No ano em que a Ordem dos Advogados Portugueses celebra o seu centenário, o advogado Duarte de Lima Mayer lança o romance “O livro de Frederic Pery” no dia 16 de julho, no MUDE – Museu do Design, às 18.30 horas. Com a apresentação dos advogados Isabel de Lima Mayer e Sebastião Salgado.
Neste livro o personagem Frederico Pery, advogado na Torlager uma pequena sociedade dedicada ao Direito Marítimo, com escritório na Rua das Flores, no Chiado, escreve na primeira pessoa, interroga-se sobre “a ontologia do ser advogado”.
A narrativa abre em Londres, durante uma visita à National Gallery, onde, diante de um quadro de Hans Holbein, mantém com o pai uma conversa que desencadeia toda a evocação autobiográfica.
O autor fazendo pleno uso da imaginação para ensaiar uma vida, um contexto e uma trama que facilmente remeterão os profissionais para o seu quotidiano, a obra propõe um conjunto de imagens cuja força simbólica transcende largamente a sua função imediata.
“Aos advogados é frequente colocarem-se questões éticas, eles são agentes importantes na vida social e as respostas que dão aos desafios que têm mostram a sua postura”, diz o escritor ao Estado com Arte Magazine.
Entre essas imagens avultam os chapéus que acompanham a personagem nas diferentes etapas da sua vida, cada um associado a figuras tutelares, da ficção ou da História, como Tom Sawyer e Abraham Lincoln, dois dos grandes eixos estruturantes do livro. Cruzam-se ainda os mitos colectivos portugueses ligados ao mar, à aventura, ao encontro — e desencontro — com o outro, à coragem de desbravar caminhos e navegar águas desconhecidas. Num registo bem-humorado e acessível, a narrativa procura ensaiar um sentido ético para a profissão, convocando questões fundamentais: como viver hoje a advocacia? Que cultura deve ser promovida para garantir o bem-estar de quem exerce esta profissão tão importante quanto exigente?
É Frederico Pery quem nos conduz pela mão, através de capítulos curtos e depurados. Advogado na Torlager, uma pequena sociedade dedicada ao Direito Marítimo, com escritório na Rua das Flores, no Chiado, escreve na primeira pessoa. A narrativa abre em Londres, durante uma visita à National Gallery, onde, diante de um quadro de Hans Holbein, mantém com o pai uma conversa que desencadeia toda a evocação autobiográfica.
Ao contar a sua história, Frederico transporta-nos entre a Arrábida — num planalto sobranceiro ao mar — e o Campo Grande, para a casa da Rua Afonso Lopes Vieira, uma rua povoada de pereiras, onde um pássaro leve e alegre pousava ocasionalmente enquanto ele desbravava calhamaços de Direito. O pai era professor da Faculdade de Letras, um humanista de espírito aberto, especialista em Damião de Góis.

Dos Peddy Papers organizados pelo pai, nos quais um grupo de crianças corria entusiasmado atrás de pistas, aos inevitáveis Pery Papers — a papelada acumulada sobre a secretária de qualquer advogado —, Frederico conta-nos como aprendeu a ser meticuloso. Deve essa aprendizagem ao “trabalho invisível” exigido por um treinador de ténis que recusava atletas displicentes. Mas é a avó quem lhe transmite a lição mais duradoura. Depois de o acolher debaixo do seu chapéu-de-chuva, ensina-lhe que todos os objectos possuem uma função que ultrapassa a sua utilidade imediata: uma raqueta de ténis pode produzir belas melodias, como uma guitarra, em vez de ser atirada ao chão, vencida pela frustração de um jogo que corria mal numa tarde chuvosa de Inverno.
Competente e profundamente apaixonado pela advocacia — não advogado de barra, mas advogado da barra, da barra do Tejo —, Frederico apercebe-se, contudo, de que a cultura instalada, desde os bancos da faculdade, parece cultivar uma gravidade quase insustentável. Percebe também que muitos advogados vivem situações difíceis, mais próximas dos universos sombrios de Hieronymus Bosch, como aqueles que contempla no Museu Nacional de Arte Antiga.
É então que se inicia a verdadeira busca do protagonista: procurar as fadas escondidas entre os fados e os fardos. A Lisboa antiga — o eléctrico 28, a Confeitaria Nacional e tantos outros lugares da cidade — torna-se palco das conversas com a sua coach, Beatriz, cujo nome evoca deliberadamente a guia de Dante na Divina Comédia. Com ela procura sentido, revisita o passado, reconcilia-se com as suas melhores e piores experiências e projecta o futuro.
Ao seu lado está sempre Francisco Pery, o primo conhecido por “Perigord”, companheiro de inúmeros jantares, confidente e destinatário privilegiado do manuscrito. É também Francisco quem assina o epílogo. Todos os anos escolhe dois jovens advogados para acompanhar em mentoria, oferecendo-lhes a leitura da obra que Frederico lhe pede expressamente para nunca publicar.
“Este livro levou-me vários anos a escrever. Foi uma longa maratona. Começou com questões que eu próprio me coloquei. Como fazer da advocacia que praticava (e pratico) um lugar de vida, de encontro, de realização? A ficção tem a característica de nos permitir afastar o olhar da nossa experiência imediata, de ensaiar um olhar mais distante. No entanto, naturalmente que esta obra tem muito da minha própria biografia. Sobretudo tem muito daquilo em que acredito, de que o outro ajuda a dar sentido ao que fazemos, que somos seres de relação, que precisamos de nos contar a vida, de tecer a nossa narrativa uns com os outros,” conta Duarte de Lima Mayer ao Magazine Estado com Arte.
Sobre a questão de o livro auto biográfico ir para além da advocacia, no que respeita as perguntas pessoais da vida, Duarte de Lima Mayer diz ao Estado com Arte Magazine que “as perguntas pessoais da vida estão lá: a vida comunitária como forma de estarmos unidos uns aos outros (somos mais do que a soma uns com os outros), que a vida é uma permanente busca, que não é nada fácil, que a realidade é complexa (nem sempre branca ou preta, há muitas tonalidades intermédias), que há quem minta, efabule, invente, mas que devemos ter a coragem de seguirmos o que achamos certo. Aos advogados é frequente colocarem-se questões éticas, eles são agentes importantes na vida social e as respostas que eles dão aos desafios que têm mostram a sua postura. Como em todas as profissões, há pessoas que assumem a sua função com sentido ético e outras que não o fazem. No entanto, dada a relevância que têm na regulação de muitas situações sociais, que os advogados sejam conscienciosos é muito bom também para a paz social.”
Os elementos da Lisboa antiga versus a modernidade da cidade
Para o escritor Lisboa “é uma cidade muito bonita e com uma história muito interessante. É uma cidade poética, o rio, a luz, o edificado variado dos bairros. O contexto narrativo do livro vive esta cidade, que não é meramente do passado, continua a ser hoje. Há uma força na história dos lugares. Retrato o Largo de São Domingos, os vários edifícios marcantes do largo, a Igreja de S. Domingos, o Palácio Regaleira que é a sede nacional da Ordem dos Advogados, o Palácio da Independência, o Teatro D. Maria II. Todos eles convocam memórias importantes do nosso passado colectivo (umas boas outras más, como o Massacre de 1506). Todas estas histórias servem para uma reflexão que o livro faz. Também o rio Tejo, a evocação de lugares antigos, a relação com a Serra da Arrábida ou com a Carreira das Índias, tudo pontos da narrativa, já que Frederico Pery é um advogado que exerce justamente Direito Martímo, pelo que tem uma atenção particular a essa relação da cidade com o porto. Isto tudo, numa cidade que mudou muito, que está sob a pressão do turismo, da actividade nocturna, de sem-abrigos que dormem na rua e que não deixa de o interpelar e questionar. Esse contraste entre a identidade dos lugares e uma certa descaracterização é assumido implicitamente, mas creio que é identificável no livro.”
Em anexo ao romance surgem ainda as Cartas a um Jovem Advogado, um exercício literário de correspondência imaginária entre Thomas Sawyer e Abraham Lincoln, igualmente da autoria de Frederico Pery, que prolonga, noutra forma narrativa, a reflexão sobre a identidade, a vocação e o sentido da advocacia.
Duarte de Lima Mayer escreveu os livros “A Rainha Santa e o Mistério de São Cristóvão do Rio Mau” (2025) com Ilustração de Mara Silva, e os livros de memórias da família Mayer “Cinema Tivoli – Os Anos Lima Mayer, e
“Cinema Tivoli – Memórias da Avenida” (2024) , em co-autoria com João Monteiro, editados pela Building Ideas.


