{"id":7395,"date":"2024-11-21T19:32:05","date_gmt":"2024-11-21T19:32:05","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=7395"},"modified":"2024-11-21T19:32:05","modified_gmt":"2024-11-21T19:32:05","slug":"o-poder-das-crencas-iv-estereotipos-de-genero-biologia-e-construcao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2024\/11\/21\/o-poder-das-crencas-iv-estereotipos-de-genero-biologia-e-construcao-social\/","title":{"rendered":"O PODER DAS CREN\u00c7AS IV- Estere\u00f3tipos de G\u00e9nero: biologia e constru\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nos \u00faltimos anos, uma parte importante do debate p\u00fablico sobre temas de justi\u00e7a e igualdade tem-se centrado nas quest\u00f5es de g\u00e9nero. No centro da pol\u00e9mica est\u00e3o uma vez mais os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero: as cren\u00e7as socialmente partilhadas sobre as caracter\u00edsticas, os comportamentos, as compet\u00eancias e os pap\u00e9is que identificam a mulher e o homem. Aquilo que acreditamos ser a verdade sobre os atributos que os distinguem e as fun\u00e7\u00f5es que devem ter na sociedade.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o fracturante que tem contribu\u00eddo para a polariza\u00e7\u00e3o entre progressismo e conservadorismo. Na vis\u00e3o progressista, os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero s\u00e3o instrumentos do poder masculino dominante que perpetuam as desigualdades entre homem e mulher. S\u00e3o uma fonte de injusti\u00e7as e limitam a express\u00e3o da individualidade.<\/p>\n<p>O progressismo defende que o comportamento humano \u00e9 um produto do contexto social, e homem e mulher t\u00eam mais semelhan\u00e7as a uni-los do que diferen\u00e7as a separ\u00e1-los. As expectativas de g\u00e9nero s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais que servem para manter rela\u00e7\u00f5es discriminat\u00f3rias e, por isso, devem ser combatidas em nome de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na perspectiva conservadora, os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero t\u00eam uma base biol\u00f3gica e resultam da evolu\u00e7\u00e3o humana. Homem e mulher t\u00eam caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas diferentes que determinam os seus comportamentos. As diferen\u00e7as de g\u00e9nero s\u00e3o um dado \u00e0 partida, devem ser aceites como tal e traduzir-se em pap\u00e9is sociais distintos. Para alguns mais radicalmente conservadores, a desconstru\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero n\u00e3o passa de uma forma de policiamento dos comportamentos promovido pela &#8220;tirania woke&#8221;.<\/p>\n<p>Esta polariza\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es est\u00e1 na raiz de numerosas discuss\u00f5es que giram em torno de quatro temas principais. O primeiro \u00e9 o debate sobre as discrimina\u00e7\u00f5es produzidas pelos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero, no acesso a posi\u00e7\u00f5es de poder. A mulher ao ser vista como menos competitiva, menos assertiva e mais emocional, \u00e9 preterida no acesso a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, tanto nas organiza\u00e7\u00f5es como na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, enquanto o homem \u00e9 sujeito \u00e0 censura social quando se mostra compassivo, submisso ou vulner\u00e1vel, dificultando a express\u00e3o da sua autenticidade.<\/p>\n<p>O segundo debate relaciona-se com a influ\u00eancia dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero, interiorizados desde a inf\u00e2ncia, nas decis\u00f5es de carreira. A ideia de que a mulher tem caracter\u00edsticas mais favor\u00e1veis a profiss\u00f5es de relacionamento e de cuidado, enquanto o homem tem compet\u00eancias mais elevadas nas \u00e1reas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas, condiciona as escolhas, limita as oportunidades percebidas e impede o desenvolvimento das potencialidades individuais de umas e de outros.<\/p>\n<p>Outra pol\u00e9mica desenvolve-se em volta das formas de express\u00e3o emocional. Nesta dimens\u00e3o os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero s\u00e3o claramente normativos: o homem deve ser forte, firme, racional e protector, e a mulher deve mostrar-se sens\u00edvel, carinhosa e cuidadora. Estas expectativas exercem uma forte press\u00e3o sobre a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, fazendo com que o homem tenha dificuldade em exprimir as fragilidades, por serem vistas como manifesta\u00e7\u00f5es de feminilidade, e a mulher em demonstrar atitudes firmes e assertivas, tidas por masculinas.<\/p>\n<p>O facto dos estere\u00f3tipos definirem expectativas precisas sobre os comportamentos de g\u00e9nero pode tamb\u00e9m afectar a autoestima e a percep\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio. O homem que n\u00e3o \u00e9 dominador e a mulher que n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o cuidadora podem sentir-se frustrados por n\u00e3o corresponderem ao que a sociedade espera de si.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima pol\u00e9mica desenvolve-se \u00e0 volta do significado e fun\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero. Para alguns, os progressos que se t\u00eam conseguido no sentido da igualdade de g\u00e9nero mostram que a masculinidade e a feminilidade s\u00e3o conceitos culturais que evoluem. Neste caso, os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero estariam a perder import\u00e2ncia na determina\u00e7\u00e3o dos comportamentos. A este contrap\u00f5e-se o ponto de vista de que os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero desempenham um papel importante: separar os pap\u00e9is sociais, de acordo com as diferen\u00e7as biol\u00f3gicas entre homem e mulher, utilizar as suas inclina\u00e7\u00f5es naturais e aproveitar as complementaridades entre ambos, a favor da sociedade.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es de g\u00e9nero s\u00e3o dif\u00edceis de clarificar porque nelas confluem a perspectiva cient\u00edfica da biologia, da psicologia e da sociologia, os posicionamentos ideol\u00f3gicos \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, e o radicalismo de alguns movimentos feministas e ultraconservadores. Uma an\u00e1lise serena coloca principalmente tr\u00eas quest\u00f5es: a ci\u00eancia comprova a exist\u00eancia de diferen\u00e7as biol\u00f3gicas entre homem e mulher, a que podem associar-se padr\u00f5es de comportamento distintos? Os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero t\u00eam fundamento na biologia e na evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, ou s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais? Qual a rela\u00e7\u00e3o entre biologia e contexto social?<\/p>\n<p><strong>Os estere\u00f3tipos feminino e masculino<\/strong><\/p>\n<p>Na sociedade ocidental os estere\u00f3tipos da mulher e do homem apresentam dois perfis muito diferenciados, apontando para um conjunto de caracter\u00edsticas em muitos aspectos opostas. O estere\u00f3tipo feminino inclui cinco eixos principais.<\/p>\n<p>Submiss\u00e3o, passividade e depend\u00eancia. A mulher \u00e9 vista como conformista, submissa e dependente, esperando-se que cumpra orienta\u00e7\u00f5es, evite os confrontos, pacifique os conflitos e ponha as necessidades dos outros acima das suas. Que seja gentil e delicada, evitando atitudes de domina\u00e7\u00e3o e comportamentos agressivos.<\/p>\n<p>Sensibilidade e fragilidade emocional. Acredita-se que a mulher \u00e9 fr\u00e1gil dos pontos de vista f\u00edsico e psicol\u00f3gico. O comportamento feminino \u00e9 dominado pelas emo\u00e7\u00f5es sugerindo a ideia de que \u00e9 pouco racional na forma como lida com as situa\u00e7\u00f5es, menos capaz para tomar decis\u00f5es de elevada responsabilidade e de lidar com situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Empatia e orienta\u00e7\u00e3o para as pessoas. O estere\u00f3tipo feminino representa a mulher como cuidadora, compassiva, sens\u00edvel aos sentimentos dos outros, orientada para a fam\u00edlia e para as rela\u00e7\u00f5es pessoais. Este perfil refor\u00e7a a ideia de que tem caracter\u00edsticas que se ajustam a fun\u00e7\u00f5es que envolvem o cuidado da fam\u00edlia e do lar, as rela\u00e7\u00f5es humanas e a ajuda aos outros.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00e3o, responsabilidade e aten\u00e7\u00e3o distribu\u00edda. A mulher \u00e9 percebida como organizada, eficiente e com a capacidade de desempenhar v\u00e1rias tarefas em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>Baixa compet\u00eancia t\u00e9cnica e cient\u00edfica. Acredita-se que a mulher tem menos compet\u00eancia para \u00e1reas como a matem\u00e1tica, as ci\u00eancias e a tecnologia, e compet\u00eancias mais elevadas nas \u00e1reas verbal e das ci\u00eancias humanas.<\/p>\n<p>Apar\u00eancia f\u00edsica. O estere\u00f3tipo feminino inclui a expectativa de que a mulher cuide da beleza f\u00edsica, dedicando-se aos cuidados est\u00e9ticos do corpo.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo do homem representa, de forma paralela, o conjunto das cren\u00e7as partilhadas sobre o que s\u00e3o ou devem ser as suas caracter\u00edsticas e comportamentos.<\/p>\n<p>For\u00e7a e resili\u00eancia. O homem \u00e9 visto como fisicamente forte e resistente, com capacidade para desempenhar tarefas que exigem grande esfor\u00e7o e para suportar o sofrimento sem o demonstrar. Estas capacidades tornam-no apto para as fun\u00e7\u00f5es de obter recursos, sustentar e proteger.<\/p>\n<p>Racionalidade e controlo emocional. Espera-se que o homem se foque na resolu\u00e7\u00e3o racional dos problemas, assuma a lideran\u00e7a das situa\u00e7\u00f5es, saiba controlar as emo\u00e7\u00f5es e n\u00e3o se deixe dominar por sentimentos como o medo, a ternura, a tristeza ou a como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Autossufici\u00eancia e competitividade agressiva. O homem \u00e9 visto como independente, capaz de enfrentar as dificuldades e conseguir os objectivos com o seu esfor\u00e7o pessoal, sem demonstra\u00e7\u00f5es de fraqueza. \u00c9 ambicioso e competitivo, voltado para conquistar o sucesso material e profissional.<\/p>\n<p>Provedor da fam\u00edlia. Espera-se que seja o principal respons\u00e1vel pela subsist\u00eancia material da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ambos os estere\u00f3tipos incluem elementos descritivos e normativos. Os primeiros referem o que se acredita serem as caracter\u00edsticas dos g\u00e9neros como, por exemplo, o homem \u00e9 forte, racional e competitivo e protector, e a mulher \u00e9 fr\u00e1gil, sens\u00edvel, emocional e cuidadora. Os elementos normativos descrevem as caracter\u00edsticas, comportamentos e pap\u00e9is que se espera que cada g\u00e9nero demonstre e desempenhe. O homem deve saber controlar as emo\u00e7\u00f5es, suportar o sofrimento sem se manifestar, proteger e prover a fam\u00edlia. A mulher deve ser gentil e delicada, ter uma postura submissa, evitar o confronto e as atitudes de domina\u00e7\u00e3o e cuidar da apar\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo descritivo da mulher limita as oportunidades de emprego, de evolu\u00e7\u00e3o na carreira e de ascen\u00e7\u00e3o a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a na sociedade, porque a mulher \u00e9 vista como pouco assertiva, pouco ambiciosa e com baixa capacidade de lideran\u00e7a. Por outro lado, no plano normativo, o estere\u00f3tipo cria uma press\u00e3o no sentido da conformidade \u00e0s expectativas de papel, podendo gerar sentimentos de frustra\u00e7\u00e3o ou inibir a express\u00e3o autentica de si pr\u00f3pria. A mulher pode ser desencorajada a escolher profiss\u00f5es cient\u00edficas o tecnol\u00f3gicas e motivada a optar por profiss\u00f5es de ajuda, a sacrificar os seus projectos profissionais em prol da fam\u00edlia, a conformar-se a posi\u00e7\u00f5es subordinadas e a limitar a diversidade de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo masculino pode levar o homem a n\u00e3o desempenhar profiss\u00f5es como auxiliar educativo, esteticista ou cuidador, e pap\u00e9is como o apoio \u00e0 fam\u00edlia, tidos como femininos, e a evitar exprimir os seus sentimentos, pedir ajuda e revelar fragilidades pessoais. A press\u00e3o para a conformidade ao estere\u00f3tipo n\u00e3o s\u00f3 limita as oportunidades profissionais e a express\u00e3o de si pr\u00f3prio como pode ter efeitos negativos na sa\u00fade mental e contribuir para preconceitos que afectam as rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais.<\/p>\n<p>Estes dois quadros estereot\u00edpicos est\u00e3o a ser fortemente contestados. A mudan\u00e7a social tem sido no sentido de atenuar muitas destas diferen\u00e7as e combater a discrimina\u00e7\u00e3o fundada em normas de g\u00e9nero. No entanto, os aspectos essenciais destes estere\u00f3tipos continuam presentes em m\u00faltiplas dimens\u00f5es da vida social: na educa\u00e7\u00e3o, nos contextos de trabalho, nos media e, de forma impl\u00edcita, nos ju\u00edzos e decis\u00f5es de muitos que, de forma consciente, defendem a igualdade de g\u00e9nero. Importa, pois, saber se homem e mulher t\u00eam efectivamente padr\u00f5es de comportamento diferentes e, em caso afirmativo, se essas diferen\u00e7as t\u00eam uma base biol\u00f3gica ou se resultam de uma aprendizagem social.<\/p>\n<p><strong>Diferen\u00e7as biol\u00f3gicas e comportamentais entre os g\u00e9neros<\/strong><\/p>\n<p>Os fundamentos biol\u00f3gicos das diferen\u00e7as de g\u00e9nero t\u00eam sido amplamente estudados, abarcando as diferen\u00e7as gen\u00e9ticas e hormonais, a estrutura f\u00edsica e a estrutura cerebral. As diferen\u00e7as nos cromossomas sexuais do homem e da mulher determinam o desenvolvimento das caracter\u00edsticas sexuais prim\u00e1rias e secund\u00e1rias, e as diferen\u00e7as hormonais que, por seu lado, condicionam a robustez esquel\u00e9tica, o desenvolvimento muscular, a distribui\u00e7\u00e3o do tecido adiposo e padr\u00f5es de resposta aos est\u00edmulos do meio . A testosterona, produzida nos test\u00edculos e em menor quantidade nos ov\u00e1rios, determina, entre outros aspectos, o volume da massa muscular, a distribui\u00e7\u00e3o da pilosidade no corpo, a altura da voz, mais grave no homem, bem como os n\u00edveis mais elevados de competitividade e agressividade masculina.<\/p>\n<p>O homem tem, em m\u00e9dia, massa muscular e densidade \u00f3ssea mais elevadas, o que contribui para uma maior robustez f\u00edsica. A mulher tem estruturas \u00f3sseas mais leves e flex\u00edveis, que facilitam a gesta\u00e7\u00e3o e o parto, e uma percentagem mais elevada de gordura corporal, associada \u00e0s fun\u00e7\u00f5es reprodutivas.<\/p>\n<p>A progesterona e o estrog\u00e9nio s\u00e3o hormonas que predominam na mulher com um papel importante no desenvolvimento de caracter\u00edsticas femininas como a mama, o ciclo menstrual, a gravidez e a distribui\u00e7\u00e3o da gordura nos quadris e nas coxas.<\/p>\n<p>A oxitocina, uma hormona produzida no c\u00e9rebro, conhecida como &#8220;hormona do afecto&#8221; \u00e9 produzida em maior quantidade na mulher, embora tamb\u00e9m desempenhe no homem um papel importante nas rela\u00e7\u00f5es sociais e emocionais. Esta hormona est\u00e1 associada a comportamentos de empatia, ao estabelecimento de v\u00ednculos afectivos e \u00e0 express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A neuroci\u00eancia mostra que h\u00e1 diferen\u00e7as estruturais entre os c\u00e9rebros da mulher e do homem. O c\u00e9rebro da mulher tem mais densidade neuronal em \u00e1reas como o c\u00f3rtex, o que pode estar associado a maior capacidade para integrar a informa\u00e7\u00e3o, e apresenta maior conectividade entre os dois hemisf\u00e9rios c\u00e9rebrais. A conectividade entre os hemisf\u00e9rios, ao n\u00edvel do corpo caloso, favorece a capacidade para integrar os planos verbal e emocional, uma vis\u00e3o mais hol\u00edstica das situa\u00e7\u00f5es e maior capacidade para exercer v\u00e1rias tarefas em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro do homem tem, em m\u00e9dia, um volume e peso ligeiramente superior, reflectindo a propor\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9rebro e o corpo, e a conectividade neuronal dentro de cada hemisf\u00e9rio \u00e9 maior, o que pode explicar o desenvolvimento de compet\u00eancias mais elevadas nos dom\u00ednios espacial e motor, a tend\u00eancia para se focalizar em tarefas espec\u00edficas e para adoptar uma perspectiva mais anal\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m estudos que indicam pequenas diferen\u00e7as m\u00e9dias, entre g\u00e9neros, na dimens\u00e3o e no funcionamento de \u00e1reas como a am\u00edgdala e o hipocampo, relacionados com a mem\u00f3ria e as emo\u00e7\u00f5es. No homem, a am\u00edgdala \u00e9 de maior dimens\u00e3o o que pode explicar respostas emocionais mais intensas a situa\u00e7\u00f5es de risco ou amea\u00e7a. Na mulher, a am\u00edgdala tem conex\u00f5es com as \u00e1reas do c\u00e9rebro associadas \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, o que pode explicar a forma mais complexa e contextualizada de reagir a situa\u00e7\u00f5es emocionais. O hipocampo \u00e9 ligeiramente mais desenvolvido na mulher, o que pode favorecer a mem\u00f3ria emocional e a orienta\u00e7\u00e3o em ambientes familiares.<\/p>\n<p>O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal tem um papel central nas fun\u00e7\u00f5es cognitivas superiores como o racioc\u00ednio, o planeamento e o controlo das emo\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m apresenta diferen\u00e7as entre os dois g\u00e9neros. Estudos de neuroimagem mostram que, em m\u00e9dia, o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal da mulher \u00e9 proporcionalmente maior, tem mais densidade neuronal e apresenta maior conectividade entre os dois hemisf\u00e9rios. Estas caracter\u00edsticas podem explicar os facto da mulher mostrar compet\u00eancias sociais e emocionais mais elevadas e maior capacidade para integrar o elemento emocional nas tomadas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>As respostas emocionais tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes no homem e na mulher. No homem, a resposta a situa\u00e7\u00f5es de risco ou stresse \u00e9 mediada pela testosterona, e manifesta-se tipicamente em comportamentos de confronto ou de fuga. Na mulher, a resposta \u00e9 mediada pela oxitocina, determinando uma maior tend\u00eancia para comportamentos de aproxima\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica e de cuidado. A mulher tem mais facilidade em reconhecer as express\u00f5es emocionais dos outros e em expressar as emo\u00e7\u00f5es, devido a uma maior actividade do sistema l\u00edmbico, e tende a controlar menos as emo\u00e7\u00f5es nas respostas a est\u00edmulos amea\u00e7adores.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m identifica diferen\u00e7as entre os g\u00e9neros no que respeita \u00e0s compet\u00eancias e aos padr\u00f5es de comportamento. A mulher tem, em m\u00e9dia, aptid\u00f5es verbais mais elevadas, designadamente, maior flu\u00eancia verbal e precis\u00e3o na leitura, e melhor mem\u00f3ria de curto prazo. Tamb\u00e9m desempenha melhor em tarefas que envolvem a mem\u00f3ria de rostos, de eventos emocionais e de detalhes contextuais. O homem tem melhor desempenho em tarefas que exigem aptid\u00f5es mec\u00e2nicas e espaciais, sobretudo as que envolvem rota\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o espaciais.<\/p>\n<p>Os estudos de psicologia diferencial mostram tamb\u00e9m diferen\u00e7as nos perfis m\u00e9dios de interesses. O homem interessa-se mais por \u00e1reas como mec\u00e2nica, tecnologia, engenharia e desportos competitivos, enquanto a mulher se interessa sobretudo por actividades que envolvem a rela\u00e7\u00e3o com pessoas, o apoio social, iniciativas comunit\u00e1rias e o artesanato criativo.<\/p>\n<p>A mulher est\u00e1 mais motivada para o relacionamento social, e valoriza mais a colabora\u00e7\u00e3o e o apoio, enquanto o homem procura autonomia e independ\u00eancia. O homem tende a mostrar n\u00edveis mais elevados de agressividade f\u00edsica, favorecidos por n\u00edveis mais elevados de testosterona, enquanto a agressividade da mulher se exprime mais frequentemente em termos verbais ou relacionais, por exemplo, cortando os relacionamentos ou manipulando as rela\u00e7\u00f5es. A mulher mostra maior empatia cognitiva e emocional.<\/p>\n<p>Um dos aspectos mais aparentes das diferen\u00e7as de g\u00e9nero \u00e9 a forma como se exprimem e regulam as emo\u00e7\u00f5es. O homem tende a reprimir as emo\u00e7\u00f5es em especial aquelas que podem ser interpretadas como sinais de fragilidade, como o medo, a tristeza ou a compaix\u00e3o. Tende a demonstrar as emo\u00e7\u00f5es de forma indirecta ou a usar o distanciamento emocional como demostra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a e coragem. A mulher mostra uma gama mais ampla de emo\u00e7\u00f5es e tende a exprimir os sentimentos de forma mais aberta e intensa.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o, o homem utiliza uma forma mais directa e assertiva, orientado para a resolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida dos problemas e para solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. A mulher tem uma abordagem mais expressiva, colaborativa e consensualizante, com mais sensibilidade ao impacto da comunica\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es pessoais e no ambiente de trabalho. Tem uma comunica\u00e7\u00e3o mais emp\u00e1tica e dispon\u00edvel a escutar a opini\u00e3o dos outros. A mulher tamb\u00e9m utiliza melhor e \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0s linguagens n\u00e3o-verbais. Usa mais o contacto visual e as express\u00f5es faciais para complementar a comunica\u00e7\u00e3o oral, o que facilita a comunica\u00e7\u00e3o dos aspectos emocionais.<\/p>\n<p>Os dois padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o alinhados com a forma como lidam com o conflito. O homem adopta mais frequentemente atitudes competitivas e confrontativas para resolver os conflitos, focando-se na sua resolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. A mulher adopta atitudes mais conciliat\u00f3rias e colaborativas, procurando o entendimento entre as partes e manter os relacionamentos intactos. Neste caso, a resolu\u00e7\u00e3o do conflito \u00e9 mais demorada mas tende a ser mais duradoura e satisfat\u00f3ria para as partes, favorecendo o restabelecimento da harmonia e da coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se registam diferen\u00e7as, em m\u00e9dia, entre os g\u00e9neros, no que respeita \u00e0 tomada de decis\u00e3o e ao estilo de lideran\u00e7a. A mulher adopta uma abordagem mais cautelosa e detalhada, considerando diversas perspectivas antes de tomar a decis\u00e3o. Est\u00e1 mais orientada para o contexto social, sendo particularmente sens\u00edvel aos impactos sociais, pessoais e emocionais das escolhas. Esta tend\u00eancia pode estar relacionada com a maior activa\u00e7\u00e3o das \u00e1reas do c\u00e9rebro relacionadas com a empatia e a percep\u00e7\u00e3o social, durante o processo de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>O homem apresenta uma abordagem mais directa, r\u00e1pida, orientada para resultados, aberta ao risco e com pouco enfoque nos detalhes, associada \u00e0 maior activa\u00e7\u00e3o da am\u00edgdala, a estrutura cerebral que regula as reac\u00e7\u00f5es ao risco e \u00e0s recompensas, e tamb\u00e9m aos n\u00edveis mais elevados de testosterona, a hormona que condiciona os comportamentos agressivos\/competitivos.<\/p>\n<p>A reac\u00e7\u00e3o ao risco tamb\u00e9m apresenta diferen\u00e7as m\u00e9dias. A mulher \u00e9 mais cautelosa e analisa com mais cuidado os poss\u00edveis impactos das decis\u00f5es. Tem maior avers\u00e3o a assumir riscos nos contextos de neg\u00f3cio e, sobretudo, se o risco envolve pessoas, porque d\u00e1 maior relev\u00e2ncia \u00e0s necessidades e sentimentos dos outros. Em rela\u00e7\u00e3o ao risco, a mulher tem uma abordagem mais conservadora, mas que pode revelar-se mais sustent\u00e1vel no longo prazo.<\/p>\n<p>O homem tem comportamentos mais ousados e competitivos e \u00e9 mais prov\u00e1vel assumir riscos em situa\u00e7\u00f5es de incerteza e competi\u00e7\u00e3o, em \u00e1reas como o investimento, os neg\u00f3cios, o jogo e o desporto. Foca-se nos objectivos concretos e tende a afastar da decis\u00e3o os factores emocionais que podiam influenci\u00e1-la, dando menos relev\u00e2ncia aos impactos sociais e pessoais imediatos das escolhas.<\/p>\n<p>Embora haja uma forte influ\u00eancia da personalidade individual e dos contextos, o homem tende a utilizar estilos de lideran\u00e7a mais orientados para a tarefa, com tend\u00eancia para centralizar o poder e usar a autoridade. Delega tarefas e metas espec\u00edficas mas mant\u00e9m a supervis\u00e3o e controlo dos resultados. Utiliza a press\u00e3o no sentido de atingir os objectivos e distribui os incentivos em fun\u00e7\u00e3o do desempenho. Adopta, por isso, um estilo mais pr\u00f3ximo da lideran\u00e7a transacional.<\/p>\n<p>A mulher adopta estilos de lideran\u00e7a mais colaborativos e orientados para as pessoas, focados na preserva\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e do ambiente de trabalho, na cria\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o compartilhada e no desenvolvimento das equipas. Aproxima-se mais, por isso, do padr\u00e3o de lideran\u00e7a transformacional. A mulher \u00e9 mais flex\u00edvel, adaptando o estilo de lideran\u00e7a \u00e0s necessidades das pessoas e dos contextos de trabalho. Valoriza mais a delega\u00e7\u00e3o e a responsabiliza\u00e7\u00e3o, encorajando a autonomia, o desenvolvimento de compet\u00eancias e as rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Estas duas orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o ainda refor\u00e7adas pela focaliza\u00e7\u00e2o dominante nos g\u00e9neros. O homem est\u00e1 sobretudo focado na concretiza\u00e7\u00e3o dos objectivos, nas realiza\u00e7\u00f5es individuais, no sucesso profissional e na conquista de status. A mulher d\u00e1 prioridade ao plano relacional e est\u00e1 mais focada na coopera\u00e7\u00e3o, na harmonia e na interajuda.<\/p>\n<p><strong>Estes dados permitem algumas conclus\u00f5es gerais mas tamb\u00e9m exigem prud\u00eancia na forma como devem ser interpretados.<\/strong><\/p>\n<p>1- Existem diferen\u00e7as gen\u00e9ticas e hormonais entre homem e mulher que influenciam n\u00e3o s\u00f3 as caracter\u00edsticas f\u00edsicas como alguns padr\u00f5es t\u00edpicos de comportamento. Em especial as fun\u00e7\u00f5es hormonais e a estrutura do c\u00e9rebro, no homem e na mulher, favorecem a exist\u00eancia de compet\u00eancias cognitivas e socio-emocionais com padr\u00f5es diferentes sem que nada permita defender a superioridade funcional de um deles.<\/p>\n<p>2- As diferen\u00e7as ao n\u00edvel da estrutura do c\u00e9rebro e, sobretudo, nos padr\u00f5es comportamentais, s\u00e3o diferen\u00e7as m\u00e9dias que exprimem as tend\u00eancias registadas num n\u00famero elevado de observa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma enorme diversidade de casos individuais e os padr\u00f5es t\u00edpicos dos g\u00e9neros t\u00eam uma larga faixa de sobreposi\u00e7\u00e3o. Isto significa que as generaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma perigosa fonte de erro.<\/p>\n<p>3- A an\u00e1lise dos padr\u00f5es comportamentais t\u00edpicos do homem e da mulher mostram uma evidente complementaridade. No homem dominam as capacidades relacionadas com a for\u00e7a f\u00edsica, a agressividade, e de um modo geral as compet\u00eancias orientadas para a rela\u00e7\u00e3o com o mundo f\u00edsico. Na mulher \u00e9 dominante a orienta\u00e7\u00e3o para as pessoas. T\u00eam maior express\u00e3o as compet\u00eancias emocionais para estabelecer rela\u00e7\u00f5es, apoiar, colabora ser sens\u00edvel aos outros e ao impacto das ac\u00e7\u00f5es sobre as pessoas. \u00c9 prov\u00e1vel que a complementaridade destes padr\u00f5es, que reflectem a diferencia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e hormonal dos sexos, tenha tido, no passado da esp\u00e9cie, uma fun\u00e7\u00e3o importante na alimenta\u00e7\u00e3o, na reprodu\u00e7\u00e3o e na sobreviv\u00eancia colectiva, mas nada indica que desempenhem a mesma fun\u00e7\u00e3o vital na sociedade de hoje.<\/p>\n<p>4- As diferen\u00e7as na fun\u00e7\u00f5es hormonais e na estrutura do c\u00e9rebro contribuem para diferen\u00e7as de g\u00e9nero (por vezes muito ligeiras) nos comportamentos m\u00e9dios, mas n\u00e3o t\u00eam um impacto decisivo no desempenho. A posi\u00e7\u00e3o mais consensual \u00e9 a de que os factores biol\u00f3gicos apenas determinam a predisposi\u00e7\u00e3o para determinados comportamentos. A socializa\u00e7\u00e3o, os factores culturais e a diversidades das experi\u00eancias individuais modelam de forma muito significativa o modo como o homem e a mulher se comportam, reduzindo, anulando ou mesmo invertendo a influ\u00eancia das diferen\u00e7as biol\u00f3gicas no comportamento. Usar as caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas para justificar as normas de g\u00e9nero \u00e9 cair no reducionismo biol\u00f3gico, uma vis\u00e3o simplista e unilateral que entende as diferen\u00e7as de g\u00e9nero como essenciais e imut\u00e1veis. O estudo dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero \u00e9 um dos dom\u00ednios onde \u00e9 mais clara a interdepend\u00eancia da biologia e da cultura, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>Influ\u00eancia dos meios social e cultural nas diferen\u00e7as de g\u00e9nero<\/strong><\/p>\n<p>Os contextos social e cultural t\u00eam uma enorme influencia nas diferen\u00e7as comportamentais entre homem e mulher. Embora os factores biol\u00f3gicos contribuam para muitas dessas diferen\u00e7as, o contexto social \u00e9 determinante na forma como as diferen\u00e7as se desenvolvem, s\u00e3o expressas, s\u00e3o percepcionadas e avaliadas.<\/p>\n<p>Todas as sociedades t\u00eam normas de g\u00e9nero bem definidas. S\u00e3o cren\u00e7as partilhadas sobre as atitudes e comportamentos &#8220;pr\u00f3prios&#8221; do homem e da mulher. Aquilo que se espera que cada um seja e demonstre, pela simples raz\u00e3o de pertencer a um dos g\u00e9neros. Estas expectativas definem com precis\u00e3o os pap\u00e9is que devem desempenhar na sociedade, as formas de reagir e exprimir as emo\u00e7\u00f5es, as rela\u00e7\u00f5es com o sexo oposto, a utiliza\u00e7\u00e3o que devem fazer da autonomia e da liberdade, como devem perspectivar o futuro, a maneira de comunicar, os padr\u00f5es de beleza que devem adoptar, e at\u00e9 as formas de pensar, de vestir e de andar&#8230;<\/p>\n<p>As normas sociais tamb\u00e9m determinam a forma como homens e mulheres constroem as suas identidades de g\u00e9nero, exercendo uma forte press\u00e3o no sentidos de os comportamentos individuais obedecerem \u00e0s expectativas sociais limitando, deste modo, as formas de express\u00e3o individual e contribuindo para a marginaliza\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o obedecem \u00e0s expectativas.<\/p>\n<p>As normas de g\u00e9nero s\u00e3o transmitidas desde muito cedo. Os rapazes s\u00e3o incentivados a ser firmes e competitivos. As raparigas a serem d\u00f3ceis e disciplinadas. As actividades escolares, as brincadeiras e o feedback que recebem dos adultos modelam as suas atitudes, interesses e expectativas, e constroem a identidade de g\u00e9nero de cada um. Os media e as redes sociais t\u00eam tamb\u00e9m um papel importante. A publicidade comercial, em particular, retrata muitas vezes a mulher ligada \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas e aos cuidados \u00e0 fam\u00edlia, e o homens em pap\u00e9is de ac\u00e7\u00e3o e de lideran\u00e7a, moldando os comportamentos que s\u00e3o &#8220;adequados&#8221; a cada g\u00e9nero.<\/p>\n<p>As redes sociais s\u00e3o um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o com grande influ\u00eancia na transmiss\u00e3o, na internaliza\u00e7\u00e3o, no questionamento e na desconstru\u00e7\u00e3o das normas de g\u00e9nero, sobretudo entre os jovens. Muitos influenciadores refor\u00e7am os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero tradicionais exibindo a import\u00e2ncia do vigor f\u00edsico, da agressividade competitiva e do sucesso financeiro, nos rapazes, e a idealiza\u00e7\u00e3o da beleza e da maternidade, nas raparigas. A procura de um corpo perfeito e de uma apar\u00eancia f\u00edsica objecto de desejo, afecta mais as raparigas mas tamb\u00e9m os rapazes na busca de um f\u00edsico atl\u00e9tico.<\/p>\n<p>A internaliza\u00e7\u00e3o destas normas de beleza como ideais obrigat\u00f3rios, pode conduzir a graves problemas de autoestima, a transtornos alimentares e a problemas de sa\u00fade mental. As redes sociais ao promoverem a compara\u00e7\u00e3o das expectativas de g\u00e9nero com os seus modelos ideais s\u00e3o uma fonte permanente de frustra\u00e7\u00f5es que abrangem desde a apar\u00eancia f\u00edsica ao sucesso pessoal e estilo de vida.<\/p>\n<p>Os algoritmos usados pelas redes sociais para direccionar an\u00fancios tamb\u00e9m contribuem para refor\u00e7ar os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero, dirigindo \u00e0 mulher mensagens sobre produtos de beleza, alimentares e acess\u00f3rios para o lar, ou dirigidas ao bem-estar emocional, e aos homens a publicidade a autom\u00f3veis, bebidas alco\u00f3licas e equipamentos desportivos, refor\u00e7ando as expectativas de g\u00e9nero. Algumas empresas est\u00e3o a repensar as estrat\u00e9gias de marketing e a quebrar os estere\u00f3tipos apelando aos valores da igualdade e da diversidade, mas o peso dos estere\u00f3tipos \u00e9 bem vis\u00edvel nas pol\u00e9micas que se geram em rela\u00e7\u00e3o a algumas campanhas publicit\u00e1rias mais disruptivas.<\/p>\n<p>As redes sociais s\u00e3o tamb\u00e9m um espa\u00e7o onde os comportamentos que fogem \u00e1s normas de g\u00e9nero podem ser criticados, ridicularizados ou objecto de ciberbullying. Comportamentos que se afastam do ideal do g\u00e9nero ou que s\u00e3o considerados &#8220;femininos&#8221; no homem, ou &#8220;masculinos&#8221; na mulher, s\u00e3o socialmente punidos constituindo uma forma severa de controlo social. Esta press\u00e3o para a conformidade faz com que muitas pessoas adoptem as normas tradicionais de g\u00e9nero e outras n\u00e3o sejam capazes de expressar a sua verdadeira identidade.<\/p>\n<p>Apesar destes aspectos negativos, as redes sociais permitem o contacto com casos que n\u00e3o seguem padr\u00f5es de g\u00e9nero bin\u00e1rios e acolhem muitos movimentos que promovem a aceita\u00e7\u00e3o de express\u00f5es de g\u00eanero fora dos estere\u00f3tipos, ajudando a combater as limita\u00e7\u00f5es de normas opressivas. Alguns destes movimentos incentivam o respeito pela individualidade e liberdade de escolha, e ajudam a desconstruir os pap\u00e9is de g\u00e9nero tradicionais.<\/p>\n<p>Apesar da valoriza\u00e7\u00e3o que nos \u00faltimos anos est\u00e1 a ser dada \u00e0 empatia, \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o e ao trabalho em equipa, mais associados ao padr\u00e3o de lideran\u00e7a da mulher, ainda h\u00e1 muitas organiza\u00e7\u00f5es que usam estere\u00f3tipos impl\u00edcitos para atribuir as fun\u00e7\u00f5es e responsabilidades &#8220;apropriadas&#8221; a cada g\u00e9nero. Favorecem nas fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a os comportamentos masculinos mais competitivos e orientados para resultados, e nas fun\u00e7\u00f5es administrativas e de apoio, a colabora\u00e7\u00e3o da mulher. Deste modo, dificultam o acesso de muitas mulheres a cargos de maior responsabilidade ou promovem preferencialmente aquelas que mais se aproximam do padr\u00e3o masculino da lideran\u00e7a. Com isto reduzem as oportunidades de progress\u00e3o na carreira de todos os que n\u00e3o cabem naquele padr\u00e3o. Estas organiza\u00e7\u00f5es contribuem para a perpetua\u00e7\u00e3o das normas de g\u00e9nero ao mostrarem, com as suas pol\u00edticas de progress\u00e3o na carreira, que \u00e9 o estere\u00f3tipo da lideran\u00e7a masculina que leva ao sucesso.<\/p>\n<p>V\u00e1rios estudos mostram que h\u00e1 tamb\u00e9m mecanismos psicol\u00f3gicos que podem levar a uma falsa confirma\u00e7\u00e3o das normas de g\u00e9nero, contribuindo para as perpetuar. Quando a norma \u00e9 internalizada, afecta os n\u00edveis de autoestima e autoefic\u00e1cia, levando a pessoa a acreditar que \u00e9 mais capaz ou menos capaz, do que realmente \u00e9, para enfrentar determinados desafios, de acordo com a expectativa de g\u00e9nero. Uma mulher que internaliza que &#8220;as mulheres n\u00e3o t\u00eam jeito para a matem\u00e1tica&#8221;, reduz a autoconfian\u00e7a e o empenhamento para ter sucesso nesta \u00e1rea, o que vai afectar o seu desempenho. &#8220;Prova&#8221;, com isso, (a si pr\u00f3pria e aos outros) que a matem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 para as mulheres&#8230;<\/p>\n<p>Outro mecanismo psicol\u00f3gico est\u00e1 relacionado com o medo de confirmar a expectativa de g\u00e9nero quando ela \u00e9 negativa. A ideia de que o homem n\u00e3o \u00e9 cuidador pode levar a n\u00edveis elevados de ansiedade e stresse quando tem que assumir a responsabilidade de cuidar de algu\u00e9m. O medo de n\u00e3o ser capaz e a tens\u00e3o a que est\u00e1 sujeito pode conduzir ao insucesso, confirmando que o papel de cuidador cabe \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>Um terceiro mecanismo psicol\u00f3gico contribui ainda para a manuten\u00e7\u00e3o das normas de g\u00e9nero: o efeito que a expectativa exerce sobre o desenvolvimento das compet\u00eancias. O facto de o homem dever mostrar-se en\u00e9rgico e objectivo e a mulher emp\u00e1tica e cuidadora influenciam a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, treinando as compet\u00eancias sociais contidas na expectativa. Isto significa que as expectativas de g\u00e9nero tendem a cumprir-se e a perpetuar-se porque a press\u00e3o que exercem pode favorecer o desenvolvimento dos comportamentos esperados.<\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o das normas de g\u00e9nero e a quebra das barreiras que imp\u00f5em cria um espa\u00e7o de liberdade para que todos, independentemente do g\u00e9nero, explorem as suas potencialidade sem constrangimentos, exprimindo a sua individualidade e servindo a sociedade com a diversidade das suas compet\u00eancias, motiva\u00e7\u00f5es e aspira\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p><strong>A falsa oposi\u00e7\u00e3o entre biologia e sociedade<\/strong><\/p>\n<p>A maior consciencializa\u00e7\u00e3o sobre os problemas da diversidade e da inclus\u00e3o, e o debate sobre a igualdade de g\u00e9nero, est\u00e3o a mudar as expectativas sociais e a desafiar a rigidez tradicional dos pap\u00e9is atribu\u00eddos ao homem e \u00e0 mulher. Esta transforma\u00e7\u00e3o tem reduzido o impacto negativo dos estere\u00f3tipos, e est\u00e1 a contribuir para atitudes e ambientes de trabalho que estimulam a igualdade e valorizam as diferen\u00e7as individuais, permitindo que homem e mulher exprimam o seu potencial menos condicionados pelas normas de g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Contudo, esta mudan\u00e7a est\u00e1 longe de ser generalizada e a educa\u00e7\u00e3o no seio da fam\u00edlia, a forma\u00e7\u00e3o escolar, o contexto cultural, os media, as redes sociais, as pol\u00edticas organizacionais e as rela\u00e7\u00f5es pessoais do dia a dia, continuam a perpetuar as normas de g\u00e9nero de uma forma discreta mas persistente.<\/p>\n<p>Permanece, pois, a quest\u00e3o de saber se as normas de g\u00e9nero se fundamentam em diferen\u00e7as biol\u00f3gicas entre homem e mulher ou se s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais para justificar rela\u00e7\u00f5es de poder, as quais \u00e9 necess\u00e1rio desconstruir e combater. As posi\u00e7\u00f5es \u00e0 volta desta quest\u00e3o continuam polarizadas. Uns defendendo que as diferen\u00e7as entre homem e mulher s\u00e3o determinadas pela biologia dos g\u00e9neros, outros argumentando que as diferen\u00e7as s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o social, apoiando-se ambos no pressuposto de que h\u00e1 uma oposi\u00e7\u00e3o radical entre natureza e sociedade. Ou seja, as normas de g\u00e9nero justificar-se-iam porque refletem as diferen\u00e7as biol\u00f3gicas entre homem e mulher, ou ent\u00e3o n\u00e3o teriam qualquer justifica\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o uma forma de opress\u00e3o social que pode e deve ser contestada em nome dos valores da igualdade e da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o entre natureza e sociedade \u00e9 uma ideia fortemente radicada na cultura ocidental e que tamb\u00e9m encontra apoio no senso comum. Esta tese, tamb\u00e9m expressa na oposi\u00e7\u00e3o entre biologia e cultura, apoia-se em tr\u00eas pressupostos sem fundamento. O primeiro \u00e9 ideia de que a realidade biol\u00f3gica \u00e9 um dado \u00e0 partida, em si pr\u00f3prio imut\u00e1vel. As caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas s\u00e3o vistas como factores determin\u00edsticos que n\u00e3o podem ser modificados pela vontade humana nem pelo exerc\u00edcio da experi\u00eancia. Neste sentido, as diferen\u00e7as comportamentais entre g\u00e9neros determinadas pelas fun\u00e7\u00f5es hormonais ou pela estrutura do c\u00e9rebro constituiriam uma matriz &#8220;fixada na natureza&#8221;, que ter\u00edamos que aceitar como um facto indel\u00e9vel. Seria imposs\u00edvel alterar o que a natureza determinou.<\/p>\n<p>O segundo pressuposto falso \u00e9 a ideia de que as estruturas biol\u00f3gicas e a sociedade evoluem de forma paralela e independente. A mudan\u00e7a nos organismos far-se-ia pelos mecanismos da transmiss\u00e3o gen\u00e9tica, enquanto a mudan\u00e7a social resultaria da vontade humana, como se se tratasse de duas din\u00e2micas diferentes e incomunic\u00e1veis.<\/p>\n<p>O terceiro pressuposto \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre as finalidades prosseguidas pela biologia e pela sociedade. A l\u00f3gica finalista da biologia seria a sobreviv\u00eancia e expans\u00e3o dos organismos, enquanto a sociedade visava a felicidade e o bem-estar, pela liberta\u00e7\u00e3o dos condicionalismos da natureza. Enquanto a natureza nos submeteria \u00e0s suas leis implac\u00e1veis, a sociedade cumpria a fun\u00e7\u00e3o de nos libertar da natureza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aprofundar aqui a falta de fundamento destes postulados. Basta mostrar que n\u00e3o se aplicam ao que sabemos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre as fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro no homem e na mulher e os comportamentos de g\u00e9nero. Contrariamente \u00e0 ideia comum de que a realidade biol\u00f3gica pr\u00e9-existe e n\u00e3o pode ser alterada, entre o organismo e a sociedade h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e bidireccional. O c\u00e9rebro desenvolve-se e aprende com a experi\u00eancia e a experi\u00eancia desenvolve-se com a evolu\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro. O c\u00e9rebro humano \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o pl\u00e1stico. O atributo da neuroplasticidade permite-lhe reorganizar, criar e desligar as conex\u00f5es neuronais como reac\u00e7\u00e3o a novas experiencias e aprendizagens. Esta propriedade \u00e9 essencial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e motor.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o mostra que, quando uma aprendizagem ou a experi\u00eancia s\u00e3o repetidas, as conex\u00f5es entre os neur\u00f3nios envolvidos \u00e9 fortalecida. Esta &#8220;potencia\u00e7\u00e3o de longo prazo&#8221; est\u00e1 na base da consolida\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e do desenvolvimento de novas capacidades. A aprendizagem tamb\u00e9m leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novas liga\u00e7\u00f5es neuronais, ao aumento do n\u00famero de circuitos e \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de diferentes \u00e1reas do c\u00e9rebro, possibilitando respostas mais r\u00e1pidas e mais complexas. Do mesmo modo, as conex\u00f5es menos utilizadas podem ser &#8220;desligadas&#8221; para optimizar a efici\u00eancia geral.<\/p>\n<p>Sabemos, por exemplo, que experi\u00eancias espec\u00edficas activam as \u00e1reas do c\u00e9rebro que est\u00e3o funcionalmente relacionadas. Aprender a tocar um instrumento, aprender uma l\u00edngua ou praticar um desporto podem expandir ou reorganizar os circuitos neuronais para suportar as novas capacidades. Alguns estudos provam mesmo a exist\u00eancia de neurog\u00e9nese. Em \u00e1reas do c\u00e9rebro, como o hipocampo, podem formar-se novos neur\u00f3nios em resposta a experi\u00eancias continuadas e em casos de les\u00e3o cerebral as \u00e1reas n\u00e3o atingidas podem assumir em parte as fun\u00e7\u00f5es das \u00e1reas que foram lesadas.<\/p>\n<p>Na esfera s\u00f3cio-emocional, as interac\u00e7\u00f5es sociais moldam os circuitos neuronais relacionados com a empatia e as compet\u00eancias de interac\u00e7\u00e3o social, e as experiencias vividas com emo\u00e7\u00f5es mais intensas estimulam a produ\u00e7\u00e3o de serotonina e dopamina, dois neurotransmissores que influenciam a aprendizagem e a reten\u00e7\u00e3o mn\u00e9sica. Por isso, as experi\u00eancias com maior carga emocional t\u00eam mais probabilidade de ser lembradas.<\/p>\n<p>Tudo indica que a experi\u00eancia introduz mudan\u00e7as funcionais no c\u00e9rebro, levando \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o duradoura de novas capacidades e de padr\u00f5es de resposta nos dom\u00ednios cognitivo e emocional, que reflectem o meio social. \u00c9 prov\u00e1vel que a modula\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro ao contexto social tenha acontecido em dois planos. No plano filogen\u00e9tico, o c\u00e9rebro evoluiu com a experi\u00eancia acumulada de gera\u00e7\u00f5es. No plano ontogen\u00e9tico, desenvolveu-se com as experi\u00eancias e aprendizagens individuais em contextos sociais espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Deste modo, o c\u00e9rebro \u00e9 modelado pela experi\u00eancia e aquilo que designamos por &#8220;natureza&#8221; pode ser em boa medida uma &#8220;r\u00e9plica biol\u00f3gica&#8221; das experi\u00eancias sociais. Nesta perspectiva, uma grande parte das diferen\u00e7as comportamentais entre g\u00e9neros resultariam das &#8220;marcas&#8221; no c\u00e9rebro produzidas pelo contexto social.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o mais dif\u00edcil \u00e9 compreender como \u00e9 que as diferentes experi\u00eancias sociais, do homem e da mulher come\u00e7aram a acontecer, iniciando o processo de &#8220;programa\u00e7\u00e3o&#8221; diferenciada do c\u00e9rebro nos dois g\u00e9neros. Uma hip\u00f3tese poss\u00edvel \u00e9 a de que a diferencia\u00e7\u00e3o dos comportamentos e das experi\u00eancias esteja, na sua origem, relacionada com os mecanismos biol\u00f3gicos ligados \u00e0 fun\u00e7\u00e3o reprodutiva. A evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica ao definir as fun\u00e7\u00f5es reprodutivas no homem e na mulher pode ter sido o principal factor que levou \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de resposta ao meio e do desempenho dos pap\u00e9is em contexto social. Este ponto de vista \u00e9 defendido por perquisadores na \u00e1rea da psicologia evolutiva. A mulher teria desenvolvido a empatia, a sensibilidade emocional e as compet\u00eancias de rela\u00e7\u00e3o interpessoal, pelo papel evolutivo na cria\u00e7\u00e3o dos filhos, enquanto o homem teria desenvolvido tra\u00e7os de agressividade competitiva associados \u00e0s actividades da ca\u00e7a e da defesa da comunidade.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia hist\u00f3rica das normas de g\u00e9nero deve-se sobretudo ao facto deste mecanismo de modela\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro se retroalimentar. Uma vez que a experi\u00eancia social desenvolveu no c\u00e9rebro do homem e da mulher compet\u00eancias cognitivas e s\u00f3cio-emocionais diferentes (em m\u00e9dia) isso faz com que cada g\u00e9nero desempenhe os pap\u00e9is sociais para que est\u00e1 mais capacitado, com n\u00edveis de motiva\u00e7\u00e3o e de efic\u00e1cia mais elevados. Este processo foi refor\u00e7ando ao longo do tempo a diferencia\u00e7\u00e3o dos papeis de g\u00e9nero. Este mecanismo pode ajudar a compreender a raz\u00e3o porque muitos homens e mulheres aceitam as normas de g\u00e9nero e desempenham os pap\u00e9is que socialmente lhes s\u00e3o atribu\u00eddos, com naturalidade e at\u00e9 com o sentimento de que est\u00e3o a exprimir a sua aut\u00eantica voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is de g\u00e9nero t\u00eam, pois, ra\u00edzes profundas na evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica da esp\u00e9cie e na inter-rela\u00e7\u00e3o do organismo com as experi\u00eancias em contexto social. A defini\u00e7\u00e3o r\u00edgida dos pap\u00e9is de g\u00e9nero \u00e9 prov\u00e1vel que tenha tido uma fun\u00e7\u00e3o historicamente importante na reprodu\u00e7\u00e3o e na sobreviv\u00eancia da comunidade humana. No entanto, a evolu\u00e7\u00e3o material e moral da civiliza\u00e7\u00e3o faz com que a divis\u00e3o r\u00edgida dos papeis de g\u00e9nero esteja a perder a funcionalidade original e as expectativas de g\u00e9nero s\u00e3o hoje percebidas como contrariando aos valores da liberdade, da igualdade e da justi\u00e7a que foram progredindo na consci\u00eancia colectiva. \u00c9 prov\u00e1vel que a evolu\u00e7\u00e3o moral da sociedade, associada \u00e0 emerg\u00eancia destes valores, seja o factor decisivo que est\u00e1 a quebrar a rela\u00e7\u00e3o circular entre a biologia e a sociedade, que tem alimentado a perpetua\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero.<\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos de g\u00e9nero vem ganhando espa\u00e7o, mas n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o f\u00e1cil porque se desenvolveram ao longo do tempo numa rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica do organismo com a cultura. Mas \u00e9 cada vez mais claro que a abertura dos comportamentos do homem e da mulher \u00e0 experi\u00eancia em novas \u00e1reas e em novos contextos, questionando as limita\u00e7\u00f5es das expectativas de g\u00e9nero, permite-lhes desenvolverem outras compet\u00eancias e explorarem o seu pleno potencial em favor de si pr\u00f3prios e da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a na Cat\u00f3lica Lisbon School of Economics<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[64,11],"tags":[491,489,488,490],"class_list":["post-7395","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-isto-para-nos","category-opiniao","tag-conservadorismo","tag-cultura-woke","tag-luis-caeiro","tag-progressismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - 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