“Entre protestos e alianças: a nova estratégia francesa em África”

Janete Cravino, Investigadora, Doutorada em Relações Internacionais, Segurança e Defesa pelo IEP da UCP; Marco Serronha, Tenente-general, vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, especialização militar em Africa.

“Não permitiremos ser explorados outra vez” William Ruto, Presidente do Quénia.

A cimeira de Nairobi, denominada “Africa Forward: Parcerias África-França para a Inovação e Crescimento”, tornou-se um dos principais acontecimentos diplomáticos entre África e França em 2026.
O encontro decorreu entre 11 e 12 de Maio e foi coorganizado por William Ruto (Presidente do Quénia) e Emmanuel Macron.

Em retrospectiva poderemos dizer que o périplo de Emmanuel Macron por África tem sido marcado por uma clara tentativa de redefinir a presença francesa no continente, num contexto de crescente contestação à influência francesa em várias ex-colónias africanas.
Politicamente, estas visitas procuram preservar a influência francesa num continente cada vez mais multipolarizado, onde os discursos soberanistas e anti-coloniais foram ganhando força, especialmente entre as camadas mais jovens da população.
Este périplo surge também numa altura em que outras potências como a China (através de investimentos em infraestruturas), Rússia (com cooperação militar e segurança), Turquia, India e Estados Unidos (presença económica relevante) disputam o espaço estratégico no continente.
De facto, a relação entre África e França, é uma das mais complexas da política internacional contemporânea, marcada por cooperação, dependência histórica, tensões diplomáticas e crescente contestação popular.

Durante décadas, Paris manteve forte influência sobre várias ex-colónias africanas, sobretudo na África Ocidental e Central, através de acordos militares, económicos e políticos. Esse sistema ficou conhecido como “Françafrique”, expressão usada para descrever a rede de influência francesa no continente.
Contudo, a receção nem sempre foi positiva. Em vários países africanos cresceram movimentos anti-franceses, sobretudo no Sahel, onde governos miliares como o do Mali,  o do Burkina Faso e o do Níger expulsaram tropas francesas tendo-se aproximado, consequentemente, da Rússia.

É neste contexto e numa clara tentativa de adaptação a esta nova realidade que a França procura reforçar o seu papel mediante a implementação de uma “nova parceria” com África, baseada em investimento, cultura, inovação e juventude, tentando afastar a imagem neo-colonial associada.
A cimeira de Nairobi, denominada “Africa Forward: Parcerias África-França para a Inovação e Crescimento”, tornou-se um dos principais acontecimentos diplomáticos entre África e França em 2026.
O encontro decorreu entre 11 e 12 de Maio e foi coorganizado por William Ruto (Presidente do Quénia) e Emmanuel Macron.

A cimeira reuniu mais de 30 chefes de Estado africanos, empresários, bancos de desenvolvimento e representantes da União Africana com vista a abordar questões relacionadas com a reforma do sistema financeiro internacional; a industrialização verde; a energia e acesso à electricidade; a inteligência artificial e transformação digital; a economia azul e o comércio continental africano.
O encontro possuiu uma forte dimensão geopolítica com a França a procurar reconstruir a sua influência em África após sucessivas rupturas diplomáticas no Sahel. Na verdade, Macron tenta apresentar uma nova abordagem, menos ligada ao passado colonial francês e mais focada em investimento, inovação e cooperação económica.

O discurso de Emmanuel Macron na Cimeira “Africa Forward”, em Nairobi, centrou-se na tentativa de redefinir as relações entre França e África, num momento em que Paris enfrenta perda de influência em várias regiões africanas.
Entre os principais pontos do discurso destacaram-se; a defesa de uma “nova parceria” entre África e França, baseada em respeito mútuo e não numa lógica pós-colonial; o reforço do investimento francês em energia, tecnologia, inteligência artificial e infra-estruturas; a necessidade de reformar o sistema financeiro internacional para facilitar crédito aos países africanos; o apoio à industrialização africana e à juventude empreendedora e a cooperação em segurança e estabilidade regional.
Macron também reconheceu implicitamente que a relação histórica entre França e África atravessa uma fase difícil, sobretudo após a expulsão das tropas francesas de países do Sahel como o Mali, Níger e o Burkina Faso, facto referido anteriormente.
A posição africana foi marcada por vários discursos se bem que ganharam particular destaque o de William Ruto e o da União Africana.

O discurso da União Africana na Cimeira de Nairobi foi marcado por um tom de afirmação política e defesa de maior autonomia nas decisões globais. Os representantes africanos defenderam que África já não pretende ser vista apenas como fornecedora de matérias-primas ou como um espaço de influência externa, mas como um parceiro estratégico global com voz própria.
Entre os principais pontos destacados estiveram; a exigência de reformas no sistema financeiro internacional; maior acesso africano ao crédito e investimento; industrialização do continente; questões relacionadas com a soberania económica africana; combate às desigualdades globais e uma maior representação africana nas instituições internacionais.

Já a União Africana defendeu ainda relações internacionais “mais equilibradas”, numa referência indirecta às antigas potências coloniais e à disputa de influência entre actores externos como a China, a Rússia e os Estados Unidos.
Politicamente, o discurso procurou transmitir a ideia de uma África mais confiante, multipolar e menos dependente das grandes potências tradicionais, reforçando a narrativa de “soluções africanas para problemas africanos”.
O discurso do anfitrião da Cimeira de Nairobi, William Ruto revelou-se como claramente favorável a uma nova relação entre África e os parceiros internacionais, especialmente a França, se bem que baseada em igualdade, soberania e investimento — e não em dependência.
Em vários momentos do encontro Ruto defenderia que “o tempo de África havia chegado”; que o continente deveria ser tratado como parceiro estratégico e não como receptor de ajuda, tendo mesmo criticado o actual sistema económico global, afirmando que África paga custos de financiamento muito mais elevados, devido à percepção de risco criada pelas agências internacionais de notação financeira.

Politicamente, a posição de Ruto foi vista como sendo pragmática, no sentido de promover uma aproximação à França e ao Ocidente, sem abandonar o discurso pan-africano de autonomia económica e soberania política. Tendo ainda tentado posicionar-se como uma das vozes africanas mais firmes na defesa da industrialização africana; da valorização dos recursos do continente; da reforma financeira global e de uma África mais independente no cenário internacional.
O discurso foi interpretado como um aviso tanto às antigas potências coloniais, como França, quanto às novas potências que disputam influência em África, incluindo China, Rússia e outras economias globais.
Quanto às Nações Unidas, o discurso de António Guterres em Nairobi centrou-se sobretudo na defesa de uma reforma das instituições internacionais e no reforço do papel de África na governação mundial.
Durante a sua intervenção, Guterres afirmou que a actual estrutura internacional já não reflecte o equilíbrio global contemporâneo, defendendo maior representação africana no sistema das Nações Unidas, especialmente no Conselho de Segurança da ONU. O secretário-geral classificaria como “injustiça histórica” a ausência de assentos permanentes africanos naquele órgão reforçando esta ideia com uma das frases mais marcantes do seu discurso, “isto é 2026, não 1946.”

Com esta declaração, Guterres criticou o facto de a arquitectura internacional continuar fortemente baseada na ordem criada após a Segunda Guerra Mundial, destacando ainda; a necessidade de reformar o sistema financeiro internacional; o peso da dívida africana; as desigualdades no acesso ao financiamento; e os impactos das alterações climáticas sobre o continente africano.
Guterres elogiou ainda o papel crescente da União Africana na diplomacia global, considerando-a um exemplo de multilateralismo num mundo marcado por divisões geopolíticas.
O discurso de António Guterres foi interpretado como um forte apoio às reivindicações africanas por uma maior influência internacional, numa altura em que o continente procura afirmar-se como actor central nas questões económicas, energéticas e estratégicas globais.

Da Cimeira surgiria posteriormente a chamada “Carta de Nairobi”, documento este que se concentraria sobretudo na necessidade de uma nova parceria económica e estratégica entre África e França, baseada em investimento, inovação e reforma financeira internacional.
Da Carta poderemos retirar as seguintes conclusões: no plano da reforma do sistema financeiro internacional os líderes africanos defenderam mudanças na forma como o risco africano é avaliado pelos mercados internacionais.
A declaração insiste também numa relação África-França menos marcada pelo passado colonial e mais baseada em cooperação económica, respeito mútuo e interesses comuns.
A declaração apoia ainda uma transição energética adaptada à realidade africana, defendendo um financiamento climático mais justo e o acesso à energia para desenvolvimento económico.

O documento reafirma por fim o apoio à paz, cooperação regional e fortalecimento das instituições africanas perante conflitos e a instabilidade geopolítica.
Entre os principais compromissos anunciados destacam-se; a mobilização de milhares de milhões de euros para infra-estruturas e energia (cerca de 23 mil milhões de euros); o apoio ao comércio intra-africano e à Zona de Comércio Livre Continental Africana; um maior financiamento climático para países africanos; o reforço da cooperação universitária e tecnológica; e a promoção de parcerias “entre iguais”. (africaforwardsummit.go.ke).

Politicamente, a declaração também sublinha: a necessidade de reformar instituições globais; uma maior representação africana no Conselho de Segurança da ONU; o combate à dívida excessiva africana e a defesa da soberania dos Estados africano (un.org).
A cimeira de Nairobi tem um forte valor político, estratégico e simbólico para Emmanuel Macron, mesmo num momento em que a influência francesa diminuiu na África Ocidental e o seu mandato entra na fase final. Com ela procura deixar a imagem de um presidente que tentou redefinir as relações França-África e evitar que o seu legado africano fique associado apenas às derrotas diplomáticas no Sahel.
Do lado africano, líderes como William Ruto usam o encontro para; pressionar por reformas financeiras; atrair investimento; negociar em melhores condições e afirmar uma África mais autónoma.

No fundo, a cimeira mostra duas realidades ao mesmo tempo, uma França que tenta adaptar-se à perda de influência e uma África mais confiante, consciente do seu peso estratégico e menos disposta a aceitar relações desequilibradas.
Desta forma a “Carta de Nairobi” procurou transmitir a ideia de uma África mais autónoma, menos dependente da ajuda tradicional e mais focada em investimento, inovação e influência global. Revelando ao mesmo tempo uma tentativa por parte da França em redefinir a sua relação com o continente africano num momento em que enfrenta perda de influência em várias antigas colónias

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