{"id":2527,"date":"2023-09-11T15:30:25","date_gmt":"2023-09-11T15:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=2527"},"modified":"2023-09-25T11:45:28","modified_gmt":"2023-09-25T11:45:28","slug":"o-poder-corrompe-uma-analise-psicossocial-das-causas-da-corrupcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2023\/09\/11\/o-poder-corrompe-uma-analise-psicossocial-das-causas-da-corrupcao\/","title":{"rendered":"O Poder corrompe? Uma An\u00e1lise Psicossocial das Causas da Corrup\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Confirma-se a express\u00e3o axiom\u00e1tica de Lord Acton, de que \u201co poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente\u201d? A corrup\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a resulta do facto de as pessoas inclinadas para a corrup\u00e7\u00e3o procurarem lugares de poder, ou as verdadeiras causas n\u00e3o est\u00e3o nas pessoas mas na natureza das fun\u00e7\u00f5es que exercem?<\/strong><\/p>\n<p>O \u00cdndice de Percep\u00e7\u00e3o da Corrup\u00e7\u00e3o 2022, aplicado pela Transpar\u00eancia Internacional, que analisa os n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o no sector p\u00fablico de 180 pa\u00edses, coloca Portugal em 33.\u00ba lugar, abaixo da m\u00e9dia dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia. A posi\u00e7\u00e3o de Portugal estava praticamente estagnada desde 2011 e ainda desceu tr\u00eas lugares no ranking, em 2020, indicando uma d\u00e9cada de inefic\u00e1cia no combate a este fen\u00f3meno.<\/p>\n<p>A n\u00edvel mundial o panorama tamb\u00e9m \u00e9 pouco animador. Segundo a mesma fonte, uma em cada quatro pessoas j\u00e1 pagou \u201cluvas\u201d a membros da administra\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds e mais de metade declara que as autoridades nacionais t\u00eam feito \u201cum mau trabalho\u201d para controlar o problema. Quase seis bili\u00f5es de pessoas vivem em pa\u00edses com s\u00e9rios problemas de corrup\u00e7\u00e3o e, segundo a Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas contra a Corrup\u00e7\u00e3o (UNCAC), a ocorr\u00eancia deste fen\u00f3meno nos pa\u00edses desenvolvidos tem custos superiores a 1,25 trili\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Os casos de corrup\u00e7\u00e3o est\u00e3o longe de ocorrer apenas no sector p\u00fablico. Existem nas empresas privadas, nas entidades sem fins lucrativos, nas organiza\u00e7\u00f5es militares e religiosas e nas rela\u00e7\u00f5es quotidianas. As suas consequ\u00eancias s\u00e3o negativas a todos os n\u00edveis: desviam fundos do combate a problemas sociais graves, distorcem as regras de mercado e da s\u00e3 concorr\u00eancia, destroem a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e nas rela\u00e7\u00f5es negociais, condicionam as decis\u00f5es de investimento, degradam a imagem e a competitividade dos pa\u00edses, aumentam as desigualdades, criam sentimentos de injusti\u00e7a e arru\u00ednam carreiras e reputa\u00e7\u00f5es. Arist\u00f3teles e Maquiavel consideravam a corrup\u00e7\u00e3o o primeiro sinal da decad\u00eancia das sociedades.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno social global e heterog\u00e9neo, dif\u00edcil de definir, que varia com as culturas e com as \u00e9pocas. Pr\u00e1ticas consideradas corruptas num contexto social podem ser aceites noutro e o que era considerado l\u00edcito pode mais tarde ser censurado. Apesar disso, todas as sociedades t\u00eam normas para controlar manifesta\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, e condenam-nas \u00e0 luz da lei e da moral.<\/p>\n<p>A maior parte dos autores define a corrup\u00e7\u00e3o como a utiliza\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es de poder para obter benef\u00edcios ileg\u00edtimos, para si ou para terceiros. O que melhor caracteriza os actos de corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 serem uma utiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-\u00e9tica do poder. Segundo a UNCAC, este fen\u00f3meno compreende tr\u00eas il\u00edcitos mais comuns: o peculato (apropria\u00e7\u00e3o ileg\u00edtima de bens em proveito pr\u00f3prio), o tr\u00e1fico de influ\u00eancia (usar a capacidade de influ\u00eancia para obter benef\u00edcios para si ou para terceiros) e o abuso de poder (tomar decis\u00f5es ou abster-se de as tomar, para benef\u00edcio pr\u00f3prio ou de outros).<\/p>\n<p>1. O poder altera os padr\u00f5es de comportamento<br \/>\nUma vez que o poder permite o controlo dos processos de tomada de decis\u00e3o, \u00e9 inevit\u00e1vel a associa\u00e7\u00e3o entre a lideran\u00e7a e o fen\u00f3meno da corrup\u00e7\u00e3o. Os l\u00edderes decidem sobre recursos valiosos para a comunidade, disp\u00f5em de grande autonomia nas decis\u00f5es, t\u00eam a capacidade de influenciar assimetricamente os comportamentos dos outros e podem usar o poder com muitos fins diferentes. Gozam, por isso, de maior liberdade na utiliza\u00e7\u00e3o do poder e s\u00e3o menos controlados.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam os exemplos de l\u00edderes que utilizaram o poder para retirar os seus pa\u00edses de situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, levarem organiza\u00e7\u00f5es ao sucesso e equipas a alcan\u00e7ar objetivos que mudaram as nossas vidas. Mas o poder tamb\u00e9m pode ser mal usado. Pode libertar impulsos violentos e ego\u00edstas, levar \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos em proveito pr\u00f3prio, reduzir a empatia, induzir o ass\u00e9dio sexual ou ver os talentos dos outros como uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>O poder condiciona e os l\u00edderes vivem a tens\u00e3o permanente entre usar o poder em benef\u00edcio dos outros ou de si pr\u00f3prios. N\u00e3o faltam os estudos que suportam a ideia de que as pessoas com poder tendem a legitimar o seu uso discricion\u00e1rio para mant\u00ea-lo, tirar vantagens pessoais e praticar actos de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsto significa que as pessoas em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a est\u00e3o condicionadas para a pr\u00e1tica de actos il\u00edcitos? Confirma-se a express\u00e3o axiom\u00e1tica de Lord Acton, de que \u201co poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente\u201d? A corrup\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a resulta do facto de as pessoas inclinadas para a corrup\u00e7\u00e3o procurarem lugares de poder, ou as verdadeiras causas n\u00e3o est\u00e3o nas pessoas mas na natureza das fun\u00e7\u00f5es que exercem?<\/p>\n<p>Os efeitos transfiguradores do poder j\u00e1 tinham sido registados pelos gregos no conceito de hubris, que significava a arrog\u00e2ncia e omnipot\u00eancia dos que ocupavam fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, que \u201cqueriam ser iguais ou superiores aos deuses\u201d. O conceito veio depois a ser utilizado na s\u00edndrome de hubris ou complexo de deus, estudado pelo m\u00e9dico e pol\u00edtico trabalhista David Owen, e pelo psiquiatra Jonathan Davidson, para designar os transtornos de personalidade a que pode conduzir o uso continuado do poder. O fil\u00f3sofo Bertrand Russell denominou a hubris de &#8220;intoxica\u00e7\u00e3o pelo poder&#8221; e Arnold Toynbee, no seu Estudo de Hist\u00f3ria, considera-a uma poss\u00edvel causa do colapso das civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dos primeiros estudos psicol\u00f3gicos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre poder e corrup\u00e7\u00e3o foi publicado por Kipnis, em 1972 (Does Power Corrupt?). O autor defende que o poder pode levar a um mau uso dos ju\u00edzos morais porque as pessoas em posi\u00e7\u00f5es de poder tendem a ser mais temer\u00e1rias, menos emp\u00e1ticas, experimentam menos sentimentos de culpa e de vergonha, e procuram maiores recompensas para si e para os seus.<br \/>\nRecentemente, Dacher Keltner, professor da Universidade da Calif\u00f3rnia-Berkeley, estudou os efeitos da ascens\u00e3o ao poder, na personalidade, nos contextos da pol\u00edtica, das empresas e do desporto, e concluiu que existe um \u201cparadoxo do poder\u201d. As pessoas come\u00e7am a adquirir poder atrav\u00e9s de comportamentos que mostram empatia, colabora\u00e7\u00e3o, partilha e sensibilidade aos interesses dos outros mas, \u00e0 medida que consolidam a lideran\u00e7a, pioram as atitudes e desenvolvem comportamentos socialmente desajustados.<\/p>\n<p>Concluiu, por exemplo, que as pessoas quando chegam a posi\u00e7\u00f5es de poder nas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam tr\u00eas vezes mais probabilidade de interromper o trabalho dos outros, mostrar-se agressivas quando s\u00e3o contrariadas, levantar a voz, tratar os outros com rudeza, proferir insultos e tomar decis\u00f5es sem justificar. Afirma que o poder nos coloca \u201cem algo semelhante a um estado man\u00edaco, fazendo-nos sentir dominadores, en\u00e9rgicos, omnipotentes, sedentos de recompensas e imunes ao risco, o que predisp\u00f5e \u00e0 irrita\u00e7\u00e3o, \u00e0 rudeza e aos comportamentos anti\u00e9ticos\u201d.<\/p>\n<p>Outros estudos mostram que as pessoas com poder se tornam mais preconceituosas, estereotipam os subordinados, est\u00e3o mais autocentradas, ouvem menos a opini\u00e3o dos outros e s\u00e3o menos sens\u00edveis aos impactos das suas decis\u00f5es nas outras pessoas. Est\u00e3o mais inclinadas a satisfazer os seus interesses pessoais e sentem-se imunes \u00e0s san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O poder parece, pois, produzir uma regress\u00e3o ao \u201cestado de natureza\u201d hobbesiano, em que se perde a no\u00e7\u00e3o do certo e do errado, do justo e do injusto. O poder \u00e9 capaz de influenciar os comportamentos e fazer-nos agir como n\u00e3o quer\u00edamos? O que pode levar os l\u00edderes a tomarem decis\u00f5es corruptas?<\/p>\n<p>2. Os atos de corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o resultam apenas de um c\u00e1lculo racional<br \/>\nA psicologia, a sociologia e a \u00e9tica comportamental t\u00eam procurado responder \u00e0 importante quest\u00e3o das poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es de causalidade entre poder e corrup\u00e7\u00e3o. As primeiras investiga\u00e7\u00f5es foram dominadas pelos modelos de escolha racional. Estas teorias explicam a corrup\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de comportamentos l\u00f3gicos e calculistas, baseados no interesse pr\u00f3prio. A teoria do crime racional defende que os crimes s\u00e3o cometidos quando os benef\u00edcios s\u00e3o superiores aos danos estimados. \u00c9 a teoria que inspira o conhecido artigo de Gary Becker, de 1968, Crime and Punishment. As pr\u00e1ticas criminosas s\u00e3o conduzidas pelo princ\u00edpio da maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade. Elas n\u00e3o ocorrem se uma avalia\u00e7\u00e3o racional mostrar que os custos marginais esperados s\u00e3o superiores aos benef\u00edcios. Deste modo, o rigor das puni\u00e7\u00f5es seria a forma mais eficaz de combater o crime.<br \/>\nContudo, investiga\u00e7\u00f5es mais recentes na esfera da psicologia cognitiva e da economia comportamental indicam que a abordagem racional \u00e9 prescritiva e simplista. Descreve como as decis\u00f5es devem ser tomadas, mas n\u00e3o atende aos m\u00faltiplos fatores que realmente as determinam, nem aos diferentes n\u00edveis de consci\u00eancia a que os ju\u00edzos e as decis\u00f5es podem ocorrer. Na express\u00e3o de Herbert Simon, as decis\u00f5es humanas t\u00eam uma \u201cracionalidade limitada\u201d. As press\u00f5es do tempo e a complexidade das situa\u00e7\u00f5es tornam imposs\u00edvel calcular a utilidade esperada de todas as alternativas dispon\u00edveis. Face \u00e0s nossas limita\u00e7\u00f5es cognitivas, as decis\u00f5es s\u00e3o determinadas pela intui\u00e7\u00e3o, por esquemas cognitivos preexistentes (heur\u00edsticas) e por viv\u00eancias emocionais do passado.<\/p>\n<p>3. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 condicionada por mecanismos inconscientes<br \/>\nOs estudos mais importantes nesta linha foram desenvolvidos pelo nobel da economia Daniel Kahneman. As decis\u00f5es humanas, sobretudo em contextos de press\u00e3o e incerteza, est\u00e3o submetidas a muitos enviesamentos que tornam o processo racional de escolha pouco \u00fatil na previs\u00e3o dos comportamentos. Como refere, \u201ca defini\u00e7\u00e3o de racionalidade como coer\u00eancia l\u00f3gica \u00e9 muito dif\u00edcil de delimitar; exige uma ades\u00e3o \u00e0s regras da l\u00f3gica que uma mente finita n\u00e3o pode implementar\u201d.<br \/>\nSegundo Kahneman, as tomadas de decis\u00e3o envolvem processos mentais que ocorrem em dois planos: mecanismos esquem\u00e1ticos, autom\u00e1ticos e inconscientes, designados por Sistema 1 ou sistema r\u00e1pido, ao n\u00edvel do c\u00e9rebro l\u00edmbico; e mecanismos deliberativos, l\u00f3gicos e conscientes, designados por Sistema 2 ou sistema lento, ao n\u00edvel do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal.<\/p>\n<p>Uma descoberta importante \u00e9 a forma como os dois sistemas interagem. Devido \u00e0s nossas limita\u00e7\u00f5es cognitivas, n\u00e3o conseguimos ponderar as vantagens e limita\u00e7\u00f5es de todas as op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis quando tomamos uma decis\u00e3o, por forma a maximizar as vantagens. O esfor\u00e7o cognitivo e o autocontrolo exigidos por uma decis\u00e3o complexa, envolvendo m\u00faltiplas alternativas, esgotam a nossa energia e reduzem o autocontrolo, levando ao fen\u00f3meno conhecido por \u201cesgotamento do eu\u201d.<br \/>\n\u00c9 quando a nossa capacidade l\u00f3gico-racional est\u00e1 diminu\u00edda que os mecanismos inconscientes e impulsivos do Sistema 1 come\u00e7am a controlar o processo de tomada de decis\u00e3o, ao mesmo tempo que a redu\u00e7\u00e3o do autocontrolo facilita a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais imediatas e a ced\u00eancia a tenta\u00e7\u00f5es. Isto significa que muitas decis\u00f5es que est\u00e3o na base da corrup\u00e7\u00e3o podem ser pouco conscientes, resultando de julgamentos r\u00e1pidos e intuitivos.<br \/>\nNeste sentido, o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode limitar-se ao agravamento das penas e ao refor\u00e7o dos mecanismos de regula\u00e7\u00e3o e controlo, mas tem de come\u00e7ar por compreender os modos de pensar e decidir que lhe est\u00e3o subjacentes, e como se relacionam com os contextos sociais e culturais concretos.<br \/>\nPode concluir-se que, ao contr\u00e1rio da opini\u00e3o comum, a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente um crime calculado, conduzido apenas pela l\u00f3gica da an\u00e1lise custo-benef\u00edcio. Para o explicar \u00e9 necess\u00e1rio conhecer os mecanismos psicol\u00f3gicos individuais que lhe est\u00e3o subjacentes e as condicionantes grupais e culturais que o enquadram.<\/p>\n<p>4. Os mecanismos individuais da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nOs contributos mais importantes para explicar os comportamentos anti\u00e9ticos a n\u00edvel individual v\u00eam da psicologia cognitiva e da economia comportamental, que t\u00eam estudado a forma como \u00e9 processada a informa\u00e7\u00e3o nas tomadas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>4.1. O excesso de autoconfian\u00e7a pode levar \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nO poder \u00e9 um dos fatores que aumenta os n\u00edveis de confian\u00e7a em si pr\u00f3prio. A autoconfian\u00e7a \u00e9 um importante fator de sucesso, mas tamb\u00e9m pode levar a expectativas irrealistas e a decis\u00f5es desajustadas. Um n\u00edvel elevado de confian\u00e7a em si leva \u00e0 subestima\u00e7\u00e3o do risco de ser punido e \u00e0 focaliza\u00e7\u00e3o na recompensa imediata. A pessoa sente-se acima das normas sociais e \u00e0 margem dos mecanismos legais de puni\u00e7\u00e3o. O poder refor\u00e7a os sentimentos de domina\u00e7\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o de impunidade.<br \/>\nO excesso de confian\u00e7a moral \u00e9 ainda mais perigoso, porque pode levar as pessoas a acreditar que tomam sempre decis\u00f5es correctas e que s\u00e3o mais \u00e9ticas do que na realidade s\u00e3o. A verdade \u00e9 que em situa\u00e7\u00f5es de grande press\u00e3o e ambiguidade, com elevadas recompensas em causa, pode-se ser levado a tomar decis\u00f5es dissonantes com as suas posi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. Esta ocorr\u00eancia significa que podemos ceder praticando actos il\u00edcitos, mesmo quando nos conduzimos por princ\u00edpios \u00e9ticos. Os nossos comportamentos concretos obedecem a um princ\u00edpio que j\u00e1 alguns designaram de \u201c\u00e9tica limitada\u201d, uma extens\u00e3o do conceito de \u201cracionalidade limitada\u201d, de Herbert Simon.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre as decis\u00f5es que tomamos e os princ\u00edpios que defendemos, pode ser explicada pelo conflito interno entre desejo e dever. O que devemos fazer \u00e9 mais racional e consciente e \u00e9 mais aplicado \u00e0s a\u00e7\u00f5es que antecipamos no tempo, determinando sobretudo as nossas decis\u00f5es futuras ou as avalia\u00e7\u00f5es que fazemos dos comportamentos dos outros. O que desejamos \u00e9 mais emocional e impulsivo, \u00e9 determinado por mecanismos inconscientes e pode dominar nas decis\u00f5es imediatas sob press\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00e1 provado que a perspetiva temporal aciona n\u00edveis diferentes da tomada de decis\u00e3o. Um curioso estudo de Kovetz e Tyler (Tomorrow I\u2019ll be me: The Effect of Time Perspective on the Activation of Idealistic versus Pragmatic Selves, 2007) mostra como a perspetiva temporal pode activar diferentes dimens\u00f5es do self. Quando t\u00eam de escolher, com anteced\u00eancia, um professor, os alunos ativam o seu self idealista e escolhem um professor competente e exigente. Quando t\u00eam de tomar uma decis\u00e3o imediata, ativam o seu self pragm\u00e1tico e escolhem o professor que d\u00e1 melhores classifica\u00e7\u00f5es\u2026<br \/>\nA disson\u00e2ncia \u00e9tica tem uma explica\u00e7\u00e3o clara: antes da decis\u00e3o, as pessoas antecipam que v\u00e3o tomar as decis\u00f5es como deveriam, de acordo com os seus elevados padr\u00f5es \u00e9ticos mas, no momento de decidir, podem prevalecer os desejos imediatos. Antes de decidirem, dominam os mecanismos racionais; quando tomam a decis\u00e3o, podem prevalecer os impulsos ao n\u00edvel do c\u00e9rebro l\u00edmbico. A consci\u00eancia destes mecanismos pode ser decisiva para que se tome uma decis\u00e3o \u00e9tica e para evitar o que normalmente se segue \u00e0 disson\u00e2ncia \u00e9tica: a racionaliza\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o tomada para a tornar coerente com os princ\u00edpios morais defendidos. \u00c9 isto que explica que l\u00edderes acusados de corrup\u00e7\u00e3o defendam com toda a veem\u00eancia que n\u00e3o praticaram qualquer ilicitude (embora \u00e0 luz da lei e da moral o tenham feito) e que s\u00e3o detentores dos mais elevados padr\u00f5es \u00e9ticos.<\/p>\n<p>4.2. As decis\u00f5es corruptas dependem da perce\u00e7\u00e3o do risco<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 condenada e, por isso, envolve riscos. A maioria das pessoas \u00e9 avessa ao risco e isso poderia ser um obst\u00e1culo \u00e0s pr\u00e1ticas corruptas. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Com pequenos actos de corrup\u00e7\u00e3o, com actos de corrup\u00e7\u00e3o repetidos e n\u00e3o sancionados, ou quando se trata de decis\u00f5es em que os benef\u00edcios pessoais s\u00e3o elevados, a pessoa tende a subestimar os riscos, encontrando uma diversidade de argumentos para mostrar a si pr\u00f3pria a baixa probabilidade de ser punida. A tend\u00eancia \u00e0 subestima\u00e7\u00e3o do risco \u00e9 ainda mais acentuada em contextos de incerteza e quando h\u00e1 n\u00edveis elevados de autoconfian\u00e7a. A confian\u00e7a em si pr\u00f3prio pode ainda ser refor\u00e7ada por tra\u00e7os narc\u00edsicos e de maquiavelismo, levando a pessoa a acreditar que est\u00e1 acima da lei e \u00e9 intoc\u00e1vel.<br \/>\nO vi\u00e9s optimista tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pelas distor\u00e7\u00f5es na perce\u00e7\u00e3o dos riscos que se correm. Tende-se a crer que as experi\u00eancias desagrad\u00e1veis e os males em geral s\u00f3 acontecem aos outros. H\u00e1 evid\u00eancias de que as pessoas envolvidas em actos corruptos pensam que escapam aos controlos e conseguem evitar a puni\u00e7\u00e3o, mesmo quando a probabilidade de isso acontecer \u00e9 elevada.<br \/>\nEstes mecanismos psicol\u00f3gicos mostram que a avers\u00e3o ao risco pode ser atenuada e que as estrat\u00e9gias de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, baseadas na puni\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam o efeito dissuasivo que muitos sup\u00f5em. V\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es compararam a propens\u00e3o \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres, com base nas diferen\u00e7as de atitude em rela\u00e7\u00e3o ao risco. Os estudos psicol\u00f3gicos mostram que as mulheres s\u00e3o mais avessas ao risco do que os homens e que \u00e9 mais prov\u00e1vel condenarem os comportamentos ego\u00edstas. Isto pode explicar por que raz\u00e3o as mulheres se envolvem menos em actos de corrup\u00e7\u00e3o. Contudo, as evid\u00eancias s\u00e3o pouco consistentes e h\u00e1 quem argumente que a maior incid\u00eancia da corrup\u00e7\u00e3o nos homens resulta da maior exposi\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00f5es de poder que a favorecem.<\/p>\n<p>4.3. A avers\u00e3o \u00e0s perdas pode potenciar os actos de corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nComo vimos, as pessoas s\u00e3o avessas ao risco mas existem v\u00e1rios mecanismos e enviesamentos que reduzem essa avers\u00e3o. Como explicar, ent\u00e3o, que as pessoas pratiquem a corrup\u00e7\u00e3o mesmo com elevada probabilidade de sofrerem graves san\u00e7\u00f5es? A resposta pode estar na teoria da prospectiva.<br \/>\nNum estudo publicado em 1981 por Kahneman e Tversky (The Framing of Decisions and the Psychology of Choice), mostra-se que as pessoas percepcionam ganhos e perdas, de forma assim\u00e9trica, quando tomam decis\u00f5es em contextos de incerteza. Quando estamos numa perspetiva de obter ganhos, tendemos a ser prudentes e evitar decis\u00f5es de risco; quando antecipamos perdas, favorecemos op\u00e7\u00f5es de maior risco, para as evitar.<br \/>\nComo explicam os mesmos autores (Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk, 1979), trata-se de um automatismo cognitivo que confere aos ganhos e \u00e0s perdas utilidades esperadas diferentes. As pessoas em geral est\u00e3o mais motivadas para evitar o sofrimento das perdas, na medida em que, psicologicamente, \u00e9 mais importante para elas evitar a dor do que se perde do que viver a alegria do que se ganha. Alguns estudos mostram mesmo que as pessoas s\u00e3o duas vezes mais sens\u00edveis \u00e0s perdas do que aos ganhos. Por isso, est\u00e3o dispostas a correr mais riscos para evitar perder aquilo que valorizam.<br \/>\nEsta tend\u00eancia pode influenciar as tomadas de decis\u00e3o quando se fazem escolhas \u00e9ticas. Os comportamentos n\u00e3o-\u00e9ticos podem ser desencadeados por mecanismos autom\u00e1ticos que determinam os ju\u00edzos e as tomadas de decis\u00e3o. \u00c9 mais prov\u00e1vel ocorrerem decis\u00f5es n\u00e3o \u00e9ticas quando se est\u00e1 em contextos de perda. Compreende-se, assim, que os comportamentos corruptos sejam mais frequentes se h\u00e1 o risco de perder o poder, o emprego, ter um preju\u00edzo financeiro, n\u00e3o conseguir concretizar um neg\u00f3cio ou falhar uma oportunidade valiosa.<br \/>\nA avers\u00e3o \u00e0s perdas tamb\u00e9m pode ser explicada pela psicologia evolucionista como um mecanismo de sele\u00e7\u00e3o natural: os organismos que d\u00e3o prioridade a combater as amea\u00e7as t\u00eam mais probabilidade de sobreviver e reproduzir-se, do que aqueles que d\u00e3o prioridade \u00e0s oportunidades. Nesta perspetiva, os comportamentos corruptos tamb\u00e9m seriam determinados por mecanismos b\u00e1sicos de sobreviv\u00eancia que continuam presentes nas nossas heur\u00edsticas e enviesamentos cognitivos.<\/p>\n<p>4.4. Mentimos a n\u00f3s pr\u00f3prios para \u201cbranquear\u201d os atos de corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nO economista comportamental Dan Ariely, da Universidade de Duke, faz esta afirma\u00e7\u00e3o surpreendente: \u201cPodemos ser desonestos at\u00e9 ao limite em que sejamos capazes de manter a nossa auto-imagem de pessoas honestas.\u201d<br \/>\nAs pessoas tendem a criar uma fronteira entre o que \u00e9 moralmente aceit\u00e1vel para elas e o que n\u00e3o \u00e9, para manterem a sua auto-imagem de pessoas honestas. Quando se lida com situa\u00e7\u00f5es em que \u00e9 poss\u00edvel ser desonesto, mesmo as pessoas mais honestas t\u00eam a probabilidade de agir desonestamente. Quando isso acontece, gera-se uma situa\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda de conflito entre o acto il\u00edcito praticado e a imagem positiva que a pessoa quer manter de si pr\u00f3pria, designada de disson\u00e2ncia \u00e9tica. Este estado de disson\u00e2ncia acciona um conjunto de mecanismos cognitivos para a sua redu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO principal \u00e9 a racionaliza\u00e7\u00e3o que visa restaurar a imagem de integridade, atrav\u00e9s de uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do acto praticado ou do seu contexto, de modo a torn\u00e1-lo neutro ou mesmo positivo. H\u00e1 muitos exemplos: receber um suborno com a justifica\u00e7\u00e3o de que o sal\u00e1rio \u00e9 baixo, receber \u201cluvas\u201d para compensar o trabalho \u201cextra\u201d que se teve para resolver um problema, ou argumentar que o ato corrupto n\u00e3o prejudicou ningu\u00e9m e at\u00e9 beneficiou a organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstes mecanismos autom\u00e1ticos que procuram justificar a moralidade de atos il\u00edcitos impedem a perce\u00e7\u00e3o da sua gravidade e mant\u00eam o conceito de si pr\u00f3prio como \u201cpessoa honesta\u201d. \u00c9 uma \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d da realidade com a qual a pessoa se engana a si pr\u00f3pria (self-deception), anulando a contradi\u00e7\u00e3o entre o acto que praticou e as suas cren\u00e7as morais. A racionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de \u201cbranquear\u201d os comportamentos anti\u00e9ticos pela redu\u00e7\u00e3o da disson\u00e2ncia cognitiva.<br \/>\nA racionaliza\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m apoiar-se em narrativas culturais ou em valores organizacionais que a tornam mais robusta. A ascens\u00e3o \u00e0 riqueza preconizada no \u201csonho americano\u201d, os valores organizacionais relacionados com o sucesso competitivo e com o lucro, ou a import\u00e2ncia da progress\u00e3o na carreira, s\u00e3o a base de muitos argumentos que racionalizam actos de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA justifica\u00e7\u00e3o dos actos de corrup\u00e7\u00e3o pode surpreender pela criatividade e em muitos casos s\u00f3 \u00e9 veros\u00edmil aos olhos do pr\u00f3prio. Outras vezes assume formas banais como \u201ctoda a gente faz o mesmo\u201d ou \u201cfoi uma decis\u00e3o bem-intencionada, que n\u00e3o prejudicou ningu\u00e9m\u201d. Os mecanismos de racionaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais usados por pessoas criativas e com maior flexibilidade cognitiva. A capacidade de self-deception explica o facto de a maioria das pessoas envolvidas em actos de corrup\u00e7\u00e3o continuar a ver-se com uma honestidade a toda a prova, a \u201csentir a consci\u00eancia em paz\u201d e a fazer a apologia da sua integridade.<br \/>\nA racionaliza\u00e7\u00e3o dos actos de corrup\u00e7\u00e3o explica o descompromisso moral, isto \u00e9, por que h\u00e1 pessoas que praticam actos de corrup\u00e7\u00e3o sem sentirem stress moral. Como mostraram os estudos realizados por Moore (Moral Disengagement in Processes of Organizational Corruption, 2008), a racionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um mecanismo cognitivo que reinterpreta os comportamentos e bloqueia a autorregula\u00e7\u00e3o moral. Em princ\u00edpio, as pessoas reconhecem os comportamentos n\u00e3o \u00e9ticos e est\u00e3o dispostas a n\u00e3o os praticar, a n\u00e3o ser que encontrem boa raz\u00f5es para isso. \u00c9 exatamente o que fazem os mecanismos cognitivos de reinterpreta\u00e7\u00e3o dos comportamentos, chegando mesmo a encontrar virtudes nos actos corruptos. Um respons\u00e1vel pol\u00edtico ao comentar a corrup\u00e7\u00e3o no seu partido declarava que \u201cera um sinal de crescimento\u201d e outro argumentava que a corrup\u00e7\u00e3o nos \u00f3rg\u00e3os do estado era \u201cum \u00f3leo lubrificante do desenvolvimento\u201d.<br \/>\nNoutros casos, a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o pode passar pela atribui\u00e7\u00e3o de causalidades externas (os actos foram determinados pela press\u00e3o das circunst\u00e2ncias), por demonstrar que os actos praticados evitaram males maiores, que eram inevit\u00e1veis ou que os objetivos alcan\u00e7ados justificaram os meios.<br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rios fatores contextuais que podem favorecer os mecanismos de racionaliza\u00e7\u00e3o dos comportamentos corruptos. Os contextos de ambiguidade, em que as consequ\u00eancias dos actos il\u00edcitos n\u00e3o s\u00e3o claras ou as v\u00edtimas n\u00e3o s\u00e3o personalizadas, aumentam a probabilidade de comportamentos desonestos e favorecem as racionaliza\u00e7\u00f5es. \u00c9 o caso quando as v\u00edtimas s\u00e3o \u201cos contribuintes\u201d, \u201co Estado\u201d, \u201ca confian\u00e7a nos servi\u00e7os p\u00fablicos\u201d ou \u201ca imagem da classe pol\u00edtica\u201d. S\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais \u00e9 imposs\u00edvel estabelecer la\u00e7os objetivos de causalidade, apesar dos danos irrepar\u00e1veis que a corrup\u00e7\u00e3o lhes provoca.<br \/>\n4.5. Aumentamos o valor percebido do que nos favorece ou pode favorecer<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o confirmou a exist\u00eancia de outro enviesamento que pode explicar a corrup\u00e7\u00e3o quando h\u00e1 conflitos de interesses. A ambiguidade que caracteriza os conflitos de interesses acciona mecanismos que favorecem a satisfa\u00e7\u00e3o de interesses pr\u00f3prios levando a ju\u00edzos e decis\u00f5es anti\u00e9ticos. Quando se exerce um cargo de poder, o recebimento ou a expectativa de vir a receber um benef\u00edcio, refor\u00e7a a avalia\u00e7\u00e3o positiva da entidade ou pessoa que o oferece. Como consequ\u00eancia, o decisor tende a tomar decis\u00f5es que lhe s\u00e3o mais favor\u00e1veis. Este mecanismo pode levar a decis\u00f5es de favorecimento sem que o agente tenha consci\u00eancia disso.<br \/>\nUma experi\u00eancia realizada por Ann Harvey, do Baylor College of Medicine, mostrou que tendemos a atribuir mais valor \u00e0quilo que nos d\u00e1 vantagens materiais. O reconhecimento de um benef\u00edcio real ou potencial, associado a uma situa\u00e7\u00e3o, activa no c\u00e9rebro sentimentos de prazer ao mesmo tempo que o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal ventromedial estabelece associa\u00e7\u00f5es complexas e atribui significa\u00e7\u00f5es, elaborando o processo de tomada de decis\u00e3o. Os factores emocionais interagem com os processos cognitivos, acabando por condicion\u00e1-los.<\/p>\n<p>4.6. Valorizamos os benef\u00edcios de curto prazo e desvalorizamos os custos de longo prazo<br \/>\nUm fator contextual muito comum s\u00e3o as consequ\u00eancias tardias (ou inexistentes) dos atos de corrup\u00e7\u00e3o. Estes crimes t\u00eam benef\u00edcios imediatos para quem os pratica, mas a sua penaliza\u00e7\u00e3o, quando ocorre, \u00e9 muito posterior aos actos. Estamos perante o que \u00e9 chamado vi\u00e9s do presente. Tendemos a dar mais import\u00e2ncia a custos e benef\u00edcios de curto prazo, do que a custos e benef\u00edcios no futuro distante. Estes mecanismos inconscientes que enviesam as decis\u00f5es s\u00e3o ainda mais perigosos nas pessoas com elevada autoconfian\u00e7a. A cren\u00e7a nas suas elevadas capacidades e profissionalismo leva-as a n\u00e3o aceitar que as decis\u00f5es que tomam possam ser influenciadas por mecanismos psicol\u00f3gicos que escapam aos seus crit\u00e9rios racionais, como seja a tend\u00eancia para privilegiar os benef\u00edcios pessoais de curto prazo. Neste quadro, aceitam a exist\u00eancia de mecanismos que podem enviesar os seus ju\u00edzos e decis\u00f5es, mas acreditam convictamente que lhe est\u00e3o imunes e que, por isso, tomam decis\u00f5es isentas.<\/p>\n<p>4.7. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma \u201crampa deslizante\u201d<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o progride de forma gradual por um mecanismo de slippery slope. A realiza\u00e7\u00e3o de pequenas infrac\u00e7\u00f5es \u00e9 o in\u00edcio de um processo crescente que leva a grandes infrac\u00e7\u00f5es. Decis\u00f5es pouco conscientes e tomadas sob press\u00e3o podem cair numa \u201czona \u00e9tica cinzenta\u201d. A sua \u00e9tica \u00e9 duvidosa mas constituem um padr\u00e3o e ponto de partida para outras decis\u00f5es posteriores ainda menos \u00e9ticas, mas dif\u00edceis de distinguir das antecedentes. Com a continuidade cria-se um \u201cefeito de rampa deslizante\u201d em que as ced\u00eancias \u00e0 \u00e9tica s\u00e3o cada vez mais graves. Esta progress\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de deter porque se transforma numa \u201cnova normalidade\u201d e pode estabelecer-se como uma cultura de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs pr\u00e1ticas do passado constituem, portanto, uma refer\u00eancia para decis\u00f5es que se tomam posteriormente e para a sua avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Pr\u00e1ticas anteriores de elevada exig\u00eancia \u00e9tica diminuem a probabilidade de comportamentos corruptos. Pelo contr\u00e1rio, pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o regulares levam a um clima de toler\u00e2ncia e ced\u00eancias sucessivas, gerando um deslizamento \u00e9tico em que a corrup\u00e7\u00e3o se normaliza e acentua.<br \/>\n4.8. O autocontrolo evita a corrup\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m contribui para mant\u00ea-la<br \/>\nO autocontrolo \u00e9 a capacidade de alinhar o comportamento com os valores morais e as expectativas sociais, quando se prosseguem objetivos de longo prazo. As pessoas com elevado autocontrolo reconhecem os dilemas \u00e9ticos, os poss\u00edveis efeitos negativos das decis\u00f5es e sabem resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de seguir os seus impulsos imediatos. O autocontrolo evita os actos de corrup\u00e7\u00e3o. Sabe-se, por outro lado, que o baixo autocontrolo est\u00e1 relacionado com actos criminosos e sobretudo com a reincid\u00eancia.<br \/>\nMas as consequ\u00eancias negativas da corrup\u00e7\u00e3o nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis de reconhecer, sobretudo na corrup\u00e7\u00e3o interpessoal, uma vez que a outra parte tem interesse em fazer parecer que n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtimas e que a decis\u00e3o corrupta \u00e9 ganhadora para as duas partes. Por outro lado, em decis\u00f5es tomadas sob press\u00e3o, as pessoas com baixo autocontrolo tendem a ter comportamentos mais cooperativos e a aceitar propostas desonestas, sobretudo se elas provierem de pessoas conhecidas.<br \/>\nNo entanto, o autocontrolo pode ter uma fun\u00e7\u00e3o oposta: ajudar a manter a pr\u00e1tica continuada da corrup\u00e7\u00e3o. Neste caso, o corrupto precisa de esconder a sua atividade e guardar a apar\u00eancia de pessoa honesta. A manuten\u00e7\u00e3o desta hipocrisia moral, com a gest\u00e3o de identidades conflituais e de mecanismos de descompromisso moral (racionaliza\u00e7\u00f5es, atribui\u00e7\u00f5es externas dos seus atos \u2026), s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com um elevado grau de autocontrolo.<\/p>\n<p>4.9. A culpa pode inibir mas tamb\u00e9m pode encorajar a corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nV\u00e1rios estudos mostram que a decis\u00e3o de cometer ou n\u00e3o um acto de corrup\u00e7\u00e3o depende das rea\u00e7\u00f5es emocionais que a pessoa sente quando antecipa o acto que vai praticar. O decisor pode sentir emo\u00e7\u00f5es positivas ao imaginar os potenciais ganhos e satisfa\u00e7\u00f5es que o acto de corrup\u00e7\u00e3o lhe vai proporcionar. Esta antecipa\u00e7\u00e3o aumenta a motiva\u00e7\u00e3o para o acto corrupto, a qual pode ainda ser refor\u00e7ada se a ocasi\u00e3o for vista como \u201cuma oportunidade \u00fanica\u201d.<br \/>\nMas, por outro lado, a corrup\u00e7\u00e3o tem v\u00edtimas: pessoas em concreto, o interesse p\u00fablico, a imagem das institui\u00e7\u00f5es\u2026 A antecipa\u00e7\u00e3o destas consequ\u00eancias pode despertar sentimentos de culpa ou de vergonha que s\u00e3o fortes inibidores das transgress\u00f5es \u00e9ticas.<br \/>\nA culpa tem merecido especial aten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pessoas com mais tend\u00eancia para se sentirem culpadas, mas a culpa \u00e9 tamb\u00e9m determinada por fatores sociais e culturais. H\u00e1 provas s\u00f3lidas de que as pessoas com mais sentimentos de culpa se envolvem menos em atos delinquentes, valorizam mais as qualidades morais e obedecem \u00e0s normas \u00e9ticas. Neste caso, a antecipa\u00e7\u00e3o dos efeitos negativos da corrup\u00e7\u00e3o, sobretudo quando as v\u00edtimas s\u00e3o personalizadas, leva \u00e0 viv\u00eancia antecipada da culpa, que funciona como um inibidor da transgress\u00e3o.<br \/>\nContudo, esta l\u00f3gica pode n\u00e3o ocorrer quando a corrup\u00e7\u00e3o envolve favorecer algu\u00e9m a quem estamos muito ligados. Neste caso, a antecipa\u00e7\u00e3o da culpa de n\u00e3o favorecer a pessoa pode sobrepor-se \u00e0 culpa de praticar um acto que prejudica terceiros. Nos casos de coopera\u00e7\u00e3o corrupta que envolvem fortes rela\u00e7\u00f5es de amizade e lealdade e as v\u00edtimas s\u00e3o abstratas, a culpa pode ser sentida por n\u00e3o se praticar o acto corrupto. Por exemplo, sentir-se culpado por n\u00e3o favorecer um familiar em dificuldades, quando se dispunha de poder para isso. H\u00e1, pois, casos de corrup\u00e7\u00e3o interpessoal em que a propens\u00e3o a sentimentos de culpa favorece decis\u00f5es corruptas em vez de as evitar.<\/p>\n<p>5. Fatores sociais da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nComo vimos, os mecanismos psicol\u00f3gicos individuais contaminam o processo de decis\u00e3o racional com enviesamentos autom\u00e1ticos e inconscientes que podem estar na base de muitas decis\u00f5es \u00e0 margem da \u00e9tica. Mas a psicologia individual explica apenas uma parte dos comportamentos corruptos. O contexto social tem uma influ\u00eancia determinante n\u00e3o apenas na g\u00e9nese e desenvolvimento dos comportamentos n\u00e3o \u00e9ticos, mas tamb\u00e9m na explica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f3menos de intera\u00e7\u00e3o social que suportam a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5.1. A corrup\u00e7\u00e3o apoia-se na coopera\u00e7\u00e3o, na reciprocidade, na proximidade e na confian\u00e7a<br \/>\nOs estudos de Lambsdorff sobre a \u201creciprocidade corrupta\u201d mostra que as ra\u00edzes da corrup\u00e7\u00e3o se relacionam com mecanismos b\u00e1sicos da vida social, como a coopera\u00e7\u00e3o, a reciprocidade, a gratid\u00e3o e a confian\u00e7a. A coopera\u00e7\u00e3o tem uma vertente altru\u00edsta, cria la\u00e7os de confian\u00e7a e refor\u00e7a a solidariedade. Mas a coopera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode estar na base da corrup\u00e7\u00e3o. Muitas intera\u00e7\u00f5es desonestas implicam a colabora\u00e7\u00e3o das partes para satisfazer os seus objetivos. Os comportamentos anti\u00e9ticos s\u00e3o mais prov\u00e1veis quando as pessoas que cooperam t\u00eam ganhos alinhados.<br \/>\nCuriosamente, a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um fator de coes\u00e3o. Sendo uma atividade il\u00edcita, deve ser mantida em sigilo. Exige, por isso, rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a. Ao mesmo tempo, a manuten\u00e7\u00e3o das transa\u00e7\u00f5es corruptas refor\u00e7a a interdepend\u00eancia e o compromisso das partes. Por muito estranho que pare\u00e7a, a corrup\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m funcionar como um fator de coes\u00e3o e de solidariedade entre os intervenientes.<br \/>\nA retribui\u00e7\u00e3o de favores e de actos de simpatia, s\u00e3o comuns na vida social. Quando se aceita uma vantagem (real ou percebida), tende-se a restabelecer o equil\u00edbrio compensando-a com um benef\u00edcio de igual valor. Corresponder a um convite convidando, ou ajudar quem nos ajudou, s\u00e3o comportamentos que refor\u00e7am as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e a coes\u00e3o dos grupos.<br \/>\nO princ\u00edpio da reciprocidade est\u00e1 presente em quase todas as culturas. Este mecanismo tamb\u00e9m est\u00e1 presente nos actos de corrup\u00e7\u00e3o como um desvio \u00e9tico da reciprocidade positiva: pagar um benef\u00edcio ileg\u00edtimo que se recebeu ou beneficiar quem tem poder, para se receber um benef\u00edcio indevido.<br \/>\nA proximidade familiar ou afectiva tamb\u00e9m pode encorajar os actos de corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso do altruistic cheating, quando, numa longa fila de espera, algu\u00e9m com poder beneficia um familiar ou amigo, prejudicando todos os outros.<br \/>\nMas a situa\u00e7\u00e3o mais frequente \u00e9 o vi\u00e9s endogrupal, isto \u00e9, a tend\u00eancia para beneficiar os membros do seu pr\u00f3prio grupo em rela\u00e7\u00e3o aos grupos externos. A psicologia evolucionista ajuda a explicar esta tend\u00eancia. A prote\u00e7\u00e3o dos membros do grupo de perten\u00e7a, face a concorrentes externos, favorece a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Esta hip\u00f3tese encontra apoio na neuroci\u00eancia. A prefer\u00eancia por elementos do seu grupo \u00e9 influenciada pelos n\u00edveis de oxitocina.<br \/>\nNo quadro da psicologia social, a prote\u00e7\u00e3o dos membros do seu grupo \u00e9 geralmente interpretada \u00e0 luz da teoria da identidade social, de Tajfel, ou da teoria real\u00edstica do conflito, de Sherif e colaboradores. De acordo com a primeira, as perten\u00e7as sociais dos indiv\u00edduos s\u00e3o elementos estruturantes da sua identidade e da sua autoestima. O favorecimento do endogrupo \u00e9 uma forma de favorecer o seu status e, deste modo, elevar a autoestima. V\u00e1rios estudos mostram que existe uma correla\u00e7\u00e3o positiva entre os n\u00edveis de autoestima e a tend\u00eancia para favorecer o seu grupo.<br \/>\nA teoria real\u00edstica do conflito pressup\u00f5e que entre o grupo de perten\u00e7a e os grupos externos h\u00e1 um conflito pela disputa de recursos escassos. A prote\u00e7\u00e3o do seu grupo \u00e9 uma forma de reagir \u00e0s amea\u00e7as externas, reais ou simb\u00f3licas, incluindo a amea\u00e7a ao status, aos valores e \u00e0s cren\u00e7as partilhadas.<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o mina a confian\u00e7a nas pessoas e nas institui\u00e7\u00f5es, mas a corrup\u00e7\u00e3o interpessoal pressup\u00f5e a confian\u00e7a entre as partes, pelo menos a confian\u00e7a rec\u00edproca de que a ilegalidade n\u00e3o ser\u00e1 denunciada. Neste sentido, e n\u00e3o havendo a possibilidade, numa transa\u00e7\u00e3o corrupta, de suporte legal que garanta os interesses das partes, pode dizer-se que a corrup\u00e7\u00e3o interpessoal exige n\u00edveis de confian\u00e7a mais elevados do que as rela\u00e7\u00f5es comerciais correntes.<\/p>\n<p>5.2. As normas sociais podem inibir ou encorajar a corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nAs normas sociais indicam o entendimento partilhado, num grupo social, sobre o que \u00e9 aceit\u00e1vel, obrigat\u00f3rio ou proibido. As pessoas tendem a conformar-se \u00e0s normas descritivas dominantes no grupo, isto \u00e9, tomam como refer\u00eancia as pr\u00e1ticas dominantes, para fazerem ju\u00edzos avaliativos e tomarem decis\u00f5es. Um l\u00edder pode ser pressionado pela pr\u00e1tica social corrente de proteger os interesses dos familiares, e n\u00e3o s\u00f3 faz\u00ea-lo como sentir que \u00e9 sua obriga\u00e7\u00e3o\u2026<br \/>\nNo caso da corrup\u00e7\u00e3o, o conformismo \u00e0 norma social opera nos dois sentidos: se existe a perce\u00e7\u00e3o de que os actos de corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o frequentes, a tend\u00eancia \u00e9 para julgar a sua pr\u00e1tica aceit\u00e1vel e continu\u00e1-la; se os actos de corrup\u00e7\u00e3o forem pouco frequentes, a sua ocorr\u00eancia tende a ser limitada.<br \/>\nA norma social influencia tanto os comportamentos concretos como os crit\u00e9rios pelos quais os actos s\u00e3o avaliados, e at\u00e9 a forma como a prossecu\u00e7\u00e3o dos interesses pessoais \u00e9 racionalizada. \u00c9 isso que resulta de afirma\u00e7\u00f5es como \u201ctodos fazem o mesmo\u201d ou \u201cse eu n\u00e3o fizer, outro vai fazer\u201d. Note-se que, na vis\u00e3o prospetiva do segundo caso, o \u201coutro\u201d \u00e9 percebido como corrupto enquanto o pr\u00f3prio se v\u00ea como fazendo apenas o que \u00e9 normal\u2026<br \/>\nA perce\u00e7\u00e3o das normas vigentes na organiza\u00e7\u00e3o em que se trabalha ajuda a explicar muitos fen\u00f3menos de corrup\u00e7\u00e3o nesse contexto. A observa\u00e7\u00e3o de normas sociais e pessoais que permitem actos de corrup\u00e7\u00e3o sem consequ\u00eancias, normaliza esses actos e favorece a sua prolifera\u00e7\u00e3o. As culturas organizacionais podem ir acumulando pr\u00e1ticas anti-\u00e9ticas que se prolongam no tempo e se incorporam nos padr\u00f5es de comportamento habituais, tornando as pessoas insens\u00edveis \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Em alguns casos espera-se mesmo que os decisores pratiquem a corrup\u00e7\u00e3o nos \u201csuperiores interesses\u201d da organiza\u00e7\u00e3o. Embora as normas grupais dependam das pr\u00e1ticas coletivas, a atua\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes e o seu exemplo t\u00eam um papel central na cria\u00e7\u00e3o das normas e na constru\u00e7\u00e3o de culturas da corrup\u00e7\u00e3o ou da eticidade.<br \/>\nNos climas de corrup\u00e7\u00e3o normalizada ocorre ainda a difus\u00e3o da responsabilidade, a qual tende a agravar o fen\u00f3meno. Quando num grupo todos agem de forma corrupta, n\u00e3o s\u00f3 se banaliza a corrup\u00e7\u00e3o como a responsabilidade fica dilu\u00edda por todos, criando um descompromisso \u00e9tico generalizado. Neste caso, a corrup\u00e7\u00e3o tem o caminho aberto.<\/p>\n<p>6. Fatores culturais da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nAs dimens\u00f5es culturais do modelo de Hofstede t\u00eam sido um instrumento relevante para compreender o impacto da cultura na corrup\u00e7\u00e3o. As sociedades coletivistas (onde se integram os portugueses), por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s individualistas, est\u00e3o mais expostas aos fen\u00f3menos de corrup\u00e7\u00e3o. A ideia de que as pessoas se devem proteger em fun\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os de fam\u00edlia, de vizinhan\u00e7a ou de interesses corporativos, leva a decis\u00f5es que favorecem os interesses privados ou dos grupos de perten\u00e7a, em detrimento do interesse coletivo.<br \/>\nEstas sociedades tamb\u00e9m cultivam as rela\u00e7\u00f5es informais, a reciprocidade e a troca de favores como uma obriga\u00e7\u00e3o social, o que explica que os fen\u00f3menos de favorecimento das pessoas e grupos mais pr\u00f3ximos estejam relativamente normalizados, embora sejam energicamente condenados pela moral social. A cultura do \u201cjeitinho\u201d, dos \u201cconhecimentos\u201d e dos \u201capadrinhamentos\u201d, \u00e9 t\u00edpica desta dimens\u00e3o.<br \/>\nV\u00e1rios estudos indicam que, pelo contr\u00e1rio, as culturas individualistas apresentam n\u00edveis mais baixos de corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que sucede nos pa\u00edses anglo-sax\u00f3nicos, que desenvolveram um conjunto de mecanismos sociais e jur\u00eddicos que visam garantir os direitos dos indiv\u00edduos e os interesses da comunidade. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 pouco tolerada e muito escrutinada. Os casos de corrup\u00e7\u00e3o existem, mas s\u00e3o rapidamente denunciados e punidos.<br \/>\nAs culturas com maior dist\u00e2ncia ao poder, como acontece ainda em largos estratos da sociedade portuguesa, tamb\u00e9m t\u00eam \u00edndices de corrup\u00e7\u00e3o mais elevados. Na medida em que t\u00eam estruturas de poder muito hierarquizadas, as pessoas com menos poder est\u00e3o mais dispostas a corromper os que o det\u00eam para conseguir os seus objectivos, ao mesmo tempo que os que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder est\u00e3o sujeitos a mais solicita\u00e7\u00f5es e a menos escrut\u00ednio.<br \/>\nA dimens\u00e3o evita\u00e7\u00e3o da incerteza, dominante na sociedade portuguesa, tamb\u00e9m ajuda a explicar as diferen\u00e7as nos n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses com maior \u00edndice de evita\u00e7\u00e3o da incerteza, isto \u00e9, pouco tolerantes \u00e0 imprevisibilidade do futuro e que n\u00e3o confiam na autonomia individual para se tomarem as decis\u00f5es, criam sistemas complexos e burocratizados. Desenvolvem, por isso, estruturas pesadas e opacas que favorecem a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>7. A rela\u00e7\u00e3o entre poder e corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 mediada pelo sistema de valores<br \/>\nEmbora haja abundantes provas de que a deten\u00e7\u00e3o de poder aumenta a probabilidade de actos de corrup\u00e7\u00e3o, quer atrav\u00e9s de decis\u00f5es racionais com base na an\u00e1lise custo-benef\u00edcio quer pela interfer\u00eancia de numerosos mecanismos inconscientes de enviesamento, a rela\u00e7\u00e3o entre poder e corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples nem linear. Um estudo recente de Wang e Sun (Absolute Power Leads to Absolute Corruption? Impact of Power on Corruption Depending on the Concepts of Power one Holds, 2015) mostra que h\u00e1 uma vari\u00e1vel a mediar a rela\u00e7\u00e3o entre poder e corrup\u00e7\u00e3o: a concep\u00e7\u00e3o do poder. Os l\u00edderes que t\u00eam um conceito personalizado do poder, isto \u00e9, que veem o poder como um meio para servir os seus objetivos de ganhos pessoais, t\u00eam mais probabilidade de cometer actos de corrup\u00e7\u00e3o e de os tolerar nos outros. Os l\u00edderes com um conceito socializado do poder creem que o poder serve para atingir objetivos com significado coletivo. S\u00e3o, por isso, menos propensos a pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o e a aceit\u00e1-las. Outros estudos, na mesma linha, t\u00eam mostrado que o desenvolvimento moral aumenta a resist\u00eancia a decis\u00f5es n\u00e3o-\u00e9ticas e em interesse pr\u00f3prio.<br \/>\nA distin\u00e7\u00e3o entre as duas atitudes face ao poder coloca o foco na quest\u00e3o do sistema de valores que orienta a conduta individual e encontra confirma\u00e7\u00e3o na teoria da mentalidade \u00e9tica (ethical mindset) desenvolvida por Cornelissen e Lammers. Segundo os autores, a maneira como a pessoa lida com os dilemas morais depende de adotar uma perspectiva baseada em valores e regras morais (pensamento deontol\u00f3gico) ou baseada nos benef\u00edcios que se podem obter (pensamento consequencial). No primeiro caso, a pessoa considera a universalidade dos princ\u00edpios \u00e9ticos e aplica-os sem relativiza\u00e7\u00f5es contextuais. No segundo, determina a a\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias e do momento.<br \/>\nA mentalidade \u00e9tica faz a ponte entre a reflex\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o, e \u00e9 um bom preditor do descompromisso moral e dos comportamentos corruptos, porque tem a capacidade de abarcar a unidade entre o pensamento e o comportamento. A mentalidade \u00e9tica reflete a filosofia moral da pessoa e, embora integre as suas cren\u00e7as religiosas, n\u00e3o as pressup\u00f5e. \u00c9 o sistema de valores \u00e9ticos pessoais que determina a forma como os l\u00edderes definem os objetivos que querem alcan\u00e7ar com o poder e a forma como o utilizam. Por isso, a mentalidade \u00e9tica \u00e9 a ponte que une os mecanismos cognitivos e emocionais que determinam as tomadas de decis\u00e3o \u00e0s decis\u00f5es concretas que s\u00e3o tomadas. A mentalidade \u00e9tica \u00e9 um elemento essencial daquilo que designamos por integridade.<br \/>\nO poder em si pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 bom nem diab\u00f3lico. Como refere Adam Grant, psic\u00f3logo organizacional da Warthon School, n\u00e3o \u00e9 o poder que torna as pessoas corruptas porque o poder n\u00e3o muda as pessoas. O poder apenas acentua tra\u00e7os de personalidade e sistemas de valores preexistentes. H\u00e1 quem procure o poder para dar express\u00e3o aos seus piores impulsos, para satisfazer ambi\u00e7\u00f5es pessoais de sucesso e riqueza, ou para mant\u00ea-lo a todo o custo, e h\u00e1 quem o procure para resolver problemas da sociedade ou apoiar os mais fracos.<br \/>\nO poder cria um espa\u00e7o psicol\u00f3gico que permite a express\u00e3o amplificada do que h\u00e1 de melhor e de pior em cada um de n\u00f3s. Potencia a autoconfian\u00e7a, a ousadia, a ambi\u00e7\u00e3o realizadora, a orienta\u00e7\u00e3o para objetivos, a autonomia das tomadas de decis\u00e3o, a influ\u00eancia sobre os outros e eleva a disposi\u00e7\u00e3o para o risco. Por isso \u00e9, para alguns, o palco de express\u00e3o da tr\u00edade negra: narcisismo, maquiavelismo e psicopatia. Para outros, \u00e9 a oportunidade para exprimirem o amor pelos outros e a doa\u00e7\u00e3o sincera \u00e0s causas da humanidade. \u00c9 com poder que mostram a sua maior generosidade. Como diz o bi\u00f3grafo pol\u00edtico Robert Caro, \u201co poder n\u00e3o corrompe, o poder revela\u201d.<br \/>\nOnde est\u00e1, ent\u00e3o, a verdadeira diferen\u00e7a entre os l\u00edderes \u00e9ticos e os l\u00edderes corruptos? Est\u00e1 no enquadramento \u00e9tico com que exercem o poder, isto \u00e9, no sistema pessoal de valores que orienta a a\u00e7\u00e3o. Como vimos, h\u00e1 comportamentos corruptos que s\u00e3o deliberados e racionalmente orientados. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m mecanismos psicol\u00f3gicos individuais e press\u00f5es sociais que colocam armadilhas inconscientes aos comportamentos \u00e9ticos. Isto significa que existe sempre um risco \u00e9tico que amea\u00e7a as pessoas em posi\u00e7\u00f5es de poder. Os l\u00edderes t\u00eam de posicionar-se constantemente perante o dilema: utilizar o poder para si ou para os outros?<br \/>\nUm decisor que conhe\u00e7a bem os riscos \u00e9ticos que corre no exerc\u00edcio do poder, e se apoie num s\u00f3lido pensamento deontol\u00f3gico, n\u00e3o tem que recear. O poder s\u00f3 corrompe os que se deixam corromper por ele, e n\u00e3o faltam os casos em que s\u00e3o os l\u00edderes que corrompem a imagem do poder, ajudando a difundir o preconceito contido na afirma\u00e7\u00e3o de Lord Acton.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica de Recursos Humanos e de Lideran\u00e7a e Motiva\u00e7\u00e3o, na Forma\u00e7\u00e3o de Executivos, UCP <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-2527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O Poder corrompe? 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