{"id":13339,"date":"2026-10-01T10:32:59","date_gmt":"2026-10-01T10:32:59","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=13339"},"modified":"2026-10-01T10:33:50","modified_gmt":"2026-10-01T10:33:50","slug":"quando-as-ferias-eram-grandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2026\/10\/01\/quando-as-ferias-eram-grandes\/","title":{"rendered":"QUANDO AS F\u00c9RIAS ERAM GRANDES"},"content":{"rendered":"<p>Cham\u00e1vamos-lhes f\u00e9rias grandes. E eram mesmo grandes.<\/p>\n<p>Pelo menos na minha mem\u00f3ria de crian\u00e7a, o ver\u00e3o parecia n\u00e3o acabar. Tr\u00eas meses eram uma esp\u00e9cie de eternidade onde cabiam dias de praia, tardes sem planos, joelhos esfolados, noites que come\u00e7avam mais tarde e manh\u00e3s em que ningu\u00e9m parecia ter pressa.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como o tempo tinha outro tamanho quando \u00e9ramos pequenos.<\/p>\n<p>Ainda assim, f\u00e9rias n\u00e3o significavam exatamente aus\u00eancia de escola. Lembro-me de trazer para casa trabalhos suficientes para me lembrar, de vez em quando, de que setembro acabaria por chegar. Havia L\u00edngua Portuguesa, Matem\u00e1tica, exerc\u00edcios e p\u00e1ginas que tinham de aparecer feitas no regresso \u00e0s aulas. E havia sempre aquele momento dram\u00e1tico, algures perto do fim de agosto, em que perceb\u00edamos que t\u00ednhamos passado demasiado tempo a acreditar que ainda faltava muito.<\/p>\n<p>Hoje estou do outro lado.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sou a crian\u00e7a que regressa \u00e0 escola. Sou a m\u00e3e que fica \u00e0 porta.<\/p>\n<p>E talvez tenha sido a\u00ed que percebi que o in\u00edcio de um ano letivo n\u00e3o come\u00e7a apenas para quem entra. Come\u00e7a tamb\u00e9m para quem fica c\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos tive a possibilidade de acompanhar muito de perto o crescimento do meu filho mais novo. Trabalhei, escrevi, fiz a minha vida, mas estive muito presente. Talvez mais presente do que alguma vez imaginei que estaria. Houve uma pandemia pelo meio, houve uma mudan\u00e7a profunda na forma como muitas fam\u00edlias passaram a viver a inf\u00e2ncia dos filhos e houve, pelo menos em algumas casas, mais tempo partilhado entre pais e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Esse tempo foi um privil\u00e9gio. Mas os privil\u00e9gios tamb\u00e9m t\u00eam consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Quando chegou a altura de o deixar na escola, descobri que a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era dif\u00edcil apenas para ele.<\/p>\n<p>Era para mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Talvez tenhamos passado tantos anos preocupados em ensinar as crian\u00e7as a desapegarem-se dos pais que nos esquecemos de contar aos pais que tamb\u00e9m eles teriam de aprender a desapegar-se dos filhos.<\/p>\n<p>E \u00e9 estranho assistir a tudo isto enquanto o mundo muda a uma velocidade que a minha gera\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 a tentar acompanhar.<\/p>\n<p>Os nossos filhos t\u00eam hoje acesso a um universo que, na minha inf\u00e2ncia, seria praticamente fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. T\u00eam informa\u00e7\u00e3o em segundos. T\u00eam tecnologia dentro de uma mochila. T\u00eam livros, v\u00eddeos, aplica\u00e7\u00f5es, plataformas, explica\u00e7\u00f5es para quase tudo. T\u00eam intelig\u00eancia artificial capaz de responder em poucos segundos a perguntas que, no meu tempo, nos obrigariam a procurar uma enciclop\u00e9dia na estante.<\/p>\n<p>O conhecimento nunca esteve t\u00e3o perto.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que saber mais significa, necessariamente, estar mais preparado para viver?<\/p>\n<p>\u00c9 esta a pergunta que me inquieta.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho saudades de tudo o que existia antigamente. H\u00e1 uma tend\u00eancia perigosa para romantizarmos a nossa inf\u00e2ncia apenas porque sobrevivemos a ela. Nem tudo era melhor. Muitas crian\u00e7as sofriam em sil\u00eancio. Falava-se pouco sobre emo\u00e7\u00f5es, ansiedade, diferen\u00e7as, dificuldades de aprendizagem ou sa\u00fade mental. Havia coisas que simplesmente n\u00e3o tinham nome e, quando n\u00e3o damos nome \u00e0s coisas, elas n\u00e3o desaparecem. Apenas aprendemos a sofrer com elas em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Hoje falamos mais.<\/p>\n<p>Ainda bem.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as s\u00e3o ouvidas de outra maneira. Conhecemos melhor as suas necessidades. Procuramos compreender antes de castigar. Questionamos m\u00e9todos que durante d\u00e9cadas foram considerados normais. Temos mais informa\u00e7\u00e3o e, em muitos aspetos, somos pais mais atentos.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m somos pais mais assustados.<\/p>\n<p>Queremos proteg\u00ea-los de tudo. Da tristeza, da frustra\u00e7\u00e3o, do t\u00e9dio, da espera, do fracasso, da rejei\u00e7\u00e3o. Corremos \u00e0 frente deles a tentar retirar pedras do caminho e talvez, por vezes, nos esque\u00e7amos de que crescer tamb\u00e9m \u00e9 aprender a trope\u00e7ar sem acreditar que o mundo acabou.<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 uma coisa que quase desapareceu da inf\u00e2ncia: o t\u00e9dio.<\/p>\n<p>N\u00f3s aborrec\u00edamo-nos. Muito.<\/p>\n<p>Havia tardes em que n\u00e3o havia rigorosamente nada para fazer. Fic\u00e1vamos no quarto, rodeados das mesmas coisas de sempre, e ningu\u00e9m aparecia de cinco em cinco minutos para nos perguntar se quer\u00edamos ver um filme, jogar qualquer coisa ou pegar num ecr\u00e3.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos de inventar.<\/p>\n<p>Peg\u00e1vamos num papel e desenh\u00e1vamos. Faz\u00edamos constru\u00e7\u00f5es. Invent\u00e1vamos hist\u00f3rias. Fal\u00e1vamos sozinhos. Olh\u00e1vamos pela janela. Revir\u00e1vamos uma gaveta que j\u00e1 conhec\u00edamos de cor. \u00c0s vezes n\u00e3o faz\u00edamos absolutamente nada.<\/p>\n<p>E, sem sabermos, est\u00e1vamos a aprender uma coisa extraordinariamente importante: a estar connosco.<\/p>\n<p>Hoje vejo uma crian\u00e7a entrar num quarto cheio de brinquedos e, poucos minutos depois, dizer: \u201cN\u00e3o tenho nada para fazer.\u201d<\/p>\n<p>E isto faz-me pensar.<\/p>\n<p>Talvez, na tentativa de lhes proporcionarmos uma inf\u00e2ncia mais preenchida, tenhamos come\u00e7ado a preencher todos os espa\u00e7os. Quando aparece o sil\u00eancio, damos-lhes est\u00edmulo. Quando aparece o t\u00e9dio, damos-lhes entretenimento. Quando aparece uma espera, aparece um ecr\u00e3.<\/p>\n<p>S\u00f3 que uma crian\u00e7a tamb\u00e9m precisa de se aborrecer.<\/p>\n<p>Precisa daquele momento desconfort\u00e1vel em que ningu\u00e9m lhe diz o que fazer a seguir. Porque \u00e9 precisamente a\u00ed que come\u00e7a a procurar dentro de si uma resposta.<\/p>\n<p>O t\u00e9dio obriga a imaginar, a criar, a escolher, a tolerar a espera e, sobretudo, a descobrir que n\u00e3o \u00e9 preciso estar permanentemente entretido para estar bem.<\/p>\n<p>Talvez por isso tamb\u00e9m seja t\u00e3o importante deix\u00e1-los aprender a estar sozinhos sem confundirem solid\u00e3o com abandono.<\/p>\n<p>Porque um dia n\u00e3o haver\u00e1 um adulto a organizar-lhes a tarde. N\u00e3o haver\u00e1 sempre um ecr\u00e3 capaz de distrair uma tristeza, uma frustra\u00e7\u00e3o ou um vazio. E crescer tamb\u00e9m \u00e9 adquirir recursos internos para atravessar esses momentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero que o meu filho tenha a inf\u00e2ncia que eu tive. O mundo dele \u00e9 outro e ainda bem que assim \u00e9.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma coisa da minha inf\u00e2ncia que gostava que ele levasse para a dele: a capacidade de n\u00e3o ter nada para fazer e, ainda assim, acabar por encontrar alguma coisa dentro de si.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que a escola tem hoje um desafio imenso.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o lhe pedimos apenas que ensine a ler, escrever, somar ou conhecer a Hist\u00f3ria. Pedimos-lhe que acolha, que integre, que reconhe\u00e7a diferen\u00e7as, que esteja atenta \u00e0 sa\u00fade emocional, que perceba sinais, que respeite ritmos e que prepare crian\u00e7as para profiss\u00f5es que talvez ainda nem existam.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, entregamos-lhe crian\u00e7as que vivem num mundo onde quase tudo acontece depressa.<\/p>\n<p>Um clique traz uma resposta. Um ecr\u00e3 acaba com o t\u00e9dio. Uma pesquisa resolve uma d\u00favida. A intelig\u00eancia artificial escreve, explica, resume e organiza.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 coisas que nenhuma tecnologia pode aprender por eles.<\/p>\n<p>Esperar.<\/p>\n<p>Perder.<\/p>\n<p>Tentar novamente.<\/p>\n<p>Estar sozinho sem se sentir abandonado.<\/p>\n<p>Ouvir um n\u00e3o.<\/p>\n<p>Descobrir que n\u00e3o somos sempre os melhores.<\/p>\n<p>Perceber que algumas coisas exigem tempo.<\/p>\n<p>Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades da nossa gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o impedir os nossos filhos de conhecerem o futuro, mas garantir que chegam l\u00e1 com ferramentas humanas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se a escola de antigamente era melhor. Provavelmente n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se esta ser\u00e1 melhor apenas porque \u00e9 mais moderna.<\/p>\n<p>Sei que \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>E sei que, no meio de tanta evolu\u00e7\u00e3o, h\u00e1 aprendizagens que continuam a n\u00e3o caber num programa escolar, num livro de exerc\u00edcios ou numa aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aprender a viver \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>Agora, quando fico do outro lado do port\u00e3o, percebo uma coisa que a crian\u00e7a que fui nunca poderia compreender.<\/p>\n<p>Durante anos pensei que o primeiro dia de escola servia para ensinar uma crian\u00e7a a afastar-se um pouco dos pais.<\/p>\n<p>Afinal, talvez sirva tamb\u00e9m para ensinar os pais a deixarem os filhos avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>E talvez crescer seja precisamente isto.<\/p>\n<p>Um dia somos n\u00f3s a entrar por aquele port\u00e3o com uma mochila \u00e0s costas.<\/p>\n<p>Anos depois, somos n\u00f3s que ficamos c\u00e1 fora a v\u00ea-los entrar.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o percebemos que as f\u00e9rias grandes nunca foram assim t\u00e3o grandes.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00e9 que \u00e9ramos pequenos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Susana Duarte,<br \/>\nAutora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13232,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[64,11],"tags":[2620,2652],"class_list":["post-13339","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-isto-para-nos","category-opiniao","tag-autora","tag-susana-duarte"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - 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