois candidatos de direita, o que podia muito bem ter acontecido, como se vê somando os resultados dos candidatos de direita e de esquerda, que dão à primeira uma clara vantagem.
Ao contrário do que sustenta André Ventura, no entanto, a segunda volta das eleições não será entre direita e esquerda, mas entre radicalismo e moderação, entre um ativista político e um verdadeiro estadista, pelo que a sua previsível derrota não se deverá a qualquer suposto esquerdismo das forças de centro-direita, mas antes à aversão que essas forças têm ao radicalismo político.
A posição assumida pelos partidos do centro-direita de não darem orientações de voto para a segunda volta, dá a Ventura, no próprio dia, a resposta ao seu repto para que o apoiem, ou pelo menos não obstaculizarem, à sua campanha para a segunda volta destas eleições presidenciais.
Pelo menos institucionalmente, a AD e a IL não irão interferir no confronto entre Seguro e Ventura, o que favorecerá tanto Seguro quanto Ventura: Seguro vencerá mais facilmente, e Ventura poderá vitimizar-se pela falta de apoio dos restantes partidos de direita, imputando-lhes a responsabilidade pela sua previsível derrota, fazendo assim com AD e IL o que Cotrim de Figueiredo fez com Luís Montenegro.


