{"id":3390,"date":"2023-11-23T21:04:04","date_gmt":"2023-11-23T21:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=3390"},"modified":"2023-11-27T09:33:35","modified_gmt":"2023-11-27T09:33:35","slug":"a-arte-de-degradar-as-instituicoes-e-fomentar-o-extremismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2023\/11\/23\/a-arte-de-degradar-as-instituicoes-e-fomentar-o-extremismo\/","title":{"rendered":"A arte de degradar as institui\u00e7\u00f5es  e fomentar o extremismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Quando baixar a poeira da crise actual, ningu\u00e9m vai querer saber quem convocou Luc\u00edlia Gago ao Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m, quem violou o sigilo do Conselho de Estado ou quem escreveu o \u00faltimo par\u00e1grafo do comunicado do Minist\u00e9rio P\u00fablico. H\u00e1 apenas uma realidade que permanece na consci\u00eancia colectiva: a percep\u00e7\u00e3o injusta, mas generalizada, de que os \u00f3rg\u00e3os do\u00a0 poder s\u00e3o liderados por uma elite corrupta, que os pol\u00edticos mentem e s\u00e3o todos iguais, e que este sistema pol\u00edtico\u00a0 n\u00e3o resolve os problemas das pessoas. Estamos a escancarar a porta \u00e0queles que queremos combater.<\/strong><\/p>\n<p>Os factos e declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que ocorreram na sequ\u00eancia da decis\u00e3o presidencial de dissolver o parlamento e marcar novas elei\u00e7\u00f5es, t\u00eam sido largamente comentados dos pontos de vista pol\u00edtico e jur\u00eddico. Pouco se tem reflectido sobre o seu impacto na percep\u00e7\u00e3o social das institui\u00e7\u00f5es. A actual crise pol\u00edtica est\u00e1 a afectar a confian\u00e7a nos \u00f3rg\u00e3os do estado e a degradar os alicerces da democracia liberal e do\u00a0 estado de direito.<\/p>\n<p>Seria dif\u00edcil imaginar uma prenda mais desejada pelo extremismo ideol\u00f3gico: contas certas com \u00e9tica errada. O papel desempenhado pelos principais protagonistas pol\u00edticos, os jogos t\u00e1cticos, as contradi\u00e7\u00f5es mal esclarecidas, a mentira e, sobretudo, a ignor\u00e2ncia de princ\u00edpios m\u00ednimos de transpar\u00eancia e integridade, s\u00e3o um tapete vermelho para o radicalismo e uma via r\u00e1pida para a polariza\u00e7\u00e3o social. As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o o teste do algod\u00e3o que vai traduzir tudo em n\u00fameros.<\/p>\n<p>Um dos aspectos mais debatidos \u00e9, no caso da opera\u00e7\u00e3o <em>Influenciadores<\/em> (o inglesismo \u00e9 desnecess\u00e1rio), a despropor\u00e7\u00e3o entre as medidas de coac\u00e7\u00e3o propostas pelo Minist\u00e9rios P\u00fablico e a decis\u00e3o do Juiz de Instru\u00e7\u00e3o que deixou cair as medidas mais gravosas, por n\u00e3o valorizar as provas apresentadas. N\u00e3o obstante, a simples exist\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o levou \u00e0 demiss\u00e3o do primeiro-ministro, \u00e0 queda do governo e \u00e0 deten\u00e7\u00e3o por cinco dias dos arguidos para interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Tudo isto decorreu no cumprimento da lei, mas os factos levantaram suspeitas sobre a independ\u00eancia pol\u00edtica do Minist\u00e9rio P\u00fablico e do Juiz de Instru\u00e7\u00e3o. O Primeiro-Ministro, o Presidente da Assembleia da Rep\u00fablica e outros respons\u00e1veis pol\u00edticos pronunciaram-se contra os excessos da investiga\u00e7\u00e3o e a morosidade da justi\u00e7a. Debateu-se a independ\u00eancia do poder judicial em rela\u00e7\u00e3o ao poder pol\u00edtico e a aus\u00eancia de escrut\u00ednio sobre as actua\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Seguiu-se, como \u00e9 habitual, a revela\u00e7\u00e3o a conta gotas, dos conte\u00fados do inqu\u00e9rito, em descarada viola\u00e7\u00e3o do segredo de justi\u00e7a, como vem sendo habitual.<\/p>\n<p>O mais dif\u00edcil de compreender \u00e9 que as cr\u00edticas ao funcionamento da justi\u00e7a foram feitas por governantes e deputados, uns no activo, outros que j\u00e1 desempenharam fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, \u00a0mas todos tiveram o poder de alterar o quadro legal de que agora se sentem v\u00edtimas, nada tendo feito. S\u00f3 agora, quando atingidos, acordaram para problemas que afectam h\u00e1 muito a generalidade do cidad\u00e3os. Sabe-se h\u00e1 d\u00e9cadas que a justi\u00e7a necessita de reformas e de meios que resolvam o mantra do \u201ctempo da justi\u00e7a\u201c, criem mecanismos que tornem a sua actividade mais transparente, que finalmente se esclare\u00e7a a quest\u00e3o do segredo de justi\u00e7a, mas nunca se conseguiu o entendimento pol\u00edtico necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os respons\u00e1veis que hoje contestam as disfun\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a est\u00e3o no papel paradoxal de <em>v\u00edtimas e de respons\u00e1veis<\/em>. S\u00f3 t\u00eam que se queixar de si pr\u00f3prios. Entretanto, os problemas que n\u00e3o souberam ou n\u00e3o quiseram resolver s\u00e3o trazidos pelos pr\u00f3prios \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, favorecendo o descr\u00e9dito da fun\u00e7\u00e3o judicial e lan\u00e7ando a suspei\u00e7\u00e3o sobre a separa\u00e7\u00e3o de poderes. S\u00e3o, por isso, duplamente respons\u00e1veis: pelas reformas que n\u00e3o fizeram e pelo alarme p\u00fablico que provocam. Est\u00e3o com isso a contribuir para a percep\u00e7\u00e3o negativa das institui\u00e7\u00f5es, da pol\u00edtica e da democracia.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro \u00e9 outra v\u00edtima de si pr\u00f3prio. Rodeou-se e quem n\u00e3o devia, sabendo de quem se rodeava. O chefe de gabinete, V\u00edctor Esc\u00e1ria, tinha um curriculum pouco favor\u00e1vel \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que as fun\u00e7\u00f5es exigem. Antes de agora ser constitu\u00eddo arguido, j\u00e1 tinha sido assessor econ\u00f3mico do primeiro-ministro (1916-17), lugar de que se demitiu quando foi envolvido no caso das viagens pagas pela Galp ao Euro 2016. Escapou a julgamento depois de pagar uma multa de pouco mais de um milhar de euros. Segundo a LUSA, ap\u00f3s a demiss\u00e3o foi liderar uma equipa do ISEG que continuou a prestar assessoria ao governo, atrav\u00e9s de um contrato com a Agencia de Desenvolvimento e Coes\u00e3o. Entre 2005 e 2011 foi assessor de Jos\u00e9 S\u00f3crates. Ainda dep\u00f4s como testemunha na Opera\u00e7\u00e3o Marqu\u00eas mas n\u00e3o foi acusado de qualquer crime.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds onde abundam economistas de gabarito, era esta a melhor escolha quando se conhece o peso cada vez maior do escrut\u00ednio p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o aos actores pol\u00edticos, e a necessidade de manter uma imagem impoluta das institui\u00e7\u00f5es? Foi preciso aparecerem 75 mil euros em notas, no seu gabinete, para ser exonerado. Muito se teria poupado no desprest\u00edgio das institui\u00e7\u00f5es e \u00a0das suas lideran\u00e7as, se nunca tivesse sido nomeado.<\/p>\n<p>O caso de Lacerda Machado era evitado se se ouvisse a sabedoria popular: \u201camigos, amigos, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d. Lacerda Machado entrou para o governo, no segundo governo de Guterres, como secret\u00e1rio de estado do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a tutelado por Ant\u00f3nio Costa. Desde ent\u00e3o tem sido o consultor-amigo do primeiro-ministro, num misto de rela\u00e7\u00f5es pessoais e institucionais, de formalismo e informalismo, dif\u00edceis de destrin\u00e7ar. Esteve \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es com os lesados do BES, negociou a revers\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o da TAP, foi administrador n\u00e3o executivo da mesma companhia e agora fazia parte da comiss\u00e3o que procura interessados para a privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu papel \u00e9 um misto de empres\u00e1rio, consultor, advogado de neg\u00f3cios e influenciador. Nos \u00faltimos anos foi consultor da Pioneer Point Patners, uma das empresas do cons\u00f3rcio, que se prop\u00f5e investir 3,5 mil milh\u00f5es no megacentro de dados, em Sines. As decis\u00f5es pol\u00edticas sobre este empreendimento est\u00e3o agora sob investiga\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Lacerda Machado desempenha simultaneamente os papeis de consultor da empresa interessada nas facilidades do governo, de negociador em nome do mesmo governo e de melhor amigo do chefe do governo. Se aqui n\u00e3o h\u00e1 conflitos de interesses, eu n\u00e3o sei o que isso \u00e9. Mas o pr\u00f3prio achar\u00e1, candidamente, que nada disto \u00e9 problem\u00e1tico e chegou a declarar em inqu\u00e9rito (com base em quebra de sigilo que circula na comunica\u00e7\u00e3o social), \u00a0ter jantado com o primeiro-ministro apenas para falarem de assuntos pessoais. Lacerda Machado espera mesmo que algu\u00e9m acredite?<\/p>\n<p>\u00c9 do senso comum que as fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o escrutinadas e a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica, justa ou injusta, determina a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso, simultaneamente, ser e parecer. A transpar\u00eancia e integridade, no exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, n\u00e3o se compadece com a confus\u00e3o entre amiguismo e responsabilidades de estado, favorecimentos pessoais e interesse p\u00fablico. Este clima nubloso teve um autor: Ant\u00f3nio Costa, por muito que n\u00e3o esteja criminalmente envolvido, mas a justi\u00e7a o dir\u00e1. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que atribua a sua demiss\u00e3o \u00e0 deslealdade dos seus directos colaboradores, a amizades tra\u00eddas ou ao \u00faltimo par\u00e1grafo do comunicado do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Ant\u00f3nio Costa viveu o desfecho duma hist\u00f3ria que escreveu. Rodeou-se de quem n\u00e3o devia e pagou por isso.<\/p>\n<p>O impacto da crise actual, na percep\u00e7\u00e3o social das \u00a0institui\u00e7\u00f5es, teve o ponto mais alto em dois epis\u00f3dios pouco comentados pela sua menor relev\u00e2ncia pol\u00edtica, mas com grande significado \u00e9tico. O primeiro \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o entre o Presidente da Rep\u00fablica e o Governador do Banco de Portugal. M\u00e1rio Centeno declarou ao Financial Times com toda a clareza: \u201cRecebi um convite do Presidente e do primeiro-ministro para refletir e considerar a possibilidade de liderar o Governo\u201d.\u00a0De imediato o Presidente responde com um comunicado onde afirma que \u201cdesmente que tenha convidado quem quer que seja, nomeadamente o governador do Banco de Portugal, para chefiar o governo\u201d. Em novo comunicado M\u00e1rio Centeno retrata-se e afirma \u201c\u00e9 inequ\u00edvoco que o senhor Presidente da Republica n\u00e3o me convidou para chefiar o governo\u201d. \u00c9, pois, inequ\u00edvoco, isso sim, \u00a0que o governador do Banco de Portugal faltou \u00e0 verdade e admitiu isso mesmo.<\/p>\n<p>O facto parece n\u00e3o ter impressionado ningu\u00e9m, nem sequer a comiss\u00e3o de \u00e9tica do Banco de Portugal que, reunida para avaliar a conduta do governador, limitou-se a atestar a sua independ\u00eancia para continuar no exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es. Ter um governador que falta \u00e0 verdade de forma descarada e admitida, sem nunca ter explicado porque raz\u00e3o o fez, parece n\u00e3o ter qualquer import\u00e2ncia. Nem para a Comiss\u00e3o de \u00c9tica, nem para a generalidade da opini\u00e3o p\u00fablica. O facto passou com inteira normalidade.<\/p>\n<p>O segundo epis\u00f3dio \u00e9 tamb\u00e9m ilustrativo. Quem chamou a Procuradora Geral da Rep\u00fablica ao Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m? Em Bissau, o Presidente declarou \u00e0 imprensa &#8220;\u2026 o senhor primeiro-ministro j\u00e1 esclareceu que ele pediu para eu pedir o encontro \u00e0 senhora procuradora-geral da Rep\u00fablica&#8221;. Ant\u00f3nio Costa nega ter dito <em>publicamente<\/em> ter sido ele a pedir ao Presidente da Rep\u00fablica a presen\u00e7a de Luc\u00edlia Gago, em Bel\u00e9m. Entretanto veio \u00e0 li\u00e7a o Conselheiro de Estado Lobo Xavier, gerando-se um imbr\u00f3glio incompreens\u00edvel de passa-culpas.\u00a0 O tema seria de somenos import\u00e2ncia n\u00e3o se tratasse de duas principais figuras do estado, deixando a pairar a ideia de que algu\u00e9m faltou \u00e0 verdade ou est\u00e1 a fazer insinua\u00e7\u00f5es acusat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Nenhum destes epis\u00f3dios parece ter incomodado nem os comentadores de servi\u00e7o nem a opini\u00e3o p\u00fablica em geral. A mentira parece j\u00e1 n\u00e3o incomodar ningu\u00e9m e ser um facto natural mesmo quando usada por pessoas com particulares responsabilidades p\u00fablicas. \u00c9 a <em>normaliza\u00e7\u00e3o da mentira e da falta de transpar\u00eancia<\/em>, um fen\u00f3meno que se torna recorrente e que contribui para a degrada\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica, e para o descr\u00e9dito nas institui\u00e7\u00f5es e nas suas lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>Pedro Nuno Santos \u00e9 o que reage \u00e0 actual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com a estrat\u00e9gia mais criativa e at\u00e9 surrealista: refundar-se a si pr\u00f3prio. Deixar de existir e renascer imaculado. Pedro Nuno Santos tem uma carreira pol\u00edtica recheada de acidentes pouco abonat\u00f3rios. Em dezembro de 2011 ficou conhecido por esta proclama\u00e7\u00e3o heroica, no jantar de Natal do PS, em Castelo Branco, acerca do pagamento da d\u00edvida p\u00fablica portuguesa: \u201cEstou-me marimbando para os nossos credores. Ou os senhores se p\u00f5em finos ou n\u00f3s n\u00e3o pagamos. E se n\u00f3s n\u00e3o pagarmos a d\u00edvida e lhes dissermos, as pernas dos banqueiros alem\u00e3es at\u00e9 tremem!&#8221;. Ironicamente, dois anos antes, tinha sido condecorado com a Gr\u00e3-Cruz do M\u00e9rito da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ordem_do_M%C3%A9rito_da_Rep%C3%BAblica_Federal_da_Alemanha\">Ordem do M\u00e9rito da Rep\u00fablica Federal<\/a>\u00a0da\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Alemanha\">Alemanha<\/a>.<\/p>\n<p>Apoiante indefect\u00edvel de Jos\u00e9 S\u00f3crates e da sua pol\u00edtica que levou ao resgate financeiro do pa\u00eds, foi Ministro das Infraestruturas e da Habita\u00e7\u00e3o, de XXI e XXII governos constitucionais, deixando a situa\u00e7\u00e3o habitacional do pa\u00eds no estado que se conhece. Mas um dos momentos mais marcantes da sua actividade pol\u00edtica foi, sem d\u00favida, o an\u00fancio, em Junho de 2022, da constru\u00e7\u00e3o do novo aeroporto, no Montijo. Uma decis\u00e3o que surpreendeu tudo e todos, inclusivamente o primeiro-ministro que, da Cimeira da Nato, em Madrid, revogou de imediato o despacho. Pedro Nuno desceu \u00e0 terra e confessou que \u201cfoi um momento infeliz\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto titular das Infraestruturas, foi um dos protagonistas da balb\u00fardia que caracterizou a gest\u00e3o da TAP e foi o respons\u00e1vel pela aprova\u00e7\u00e3o de uma indemniza\u00e7\u00e3o de meio milh\u00e3o de euros, de que n\u00e3o se recordava. Na sequ\u00eancia desta amn\u00e9sia, de que mais tarde recuperou consultando o arquivo do WhatsApp, veio a pedir a demiss\u00e3o do cargo.<\/p>\n<p>Mal tinha terminado uma breve travessia do deserto e come\u00e7ava a vestir nova pele pol\u00edtica com um coment\u00e1rio semanal de opini\u00e3o, num canal televisivo, Pedro Nuno Santos \u00e9 surpreendido com a queda do governo e a marca\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es. Detentor de um curriculum com epis\u00f3dios pouco abonat\u00f3rios e com factos recentes que o marcaram negativamente, adoptou uma estrat\u00e9gia simples: matar o passado e renascer novinho em folha. No discurso de candidatura a secret\u00e1rio-geral do PS, arruma o seu passado com o argumento irrefut\u00e1vel de que \u201cerros todos n\u00f3s praticamos\u201d, e refunda-se politicamente como \u201cneto de sapateiro e filho de um empres\u00e1rio\u201d de S. Jo\u00e3o da Madeira. Portanto, ningu\u00e9m mais indicado para promover o di\u00e1logo colaborativo do trabalho com o capital. Um verdadeiro <em>reset<\/em> pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Pedro Nuno Santos tem boas condi\u00e7\u00f5es para ter sucesso com o seu carisma comunicacional, \u00edmpeto reformista e a imagem de Lenine p\u00f3s-moderno, numa sociedade em que a personaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u00e9 cada vez mais evidente. Note-se, contudo, que o que ocorreu com as diversas atitudes e decis\u00f5es que assumiu, n\u00e3o foram erros. Erro \u00e9 a diferen\u00e7a entre uma estimativa ou um par\u00e2metro fixado, e o que realmente ocorre. Aquilo a que Pedro Nuno Santos chama erros do passado aproxima-se mais de demonstra\u00e7\u00f5es de ligeireza, irresponsabilidade e falta de sentido de estado, que tamb\u00e9m contribu\u00edram para o descredito dos \u00f3rg\u00e3os do estado e para a generaliza\u00e7\u00e3o perigosa de que todos os pol\u00edticos s\u00e3o iguais pondo os seus objectivos pessoais e partid\u00e1rios acima do bem colectivo.<\/p>\n<p>A crise pol\u00edtica que vivemos tem uma dimens\u00e3o sociol\u00f3gica e \u00e9tica que est\u00e1 a ser minimizada. A discuss\u00e3o p\u00fablica centra-se nas solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es podem trazer, nas quest\u00f5es jur\u00eddicas levantadas pelas investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico e nos direitos dos arguidos. Para todas elas h\u00e1 mecanismos formais que permitem encontrar solu\u00e7\u00f5es.\u00a0 O plano menos vis\u00edvel, mas com danos mais graves, \u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o da imagem das institui\u00e7\u00f5es, o desinteresse pela interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a descren\u00e7a nas lideran\u00e7as e a quebra de confian\u00e7a na democracia representativa.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa por um cord\u00e3o sanit\u00e1rio a isolar a direita radical, nem por solu\u00e7\u00f5es que ignoram o voto leg\u00edtimo dos que a apoiam. Quem votou ou vier a votar nos extremos pol\u00edticos tem que ser respeitado. Estes partidos foram legalizados pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a e fazem parte do \u00a0sistema pol\u00edtico. N\u00e3o pode haver votos nem cidad\u00e3os de segunda categoria. A representa\u00e7\u00e3o parlamentar de todos tem que ser respeitada ou estamos a negar a ess\u00eancia democracia representativa. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em combater os efeitos mas em evitar as causas. E as causas est\u00e3o \u00e0 vista. S\u00e3o a incompet\u00eancia, a irresponsabilidade, a falta de integridade e de sentido de estado de alguns respons\u00e1veis pol\u00edticos. Quando se confrontarem com os pr\u00f3ximos resultados eleitorais, que muito provavelmente v\u00e3o mostrar o aumento da polariza\u00e7\u00e3o social e do extremismo, dificultando os consensos e a governabilidade, s\u00f3 t\u00eam que se queixar de si pr\u00f3prios. \u00c9 poss\u00edvel que ningu\u00e9m aprenda?<\/p>\n<p>Quando baixar a poeira da crise actual, ningu\u00e9m vai querer saber quem convocou Luc\u00edlia Gago ao Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m, quem violou o sigilo do Conselho de Estado ou quem escreveu o \u00faltimo par\u00e1grafo do comunicado do Minist\u00e9rio P\u00fablico. H\u00e1 apenas uma realidade que permanece na consci\u00eancia colectiva: a percep\u00e7\u00e3o injusta, mas generalizada, de que os \u00f3rg\u00e3os do\u00a0 poder s\u00e3o liderados por uma elite corrupta, que os pol\u00edticos mentem e s\u00e3o todos iguais, e que este sistema pol\u00edtico\u00a0 n\u00e3o resolve os problemas das pessoas. Estamos a escancarar a porta \u00e0queles que queremos combater.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, estava a falar com um amigo argentino sobre a elei\u00e7\u00e3o do presidente\u00a0 Javier Milei e comecei a mostrar-lhe uma entrevista do rec\u00e9m-eleito presidente, a uma jornalista argentina, esperando ouvir dele a indigna\u00e7\u00e3o com a linguagem grosseira e os comportamentos psic\u00f3ticos que percorriam a entrevista.\u00a0 Em vez disso, o meu amigo confidenciou-me que\u00a0 foi um dos 56% que votaram em Javier Milei e surpreendeu-me com esta explica\u00e7\u00e3o: &#8220;al menos es diferente!&#8221;. \u00a0\u00c9 disto que estamos \u00e0 espera?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a da Cat\u00f3lica Lisbon School of Business and Economics<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-3390","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - 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