Chamávamos-lhes férias grandes. E eram mesmo grandes.
Pelo menos na minha memória de criança, o verão parecia não acabar. Três meses eram uma espécie de eternidade onde cabiam dias de praia, tardes sem planos, joelhos esfolados, noites que começavam mais tarde e manhãs em que ninguém parecia ter pressa.
É curioso como o tempo tinha outro tamanho quando éramos pequenos.
Ainda assim, férias não significavam exatamente ausência de escola. Lembro-me de trazer para casa trabalhos suficientes para me lembrar, de vez em quando, de que setembro acabaria por chegar. Havia Língua Portuguesa, Matemática, exercícios e páginas que tinham de aparecer feitas no regresso às aulas. E havia sempre aquele momento dramático, algures perto do fim de agosto, em que percebíamos que tínhamos passado demasiado tempo a acreditar que ainda faltava muito.
Hoje estou do outro lado.
Já não sou a criança que regressa à escola. Sou a mãe que fica à porta.
E talvez tenha sido aí que percebi que o início de um ano letivo não começa apenas para quem entra. Começa também para quem fica cá fora.
Nos últimos anos tive a possibilidade de acompanhar muito de perto o crescimento do meu filho mais novo. Trabalhei, escrevi, fiz a minha vida, mas estive muito presente. Talvez mais presente do que alguma vez imaginei que estaria. Houve uma pandemia pelo meio, houve uma mudança profunda na forma como muitas famílias passaram a viver a infância dos filhos e houve, pelo menos em algumas casas, mais tempo partilhado entre pais e crianças.
Esse tempo foi um privilégio. Mas os privilégios também têm consequências.
Quando chegou a altura de o deixar na escola, descobri que a separação não era difícil apenas para ele.
Era para mim também.
Talvez tenhamos passado tantos anos preocupados em ensinar as crianças a desapegarem-se dos pais que nos esquecemos de contar aos pais que também eles teriam de aprender a desapegar-se dos filhos.
E é estranho assistir a tudo isto enquanto o mundo muda a uma velocidade que a minha geração ainda está a tentar acompanhar.
Os nossos filhos têm hoje acesso a um universo que, na minha infância, seria praticamente ficção científica. Têm informação em segundos. Têm tecnologia dentro de uma mochila. Têm livros, vídeos, aplicações, plataformas, explicações para quase tudo. Têm inteligência artificial capaz de responder em poucos segundos a perguntas que, no meu tempo, nos obrigariam a procurar uma enciclopédia na estante.
O conhecimento nunca esteve tão perto.
Mas será que saber mais significa, necessariamente, estar mais preparado para viver?
É esta a pergunta que me inquieta.
Não tenho saudades de tudo o que existia antigamente. Há uma tendência perigosa para romantizarmos a nossa infância apenas porque sobrevivemos a ela. Nem tudo era melhor. Muitas crianças sofriam em silêncio. Falava-se pouco sobre emoções, ansiedade, diferenças, dificuldades de aprendizagem ou saúde mental. Havia coisas que simplesmente não tinham nome e, quando não damos nome às coisas, elas não desaparecem. Apenas aprendemos a sofrer com elas em silêncio.
Hoje falamos mais.
Ainda bem.
As crianças são ouvidas de outra maneira. Conhecemos melhor as suas necessidades. Procuramos compreender antes de castigar. Questionamos métodos que durante décadas foram considerados normais. Temos mais informação e, em muitos aspetos, somos pais mais atentos.
Mas também somos pais mais assustados.
Queremos protegê-los de tudo. Da tristeza, da frustração, do tédio, da espera, do fracasso, da rejeição. Corremos à frente deles a tentar retirar pedras do caminho e talvez, por vezes, nos esqueçamos de que crescer também é aprender a tropeçar sem acreditar que o mundo acabou.
E depois há uma coisa que quase desapareceu da infância: o tédio.
Nós aborrecíamo-nos. Muito.
Havia tardes em que não havia rigorosamente nada para fazer. Ficávamos no quarto, rodeados das mesmas coisas de sempre, e ninguém aparecia de cinco em cinco minutos para nos perguntar se queríamos ver um filme, jogar qualquer coisa ou pegar num ecrã.
Tínhamos de inventar.
Pegávamos num papel e desenhávamos. Fazíamos construções. Inventávamos histórias. Falávamos sozinhos. Olhávamos pela janela. Revirávamos uma gaveta que já conhecíamos de cor. Às vezes não fazíamos absolutamente nada.
E, sem sabermos, estávamos a aprender uma coisa extraordinariamente importante: a estar connosco.
Hoje vejo uma criança entrar num quarto cheio de brinquedos e, poucos minutos depois, dizer: “Não tenho nada para fazer.”
E isto faz-me pensar.
Talvez, na tentativa de lhes proporcionarmos uma infância mais preenchida, tenhamos começado a preencher todos os espaços. Quando aparece o silêncio, damos-lhes estímulo. Quando aparece o tédio, damos-lhes entretenimento. Quando aparece uma espera, aparece um ecrã.
Só que uma criança também precisa de se aborrecer.
Precisa daquele momento desconfortável em que ninguém lhe diz o que fazer a seguir. Porque é precisamente aí que começa a procurar dentro de si uma resposta.
O tédio obriga a imaginar, a criar, a escolher, a tolerar a espera e, sobretudo, a descobrir que não é preciso estar permanentemente entretido para estar bem.
Talvez por isso também seja tão importante deixá-los aprender a estar sozinhos sem confundirem solidão com abandono.
Porque um dia não haverá um adulto a organizar-lhes a tarde. Não haverá sempre um ecrã capaz de distrair uma tristeza, uma frustração ou um vazio. E crescer também é adquirir recursos internos para atravessar esses momentos.
Não quero que o meu filho tenha a infância que eu tive. O mundo dele é outro e ainda bem que assim é.
Mas há uma coisa da minha infância que gostava que ele levasse para a dele: a capacidade de não ter nada para fazer e, ainda assim, acabar por encontrar alguma coisa dentro de si.
E é aqui que a escola tem hoje um desafio imenso.
Já não lhe pedimos apenas que ensine a ler, escrever, somar ou conhecer a História. Pedimos-lhe que acolha, que integre, que reconheça diferenças, que esteja atenta à saúde emocional, que perceba sinais, que respeite ritmos e que prepare crianças para profissões que talvez ainda nem existam.
Ao mesmo tempo, entregamos-lhe crianças que vivem num mundo onde quase tudo acontece depressa.
Um clique traz uma resposta. Um ecrã acaba com o tédio. Uma pesquisa resolve uma dúvida. A inteligência artificial escreve, explica, resume e organiza.
Mas há coisas que nenhuma tecnologia pode aprender por eles.
Esperar.
Perder.
Tentar novamente.
Estar sozinho sem se sentir abandonado.
Ouvir um não.
Descobrir que não somos sempre os melhores.
Perceber que algumas coisas exigem tempo.
Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades da nossa geração. Não impedir os nossos filhos de conhecerem o futuro, mas garantir que chegam lá com ferramentas humanas.
Não sei se a escola de antigamente era melhor. Provavelmente não era.
Também não sei se esta será melhor apenas porque é mais moderna.
Sei que é diferente.
E sei que, no meio de tanta evolução, há aprendizagens que continuam a não caber num programa escolar, num livro de exercícios ou numa aplicação.
Aprender a viver é uma delas.
Agora, quando fico do outro lado do portão, percebo uma coisa que a criança que fui nunca poderia compreender.
Durante anos pensei que o primeiro dia de escola servia para ensinar uma criança a afastar-se um pouco dos pais.
Afinal, talvez sirva também para ensinar os pais a deixarem os filhos avançar.
E talvez crescer seja precisamente isto.
Um dia somos nós a entrar por aquele portão com uma mochila às costas.
Anos depois, somos nós que ficamos cá fora a vê-los entrar.
Só então percebemos que as férias grandes nunca foram assim tão grandes.
Nós é que éramos pequenos.


