Ana Maria Evans. “Estes resultados significam que segmentos da população que estavam sub-representados nos atos eleitorais ganham assento”

Marta Roque

Em 17 estados, os eleitores elegeram governadoras, superando o recorde anterior de 14. Dando-se a eleição do  primeiro senador muçulmano à primeira governadora indígena, o que é inédito na política americana, o que para Ana Maria Evans, Analista Geopolítica e Professora associada da Universidade Católica, revela “o eleitorado a sinalizar o seu apoio à inclusão e à diversidade em cargos de liderança.”

Ana Maria Evans considera que apesar da derrota de Donald Trump nas eleições intercalares, não será expectável uma mudança na política do executivo norte-americano relativamente à guerra na Ucrânia.

Assume que ainda “é difícil afirmar que se trata de uma reviravolta da esquerda a nível mundial. Basta olharmos para a Europa, nomeadamente, para os casos de Itália, França, Alemanha, Áustria, Finlândia, entre outros, onde partidos de direita radical têm expressão eleitoral muito significativa.”

As eleições intercalares foram uma grande derrota para Donald Trump, que perde a Câmara dos Representantes e o Senado?

Sem dúvida, trata-se de uma grande derrota para o Presidente Trump. Foram até hoje muito raros os casos de perda de maioria em ambas as câmaras do Congresso nas eleições intercalares, apesar de todos os presidentes norte-americanos desde o presidente Clinton terem perdido a maioria numa delas. Era expectável que o Partido Republicano pudesse perder a sua pequena maioria na Câmara dos Representantes, mas perder também o Senado constitui um sinal declaradamente vermelho para o Presidente Trump.

Os resultados revelam a insatisfação dos eleitores – inclusivamente republicanos moderados – com as políticas económica e externa da atual liderança, traduzidas no aumento drástico do preço da energia e de outros bens essenciais.

Que impactos vão ter estes resultados na administração americana daqui para a frente? Ao nível da política interna e política externa?

Haverá um “governo dividido.” O Partido Democrata terá grande influência sobre a agenda legislativa e poderá utilizar as negociações do orçamento para tentar obter concessões políticas. Por outro lado, o presidente poderá exercer poder de veto sobre legislação aprovada pelo Congresso, assim como emitir “ordens executivas” que têm sido um instrumento amplamente utilizado neste e em anteriores mandatos. O presidente continuará a dirigir a política externa norte-americana e a decidir onde e em que circunstâncias enviar forças militares para teatros de operações.

A Ucrânia pode vir a beneficiar de mais apoio?

Não será fácil, uma vez que o presidente norte-americano mantém considerável margem de manobra na condução da política externa. Certamente o Partido Democrata irá utilizar as negociações para o pacote legislativo de Autorização para a Defesa Nacional, em 2027, para tentar atingir objectivos políticos. Todavia, considerando que o próprio Vice Presidente Vance afirma que o executivo foi penalizado pelo custo da guerra no Irão, e sabendo que o apoio da população americana ao envio de assistência militar à Ucrânia tem vindo a diminuir nas sondagens, não será expectável uma mudança na política do executivo norte-americano relativamente à guerra na Ucrânia. Pelo contrário, é provável que o presidente mantenha o alívio das sanções à Rússia, na tentativa de reduzir os preços da energia, que tanto têm contribuído para a inflação e, como tal, para a insatisfação dos eleitores. Quando falta dinheiro para o cabaz de compras, é difícil convencer o eleitorado a apoiar intervenções externas que acarretam grande despesa …

Vários estados tradicionalmente republicanos mudaram de cor e passaram para o lado dos democratas, entre os quais o Texas, a Carolina do Norte, a Carolina do Sul, o Ohio, o Kansas, o Iowa e o Maine. Algumas novidades nesta reviravolta: mulheres eleitas pela primeira vez governadoras, e um muçulmano.

Como analisa estas eleições?

São novidades socio-políticas muito importantes. Estes resultados significam que segmentos da população que até à data estavam sub-representados nos atos eleitorais finalmente ganham assento, e que têm voz nas instituições democráticas do país, estando o eleitorado a sinalizar o seu apoio à inclusão e à diversidade em cargos de liderança.

É uma reviravolta da esquerda a nível mundial?

É difícil afirmar que se trata de uma reviravolta da esquerda a nível mundial. Basta olharmos para a Europa, nomeadamente, para os casos de Itália, França, Alemanha, Áustria, Finlândia, entre outros, onde partidos de direita radical têm expressão eleitoral muito significativa. O declínio do poder de compra da classe média e a frustração de expectativas relativamente ao emprego e à qualidade de vida, assim como a percepção de corrupção em cargos políticos, contribuem para a penalização de governos em exercício, propiciando movimentos populistas. A desigualdade económica e social tem mais peso do que a ideologia esquerda-direita no segredo do ato eleitoral.

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