Nos votos da emigração o Chega consegue eleger dois deputados, a AD elege um deputado e o PS outro. Uma participação política que quase duplicou em comparação com as eleições de 2022.Verifica-se que a expressão da antiga abstenção é um eleitorado mais à direita.
Os resultados eleitorais da emigração apresentam uma participação política que quase duplicou em comparação com as eleições de 2022. Uma “vitória da democracia na sua vertente de participação política”, comenta Dina Matos Ferreira, Especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, do Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos (UCP), ao Estado com Arte Magazine.
“A expressão da antiga abstenção é um eleitorado mais à direita, no desejo inequívoco de rotatividade, próprio das democracias saudáveis”, considera a especialista. Na visão de Dina Matos Ferreira, “o grande perdedor foi a regulamentação eleitoral obsoleta e desajustada, refletida nos votos nulos, que significam mais do que os dois partidos mais votados.”
“O resultado da Suíça é interessante”, considera a especialista, “porque aquele que é considerado o país mais democrático do mundo votou no Chega quase três vezes mais do que o segundo partido mais votado”. “Mesmo como voto de protesto, dá que pensar”, remata.

Sobre o espaço à direita que ainda está por conquistar Dina Matos Ferreira, considera que “há imenso espaço a ganhar onde quer que seja, porque mesmo com este aumento de participação, os votantes significam 21% dos inscritos”.
A investigadora em política diz que “é preciso robustecer a participação política, no coração da própria cidadania e dos direitos humanos. O resto é acessório.” Dina Matos Ferreira sublinha ainda que “quando existem pessoas empenhadas, instituições fortes e a funcionar bem, o normal é que exista rotatividade e equilíbrio político pela complementaridade de medidas e ajuste de direções.”
Quanto à vitória do Chega de ter conquistado 2 deputados na emigração “não surpreende e era expectável” comenta Gonçalo Ribeiro Telles, Consultor de Comunicação e analista de política na SIC Notícias. Ao Estado com Arte Magazine diz que era uma questão de tempo que a influência do movimento da extrema-direita global chegasse a Portugal.“ André Ventura é um líder de extrema-direita é muito hábil e posiciona-se muito bem dentro da direita radical europeia. Desde Bolsonaro, a Salvini, a Le Pen. Tem muita força dentro desse grupo.”
Mas afinal porque votam os eleitores no Chega, um partido recente na democracia portuguesa e de extrema-direita?

Para Gonçalo Ribeiro Teles o facto deve-se a “uma campanha bolsonarista” em que estava imbuído o Chega, e que isso atrai muitos imigrantes. Esta está a ser uma realidade da extrema-direita global junto das comunidades imigrantes. “Não podemos ignorar o reflexo deste movimento a nível global,” justifica o analista. Defende que existe uma “fatia bastante conservadora e anti-sistema”, que se abstinha, mas que agora vota naquela que é a “sua encarnação do Salazar”.
O comentador de política na SIC Notícias não associa o voto no Chega ao descontentamento com os partidos da democracia ou com os líderes democráticos.” Tem mais a ver com “uma raiz que existe, que não tem muita simpatia com a causa democrática, corra ela melhor ou pior” e que está imbuída no próprio movimento extrema-direita global. “Não compro muito aquela tese de que os votantes são pessoas zangadas com os nossos políticos do sistema democrático, por viverem fora e descontentamento generalizado com esses políticos. Vivemos há mais de 30 anos num mundo globalizado em que as pessoas se habituaram a viver fora.”
Há diferentes graus de emigração, mas a margem de descontentamento é muito reduzida. Apesar de haver uma mudança à direita, que também favorece a AD, é muito perto do PS. “É difícil perceber até que ponto esta viragem à direita no país e com o voto dos emigrantes interessa a um PSD centralizador, como acho que deve ser e que não seja engolido pela extrema-direita,” admite.
Diz mesmo que “quanto mais rápido o espaço democrático perceber isso e não se auto-flagelar melhor, porque esta ideia de que a democracia quanto melhor estiver e responder aos problemas mais rápido resolverá este eleitorado e mudar o voto destas pessoas. Mas isso não é assim tão simples.”
Gonçalo Ribeiro Telles acredita que a nova situação parlamentar pode correr bem, e com este eleitorado a votar desta forma. No entanto, o descontentamento nos emigrantes é “mais inexplicável”, diz o comentador de política.
O voto dos emigrantes reflete que partidos à esquerda do PS estão muito fragilizados: o PCP é um partido que “já não diz muito” ao eleitorado, houve transição de antigos comunistas para o Chega e que por isso foi perdendo força durante uns anos e corre mesmo um sério perigo de perder representação parlamentar.“
Quanto ao BE comenta que “dentro do que é não correu mal à Mariana Mortágua, mas por alguma inabilidade programática já não diz muito às pessoas”. O Bloco começou por ser um partido bastante urbano e com algumas causas de uma certa esquerda urbana, mas sintomático da sua queda é o crescimento do Livre, um partido à esquerda “bastante mais interessante mais europeu na sua raiz, mais ecológico. Vai mais ao encontro dos tempos,” analisa Ribeiro Telles os dados que explicam a queda da esquerda a nível nacional e no voto dos emigrantes.
Do PS faz uma avaliação diferente: não interessa aos socialistas formar governo com maioria parlamentar da direita. “Apesar de ter perdido de perdido 11% acaba por ser um resultado que não coloca numa posição muito preocupante. O PS está mais confortável do que o PSD num futuro de polarização”. Não concorda com a tese que naturalmente o Chega é um problema para a democracia portuguesa. “É um fenómeno que nasce na Europa e que agora está a contagiar Portugal. Com uma futura polarização do sistema político português, acredito que o PS pode ganhar bastante com essa polarização em termos eleitorais, porque não tem ninguém à esquerda que lhe faça frente, nos próximos anos 5 ou 10 anos.” Ou seja, não tem um Chega à esquerda. Já o bloco se crescer “pode não surpreender, mas crescerá pouco,” diz o Consultor de Comunicação.
Dina Matos Ferreira justifica o descontamento dos eleitores, com a situação de Portugal ter piorado em todos os indicadores (GDP percapita, freedom, generosity, corruption, social support e health lifeexpectancy), segundo dados do World Happiness Report. A especialista de política sustenta ainda que estas eleições “manifestam com clareza meridiana como a burocracia e a regulamentação nacional são uma barreira ao exercício da cidadania, mais do que uma alavanca. Mais põem em causa o bom funcionamento das instituições que o auxiliam.” Considera “urgente” rever e simplificar a regulamentação eleitoral.


