Falta de recursos humanos nas escolas deixa milhares de crianças sem resposta adequada

Estado com Arte Magazine

Portugal tem quase 100 mil alunos com necessidades específicas e menos de 8 mil docentes de Educação Especial. No terreno, cada vez mais famílias pagam apoio externo enquanto aguardam avaliações ou medidas, para não perder janelas críticas de intervenção.

Os atrasos na resposta educativa geram ansiedade, desgaste emocional e custos financeiros elevados para os pais.
Portugal tem hoje quase 100 mil alunos sinalizados com necessidades específicas de aprendizagem – 98.200 no ano letivo de 2024/25, mais 29% do que há uma década, segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Mas o número de docentes de Educação Especial não acompanhou este crescimento: são menos de 8.000 para todo o país. O resultado é um sistema que reconhece, no papel, a necessidade de apoio, mas que nem sempre consegue prestá-lo no tempo certo.

Esta realidade observada diariamente, é confirmada pela SalusLive, centro clínico de referência nacional na área da intervenção pediátrica, com sede em Braga,  Entre os obstáculos mais frequentes estão a escassez de docentes de Educação Especial, psicólogos e terapeutas, os tempos de espera prolongados entre a sinalização e a implementação das medidas, as turmas numerosas e a falta de articulação entre os vários intervenientes no processo educativo.

“Encontramos profissionais e escolas extremamente empenhados, que fazem um trabalho notável com os recursos que têm. Mas a realidade demonstra que, muitas vezes, esses recursos não chegam para responder a todas as crianças em tempo útil”, afirma Raquel Cunha, diretora clínica da SalusLive.

FAMÍLIAS PAGAM O QUE A ESCOLA NÃO GARANTE A TEMPO

A consequência mais visível é o número crescente de famílias que recorre a apoio clínico privado para complementar, ou antecipar, respostas que tardam. “Só a SalusLive acompanha hoje cerca de 20 crianças em Educação Especial, um número que cresceu de forma expressiva nos últimos cinco anos e que espelha, à escala local, uma procura nacional em alta”, sublinha Raquel Cunha.

“Existe uma preocupação crescente dos pais em garantir que os filhos não perdem tempo precioso de intervenção. Muitas famílias procuram-nos, porque sentem que não podem esperar e porque precisam de orientação especializada para compreender o que está a acontecer”, reforça a mesma responsável.

Os sinais de alerta mais frequentes são atrasos na linguagem e comunicação, dificuldades persistentes na leitura, escrita e matemática, problemas de atenção e concentração, dificuldades de socialização e níveis elevados de frustração e baixa autoestima. A identificação precoce continua a ser, segundo os especialistas, o fator que mais influencia os resultados académicos, sociais e emocionais.

UM CUSTO QUE RECAI SOBRE TODA A FAMÍLIA

Além do impacto no percurso escolar das crianças, as falhas na resposta educativa pesam sobre os pais: ansiedade, desgaste emocional, preocupação constante e sentimentos de impotência. A estas dificuldades juntam-se custos financeiros elevados com terapias e avaliações, reorganização de horários profissionais e múltiplas deslocações entre consultas, escola e atividades de apoio. Na prática, a inclusão acaba por depender da capacidade financeira de cada família, e não dos direitos da criança.

O QUE É PRECISO MUDAR

Perante este cenário, a SalusLive defende que “a inclusão não pode continuar a depender de quem pode pagar”. O centro propõe três medidas concretas: reforçar o rácio de técnicos especializados por escola, ajustando-o ao número real de alunos sinalizados; fixar um prazo máximo entre a sinalização e a implementação das medidas de apoio, eliminando os atrasos que custam janelas críticas de desenvolvimento; garantir a articulação efetiva entre escola, família e profissionais externos, pondo fim às respostas fragmentadas.
“Todas as crianças devem ter acesso aos recursos necessários para desenvolver o seu potencial. Uma escola verdadeiramente inclusiva é aquela que responde às necessidades de cada criança no momento certo – e não apenas das crianças cujas famílias têm meios para procurar apoio fora dela”, conclui Raquel Cunha.

O centro pediátrico, SalusLive, é fundado em 2014, já acompanhou mais de 2.000 crianças e prestou mais de 500.000 horas de terapias especializadas. Em 2024, inaugurou uma nova unidade com 2.000 m², fruto de um investimento de 4 milhões de euros, tornando-se a única em Portugal a reunir num só espaço maternidade, hidroterapia, terapias clínicas, ATL e apoio familiar.

Com uma equipa multidisciplinar de 70 profissionais, responde de forma preventiva, individualizada e humanizada a desafios como autismo, PHDA, síndromes raras, infeções respiratórias recorrentes, seletividade alimentar e uso abusivo de ecrãs. A instituição aposta ainda na formação parental, inclusão social e expansão dos seus serviços clínicos e materno-infantis.

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