Torna-se cada vez mais clara a existência de um entendimento entre EUA e Rússia no sentido de se apoiarem mutuamente, para prosseguirem os seus interesses à custa dos respectivos aliados.
Assim, como é notório, os EUA têm feito de tudo um pouco para apoiar a Rússia no conflito com a Ucrânia, e a Rússia tem dado aos EUA rédea solta na América Latina e no Médio Oriente.
A guerra com o Irão, depois da intervenção militar na Venezuela, é mais um desenvolvimento desse entendimento entre EUA e Rússia.
Perante a invasão de um aliado, a Rússia limita-se fornecer ao Irão apoio de informações e inteligência, um pouco como os EUA estão a fazer na Ucrânia. O mínimo para que os aliados de cada um, não possam dizer que não estão a ser apoiados, mas sem que as grandes potências vão realmente em seu auxílio.
Ao atacar o Irão os EUA cumprem vários objectivos, desde apoiar Israel a enfraquecer a China, ao mesmo tempo que mais uma vez favorecem muito significativamente a Rússia no conflito a Ucrânia, ao causar uma crise energética e assim obter um pretexto para levantar as sanções à venda de petróleo russo, algo que a Rússia vinha pedindo há já muito tempo. O que dá à economia de guerra russa um importante apoio, minando a eficácia das sanções económicas ocidentais, cujo peso já se vinha a fazer sentir.
Mas sobretudo, ao atacar o Irão sem consultar os aliados europeus e exigindo depois a intervenção destes para se envolverem no conflito a posteriori , o que obviamente foi recusado, os EUA criaram um conflito diplomático com a Europa que poderão usar como pretexto para sair da NATO ou, pelo menos, para não acorrerem em socorro de países europeus que a Rússia eventualmente decida atacar, nomeadamente os que se encontravam no espaço geográfico do antigo império soviético.
Em geo-política não há coincidências, e este é, do ponto de vista europeu, o mais grave risco da guerra do Irão. Por isso, vários aliados dos EUA – europeus e não só – já se comprometeram a assegurar a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, apesar de terem recusado juntar-se à ofensiva. Resta saber se isso será suficiente para manter os EUA ligados à NATO e à Europa, e em que termos.
É certo que as grandes potências são menos hegemónicas do que se julgava. A Rússia pensava conquistar a Ucrânia em poucos dias, e os EUA (encorajados pelo recente sucesso na Venezuela) pensavam vergar o Irão mais ou menos no mesmo espaço de tempo. Ambos falharam clamorosamente.
Mas ainda assim, mesmo que não venham a ter sucesso nos seus objectivos, ou só os venham a alcançar sofrendo custos desmesurados, a sua capacidade de espalhar morte e sofrimento pelo Mundo é incontornável, e não deve ser subestimada.
Se a Europa, enfraquecida por décadas de sub-investimento na defesa e pela difusão de um anti-ocidentalismo que é tão popular em certos sectores ideológicos, vier a ter que lidar com um ataque russo a um estado báltico, por exemplo, com pouco ou nenhum apoio dos EUA, o choque de realidade vai ser brutal, e vai testar capacidade e vontade europeia de defender o seu território e o seu modo de vida. E os EUA poderão até aproveitar esse momento para tentar abocanhar a Gronelândia.


