Rui Gonçalvez

UMA “PRAÇA” COM FUTURO

Rui Gonçalves, Arquitecto

Depois de termos perdido o termalismo como marca identitária e de assistirmos ao embuste que foi o concurso para o tal hotel de 5 estrelas nos pavilhões do parque, só nos faltava agora, por falta de visão e de vontade política, deixarmos morrer a Praça.

Quando volta à ordem do dia em Caldas da Rainha o tema “Praça da Fruta”, urge encontrar um conceito global de “Praça”, que tenha em consideração a sua história, o marco identitário que ela representa para a cidade e aquilo que se pretende para o futuro desta “Praça”, que não pode ser só… “da Fruta”, mas sim a Praça da República, conceptualmente mais abrangente do que o atual modelo.

Quando apenas dez anos depois da última intervenção integrada num processo dito de “regeneração urbana”, que naquele caso em concreto não regenerou nada, se volta a discutir as condições de funcionamento, fica à evidência o erro que ali foi cometido, com uma simples obra de cosmética, como a mudança do “tabuleiro”, era evidente que nada se iria resolver e houve quem alertasse para isso, mas em vão. Assistimos a uma clara falta de visão, ausência de estratégia e pensamento muito estreito.

Em causa estão duas visões possíveis, ou continuar a pensar pequeno, sem  estratégia, a fazer uma obra só porque sim, como é a simples questão da cobertura ou não cobertura, sendo este um pensamento redutor, de continuidade e sem futuro, porque continua a não resolver os vários problemas que afetam e estrangulam aquele espaço emblemático da cidade, ou por outro lado, perceber quais são as diversas questões que estão em causa a “matar” a “Praça” à vista de todos e essas questões relacionam-se com o trânsito que a circunda, com o estacionamento desordenado que a limita em todos os aspetos e obviamente com as condições que os vendedores não têm para vender, nem os compradores têm para comprar. E estas questões têm solução para quem pretender encarar o problema e se houver quem o queira encarar com verdade, arrojo, coragem política, visão e com pensamento estratégico para salvaguarda do futuro daquela Praça.

Em Novembro de 2013, muito antes da tal operação de cosmética dita de “regeneração urbana”, o CDS/PP estudou o problema e apresentámos na altura propostas concretas, que propunham a passagem do trânsito por via subterrânea, desde a Rua General Queiróz até à Rua Diário de Notícias, com um piso subterrâneo de estacionamento com 115 lugares, um piso de arrumações frigoríficas para guarda de produtos dos vendedores, dois elevadores e um monta cargas e a apresentação de uma banca articulada de fácil abertura e montagem, sendo o espaço à superfície destinado ao uso pedonal na totalidade, com esplanadas e quiosques na área circundante, onde hoje é o arruamento de trânsito e o espaço central mantido como o tal ex-libris da cidade, a “Praça da Fruta”, com acesso a viaturas de emergência e a cargas e descargas, findo o horário de funcionamento daria lugar a área de lazer e eventos.

É tempo de revisitar essa proposta, porque é de todo anormal que a travessia da cidade por automóvel continue a fazer-se exatamente pela mesma via que há 60 anos era utilizada por burros e carroças e porque não é normal que ao contrário de todas as cidades nada tenha mudado na área central e principal da cidade.

Depois de termos perdido o termalismo como marca identitária e de assistirmos ao embuste que foi o concurso para o tal hotel de 5 estrelas nos pavilhões do parque, só nos faltava agora, por falta de visão e de vontade política, deixarmos morrer a Praça. Fazer uma cobertura seja ela qual for, faz outra “praça”, mas jamais será esta “Praça”, além de não evitar o seu fim, daqui a mais ou menos tempo. Custa dinheiro, pois custa, muito mais dinheiro custa a perda da Praça.

Seja Apoiante

O Estado com Arte Magazine é uma publicação on-line que vive do apoio dos seus leitores. Se gostou deste artigo dê o seu donativo aqui:

PT50 0035 0183 0005 6967 3007 2

Partilhar

Talvez goste de..

Apoie o Jornalismo Independente

Pelo rigor e verdade Jornalistica