{"id":3595,"date":"2023-12-18T16:54:45","date_gmt":"2023-12-18T16:54:45","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=3595"},"modified":"2023-12-18T16:54:45","modified_gmt":"2023-12-18T16:54:45","slug":"e-o-populismo-agradece-os-votos-do-protesto-e-da-desconfianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2023\/12\/18\/e-o-populismo-agradece-os-votos-do-protesto-e-da-desconfianca\/","title":{"rendered":"E o populismo agradece! Os votos do protesto e da desconfian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Os \u00faltimos acontecimentos refor\u00e7am em muitas pessoas uma ideia central que caracteriza o populismo: a sociedade est\u00e1 dividida entre uma elite corrupta que det\u00e9m o poder, goza de privil\u00e9gios e n\u00e3o tem contacto com a realidade, e o povo que \u00e9 explorado e n\u00e3o tem acesso aos seus direitos. <\/strong><\/p>\n<p>Depois de uma investiga\u00e7\u00e3o judicial que atingiu o Primeiro-Ministro (PM), levou \u00e0 demiss\u00e3o do Governo, \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica e \u00e0 marca\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es, aquilo de que menos precis\u00e1vamos era de uma crise que afectasse a credibilidade do principal garante e estabilizador da democracia: o Presidente da Rep\u00fablica (PR).<\/p>\n<p>Vamos atravessar tempos complexos que exigem o uso inteligente dos poderes, compromissos dif\u00edceis e capacidade de decis\u00e3o, e haver\u00e1 sempre os que aplaudem e os que ficam frustrados. \u00c9 prov\u00e1vel que os pr\u00f3ximos resultados eleitorais reforcem os extremos do espectro pol\u00edtico, enfraque\u00e7am o centro e ditem uma solu\u00e7\u00e3o de governa\u00e7\u00e3o que exige acordos partid\u00e1rios. O papel do PR ganha maior centralidade num contexto de crise em que \u00e9 necess\u00e1rio garantir o cumprimento da constitui\u00e7\u00e3o, a governabilidade do pa\u00eds e estabilidade pol\u00edtica para se concretizar os projectos de investimento que est\u00e3o em curso. A confian\u00e7a na institui\u00e7\u00e3o presidencial \u00e9 mais importante do que nunca.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esta confian\u00e7a que pode ter ficado abalada com o caso agora trazido a p\u00fablico das g\u00e9meas luso-brasileiras tratadas no SNS. Como \u00e9 h\u00e1bito, instalou-se a confus\u00e3o com revela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a conta-gotas, depoimentos contradit\u00f3rios, justifica\u00e7\u00f5es absurdas, os desprop\u00f3sitos de um Director de Servi\u00e7os hospitalares, e o recurso de v\u00e1rios protagonistas aos alibis do costume: n\u00e3o se recordam, s\u00f3 falam em sede pr\u00f3pria e esperaram o tempo da justi\u00e7a. Tudo isto aumenta o ru\u00eddo, polariza as opini\u00f5es, alimenta a indigna\u00e7\u00e3o e lesa a dignidade da figura presidencial.<\/p>\n<p>O circuito que o processo fez nos \u00f3rg\u00e3os oficiais at\u00e9 as g\u00e9meas receberem tratamento e as responsabilidades dos v\u00e1rios intervenientes est\u00e3o a ser apurados em tr\u00eas inqu\u00e9ritos. Entretanto, o assunto desceu e as aten\u00e7\u00f5es est\u00e3o agora centradas na legalidade da interven\u00e7\u00e3o do Secret\u00e1rio de Estado da Sa\u00fade, junto do hospital, para agilizar a consulta m\u00e9dica. Seja como for, uma coisa \u00e9 certa e clara: Nuno Rebelo de Sousa, filho do PR, \u201cmeteu uma cunha\u201d ao pai, com o intuito de beneficiar pessoas amigas. \u00c9 esta a origem da quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A \u201ccunha\u201d tem ra\u00edzes profundas na sociedade portuguesa<\/strong><br \/>\n\u201cMeter uma cunha\u201d \u00e9 a express\u00e3o popular que designa uma pr\u00e1tica culturalmente enraizada em algumas sociedades, que consiste em usar os contactos pessoais para pedir a outra pessoa que utilize a sua influ\u00eancia ou capacidade de decis\u00e3o, com o objectivo de obter um benef\u00edcio para si ou para terceiros.<\/p>\n<p>Esta ac\u00e7\u00e3o envolve dois actores com pap\u00e9is diferentes mas complementares. O que faz o pedido de favorecimento sabe que pretende fruir de um benef\u00edcio que o coloca numa situa\u00e7\u00e3o de vantagem em rela\u00e7\u00e3o aos outros, provocando uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade de tratamento. O que aceita conceder a vantagem est\u00e1 a abusar do poder utilizando-o de forma indevida para privilegiar os interesses de uns, em preju\u00edzo dos leg\u00edtimos interesses de outros. Quando o abuso do poder \u00e9 em benef\u00edcio de familiares ou pr\u00f3ximos, estamos perante o que se designa de nepotismo.<\/p>\n<p>O recente estudo de Ribeiro-Bidaoui, Anatomia da Cunha Portuguesa, d\u00e1 um retrato sociocultural muito completo e fundamentado deste fen\u00f3meno, da sua funcionalidade e dos preju\u00edzo para a sociedade. A \u201ccunha\u201d e o compadrio n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e1ticas exclusivas dos portugueses, mas atravessaram a revolu\u00e7\u00e3o liberal, a monarquia constitucional, a primeira rep\u00fablica, a ditadura do Estado Novo e continuam presentes no Portugal democr\u00e1tico. S\u00e3o pr\u00e1ticas correntes, tratadas com toler\u00e2ncia bem expressa na pergunta \u201cquem \u00e9 que nunca meteu uma cunha?\u201d<\/p>\n<p>A \u201ccunha\u201d tem ra\u00edzes profundas no nosso comportamento colectivo. \u00c9 um tra\u00e7o cultural relacionado com as tr\u00eas dimens\u00f5es que descrevem a sociedade portuguesa, no modelo proposto por Geert Hofstede: elevada dist\u00e2ncia ao poder, colectivismo e avers\u00e3o \u00e0 incerteza.<\/p>\n<p>Embora a dist\u00e2ncia ao poder tenha diminu\u00eddo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, sobretudo com as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, permanece a tend\u00eancia, na sociedade portuguesa, para aceitar (quase sempre de forma pouco consciente) que o poder est\u00e1 desigualmente distribu\u00eddo e que h\u00e1 hierarquias sociais bem definidas, com base na riqueza, no estatuto ou na origem de fam\u00edlia. Na sociedade, como nas organiza\u00e7\u00f5es, as desigualdades sociais, as hierarquias de poder e as diferen\u00e7as de estatuto s\u00e3o vistas como parte integrante da ordem social e tendem a n\u00e3o ser contestadas. O poder est\u00e1 centrado no topo e as pessoas que o exercem s\u00e3o tratadas com dist\u00e2ncia, rever\u00eancia e at\u00e9 submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta dimens\u00e3o cultural tem tr\u00eas consequ\u00eancias. A comunica\u00e7\u00e3o ao longo das hierarquias \u00e9 lenta e sujeita a adultera\u00e7\u00f5es, e as responsabilidades s\u00e3o sempre atribu\u00edveis aos decisores do n\u00edvel acima, enquanto estes tentam atribu\u00ed-las ao desempenho dos n\u00edveis inferiores. As diferen\u00e7as de poder entre a base e o topo da hierarquia fazem com que, quem est\u00e1 no topo, tenda a proteger algumas pessoas na base como forma de obter favores pessoais e clientelismos, ao mesmo tempo que, quem ocupa posi\u00e7\u00f5es inferiores na hierarquia, procura a proximidade e a protec\u00e7\u00e3o dos que t\u00eam mais poder.<\/p>\n<p>A elevada dist\u00e2ncia ao poder ajuda a explicar por que raz\u00e3o as pessoas com menos poder se servem dos relacionamentos pessoais com pessoas mais bem posicionadas, para obter vantagens. A \u201ccunha\u201d \u00e9 uma forma de utilizar o poder dos mais influentes em seu benef\u00edcio, obtendo uma vantagem injusta sobre aqueles que n\u00e3o disp\u00f5em de contactos pessoais para ter benef\u00edcio id\u00eantico. A \u201ccunha\u201d \u00e9 uma estrat\u00e9gia adoptada por aqueles que n\u00e3o t\u00eam poder, mas t\u00eam acesso a quem o tem, para alcan\u00e7arem os seus objectivos atrav\u00e9s de um tratamento de favor.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as sociedades colectivistas, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s individualistas, est\u00e3o mais expostas aos fen\u00f3menos de corrup\u00e7\u00e3o. A \u201ccunha\u201d reflecte o colectivismo que caracteriza a sociedade portuguesa. Nestas sociedades domina a lealdade aos grupos de perten\u00e7a, sobre a independ\u00eancia individual. As pessoas devem fazer uma discrimina\u00e7\u00e3o positiva em fun\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os de fam\u00edlia, de amizade, de vizinhan\u00e7a, ou de interesses corporativos, o que leva a decis\u00f5es que favorecem os interesses privados ou dos grupos de perten\u00e7a, em detrimento do interesse colectivo.<\/p>\n<p>Estas sociedades tamb\u00e9m cultivam as rela\u00e7\u00f5es informais, a reciprocidade e a troca de favores como uma obriga\u00e7\u00e3o social, o que explica que os fen\u00f3menos de favorecimento das pessoas e grupos mais pr\u00f3ximos estejam relativamente normalizados, chegando a ser socialmente condenado quem n\u00e3o favore\u00e7a familiares ou amigos pr\u00f3ximos, estando em posi\u00e7\u00e3o de poder faz\u00ea-lo. Por seu lado, o \u201cfacilitador\u201d pode sentir-se \u201cmoralmente obrigado\u201d a exercer o seu poder de influ\u00eancia em favor do outro, pela rela\u00e7\u00e3o familiar ou de amizade que tem com ele, ou pela obriga\u00e7\u00e3o de retribuir favores que recebeu.<\/p>\n<p>Apesar de serem pr\u00e1ticas frequentes, toleradas e at\u00e9 aconselhadas \u00e0s pessoas mais pr\u00f3ximas, s\u00e3o fortemente condenadas em abstracto, quando beneficiam estranhos ou prejudicam os pr\u00f3prios. A pr\u00e1tica, consagrada na linguagem comum, das \u201ccunhas\u201d, dos \u201cpedidos\u201d, das \u201crecomenda\u00e7\u00f5es\u201d, dos &#8220;jeitinhos&#8221;, dos &#8220;conhecimentos&#8221; e dos \u201cfavores\u201d \u00e9 t\u00edpica desta dimens\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>A evita\u00e7\u00e3o da incerteza tamb\u00e9m ajuda a explicar a pr\u00e1tica da \u201ccunha\u201d. As sociedades com maior \u00edndice de evita\u00e7\u00e3o da incerteza t\u00eam tend\u00eancia para controlar o imprevisto, limitar os riscos, rejeitar o desconhecido e evitar situa\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas. S\u00e3o pouco tolerantes \u00e0 imprevisibilidade do futuro e n\u00e3o confiam na autonomia individual para se tomar as decis\u00f5es. O sentimento de seguran\u00e7a \u00e9 central na motiva\u00e7\u00e3o das pessoas. Por isso, desenvolvem cren\u00e7as e c\u00f3digos de conduta numerosos, detalhados e r\u00edgidos, e tendem a adoptar estruturas pesadas e complexas.<\/p>\n<p>A \u201ccunha\u201d aparece tamb\u00e9m como uma estrat\u00e9gia para lidar com a lentid\u00e3o e a burocracia que caracterizam as organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma forma de desbloquear decis\u00f5es, agilizar processos ou conseguir solu\u00e7\u00f5es customizadas, o que faz muitas pessoas avaliarem a \u201ccunha\u201d como uma pr\u00e1tica normal e at\u00e9 necess\u00e1ria para lidar com as barreiras formais e a opacidade da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u201cTer conhecimentos\u201d \u00e9 tido como a chave para resolver muitas situa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia e at\u00e9 para ter sucesso na vida.<br \/>\nFoi esta pr\u00e1tica culturalmente enraizada que ocorreu entre o PR e o filho, no caso das g\u00e9meas. Uma an\u00e1lise mais detalhada dos factos parece indicar que houve uma atitude impr\u00f3pria do filho e uma gest\u00e3o pouco prudente do caso por parte do PR.<\/p>\n<p>O homem que foi a causa da pol\u00e9mica que colocou o PR numa situa\u00e7\u00e3o delicada \u00e9 licenciado em Economia, tem uma longa carreira em multinacionais, trabalhou no Brasil e regressou a Portugal ocupando actualmente o lugar de Director de Marketing e Comunica\u00e7\u00e3o, da EDP Brasil. Trata-se, portanto, de algu\u00e9m que \u00e9 capaz de avaliar as responsabilidades da fun\u00e7\u00e3o presidencial, a natureza do acto que praticou e as suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, jur\u00eddicas, \u00e9ticas e medi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Nuno Rebelo de Sousa aproveitou a rela\u00e7\u00e3o familiar pr\u00f3xima para usar a influ\u00eancia da primeira figura do Estado no sentido de conseguir um tratamento de favor a pessoas amigas, numa \u00e1rea particularmente sens\u00edvel: a sa\u00fade. \u00c9 dif\u00edcil admitir que o pr\u00f3prio n\u00e3o tivesse a no\u00e7\u00e3o da forte censura social que esta iniciativa teria se fosse revelada. A atitude de Nuno Rebelo de Sousa passou sem qualquer coment\u00e1rio, como se fosse uma pr\u00e1tica normal, concentrando-se a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica na forma como o PR geriu o caso e agora no papel do Secret\u00e1rio de Estado da Sa\u00fade, quando, em boa verdade, lhe cabe a responsabilidade de ter sido a causa, com a iniciativa que tomou.<\/p>\n<p>O caso das g\u00e9meas ocorreu h\u00e1 quatro anos, mas veio a p\u00fablico na pior altura: numa conjuntura de crise econ\u00f3mica, como o SNS a n\u00e3o responder \u00e0s necessidades b\u00e1sicas do cidad\u00e3o comum e na sequ\u00eancia de uma crise pol\u00edtica gerada por suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o no governo. A descoberta de que se usou uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade familiar para mover a influ\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo do estado, no sentido de obter um tratamento de favor num acto m\u00e9dico, s\u00f3 podia ter um efeito explosivo na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>O PR recebe muitas peti\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os a que d\u00e1 o devido encaminhamento, mas neste caso n\u00e3o ponderou o facto de o pedido lhe ser feito por um familiar directo. Tudo indica que o PR despachou o assunto como faria com qualquer outro, enviando-o para o governo e da\u00ed seguindo as vias normais. Neste caso, contudo, a adop\u00e7\u00e3o do procedimento usual n\u00e3o impedia a influ\u00eancia do PR, mesmo que n\u00e3o fosse intencional. Ao longo do curso que o assunto teria na administra\u00e7\u00e3o, era sempre poss\u00edvel identificar o remetente e o peticion\u00e1rio. Os decisores envolvidos percebiam ser um assunto enviado pelo PR e respeitante ao seu filho. \u00c9 bem prov\u00e1vel que se sentissem condicionados nas decis\u00f5es que tomassem, mesmo que n\u00e3o houvesse essa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode impedir que um familiar lhe venha pedir que exer\u00e7a o poder a seu favor, mas neste caso de particular sensibilidade muito do que sucedeu teria sido evitado se o procedimento presidencial tivesse sido, em vez de encaminhar o pedido do filho, como qualquer outro (que na verdade n\u00e3o era), tivesse encaminhado o pr\u00f3prio filho para contactar directamente os servi\u00e7os cl\u00ednicos do hospital. Um psic\u00f3logo evolucionista diria que o PR n\u00e3o resistiu \u00e0 f\u00f3rmula de Hamilton: a proximidade gen\u00e9tica estimula os comportamentos de coopera\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p><strong>Levar o populismo ao colo at\u00e9 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nIndependentemente das conclus\u00f5es dos inqu\u00e9ritos em curso para apuramento de responsabilidades, a imagem do PR sai afectada. Isto ocorre pouco depois das investiga\u00e7\u00f5es sobre suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o na equipa governativa terem posto em causa tanto a confian\u00e7a no governo como na independ\u00eancia da justi\u00e7a. Este ambiente de suspei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0s suas lideran\u00e7as, e a indigna\u00e7\u00e3o causada pelas explica\u00e7\u00f5es atabalhoadas, os tacticismos, e as faltas \u00e0 verdade de alguns respons\u00e1veis, \u00e9 o caldo em que cresce a ades\u00e3o \u00e0 ret\u00f3rica populista.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos acontecimentos refor\u00e7am em muitas pessoas uma ideia central que caracteriza o populismo: a sociedade est\u00e1 dividida entre uma elite corrupta que det\u00e9m o poder, goza de privil\u00e9gios e n\u00e3o tem contacto com a realidade, e o povo que \u00e9 explorado e n\u00e3o tem acesso aos seus direitos. Os casos de nepotismo, de abuso de poder e de tr\u00e1fico de influ\u00eancias, envolvendo figuras p\u00fablicas, dicotomizam a percep\u00e7\u00e3o da realidade social em \u201celes\u201d e \u201cn\u00f3s\u201d. Uma minoria que goza de condi\u00e7\u00f5es de excep\u00e7\u00e3o e de vantagens que concede a si pr\u00f3pria, e os restantes cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>O populismo tamb\u00e9m costuma assumir uma postura de superioridade moral que acaba por ser refor\u00e7ada por estes acontecimentos. Os casos de corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o usados para generalizar a ideia de que os \u00f3rg\u00e3os da democracia liberal est\u00e3o minados pela corrup\u00e7\u00e3o e que \u00e9 preciso fazer uma \u201crefunda\u00e7\u00e3o moral da sociedade\u201d, para restaurar a \u00e9tica e os bons costumes. Os casos de corrup\u00e7\u00e3o, comprovados ou sob suspeita, exigem, do seu ponto de vista, mais do que puni\u00e7\u00e3o legal, a \u201creforma moral\u201d de um sistema pol\u00edtico que est\u00e1 decadente. O populismo, de esquerda ou de direita, reclama-se da sua exemplaridade moral, e \u00e9 severo e justicialista.<\/p>\n<p>Outra tese populista que a actual situa\u00e7\u00e3o ajuda a disseminar, \u00e9 a ideia de que os l\u00edderes que a sociedade precisa s\u00e3o aqueles que dizem o que as pessoas pensam, e utilizam a sua linguagem. Estabelecem uma conex\u00e3o emocional com o cidad\u00e3o, polarizando o ressentimento e o protesto, e prop\u00f5em solu\u00e7\u00f5es simples para \u201ccortar os males pela raiz\u201d. A proposta de medidas en\u00e9rgicas e radicais para lidar com a crise, veiculadas numa ret\u00f3rica agressiva e emocional, capta facilmente a ades\u00e3o de muitos que se sentem indignados ou exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Finalmente, a falta de transpar\u00eancia, as contradi\u00e7\u00f5es nas declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas dos respons\u00e1veis, as novas informa\u00e7\u00f5es que aparecem permanentemente comunica\u00e7\u00e3o social e a incerteza quanto ao desfecho da actual crise pol\u00edtica, geram um cen\u00e1rio complexo que excede a capacidade de processamento cognitivo da maior dos cidad\u00e3os. Perante cen\u00e1rios complexos e ca\u00f3ticos que n\u00e3o conseguem descodificar, as pessoas est\u00e3o mais receptivas a diagn\u00f3sticos esquem\u00e1ticos, e a solu\u00e7\u00f5es simplistas e radicais.<\/p>\n<p>O discurso populista torna-se mais atractivo na medida em que aponta directamente as causas e os respons\u00e1veis pelos problemas (a governa\u00e7\u00e3o socialista, os lucros das grandes empresas, a imigra\u00e7\u00e3o desregulada, a venda da propriedade urbana a estrangeiros\u2026) e apresenta solu\u00e7\u00f5es simples e facilmente entend\u00edveis, para os problemas mais complexos. D\u00e1 sentido ao presente e uma perspectiva de esperan\u00e7a no futuro. As situa\u00e7\u00f5es complexas de crise tornam o discurso populista cativante pela resposta emocional, mas tamb\u00e9m conferem l\u00f3gica e clareza \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>As suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o que levaram \u00e0 queda do governo e agora o caso das g\u00e9meas que feriu, com raz\u00e3o ou sem ela, a imagem do PR, contribuem para a falta de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal e para colar abusivamente a ideia de \u201celite corrupta\u201d aos l\u00edderes do grande centro pol\u00edtico que tem governado o pa\u00eds desde a revolu\u00e7\u00e3o de Abril. A ideia de que \u201cs\u00e3o todos iguais\u201d alimenta o abstencionismo e a fuga de apoios e inten\u00e7\u00f5es de voto para os extremos do espectro pol\u00edtico, onde dominam os partidos de protesto, as propostas radicais e o discurso populista.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, pois, que o extremismo e o populismo sejam os que mais ganham com a indigna\u00e7\u00e3o e o cepticismo. E fazem-no sem grande investimento e sem precisar do apoio activo da comunica\u00e7\u00e3o social. O aumento das inten\u00e7\u00f5es de voto nos partidos mais radicais \u00e9 o resultado da crise social, pol\u00edtica e institucional que atravessamos, e do trabalho menos vis\u00edvel mas muito eficaz que desenvolvem nas redes sociais.<\/p>\n<p>Neste quadro, os movimentos de \u00edndole extremista e populista pouco t\u00eam que fazer al\u00e9m de capitalizar os efeitos negativos da actual crise. Est\u00e3o a ser levados ao colo pelos erros e disfun\u00e7\u00f5es da democracia liberal e, sobretudo, pela irresponsabilidade e falta de \u00e9tica de alguns dos seus respons\u00e1veis. \u00c9 caso para dizer que o populismo agradece. A democracia \u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a na Cat\u00f3lica Lisbon School of Economics<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[64,11],"tags":[],"class_list":["post-3595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-isto-para-nos","category-opiniao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>E o populismo agradece! 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