“PALÁCIO DAS RAINHAS” REVELA O PODER DAS GOVERNADORAS DE SINTRA DURANTE SÉCULOS

Estado com Arte Magazine

O novo projeto museográfico do Palácio Nacional de Sintra recupera uma dimensão pouco conhecida da história portuguesa: durante séculos, as rainhas foram senhoras de Sintra, administraram o território, receberam rendimentos, celebraram contratos e exerceram justiça. A renovação museográfica dá continuidade à transformação do modelo de visita iniciada pela Parques de Sintra no Palácio Nacional da Pena.

Durante séculos, Sintra foi terra de rainhas. Não apenas porque aqui viveram algumas das mulheres mais importantes da história de Portugal, mas porque a vila, o seu território e o Paço estiveram efetivamente sob a sua administração. D. Isabel de Aragão, D. Filipa de Lencastre, D. Catarina de Áustria, D. Luísa de Gusmão, D. Maria I e D. Maria Pia constituem os principais fios condutores de uma narrativa que atravessa diferentes períodos da monarquia portuguesa e revela distintas formas de exercer influência, poder e representação.

Esta dimensão de poder, autonomia e intervenção política permaneceu, porém, muito menos visível do que a presença dos reis na narrativa histórica do monumento.

“Durante demasiado tempo, olhámos para a história dos palácios sobretudo através dos reis. Mas Sintra conta-nos uma história muito mais complexa. Durante séculos, as rainhas tiveram aqui poder efetivo, administraram um território, geriram património e rendimentos e exerceram justiça. O ‘Palácio das Rainhas’ não procura acrescentar uma história paralela à História, procura tornar visível uma parte da História que sempre esteve aqui”, afirma João Sousa Rego, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra.

Esta é  a história que o “Palácio das Rainhas”, novo projeto museográfico do Palácio Nacional de Sintra, revela agora aos visitantes.

Resultado de um amplo trabalho de investigação desenvolvido pela Parques de Sintra, o projeto recupera o papel desempenhado pelas rainhas na administração de Sintra e aproxima o público das suas vidas, dos seus espaços privados e do quotidiano de uma corte que habitou o Palácio durante séculos.

Sintra, terra das Rainhas

A partir do século XIII, Sintra passou a integrar o conjunto de bens e territórios entregues pelos reis de Portugal às suas consortes, permitindo-lhes obter rendimentos próprios e manter as estruturas necessárias ao funcionamento da sua Casa.

Era a chamada Casa das Rainhas. As rainhas eram senhoras do território e o Paço de Sintra assumia uma posição central na sua administração. Aqui recebiam os seus oficiais, beneficiavam das rendas e tributos do território, confirmavam contratos através dos tabeliães da sua Casa e exerciam justiça, dispondo de uma margem de autonomia significativa face ao rei.

Esta realidade contraria a imagem, durante muito tempo dominante, da rainha enquanto figura essencialmente cerimonial ou limitada à esfera familiar da corte.

O novo projeto museográfico transforma esta investigação histórica numa experiência acessível ao público, mostrando simultaneamente o exercício do poder e a dimensão privada da vida destas mulheres.

Das Rainhas que governavam às mulheres que habitavam o Palácio

Entre o período medieval e o século XVIII, a rainha, as damas e outras mulheres da sua Casa ocupavam alguns dos espaços mais protegidos e reservados do Paço.

Os aposentos eram simultaneamente lugares de intimidade, convívio e aprendizagem. Jovens nobres aprendiam neste contexto a administrar propriedades, apoiar instituições religiosas e servir os interesses da Coroa. Lia-se, rezava-se, bordava-se, preparavam-se enxovais e transmitiam-se conhecimentos, comportamentos e códigos essenciais à vida da corte.

“A nova museografia não procura recriar artificialmente ambientes para os quais não existe informação histórica suficiente. Parte antes das fontes documentais e iconográficas existentes e recorre a objetos, conteúdos audiovisuais e outros recursos interpretativos para aproximar os visitantes das pessoas e das práticas que marcaram estes espaços.”, da conta o Palácio Nacional de Sintra.

O projeto conta também com reconstituições históricas de trajes cedidos pelo Museu Nacional do Traje.

Na Botica da Rainha, que estará brevemente disponível ao público, o visitante poderá entrar no universo da saúde e da medicina da corte no século XVI. Cânfora, âmbar, almíscar ou benjoim, provenientes de diferentes partes do mundo, encontravam-se entre os ingredientes utilizados pelos boticários e pelas damas do paço para preparar conservas, unguentos e outros preparados terapêuticos, num tempo em que conhecimento médico, religião, superstição e crença em amuletos conviviam lado a lado.

D. Maria Pia e os últimos anos da monarquia

O projeto estende esta narrativa até aos derradeiros tempos da monarquia portuguesa através da Residência da Rainha D. Maria Pia, a última rainha a habitar o Palácio Nacional de Sintra.

Depois de um período de encerramento para trabalhos de conservação e remusealização, estes espaços regressam ao circuito de visita com novos conteúdos interpretativos, permitindo conhecer a dimensão mais privada de D. Maria Pia e compreender o seu lugar nos anos particularmente conturbados que antecederam o fim da monarquia, em 1910.

Deste modo, o “Palácio das Rainhas” estabelece uma ponte entre duas realidades separadas por vários séculos: das rainhas que administraram Sintra enquanto senhoras da Casa das Rainhas às últimas mulheres da família real que fizeram do Palácio uma residência.

Depois da Pena, uma nova forma de contar os monumentos de Sintra

A transformação do Palácio Nacional de Sintra integra uma estratégia mais ampla da Parques de Sintra para qualificar a experiência de visita aos monumentos sob sua gestão.

“Na Pena demos um passo importante ao deixar de oferecer apenas uma única experiência. Partimos da investigação e da autenticidade do monumento para criar diferentes formas de o conhecer e compreender. O ‘Palácio das Rainhas’ aprofunda esse caminho. Queremos que cada monumento revele aquilo que o torna verdadeiramente singular e que cada visitante possa escolher até onde quer aprofundar essa descoberta”, sublinha João Sousa Rego.

O projeto dá continuidade ao novo modelo implementado este ano no Palácio Nacional da Pena, onde a investigação histórica, o restauro e a revisão museográfica dos Aposentos Privados no antigo mosteiro permitiram recuperar a autenticidade dos espaços e criar diferentes experiências de visita, adaptadas ao interesse, ao tempo disponível e ao nível de aprofundamento procurado por cada visitante.

No Palácio Nacional de Sintra, essa abordagem ganha uma nova expressão: partir da investigação para revelar histórias menos conhecidas, recuperar espaços e conteúdos, diversificar as formas de acesso ao monumento e transformar a visita numa experiência de compreensão e descoberta.

Esta orientação integra o atual ciclo de desenvolvimento da Parques de Sintra, que aposta na conservação e valorização do património, na investigação, na qualificação dos equipamentos e conteúdos de visita e numa oferta cultural e turística diferenciadora e sustentável.

O objetivo é ultrapassar progressivamente uma lógica de visita centrada apenas na contemplação dos espaços, criando condições para que os visitantes compreendam quem os construiu, quem os habitou, o que ali aconteceu e de que forma esses lugares se relacionam com a história de Portugal.

Um Palácio com novas histórias para descobrir

A renovação museográfica estende-se a outros pontos do percurso do Palácio Nacional de Sintra.

A Sala do Tesouro passa, pela primeira vez, a integrar o percurso expositivo, permitindo compreender a figura do almoxarife e as importantes funções administrativas que desempenhava.

Na Sala das Pegas, antigo espaço de audiências régias, encontra-se agora uma réplica da denominada Cadeira de Estado de D. Afonso V, cujo original, datado do século XVI, pertence às coleções do Museu Nacional de Arte Antiga.

Na Câmara do Ouro, muito utilizada por D. Sebastião, um pequeno filme protagonizado pelo ator Vicente Gil aproxima os visitantes da figura de “O Desejado”.

Também a Cozinha ganha uma nova dimensão sensorial. Aromas de especiarias, frutos e vegetais e a evocação do pão acabado de preparar ajudam a interpretar um espaço onde a escala arquitetónica das célebres chaminés encontra agora a dimensão humana das pessoas que ali trabalharam.

A renovação faz parte de um projeto global de interpretação do Palácio Nacional de Sintra que procura revelar as diferentes camadas históricas, personagens e vivências acumuladas ao longo de cerca de mil anos de existência.

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