{"id":6617,"date":"2024-12-28T12:49:19","date_gmt":"2024-12-28T12:49:19","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=6617"},"modified":"2025-01-08T09:10:55","modified_gmt":"2025-01-08T09:10:55","slug":"burnout-nos-media-a-dopamina-e-um-motor-para-muita-gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2024\/12\/28\/burnout-nos-media-a-dopamina-e-um-motor-para-muita-gente\/","title":{"rendered":"Burnout nos Media. \u201cA dopamina \u00e9 um motor para muita gente\u201d."},"content":{"rendered":"<p><strong>Ainda \u00e9 tabu falar de sa\u00fade mental nos <em>media<\/em> na era digital. Existe uma perigosa rela\u00e7\u00e3o dos <em>workaholics<\/em>, viciados no trabalho e o<em> burnout<\/em>. Viver pelo perfecionismo numa profiss\u00e3o altamente desgastante, trabalhar para a not\u00edcia na hora, chegar a tempo do <em>prime time<\/em>, provoca casos de <em>burnout<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nos media \u201ch\u00e1 sede de protagonismo\u201d que leva a um perfeccionismo imposto muitas vezes pelos pr\u00f3prios jornalistas e por um sector que vive do imediato. Segundo o \u00faltimo estudo de sa\u00fade mental em jornalismo metade dos jornalistas portugueses est\u00e1 em risco de <em>burnout<\/em>.<br \/>\nEm Portugal refletem-se os mesmos problemas que noutros pa\u00edses do mundo, mas al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 das profiss\u00f5es em que se verifica que as mulheres menos filhos t\u00eam (1,04) e em que a vida familiar \u00e9 mais afetada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Estado com Arte Magazine falou com jornalistas e antigos jornalistas para conhecer como est\u00e3o os<em> media<\/em> de sa\u00fade mental.<\/strong><\/p>\n<p>Falta abrir caminho \u00e0 consciencializa\u00e7\u00e3o ao <em>burnout<\/em> no jornalismo, defende Bernardo Sim\u00f5es de Almeida, jornalista free-lancer. &#8220;A falta de recursos humanos nas reda\u00e7\u00f5es, o respeito pela classe jornalista, que h\u00e1 d\u00e9cadas enfrenta uma vida prec\u00e1ria, baseada em recibos verdes e mal pagos, leva muitos estagi\u00e1rios e profissionais a sujeitarem-se, em nome da profiss\u00e3o, a condi\u00e7\u00f5es de excesso de trabalho,&#8221; justifica o jornalista.<\/p>\n<p>A vida no jornalismo tamb\u00e9m \u00e9 vista por muitos jornalistas como uma vida solit\u00e1ria, pouco dada a \u201cassentar com vida familiar\u201d. Porque exige grande dedica\u00e7\u00e3o e \u201cadaptar-se a uma cultura de empresa\u201d, o que implica em grande parte prescindir de princ\u00edpios pessoais, e isso causa stress adicional, conta Margarida, nome fict\u00edcio, ao Estado com Arte Magazine.<\/p>\n<p>O caso medi\u00e1tico mais recente \u00e9 de Lu\u00edsa Correia, de 28 anos, ex-jornalista da SIC Not\u00edcias, viu-se obrigada a mudar de vida ap\u00f3s o corpo ter acusado stress a um excesso de trabalho. Esteve 8 meses de baixa, agora decidiu ir para a Su\u00e9cia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3593\" aria-describedby=\"caption-attachment-3593\" style=\"width: 215px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3593 size-medium\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Bernardo.jpg-215x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Bernardo.jpg-215x300.jpeg 215w, https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Bernardo.jpg.jpeg 432w\" sizes=\"(max-width: 215px) 100vw, 215px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3593\" class=\"wp-caption-text\">Bernardo Sim\u00f5es de Almeida, jornalista, viveu burnout na concilia\u00e7\u00e3o da vida familiar e a atividade jornal\u00edstica<\/figcaption><\/figure>\n<p>Bernardo Sim\u00f5es de Almeida, jornalista, viveu<em> burnout<\/em> na concilia\u00e7\u00e3o de jornalismo e a vida familiar. Para Bernardo uma das maiores dificuldades nas reda\u00e7\u00f5es \u00e9 aprender a lidar com a press\u00e3o de produzir informa\u00e7\u00e3o, a precariedade do sector, a necessidade de fazer dinheiro, com a necessidade de contar hist\u00f3rias e a veracidade dos factos, apresentar noticias em tempo \u00fatil, o<em> timing<\/em> da publica\u00e7\u00e3o para fazer sentido na altura em que saem as not\u00edcias, pode levar ao<em> burnout<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Pica de trabalhar sob press\u00e3o: a dopamina<\/strong><\/p>\n<p>A pica de trabalhar sob press\u00e3o nos meios televisivos e na imprensa d\u00e1 uma verdadeira \u201cadrenalina, \u00e9 viciante\u201d, explica Margarida, jornalista de televis\u00e3o durante 24 anos. A dopamina, um neurotransmissor respons\u00e1vel por levar informa\u00e7\u00f5es para v\u00e1rias partes do corpo que quando \u00e9 liberado provoca a sensa\u00e7\u00e3o de prazer e aumenta a motiva\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 uma recompensa r\u00e1pida, para quem vive da publica\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em direto. H\u00e1 muita sede da visibilidade e do protagonismo&#8221;, entre os estagi\u00e1rios e os jornalistas seniores, diz Margarida ao Estado com Arte Magazine.<\/p>\n<p>A pica que d\u00e1 trabalhar sob press\u00e3o \u00e9 uma \u201cadrenalina, \u00e9 viciante, a dopamina, \u00e9 uma recompensa r\u00e1pida, \u00e9 o motor de muita gente, mas \u00e9 preciso ter algum cuidado, na juventude aguentamos algumas diretas, mas com o tempo custa mais.\u201d<\/p>\n<p>Recorda que chegava a entrar \u00e0s 5 da manha para sair as 13h, mas porque queria empenhar-se fazia dois turnos e sa\u00eda \u00e0s 19h. \u201cAndava morta. Ningu\u00e9m me pedia nada, mas era workaholic, perfecionista.\u201d \u201c\u00c9 gratificante veres coisas pensadas por ti a resultar no ar. N\u00e3o gostava de dar a cara, gostava de ser o c\u00e9rebro.\u201d<\/p>\n<p>Esta sede de protagonismo leva a um perfeccionismo imposto muitas vezes pelos pr\u00f3prios jornalistas e por um sector que vive do imediato.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m me pedia nada, mas era workaholic, perfecionista,\u201d justifica a jornalista.<\/p>\n<h4><strong>De <em>workaholic<\/em> ao<em> burnout<\/em><\/strong><\/h4>\n<figure id=\"attachment_6626\" aria-describedby=\"caption-attachment-6626\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-6626 size-full\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/LoisLane-1.png\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"263\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6626\" class=\"wp-caption-text\">Lois Lane, figura m\u00edtica de jornalista, influ\u00eancia de gera\u00e7\u00f5es de mulheres jornalistas<\/figcaption><\/figure>\n<p>De uma vida de <em>workaholic<\/em>, perfecionista, ao<em> burnout<\/em> vai um passo, que o diga Margarida que ao Estado com Arte Magazine diz que sempre ambicionou ir para jornalismo televisivo, ali esteve durante 24 anos, at\u00e9 ter tido o <em>burnout<\/em> e nessa altura mudou de \u00e1rea profissional.<\/p>\n<p>Margarida, tinha o sonho ut\u00f3pico de ser como a Lois Lane, a namorada do super-homem, jornalista que trabalhava no <em>Daily Planet<\/em>, jornal nova-iorquino, ia sempre a correr atr\u00e1s das not\u00edcias. No fundo, Margarida assume que teve sempre a ideia de ter voca\u00e7\u00e3o para escrever.<\/p>\n<p>\u201cSempre me apaixonei pela imagem em movimento,\u201d recorda, e que por isso no final da licenciatura de jornalismo, decidiu que queria ir para TV. Para os estagi\u00e1rios \u201co m\u00e1ximo \u00e9 aparecer,\u201d como toda a gente que entra no mercado de trabalho em jornalismo.<\/p>\n<p>\u201cAcabei o curso com 22 anos, nem fui \u00e0 viagem de finalistas, queria come\u00e7ar a trabalhar.\u201d Margarida fez est\u00e1gio na TVI, na altura o diretor de informa\u00e7\u00e3o era o Jos\u00e9 Pedro Barreto, mas o seu primeiro mestre foi o jornalista Miguel Ganh\u00e3o Pereira que lhe ensinou a coloca\u00e7\u00e3o de voz, o treino jornal\u00edstico. Deu-lhe os grandes temas para trabalhar.<\/p>\n<p>\u201cNa altura o tema em destaque era o referendo ao aborto. Perguntou-me com que tema deveria abrir o jornal, Margarida sugeriu reportagem com a opini\u00e3o das v\u00e1rias comunidades religiosas e da sociedade portuguesa sobre o que pensavam quanto ao aborto. O Miguel confiava em mim, era uma excelente pessoa, foi o 1\u00ba mestre.\u201d<\/p>\n<p>Quando soube da not\u00edcia da morte do seu &#8220;mestre&#8221; Margarida ficou a \u201cbater mal\u201d com a morte do pivot da TVI, apesar de \u00e0 \u00e9poca j\u00e1 n\u00e3o estar no canal de Queluz, ficou impressionada com todo o mist\u00e9rio que envolveu o suic\u00eddio do famoso pivot da TVI.<\/p>\n<p>Manteve-se na esta\u00e7\u00e3o do canal 4 at\u00e9 \u00e0 entrada de Jos\u00e9 Eduardo Moniz, que na altura fez uma grande reestrutura\u00e7\u00e3o nos quadros da TVI. Margarida recorda que teve apoio de um jornalista s\u00e9nior para ir para o CNL. \u201cConheci boas pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>Esteve na informa\u00e7\u00e3o 6 anos, entre TVI, Canal de Not\u00edcias de Lisboa (CNL) e Sic Not\u00edcias. Mas chegou \u00e0 conclus\u00e3o que apesar de considerar fascinante a isen\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, gosta mais do lado da criatividade. Sentiu necessidade de passar para o<em> infotainment, <\/em>um g\u00e9nero h\u00edbrido de informa\u00e7\u00e3o e entretenimento com formato surpresa. \u201cSou mais criativa do que burocr\u00e1tica.\u201d Gostava de fazer gui\u00f5es escritos, planos de programa\u00e7\u00e3o, criatividade nos programas do Goucha e F\u00e1tima Lopes no <em>day time<\/em>. No entretenimento a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa, hist\u00f3rias de vida; sa\u00fade mental, aliena\u00e7\u00e3o parental, etc.<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9dico intensivista e neurologista Jos\u00e9 Padr\u00e3o Mendes o circuito de recompensa no c\u00e9rebro est\u00e1 formatado para ter \u00eaxito e sucesso no trabalho, e de cada vez que essas pessoas s\u00e3o elogiadas ou bem remuneradas pelo seu trabalho, aumenta mais a sua depend\u00eancia do trabalho, devido a essa \u201cinje\u00e7\u00e3o de dopamina\u201d que recebem. \u201cMuitas vezes tratar uma pessoa viciada em trabalho mais dif\u00edcil que tratar uma pessoa viciada em \u00e1lcool ou outras drogas, pois os seus pares, fam\u00edlia e amigos n\u00e3o veem esse excesso de trabalho como um problema. Muitas vezes at\u00e9 incentivam a pessoa a trabalhar mais\u201d, esclarece o m\u00e9dico. E sem ter o apoio social ou familiar \u00e9 muito dif\u00edcil combater este problema.<\/p>\n<p>Margarida recorda um epis\u00f3dio em que podia ter morrido numa Renault 4L, &#8220;estava em reportagem em F\u00e1tima de regresso a Lisboa. O rep\u00f3rter de imagem ia a guiar, ligou-me o editor a dizer que precisava da pe\u00e7a para o jornal da noite e aceler\u00e1mos para chegar a tempo. Foi ent\u00e3o que um pneu careca se rebentou e por um triz n\u00e3o tiv\u00e9mos um grande acidente. O condutor, depois do acidente, jurou que nunca mais acelerava daquela maneira, porque estar vivo era bem mais importante&#8221; &#8211;\u00a0 Margarida revela-me que este epis\u00f3dio poderia ser a met\u00e1fora perfeita para a entrega incondicional ao trabalho que muitas vezes leva ao burnout. Foi a\u00ed que percebi que nunca mais fazia isto&#8221;.<\/p>\n<p>Quando Margarida teve o <em>burnout<\/em> resolveu sair da TVI.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 <em>burnout<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6628\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/burnouthomem.jpeg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"189\" \/><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Padr\u00e3o Mendes explica que quando falamos de <em>burnout<\/em>, falamos no esgotamento nervoso, um problema que afeta cada vez mais pessoas na nossa sociedade, incidindo principalmente em jovens e mulheres.<\/p>\n<p>Atualmente, estamos quase habituados a utilizar o termo s\u00edndrome de <em>burnout<\/em> no sentido de um diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a mental. No entanto, a s\u00edndrome de <em>burnout<\/em> \u00e9 um termo relativamente novo, sem tradi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica &#8211; ao contr\u00e1rio, por exemplo, da depress\u00e3o, que j\u00e1 era descrita pelos gregos antigos.<\/p>\n<p>De acordo com a defini\u00e7\u00e3o mais difundida, a s\u00edndrome de<em> burnout<\/em> refere-se a um estado de exaust\u00e3o persistente resultante de uma sobrecarga prolongada, caracterizado pelas tr\u00eas carater\u00edsticas seguintes: exaust\u00e3o emocional, aumento da irritabilidade e do distanciamento interpessoal, perda (auto-avaliada) de desempenho pessoal.<\/p>\n<p><strong>Como se vive um <em>burnout<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEm pandemia trabalhei com redu\u00e7\u00e3o de equipa, tinha de entregar trabalhos de um dia para o outro com 25 p\u00e1ginas. Acordava n\u00e3o sabia onde estava, acordava desmemoriada. O m\u00e9dico psiquiatra pediu-me para tirar 6 meses de baixa, nesta altura tive de dormir muito para recuperar do cansa\u00e7o, tinha momentos de paragens mental em que n\u00e3o conseguia ter rea\u00e7\u00e3o.\u201d Teve de tomar medica\u00e7\u00e3o para dormir.<\/p>\n<p>Ao fim de 3 meses voltou ao trabalho, n\u00e3o aguentou a press\u00e3o e teve de sair do jornalismo. H\u00e1 2 anos passou para o trabalho em ag\u00eancias de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Testemunho de <em>burnout<\/em> de Margarida<\/strong>: &#8220;Depois do<em> burnout<\/em> (e j\u00e1 antes) a minha rotina; o que me faz &#8220;limpar a cabe\u00e7a&#8221; \u00e9 o passeio matinal \u00e0s 7 da manh\u00e3 com o c\u00e3o, no meio da natureza, pois ajuda-me a estar em paz comigo; a zerar o ritmo acelerado a que a profiss\u00e3o obriga. Tamb\u00e9m me ajuda meditar de vez em quando, dar prioridade \u00e0 minha sanidade mental, em detrimento de vit\u00f3rias profissionais \/valida\u00e7\u00e3o profissional. Uma das coisas que passei a saber fazer ap\u00f3s <em>burnout<\/em> foi justamente reconhecer os ind\u00edcios subtis de poss\u00edveis novos <em>burnouts<\/em>, como estar a falar com algu\u00e9m, conhecer bem a pessoa e n\u00e3o me lembrar do nome dela; ou abrir uma pasta no PC e esquecer-me a meio o que ia fazer. Enfim, cada pessoa tem os seus ind\u00edcios particulares que tem de saber travar logo. E sobretudo aprendi que n\u00e3o h\u00e1 ordenado suficientemente alto que seja mais importante que a sa\u00fade mental. De que me serve ter dinheiro se n\u00e3o consigo sair da cama nem tenho vontade de fazer nada? H\u00e1 uma certa higiene mental que se aprende a ter e ser acompanhada medicamente tamb\u00e9m ajuda muito. Se bem que somos n\u00f3s mesmos que temos de nos acarinhar \/ auto-cuidar. O que remete para a quest\u00e3o do amor-pr\u00f3prio. Tenho para mim que s\u00f3 quando nos pomos em primeiro lugar (e isto implica dormir e descansar o suficiente) \u00e9 que ganhamos respeito por n\u00f3s pr\u00f3prios e estamos capazes de dizer alguns &#8220;N\u00e3os&#8221; que antes n\u00e3o consegu\u00edamos dizer \u00e0 entidade\u00a0patronal.<\/p>\n<p><strong>A vida continua<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de tudo o que viveu n\u00e3o est\u00e1 fora de quest\u00e3o voltar ao jornalismo. \u201dSe for mal pago e a trabalhar por 2 n\u00e3o quero voltar. Mas se puder pagar as contas sim. Afinal foi esta a forma\u00e7\u00e3o que recebi. Tenho saudades enormes de fazer reportagem. Mas n\u00e3o aconselharia um filho meu a ser jornalista.<\/p>\n<p>Os jovens est\u00e3o motivados pela visibilidade inicial e o deslumbramento em TV, mas isso passa. \u201cO que se mant\u00e9m s\u00e3o coisas diferentes. N\u00e3o pensem que aparecer e algu\u00e9m conhecer a vossa cara ou cumprimentar no meio da rua \u00e9 o m\u00e1ximo que vos pode acontecer.\u201d<\/p>\n<p>O jornalismo \u00e9 muito mais do que isso, \u201c\u00e9 reportar a verdade, seja em informa\u00e7\u00e3o ou entretenimento. Isso \u00e9 o mais gratificante. \u00c0s vezes no <em>day time<\/em> conseguia ajudar as pessoas, a parte humana, ajudar um alco\u00f3lico a fazer desintoxica\u00e7\u00e3o. A fazer a diferen\u00e7a na vida de algu\u00e9m \u00e9 gratificante.<\/p>\n<p>Existe a ideia errada no jornalismo, entre os estagi\u00e1rios h\u00e1 muita sede da visibilidade e do protagonismo.<\/p>\n<p>Sobre a crise da Global Media, Margarida garante que a crise do jornalismo n\u00e3o vem de agora, vem de h\u00e1 muitos anos, porque \u201cn\u00e3o h\u00e1 escoamento no mercado para tanta oferta de jornalistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Aguentar&#8221; a press\u00e3o medi\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Em TV \u201c\u00e9 certo e sabido que h\u00e1 droga mais nuns sectores do que noutros. O alcoolismo era uma cultura, produtoras audiovisuais. Entre o \u00e1lcool, \u201cganzas\u201d e coca\u00edna passa-se muita coisa,\u201d diz Margarida. A coca\u00edna \u00e9 consumida em cargos de topo de decis\u00e3o r\u00e1pida, conta a jornalista, porque \u201cd\u00e1 destreza mental, aumenta a velocidade de racioc\u00ednio. Mas claro n\u00e3o \u00e9 exclusivo da TV, nem do jornalismo\u201d. O meio jornal\u00edstico, por tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 um meio bo\u00e9mio, muitas coisas se decidem em jantares p\u00f3s-laborais, um pouco solit\u00e1rio, um pouco art\u00edstico.<\/p>\n<p>Margarida caracteriza a vida no jornalismo como uma vida solit\u00e1ria, pouco dada a casamentos e a \u201cassentar com vida familiar\u201d. Porque afinal exige \u201cadaptar-se a uma cultura empresa, o que implica fazer muitas coisas que v\u00e3o contra os nossos princ\u00edpios.\u201d<\/p>\n<p><strong>Anos sab\u00e1ticos para recuperar do esfor\u00e7o, sozinho<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6621\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel-300x295.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel-300x295.jpg 300w, https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel.jpg 457w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Miguel Sat\u00fario Pires, antigo jornalista e consultor de comunica\u00e7\u00e3o, ao Estado com Arte Magazine diz que nunca pediu apoio cl\u00ednico, nunca foi acompanhado por nenhum m\u00e9dico, foi \u201clidando com os seus dem\u00f3nios sozinho\u201d, talvez &#8220;por arrog\u00e2ncia da sua parte&#8221;, assume. Nos momentos de esgotamento &#8220;tira ano sab\u00e1tico, para fazer grandes viagens pelo mundo&#8221;, e assim tentar desligar do esfor\u00e7o desmedido ao trabalho.<\/p>\n<p>Licenciado em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, jornalista e mais tarde consultor de comunica\u00e7\u00e3o enfrentou dois momentos de exaust\u00e3o na sua carreira de jornalista.<\/p>\n<p>Miguel gosta de escrever, foi consultor de comunica\u00e7\u00e3o da BCW, ag\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o do grupo WPP, onde tamb\u00e9m assumiu a \u00e1rea de media training para clientes da ag\u00eancia, assim como deu forma\u00e7\u00e3o a n\u00edvel interno no campo da assessoria medi\u00e1tica.<\/p>\n<p>A leitura de jornais foi sempre um h\u00e1bito em casa, eram um elemento constante nas mesas de casa, &#8220;lia o Expresso no colo do av\u00f4&#8221;. Para al\u00e9m de os bisav\u00f3s serem jornalistas, \u201cas letras foram comuns ao longo da vida\u201d.<\/p>\n<p>Antes de terminar a universidade foi estagiar para o Brasil em comunica\u00e7\u00e3o de Hot\u00e9is, quando em 1995 volta para Portugal para ir estagiar para a RTP, fez a campanha de elei\u00e7\u00f5es presidenciais em que ganhou o Guterres, foi para o jornal da noite 24h. Fazia reportagens, pe\u00e7as de fecho, tudo. Esteve seis meses na RTP.<\/p>\n<p>&#8220;Tinha faculdade o dia todo, entrava na RTP \u00e0s 16h e sa\u00eda as 2h da manh\u00e3, aos 19 anos era novo n\u00e3o me cansava\u201d, assume. Fez o curso do Cenjor, Centro Protocolar de Jornalistas, no \u00faltimo semestre da licenciatura. Foi para uma editora um ano, fez uma breve passagem pelo Diabo, onde conheceu o Esteves Pereira, marido da Vera Lagoa. A chefe de reda\u00e7\u00e3o era Ism\u00e9nia Abreu. Fazia reportagens de sociedade e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na antiga Ferreira e Bento, um grupo de 6 revistas como por exemplo a Rotas&amp;Destinos, foi Editor de Economia do Semana Inform\u00e1tica e director de revistas de TI do grupo Ferreira &amp; Bento\/Cofina, nomeadamente a VDi e a PCW (Personal Computer World).<\/p>\n<p>Era jovem, vivia sem hor\u00e1rios, mas na altura de fechos das revistas os hor\u00e1rios estendiam-se. A dif\u00edcil concilia\u00e7\u00e3o com a vida familiar aumentava com o nascimento de uma filha e posteriormente o segundo filho. Tinha sobrecarga de trabalho no fecho, recorda que nesta altura o grupo Ferreira e Bento foi comprado pelo grupo Cofina, mas Miguel acaba por sair passados 6 anos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6629\" aria-describedby=\"caption-attachment-6629\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6629 size-medium\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel2-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel2-300x168.jpg 300w, https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/miguel2.jpg 353w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6629\" class=\"wp-caption-text\">Miguel Sat\u00fario Pires, ex-jornalista e consultor de comunica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 passou por duas fases de esgotamento na sua carreira. Nunca pediu ajuda cl\u00ednica.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tornou-se jornalista free-lancer trabalhou para o grupo Impresa, foi co-autor do Guia de Viagens do Expresso, em 2010. \u201cDurante 15 anos dediquei-me a grandes projetos o que levava a per\u00edodos de trabalho muito intenso. O 1\u00ba per\u00edodo cr\u00edtico deste percurso foi um guia mundial para um operador tur\u00edstico, que levou 1 ano a ser desenvolvido. Entre viagens e desenvolvimento de conte\u00fados foi uma \u00e9poca de vida muito exigente.\u201c<\/p>\n<p>Depois da conclus\u00e3o deste projeto esteve quase 2 anos em viagem a tentar recuperar de cansa\u00e7o extremo. \u201cTirei f\u00e9rias, fui fazer grandes viagens Austr\u00e1lia, Argentina&#8230; precisava de desligar. Continuavam a mandar-me trabalhos, mas demorava dias para fazer um artigo. \u00c9 aqui que sinto que fui baixo.\u201d<\/p>\n<p>Miguel voltou a fazer trabalhos para o DN e P\u00fablico. Seguiram-se outros 2 livros para a Galp Energia que lhe causaram grande desgaste, no entanto identifica &#8220;como um dos trabalhos que me deu mais gozo fazer&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cO 1\u00ba livro, com menos exig\u00eancia de <em>timmings<\/em>, estendeu-se mais no tempo, o 2\u00ba foi o que mais custou fazer (com<em> timming<\/em> mais apertado). Perceber a hist\u00f3ria industrial do pa\u00eds e iniciar a cronologia de finais do s\u00e9c. XIX at\u00e9 \u00e0 atualidade, tra\u00e7ar linha hist\u00f3rica sobre a economia do pa\u00eds, ter acesso a arquivos que quase ningu\u00e9m tem.\u201d<\/p>\n<p>Trabalhava em acto cont\u00ednuo num atelier perto da Assembleia da Rep\u00fablica, uma mezzanine (com 2 andares) e um jardim com 300m2. Foram 4 anos neste projeto <em>non stop<\/em>. \u201cCumpro os prazos \u00e0 risca, sou muito brit\u00e2nico.\u201d<\/p>\n<p>Esteve sem dormir mais de 48 horas durante o per\u00edodo de produ\u00e7\u00e3o deste livro. Aguentou o ritmo &#8220;\u00e0 base de caf\u00e9s e de um recuperar longo e penoso. Acabei por ir para os EUA e Brasil. Esgotaram-se-me as letras.\u201d<\/p>\n<p>Clinicamente nunca foi acompanhado, diz que &#8220;fui lidando com os meus dem\u00f3nios sozinho. Quem sofria mais era quem estava \u00e0 minha volta. Num estado de cansa\u00e7o e de esgotamento total n\u00e3o somos os melhores seres humanos do mundo. A \u00fanica forma de recuperar era com descanso absoluto. Abandonei o jornalismo, cansei-me. Fui a 100% para consultoria estrat\u00e9gica durante 7 anos, que tamb\u00e9m me sa\u00edram do pelo.\u201d<\/p>\n<p>Deixou de trabalhar em novembro do ano passado, em 2023. Neste momento vive de rendimentos, tem subs\u00eddio de desemprego, reconhece que \u201cj\u00e1 n\u00e3o tinha nada para dar \u00e0 empresa, nem a empresa&#8221; a Miguel.<\/p>\n<p>O consultor de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 novamente a passar um ano sab\u00e1tico.\u00a0 Recentemente tirou uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Recursos Humanos, \u201cpara perceber o que fizeram bem ou mal comigo.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;No esgotamento n\u00e3o tinha for\u00e7a para o mais b\u00e1sico, quando ia dormir tinha a cabe\u00e7a a carburar e quando conseguia a dormir a sensa\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o era absoluto. O per\u00edodo de repouso n\u00e3o era repouso. A cabe\u00e7a estava cheia de informa\u00e7\u00e3o que entrava e n\u00e3o sa\u00eda. Achei que conseguia superar por mim pr\u00f3prio,&#8221; confessa.<\/p>\n<p>Aos jovens jornalistas aconselha a n\u00e3o descurarem a sa\u00fade mental, \u201cfa\u00e7am um trabalho bem alicer\u00e7ado, mas cheguem ao final do dia felizes.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"de-DE\"><strong><span lang=\"pt-BR\">Burnout: um problema sub-diagnosticado e generalizado no Jornalismo<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"de-DE\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6630\" src=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/burnoutjornalismo-300x171.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/burnoutjornalismo-300x171.webp 300w, https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/burnoutjornalismo.webp 420w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p lang=\"de-DE\">De acordo com um estudo recentemente publicado sobre o esgotamento no jornalismo local dos EUA, realizado pelo <em>Center for Innovation and Sustainability in Local Media da UNC Hussman School of Journalism and Media<\/em>, na Carolina do Norte, cerca de 70% dos 500 jornalistas inquiridos j\u00e1 sofreram de esgotamento; os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o social mais jovens, com menos de 45 anos, bem como as mulheres e principalmente m\u00e3es, s\u00e3o particularmente propensos ao esgotamento.<\/p>\n<p lang=\"de-DE\">\u201cO esgotamento \u00e9 a resposta psicol\u00f3gica a condi\u00e7\u00f5es de trabalho cr\u00f3nicas que afectam a sa\u00fade mental e f\u00edsica\u201d, escrevem as investigadoras Elizabeth Thompson e Katelyn Chedraoui. O estudo revela as consequ\u00eancias de uma d\u00e9cada de despedimentos e de mudan\u00e7as no jornalismo local norte-americano: \u201cDurante estes anos turbulentos, os jornalistas tiveram muitas vezes de lidar com uma carga de trabalho mais pesada, com hor\u00e1rios mais longos e irregulares, ao mesmo tempo que os seus rendimentos diminu\u00edam\u201d, concluem. Quase tr\u00eas em cada quatro dos inquiridos j\u00e1 pensaram em abandonar o seu emprego. O que os poderia motivar a ficar? Um melhor sal\u00e1rio (39%).<\/p>\n<p>O \u00faltimo estudo a demonstrar que metade dos jornalistas portugueses est\u00e1 em risco de burn out (Metade dos jornalistas portugueses em risco de<em> burnout<\/em> (jn.pt). Em Portugal refletem-se os mesmos problemas que noutros pa\u00edses do mundo, mas al\u00e9m disso tamb\u00e9m \u00e9 das profiss\u00f5es em que se verifica que as mulheres menos filhos t\u00eam (1,04) e em que a vida familiar \u00e9 mais afetada. \u00c9 mesmo a mais baixa das carreiras analisadas pelo Observat\u00f3rio para a Condi\u00e7\u00f5es de Vida e Trabalho-, est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia nacional de 1,38 filhos por mulher, esclarece o m\u00e9dico intensivista Jos\u00e9 Padr\u00e3o Mendes ao Estado com Arte Magazine.<\/p>\n<p>Muitos tamb\u00e9m sofrem ass\u00e9dio por parte das chefias e mais de metade faz mais de 40 horas semanais de trabalho e mais de 10 horas noturnas. Tamb\u00e9m metade sente-se inseguro com toda a precariedade que envolve a profiss\u00e3o no nosso pa\u00eds. E muitos, mais de 60%, n\u00e3o sente apoio para a resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es \u00e9ticas e das rotinas laborais. E mais uma vez s\u00e3o as mulheres que mais sofrem.<\/p>\n<p>Segundo Padr\u00e3o Mendes &#8220;a narrativa no jornalismo tem de mudar urgentemente: Um jornalista da velha guarda \u00e9 quase sobre-humano: \u00e9 homem, totalmente objetivo e neutro, vive acima das coisas e das situa\u00e7\u00f5es mundanas, n\u00e3o tem opini\u00f5es pr\u00f3prias &#8211; e n\u00e3o tem problemas. Mas isso choca totalmente com realidade do trabalho. O problema \u00e9 que esta cultura continua a ser cultivada, as pessoas continuam a ser postas de lado.&#8221;<br \/>\nAproximadamente 60% de todos os inquiridos, especialmente os jornalistas mais jovens, pensaram repetidamente em abandonar o seu emprego nos \u00faltimos doze meses. \u2013 Estudo do Centro para a Inova\u00e7\u00e3o e Sustentabilidade nos Media Locais da Escola de Jornalismo e Media Hussman.<br \/>\nAinda \u00e9 tabu falar sobre problemas de sa\u00fade mental num contexto de trabalho. &#8220;Embora cada vez mais pessoas estejam a falar sobre as suas experi\u00eancias, enquanto as pessoas que falam sobre estas quest\u00f5es estejam a ser vistas de forma negativa pelos empregadores, ainda estamos longe de quebrar o tabu.&#8221;<\/p>\n<p>Os jovens jornalistas est\u00e3o constantemente acompanhados pelo pensamento de n\u00e3o fazer o suficiente e, portanto, de alguma forma falhar, defende o m\u00e9dico. Para al\u00e9m da carga de trabalho, os jovens jornalistas, em particular, est\u00e3o sob press\u00e3o para se promoverem: uma presen\u00e7a no <em>Twitter, Instagram e LinkedIn<\/em> tornou-se potencialmente mais importante para muitos empregadores. Isto leva naturalmente a que os jovens jornalistas, em particular, sejam informados de que t\u00eam de estar constantemente presentes na Internet, por exemplo, para partilhar o seu trabalho ou publicar uma opini\u00e3o sobre um determinado tema.<\/p>\n<p>S\u00e3o poucos os jovens jornalistas que conseguem escapar \u00e0 press\u00e3o para atuar nas redes sociais. N\u00e3o \u00e9 de admirar, porque, sobretudo nas redac\u00e7\u00f5es mais pequenas, continua a aplicar-se o que um experiente chefe de departamento descreveu um dia, um pouco envergonhado, num semin\u00e1rio no Reuters Institute, em Oxford: \u201cSe n\u00e3o aguentas o calor, sai da cozinha\u201d. Por outras palavras, se nos tornamos jornalistas, temos de ser capazes de aguentar. A sess\u00e3o era sobre burnout. O tema tinha sido inclu\u00eddo no programa porque os editores seniores e executivos o tinham mencionado repetidamente como um dos maiores desafios para as suas redac\u00e7\u00f5es nas rondas confidenciais &#8211; e n\u00e3o principalmente no que diz respeito a miss\u00f5es de risco no pa\u00eds e no estrangeiro.<\/p>\n<p>Argumentaram que o stress causado pela transforma\u00e7\u00e3o digital era extremamente elevado: \u201cComo podemos gerir o jornalismo digital e os processos de mudan\u00e7a 24 horas por dia, sete dias por semana, sem deixar a equipa \u00e0 merc\u00ea do esgotamento?\u201d Foi assim que o editor-chefe de um jornal di\u00e1rio brit\u00e2nico de renome se expressou. Num inqu\u00e9rito publicado pelo Reuters Institute em 2019, 62% dos executivos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social afirmaram que o<em> burnout<\/em> nas suas equipas era uma quest\u00e3o importante para eles.<\/p>\n<p>Por um lado, esta \u00e9 uma boa not\u00edcia, pois mostra que os chefes est\u00e3o cada vez mais a reconhecer o problema e a lev\u00e1-lo a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8220;No jornalismo, sempre tivemos de ser r\u00e1pidos e precisos ao mesmo tempo, est\u00e1vamos expostos \u00e0 concorr\u00eancia, por vezes coloc\u00e1vamo-nos em perigo, t\u00ednhamos de processar m\u00e1s imagens e n\u00e3o t\u00ednhamos grande liberdade para organizar o nosso trabalho. Quando havia um inc\u00eandio, havia um inc\u00eandio. Mas atualmente, o que outrora caracterizava o bom jornalismo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, muitas vezes, suficientemente bom. Atualmente, os bons redactores tamb\u00e9m t\u00eam de entregar v\u00eddeos ou faixas de \u00e1udio, adaptar-se constantemente a novos fluxos de trabalho e produzir para diferentes plataformas. Para al\u00e9m disso, muitos est\u00e3o expostos a um constante bombardeamento de coment\u00e1rios de \u00f3dio,&#8221; segundo o inqu\u00e9rito da Reuters.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 importante formar os gestores da ind\u00fastria dos media em conformidade. T\u00eam de aprender a ler os sinais de sobrecarga &#8211; nos seus empregados e em si pr\u00f3prios. A ajuda profissional deve ser oferecida de forma mais sistem\u00e1tica. O assunto merece mais aten\u00e7\u00e3o. &#8220;No decurso do debate \u201cMe Too\u201d, muitas jornalistas ousaram falar pela primeira vez sobre o ass\u00e9dio sexual e a viol\u00eancia de que foram v\u00edtimas no trabalho. Foi um passo importante. Tamb\u00e9m tem de se tornar aceit\u00e1vel que os colegas que consideram outros aspectos do seu trabalho um pesadelo o revelem. Os jornalistas retiram muita energia da sua miss\u00e3o, pensam que s\u00e3o especiais. Mas, perante o excesso de trabalho, s\u00e3o apenas humanos,&#8221; defende Padr\u00e3o Mendes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marta Roque<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6622,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[537,543,539,584,582,538,585,583],"class_list":["post-6617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-burnout","tag-comunicacao","tag-dopamina","tag-excesso","tag-jornalistas","tag-media","tag-moderacao","tag-trabalho"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - 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