Durante muito tempo, dizer que alguém “aguenta tudo” foi um elogio, sobretudo quando esse alguém era uma mulher. Trabalha, trata dos filhos, sabe quando acabam os iogurtes, marca consultas, responde a mensagens, resolve os problemas dos pais, lembra-se dos aniversários e ainda consegue perguntar aos outros se está tudo bem.
“Ela aguenta tudo.”
Dizemos isto com admiração, mas comecei a achar a frase assustadora porque, muitas vezes, “ela aguenta tudo” significa apenas que nos habituámos a que ela resolva.
Há pessoas que se tornam tão boas a cuidar de tudo que ninguém se lembra de perguntar quem cuida delas e depois, um dia, cansam-se. Aí estranhamos, porque era tão forte, porque nunca se queixava, porque parecia conseguir sempre mais um bocadinho. Talvez o problema esteja precisamente aí, ser forte nunca significou ser inesgotável.
Vivemos numa época curiosa, nunca se falou tanto de autocuidado e nunca tivemos tantas coisas para cuidar. É o trabalho, a casa, os filhos, os pais que envelhecem, as contas, as mensagens, as relações, o corpo, a alimentação e até os passos que o relógio nos avisa que ainda não demos.
Até descansar se tornou uma tarefa que devemos executar corretamente. Há aplicações para dormir melhor, respirar melhor, beber mais água e meditar. Às vezes penso que só falta uma aplicação que nos diga para largar as aplicações.
Durante muito tempo achei que a solução estava em aprender a organizar melhor a vida, ter uma agenda melhor, fazer listas, aproveitar melhor as horas, conseguir encaixar mais qualquer coisa no dia. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez algumas vidas não precisem de mais organização, talvez precisem simplesmente de menos peso.
E isso obriga-nos a fazer perguntas que nem sempre são confortáveis. O que estou a fazer apenas porque sempre fiz? Quantas responsabilidades assumi que nunca foram verdadeiramente minhas? Porque é que dizer “não consigo” ainda nos custa tanto?
Há também uma coisa curiosa no cansaço, quase nunca nos permitimos dizê-lo sem apresentar uma justificação. Dizemos “estou cansada” e logo a seguir explicamos porquê, contamos como foi a semana, quantas horas trabalhámos, o que aconteceu em casa, como se fosse necessário provar que fizemos o suficiente para merecer parar.
Talvez não seja.
Estou a aprender uma coisa que teria sido útil perceber mais cedo, há uma enorme diferença entre desistir e pousar. Desistir é abandonar aquilo que importa, pousar é perceber que não conseguimos atravessar a vida inteira de braços cheios.
Talvez a força não esteja em provar que conseguimos aguentar tudo. Talvez esteja, finalmente, em perceber aquilo que já não precisamos de continuar a carregar.


