Guernica foi palco de ódio e de morte a 26 de abril. Uma arma fatal e também moral que mudaria o destino do próprio País Basco, na segunda metade do século XX, ferindo o orgulho do povo basco e amedrontando-o com seu poder e ódio, ao aniquilar a sua cidade histórica.
A barbárie ocorrida em Guernica tem muitas faces. Para além da tragédia humana, urge compreender o contexto histórico e geopolítico da época, as suas causas e consequências. São dois os pontos fundamentais para entender a tragédia de Guernica: a Guerra Civil Espanhola e o avanço do nazismo e do fascismo na Europa.
Era o início da tarde de uma segunda-feira, dia 26 de Abril, em que pessoas circulavam calmamente ocupadas nos seus afazeres de um dia de feira local, naquela povoação basca, Guernica, no norte da Espanha, quando algo inesperado aconteceu e o céu anunciou o terror, naquele ano de 1937.
Era uma vila cheia de vida, que até então permanecera praticamente intocada pela Guerra Civil Espanhola, que grassava desde o ano anterior.
No fim daquela tarde, começaram os bombardeamentos aéreos, isolados. Mais tarde, deu-se o ataque principal dos aviões alemães, em ondas sucessivas. Segundo um diário de guerra da época, nesta altura o fumo já era tanto que não se distinguiam os alvos – casas, pontes ou arrabaldes e os pilotos dos 50 bombardeiros da Legião Condor atiravam a sua carga mortal, indistintamente.
Calcula-se que, ao todo, 22 toneladas de explosivos foram lançadas sobre aquela povoação do País Basco, entre pequenas bombas incendiárias e bombas de 250 quilos. A rede de canalização da água foi rapidamente destruída e assim o fogo não pôde ser combatido, alastrando-se e consumindo Guernica.
O diário de guerra conclui: “O tipo de construção das casas fez com que a destruição fosse total. Ainda se veem os buracos das bombas na rua. Simplesmente fantástico.”
O futuro ditador de Espanha, General Francisco Franco, o “Generalíssimo”, como era chamado, contava com o apoio da Alemanha e da Itália. A política nazi de Hermann Göring, era utilizar a Guerra Civil Espanhola como campo de testes para os pilotos e aviões da sua nova força aérea, a Luftwaffe.
O Bombardeio de Guernica, em 26 de abril de 1937, foi um ataque aéreo por aviões alemães da Legião Condor durante a Guerra Civil Espanhola no País Basco.Este ataque foi o primeiro bombardeio aéreo maciço contra uma população indefesa, na história europeia, serviu também para testar aviões de guerra e ganhar experiências no combate aéreo, apoiando as forças de Francisco Franco que invadiram o local poucos dias depois do bombardeio.
Com os seus aliados Hitler e Mussolini, a estratégia bélica da Falange tinha como alvo o povo basco no norte da Espanha, uma população com uma identidade cultural forte, com aspirações de autonomia e que lutava pela fração republicana.
Por fim, o dia 26 de abril é escolhido— e Guernica foi palco de ódio e de morte. Uma arma fatal e também moral que mudaria o destino do próprio País Basco, na segunda metade do século XX, ferindo o orgulho do povo basco e amedrontando-o com seu poder e ódio, ao aniquilar a sua cidade histórica.
A barbárie ocorrida em Guernica tem muitas faces. Para além da tragédia humana, urge compreender o contexto histórico e geopolítico da época, as suas causas e consequências. São dois os pontos fundamentais para entender a tragédia de Guernica: a Guerra Civil Espanhola e o avanço do nazismo e do fascismo na Europa.
Primeiramente, a Espanha estava em Guerra Civil desde 1936, conflito que dividia o país e que se arrastaria por mais alguns anos, exactamente até 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial. Foi nessa época que bascos e catalães foram alvo do autoritarismo do general Francisco Franco.
Era o período entre as duas grandes guerras na Europa e final da década de 1930. O continente estava numa ebulição de ideias e a torre de babel ideológica era complexa e cheia de novas visões de mundo. A Itália criou o fascismo com Benito Mussolini e a Alemanha viu nascer o nazismo de Adolf Hitler. Ao mesmo tempo, o mundo já conhecia o comunismo soviético e o capitalismo americano.
A Guerra Civil na Espanha é considerada por muitos especialistas como um ensaio para a Segunda Guerra Mundial. As questões económicas, ideológicas e culturais dentro do país ibérico traziam à tona outros conflitos sociais também existentes no ocidente.

O pintor espanhol Pablo Picasso captou este horror no seu quadro Guernica, realizado logo após o massacre. Com 349 cm de altura por 776,5 cm de comprimento, Guernica, uma das obras mais famosas de Pablo Picasso (1881–1973), pintada a óleo em 1937, é uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”. O quadro, além de ser um ícone da Guerra Civil Espanhola, é hoje um símbolo do antimilitarismo mundial e da luta pela liberdade do ser humano.
O crítico de arte Robert Rosenblum analisa a obra: “Ela equivale a uma imagem do fim do mundo, sobretudo do mundo moderno, como o conhecemos. Um clarão ofuscante de chamas, em seguida a sensação do caos definitivo. Mulheres e crianças gritando, um touro, um cavalo, uma visão de choque e trauma que representa todo o nosso pavor à beira do abismo. Assim é o quadro Guernica: da forma mais impressionante e poderosa, ele anuncia a mensagem da guerra, do potencial destrutivo do século 20”.
Steer um grande correspondente de guerras e outros conflitos pelo mundo os quais havia presenciado, deu uma contribuição muito elucidativa na reportagem que fez logo após o bombardeio, publicada no The Times e no The New York Times no dia 28 de abril de 1937, dois dias depois da tragédia.
Aconteceu que o pintor Pablo Picasso havia recebido uma encomenda do governo espanhol para criar uma obra para representar Espanha na Exposição Internacional de Paris.
Porém, depois de ver a repercussão dos bombardeios pelos relatos de Steer e as fotos da atrocidade, o artista decide mudar sua criação. Começa a pintar uma tela para representar a barbárie e a destruição da guerra ocorrida no seu país natal.
Guernica é um acto político e tem a arte como forma de mostrar ao mundo o que a humanidade é capaz de criar. Uma obra que retrata a violência, clama pela paz e se torna símbolo mundial contra a Guerra.
Um enorme mural em óleo sobre tela de tendência modernista com dimensões de 3,51 m por 7,82 m. Inicialmente a pintura seria em cor, mas Picasso mudou-a para preto e branco.
Conta-se que um oficial da SS lhe perguntou, apontando para a pintura “Foi o senhor que fez isso?”. Picasso respondeu: “Não, o senhor”.
Hoje, o mural está no Museu Rainha Sofia em Madrid, mas por décadas ficou no MOMA de Nova York, respeitando a vontade do seu criador de somente estar em solo espanhol quando a democracia e a república fossem restauradas no país.
Há muito significado nos símbolos e elementos como o touro, o cavalo, a mulher com a criança e outros elementos. Mas o próprio Picasso não gostava de explicar e evitava dar razões estéticas e conceituais sobre o quadro. Assim, também tinha consciência do poder de sua arte que, afinal, não era mais só dele, mas pertencia a toda a humanidade. Imortalizar, desta forma, na sua obra o legado duma grande tragédia ocorrida no século XX.


