Fólio26. Jon Fosse e grandes nomes da literatura mundial reforçam estratégia de Óbidos para a Literatura e Cultura

Estado com Arte Magazine

Este ano, o Fólio traz a Óbidos o Nobel da Literatura 2023 Jon Fosse, nobel literatura 2023 e alguns dos maiores nomes literários e do pensamento contemporâneo, dando o arranque à criação do Conselho Estratégico de Literatura e Conhecimento, um órgão consultivo que deverá afirmar-se como uma plataforma de pensamento estratégico, um laboratório de ideias, capaz de consolidar a literatura como política pública, mas também posicionar Óbidos como “um território de referência, nas dimensões Cultura, Leitura, Conhecimento, Democracia e Desenvolvimento.”

O Teatro da Trindade INATEL, em Lisboa, acolheu esta segunda-feira, 13 de julho, a apresentação pública da 11.ª edição do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que decorre de 8 a 18 de outubro, sob o tema “Para Além da Pele”.

“Hoje multiplicam-se os festivais literários um pouco por todo o lado. Congratulamo-nos com isso, mas importa sublinhar que o FÓLIO não é apenas mais uma tendência. O FÓLIO é uma política pública consolidada e planeada”, começou por afirmar, na ocasião, Ricardo Duque, vereador com o pelouro da Cultura no Município.

Este novo Conselho – que tem entre os seus conselheiros fundadores Pilar del Río, José Luís Peixoto, Mia Couto, Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Tatiana Salem Levy, José Eduardo Agualusa, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares e ainda Pedro Freitas – terá como missão “fixar as bases científicas, metodológicas e estratégicas do ecossistema literário de Óbidos”, contribuindo para posicionar o concelho como um território produtor de pensamento e de políticas públicas no domínio da literatura e do conhecimento.

“O nosso objetivo é afirmar Óbidos como uma referência europeia e lusófona nas políticas públicas da literatura, da leitura e do conhecimento, reforçando as ligações entre literatura, educação, ciência, tecnologia, inovação, cidadania e desenvolvimento económico”, sustentou, acrescentando que este novo passo “dá suporte institucional ao compromisso assumido com a candidatura de Óbidos a Capital Portuguesa da Cultura 2028”.

Durante a sua intervenção, o vereador dirigiu ainda uma palavra de reconhecimento a Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago, destacando “a ligação inestimável que une o Município de Óbidos a esta instituição, uma parceria que enriquece a matriz cultural do concelho e o liga de forma duradoura às grandes individualidades da língua portuguesa”.

Para Pilar del Río, “Óbidos é cultura universal”. “Vamos tentar que Óbidos seja Capital Portuguesa da Cultura, que já é”, mas Óbidos podia ser “Capital Ibérica da Cultura. Porque não?”, questionou. “Que a denominação que estamos a tentar obter, e que vamos conseguir, sirva de manifesto. [Porque] o que representa as sociedades e os países são as suas culturas, as suas formas de estar, de querer, de se emocionar, de ler poesia. Não são as guerras, as conquistas, são os encontros. E Óbidos é uma ‘cidade’ de encontros. Por isso uma ‘cidade’ de cultura. E por isso assim devia ser denominada. Sempre”, defende.

Nomes confirmados

Entre os autores já confirmados encontram-se Jon Fosse, vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2023 e um dos mais importantes e celebrados autores da atualidade. Escritor e dramaturgo prolífero, estreou-se no romance em 1983 com “Vermelho e Preto”, tendo recebido vários prémios ao longo da sua carreira. A sua extensa obra, traduzida em mais de 50 línguas, inclui romance, teatro, poesia, livros para crianças e ensaio.

A obra de Fosse, traduzida para mais de 50 línguas e adaptada para mais de 1000 peças de teatro em todo o mundo, o “indizível” manifesta-se nas muitas formas de explorar as questões do ser, da consciência e da prática artística: os seus protagonistas na primeira pessoa estão sempre a tentar dizer algo e a sua escrita procura o eterno. O escritor entre o minimalista e a prosa lenta.

Ao escritor Jon Fosse vão juntar-se nomes de diferentes continentes, como Leïla Slimani, Ana Maria Gonçalves, Kiran Desai, Yann Martel, Aixa de la Cruz, Catherine Millet, Vera Laconelli, Valter Hugo Mãe, Ricardo Araújo Pereira, Marco Neves, entre muitos outros escritores, ensaístas, pensadores e criadores nacionais e internacionais, anunciou Pedro Sousa, curador do FÓLIO Autores.

O conhecimento, as pessoas e a cultura no centro da estratégia

Para o presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Filipe Daniel, o FÓLIO representa “a convicção de que um território de pequena dimensão pode e deve liderar grandes transformações quando coloca o conhecimento, as pessoas e a cultura no centro das suas escolhas”, lembrando que este evento constitui hoje uma das expressões mais sólidas da estratégia desenvolvida desde a integração de Óbidos na Rede de Cidades Criativas da Literatura da UNESCO.

Para o autarca, em Óbidos, “a cultura não é uma consequência do desenvolvimento”, mas antes “a causa direta da nossa prosperidade”, reafirmando o compromisso do Município com um modelo de desenvolvimento assente na criatividade, no conhecimento e na valorização da cultura enquanto política pública.

Durante a sua intervenção, Joana Pinho, presidente do Conselho de Administração da Ler Devagar, defendeu que “a literatura continua a ser uma ferramenta fundamental para compreender e transformar o mundo”, sublinhando que o festival é sem dúvida um espaço de encontro entre diferentes linguagens, geografias e formas de conhecimento. “A literatura não serve apenas para contar histórias. Serve para ampliar o campo do possível, para imaginar outras formas de viver em comum, para criar empatia, para ampliar o nosso sentido de responsabilidade, e para nos lembrar que nenhuma comunidade se constrói sem escuta, sem diversidade e sem imaginação”.

FÓLIO BD volta a surpreender

O capítulo FÓLIO BD, sob a denominação Flexágono, tem-se afirmado como um espaço mutável de descoberta e reflexão sobre a criação contemporânea em banda desenhada – sobretudo – mas incluindo também outras narrativas gráficas – como por exemplo, o cinema de animação, a ilustração narrativa, objetos experimentais por, principalmente, autores portugueses ou de expressão portuguesa, explicou o seu curador, Pedro Moura.

“Se começámos como uma mostra relativamente simples de oito artistas de banda desenhada por edição, sempre diferentes e irrepetíveis, os últimos anos tiveram algumas transformações, que se sentirão também este ano. Em primeiro lugar, por proposta da autarquia, introduzimos uma pequena mostra de filmes curtos de animação, focando não tanto uma seleção de autores, mas uma concentração em produtoras nacionais, como a Co.La e a Animanostra, tendo este ano lugar um foco na produtora Sardinha em Lata, com um conjunto de filmes curtos e seus materiais e produção. Uma vez que a Câmara de Óbidos tem um programa de formação em cinema de animação na sua própria rede escolar, o Óbidos Anima, incluímos também uma mostra alargada dos resultados desse projeto espectacular”, explicou.

A programação do FÓLIO BD – Flexágono será liderada pela exposição “Retaliation First”, de Christopher Sperandio (Pinko Joe), que dará também origem ao lançamento de um livro durante o festival. A iniciativa integra ainda exposições de Diniz Conefrey e Patrícia Shim, uma mesa-redonda com os vencedores dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada e reforça a internacionalização da marca FÓLIO através da itinerância da exposição Flexágono, desenvolvida em parceria com o Instituto Camões.

FÓLIO EDUCA com iniciativas para todas as idades

Este ano, a curadoria FÓLIO Educa traz 75 oficinas para as escolas, dos primeiros anos de idade ao secundário, mas também aos lares, “numa lógica de educação permanente e ao longo da vida”, explicou, na ocasião, o curador João Couvaneiro. “A criatividade não é um privilégio, mas um direito humano. A escola, como a mais democratizada das instituições públicas, tem de ser epicentro da vida de toda a comunidade, e não plateia”.

Nas escolas estarão escritores, ilustradores, músicos, ceramistas, cenógrafos, “que irão percorrer com os alunos e séniores os bastidores do ato criativo: Como nasce uma história? Como se inventa uma personagem? Como um desenho ganha vida? Como uma palavra ganha forma? Como uma ideia se transforma numa obra? Ninguém aprende literatura apenas lendo. Aprende também (ou sobretudo) escrevendo”, revelou.

Além destas iniciativas, o FÓLIO Educa organiza o Seminário Internacional de Educação, subordinado ao tema “A Inclusão como Projeto de Humanidade”, para além de tertúlias com autores e professores, o V Encontro Nacional de Grupos de Leitores, um Silent Reading Party, uma biblioteca viva, e ainda a criação de bosques literários vivos, junto das escolas.

Tecnologia, IA, literatura e humanidades

O FÓLIO TEC, linha de programação do FOLIO 2026 dedicada à intersecção entre tecnologia, inteligência artificial, literatura e humanidades, ganha este ano identidade e programa próprios, dentro do festival.

“O tema ‘Para além da pele’ pede uma leitura crítica do corpo, do trabalho, do cuidado e da memória. A inteligência artificial atravessa hoje essas quatro dimensões. Não a tratamos como decoração do tema do festival. Tratamo-la como o argumento que o tema torna urgente”, explicou Nuno Gaio, diretor executivo do Parque Tecnológico de Óbidos, que assume esta curadoria.

O programa organiza-se em oito mesas e quatro eixos: o primeiro trata do humano, do trabalho e das organizações. Traz três mesas: o burnout como diagnóstico coletivo, a felicidade no trabalho entre a ciência e a moda de gestão, e o cuidado como forma de liderança.

O segundo eixo trabalha o corpo, a ciência e a tecnologia. Traz ao FÓLIO uma mesa sobre saúde preventiva, do sensor à máquina, domínio que encontra trabalho desenvolvido no Parque Tecnológico de Óbidos.

O terceiro eixo é sobre IA, decisão e futuro. Duas mesas: a primeira, IA na gestão, decisão e inovação. A segunda será sobre o futuro do trabalho e as novas subjetividades. O quarto eixo, a mente pensante, cruza IA, criação e conhecimento. Mesas: a IA e a criação literária. Máquinas que escrevem, prémios, e a questão dos direitos de autor. E os limites do que a máquina pode saber e decidir, com os mercados financeiros como caso de estudo.

FÓLIO Ilustra com mais de uma centena de artistas

O FÓLIO Ilustra regressa uma vez mais pela mão de Mafalda Milhões, o “rosto” de cerca de 175 criadores envolvidos. Este ano, e sob o tema “A pele” – que remete para a galeria Nova Ogiva, o espaço “que nos dá casa e assento” – o trabalho curatorial propõe “pensar a relação que constitui o corpo, uma construção simbólica e cultural”. “O imaginário não está separado da pele. Ele emerge atravessa as suas camadas e transforma a nossa maneira de existir no mundo e por isso PIM – Para Imaginar o Mundo”, descreveu.

“Propomos pensar a pele, ler a pele, a pele que revela, a pele que protege, a pele expressão, a pele identidade, relação, imaginário, território, a pele escrita, a pele suporte, ou a pele máquina. Este é o momento de chamar sangue novo, e por isso estará connosco Flávia Bonfim, co-criadora, co-curadora, e é também a ilustradora residente. Esta edição será a edição com mais países representados: França, Espanha, México, a Colômbia, Brasil, Irão, Rússia, Ucrânia, Inglaterra, EUA, Inglaterra, Índia, entre outros. A pele, o território, o chão comum. Vamos trazer a ilustração a habitar outros suportes, outros lugares. A criação de diálogos entre imagem, materialidade e leitura no espaço na Casa da Ilustração que é a Galeria Nova Ogiva”, explicou Mafalda Milhões.

E este ano, “celebramos em festa os 30 anos do Prémio Nacional de Ilustração”, cujo prémio será entregue antes da inauguração da exposição PIM! – Mostra Internacional de Ilustração para Imaginar o Mundo, um manifesto pela paz e liberdade que reúne trabalhos de inúmeros ilustradores, e que conta, entre os seus parceiros, com a DGLAB – Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a Vista Alegre e a Viarco.

“Na galeria Nova Ogiva, vamos imaginar o mundo com instalações, visitas orientadas para grupos, conversas, apresentações de livros, lançamentos, oficinas, encontros, aulas, contos e reflexões.

Estarão presentes, entre outros nomes, Melissa Castrillon (colombo-britânica), Flávia Bonfim (Brasil), ONDJAKI (Luso-angolano), Pierre Pratt (luso-canadiano), Adélia Carvalho (Portugal), Marcos Guardiola (Espanha), André da Loba (Portugal), João Vilhena (Portugal), Jorge Silva (Portugal), Rachel Caiano (Portugal), Paula Carballeira (Galiza) e Piet Grobler”.

O FÓLIO é organizado pelo Município de Óbidos, em parceria com a empresa municipal Óbidos Criativa, a Ler Devagar e a Fundação Inatel, desde 2015. A edição de 2025 recebeu mais de 100 mil visitantes, consolidando o evento como um pilar estratégico da política cultural de Óbidos e como motor de desenvolvimento económico e visibilidade internacional da vila, reconhecida como Cidade Criativa da Literatura pela UNESCO. Conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República.

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