{"id":8350,"date":"2025-02-02T14:37:51","date_gmt":"2025-02-02T14:37:51","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=8350"},"modified":"2025-02-09T14:39:59","modified_gmt":"2025-02-09T14:39:59","slug":"o-poder-das-crencas-vii-diferencas-de-genero-e-barreiras-psicossociais-a-lideranca-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2025\/02\/02\/o-poder-das-crencas-vii-diferencas-de-genero-e-barreiras-psicossociais-a-lideranca-da-mulher\/","title":{"rendered":"O PODER DAS CREN\u00c7AS VII- Diferen\u00e7as de G\u00e9nero e Barreiras Psicossociais \u00e0 Lideran\u00e7a da Mulher"},"content":{"rendered":"<p><strong>H\u00e1 provas s\u00f3lidas de que o homem e a mulher t\u00eam estilos de lideran\u00e7as diferentes, mas n\u00e3o existe a mesma concord\u00e2ncia quanto \u00e0s causas que explicam essas diferen\u00e7as. A diversidade dos pontos de vista pode resumir-se a quatro perspectivas te\u00f3ricas.<\/strong><\/p>\n<p>Teoria biol\u00f3gica. Defende que os estilos de lideran\u00e7a do homem e da mulher s\u00e3o biologicamente determinados. S\u00e3o mediados por diferen\u00e7as no sistema end\u00f3crino e na estrutura, fun\u00e7\u00f5es e qu\u00edmica do c\u00e9rebro. Nesta perspectiva, os estilos de lideran\u00e7a masculino e feminino seriam comportamentos fixados na matriz biol\u00f3gica, embora a maior parte destes autores acabe por reconhecer a import\u00e2ncia do processo de socializa\u00e7\u00e3o e colocar a hip\u00f3tese da experi\u00eancia social, ao longo do processo evolutivo, ter influenciado a diferencia\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dos sexos.<\/p>\n<p>O ponto de vista biol\u00f3gico \u00e9 defendido num estudo de Susan Case e cols. (Brain biology and gendered discourse, 2015) que procura explicar a comunica\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero nas organiza\u00e7\u00f5es, sublinhando o papel da biologia cerebral. O estudo introduz o conceito de neuroci\u00eancia organizacional, argumentando que as diferen\u00e7as de comunica\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, que s\u00e3o determinantes nos estilos de lideran\u00e7a, n\u00e3o podem explicar-se apenas pela socializa\u00e7\u00e3o cultural, e prop\u00f5e um modelo biopsicossocial onde convergem as t\u00eas abordagens.<\/p>\n<p>Segundo os autores, os dados da neuroci\u00eancia cognitiva mostram que h\u00e1 diferen\u00e7as nas estruturas e fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro, designadamente a assimetria entre os hemisf\u00e9rios cerebrais e a dimens\u00e3o do corpo caloso, que determinam diferen\u00e7as nos mecanismos cognitivos, na comunica\u00e7\u00e3o emocional e nos comportamentos interpessoais. A mulher utiliza estilos de comunica\u00e7\u00e3o mais emp\u00e1ticos e de conte\u00fado emocional, enquanto o homem tem um discurso l\u00f3gico e assertivo.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as no processamento da linguagem e no reconhecimento das emo\u00e7\u00f5es determinam estilos de discurso normativamente diferentes no homem e na mulher, que est\u00e3o na base de diferen\u00e7as nos comportamentos de lideran\u00e7a. Em s\u00edntese, as diferen\u00e7as entre sexos, no que respeita \u00e0s bases neurol\u00f3gicas da linguagem, determinariam padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o distintos os quais, por seu lado, definiriam os padr\u00f5es de lideran\u00e7a masculino e feminino.<\/p>\n<p><strong>Teoria dos Pap\u00e9is de G\u00e9nero<\/strong><\/p>\n<p>Para a compreens\u00e3o deste modelo te\u00f3rico importa distinguir entre sexo, g\u00e9nero, papel e estere\u00f3tipo de g\u00e9nero. O conceito de sexo corresponde \u00e0s diferen\u00e7as biol\u00f3gicas, estruturais e funcionais, entre homem e mulher, enquanto o g\u00e9nero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social que atribui ao homem e \u00e0 mulher identidades diferentes com base nos seus pap\u00e9is sociais. Os pap\u00e9is sociais podem ser definidos como os comportamentos normativos, direitos e deveres associados a uma posi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica numa estrutura social. Quando atribu\u00eddos \u00e0 posi\u00e7\u00e3o na vari\u00e1vel sexo, temos os pap\u00e9is de g\u00e9nero masculino e feminino.<\/p>\n<p>Os estere\u00f3tipos de g\u00e9nero s\u00e3o generaliza\u00e7\u00f5es socialmente partilhadas sobre o que s\u00e3o e devem ser os atributos e comportamentos, do homem e da mulher. Os estere\u00f3tipos descritivos indicam os atributos que se acredita caracterizarem o homem e a mulher, os estere\u00f3tipos normativos indicam o que devem ser e como devem comportar-se. Os primeiros geram expectativas sobre a identidade de g\u00e9nero e os segundos criam normas e padr\u00f5es comportamentais a que cada g\u00e9nero deve obedecer. A frustra\u00e7\u00e3o das expectativas e a quebra das normas de g\u00e9nero conduzem \u00e0 desaprova\u00e7\u00e3o e a sans\u00f5es sociais, e tamb\u00e9m afectam o comportamento individual.<\/p>\n<p>As cren\u00e7as estereot\u00edpicas sobre um grupo social podem envolver atributos positivos ou negativos, indesej\u00e1veis ou mesmo amea\u00e7adores. Estas atribui\u00e7\u00f5es podem estar na base de ju\u00edzos preconcebidos e predisposi\u00e7\u00f5es para agir, que determinam a forma como se interpretam os comportamentos e se actua em rela\u00e7\u00e3o aos seus membros. Este pr\u00e9-ju\u00edzo, com pouco fundamento l\u00f3gico ou cr\u00edtico, designa-se de preconceito.<\/p>\n<p>Segundo a Teoria dos Pap\u00e9is de G\u00e9nero, os estilos de lideran\u00e7a do homem e da mulher s\u00e3o determinados pelo pap\u00e9is de g\u00e9nero aprendidos durante o processo de socializa\u00e7\u00e3o. As cren\u00e7as socialmente partilhadas sobre os atributos e expectativas comportamentais que identificam o homem e a mulher s\u00e3o internalizadas, fazendo com que cada g\u00e9nero construa a sua identidade e se comporte em conformidade com elas. Nesta perspectiva, os estilos de lideran\u00e7a do homem e da mulher n\u00e3o est\u00e3o fixados na matriz biol\u00f3gica. S\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais que modelam os comportamentos e que podem (e devem) ser desconstru\u00eddas \u00e0 luz de uma reflex\u00e3o cr\u00edtica e de novos sistemas de valores.<\/p>\n<p>A teoria dos pap\u00e9is de g\u00e9nero mais vulgarizada foi proposta por Alice Eagly (Sex differences in social behavior: a social-role interpretation, 1987). A mulher \u00e9 descrita como tendo um sentido de comunidade (comunal) e o homem como agente (agent). A mulher \u00e9 emocional, carinhosa, af\u00e1vel, cuidadora, altru\u00edsta e preocupada com o bem-estar dos outros. Encoraja a participa\u00e7\u00e3o e promove a autoestima. Acredita que as pessoas t\u00eam um bom desempenho se se sentirem felizes. A mulher tende a ver o poder n\u00e3o tanto como capacidade de domina\u00e7\u00e3o e controlo, mas de uma forma relacional, como capacidade de agir a favor dos outros. Lipman Blumen designa este estilo de &#8220;lideran\u00e7a conectiva&#8221;, na medida em que incentiva o relacionamento pessoal, o trabalho colaborativo e as responsabilidades partilhadas.<\/p>\n<p>O &#8220;agentismo&#8221; do homem caracteriza-se por ser assertivo, confiante, directo, dominador, controlador, ambicioso e independente. O homem usa as rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas e de subordina\u00e7\u00e3o, enquanto a mulher promove o trabalho em rede. Estudos feitos em grupos experimentais tendem a confirmar que os homens emergem mais frequentemente como l\u00edderes orientados para a tarefa, enquanto as mulheres revelam formas de lideran\u00e7a mais orientadas paras as pessoas e para as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estas expectativas s\u00e3o coerentes com as actividades praticadas pelos dois g\u00e9neros. Os homens dedicam-se a actividades fisicamente exigentes, ao mundo competitivo dos neg\u00f3cios, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, \u00e0 engenharia, e a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e de controlo. A mulher, pelo contr\u00e1rio, dedica-se a fun\u00e7\u00f5es que requerem apoio, colabora\u00e7\u00e3o e relacionamento humano pr\u00f3ximo, como o ensino, a enfermagem ou a assist\u00eancia social.<\/p>\n<p>O homem tende a ocupar fun\u00e7\u00f5es de estatuto mais elevado no trabalho e na fam\u00edlia, que lhe conferem mais autoridade e capacidade de decis\u00e3o. Em resumo, o homem decide e a mulher cuida. Esta desigualdade articula-se com a teoria impl\u00edcita da personalidade do l\u00edder, isto \u00e9, com a ideia intuitiva e preconcebida de que para ser l\u00edder \u00e9 necess\u00e1rio ter os atributos da personalidade masculina, condicionando o acesso da mulher a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is atribu\u00eddos ao homem e \u00e0 mulher encontram algum apoio em estudos comparativos dos tra\u00e7os de personalidade. H\u00e1 evidencias robustas de que existem diferen\u00e7as, embora moderadas, entre os sexos, em alguns tra\u00e7os de personalidade. V\u00e1rias obras de refer\u00eancia indicam-nas (Stanek, K. e cols., Taxonomies and compendia of cognitive ability and personality measures relevant to industrial, work, and organizational psychology. In The SAGE Handbook of Industrial, Work and Organizational Psychology, 2018).<\/p>\n<p>A mulher tem resultados mais elevados em agradabilidade, sociabilidade, emo\u00e7\u00f5es positivas, organiza\u00e7\u00e3o e cautelosidade, e resultados mais baixos em estabilidade emocional, assertividade, domin\u00e2ncia, energia e persist\u00eancia.<\/p>\n<p>Teorias dos sistemas sociais e da posi\u00e7\u00e3o de status. As teorias centradas nos sistemas sociais defendem que os sistemas de tipo patriarcal acentuam os tra\u00e7os masculinos no estere\u00f3tipo do l\u00edder, reflectindo o poder e autoridade que o homem tem sobre a mulher. Por outro lado, o papel do homem \u00e9 refor\u00e7ado pela forma assim\u00e9trica como o homem e a mulher se distribuem nos pap\u00e9is sociais. Uma vez que historicamente o homem ocupou as fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, os tra\u00e7os masculinos s\u00e3o associados ao desempenho dessas fun\u00e7\u00f5es. Deste modo, a lideran\u00e7a \u00e9 tida como uma fun\u00e7\u00e3o &#8220;naturalmente&#8221; masculina.<\/p>\n<p>Na mesma linha, as Teorias da Superioridade de Status defendem que a superioridade do homem d\u00e1-lhe mais oportunidades de tomar decis\u00f5es, ter a iniciativa e ser agente, de acordo com o estere\u00f3tipo de g\u00e9nero. A mulher, com uma posi\u00e7\u00e3o de status inferior, assume posi\u00e7\u00f5es reactivas e centra-se na rela\u00e7\u00e3o interpessoal, em conson\u00e2ncia com o estere\u00f3tipo feminino. O estere\u00f3tipo do l\u00edder reflecte os tra\u00e7os dos membros com maior estatuto e a lideran\u00e7a feminina tende a ser rejeitada porque pode ser percebida como uma amea\u00e7a \u00e0 superioridade de status do homem.<\/p>\n<p><strong>Teorias evolucionistas<\/strong><\/p>\n<p>Uma das teorias explicativas mais desafiantes sobre as diferen\u00e7as de lideran\u00e7a entre homem e mulher \u00e9 a hip\u00f3tese da especializa\u00e7\u00e3o sexualmente dim\u00f3rfica. Um interessante artigo publicado por Severi Luoto e cols. (Pandemic leadership: sex differences and their evolutionary-developmental origins, 2021) analisou as diferen\u00e7as de g\u00e9nero nas lideran\u00e7as nacionais, durante a pandemia de SARS-COV2, mostrando que as l\u00edderes femininas, mais focadas na minimiza\u00e7\u00e3o do sofrimento humano, tomaram medidas imediatas de confinamento reduzindo drasticamente as v\u00edtimas durante a primeira fase da pandemia, enquanto os homens adiaram as decis\u00f5es de protec\u00e7\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es para evitar os impactos negativos na economia. Esta descoberta \u00e9 consistente com outras pesquisas que mostram que a mulher tem maior repulsa aos pat\u00f3genos, \u00e9 mais sens\u00edvel ao sofrimento humano e preocupa-se mais com a sa\u00fade dos outros.<\/p>\n<p>Os autores explicaram estas diferen\u00e7as de g\u00e9nero no quadro de um modelo evolutivo. A selec\u00e7\u00e3o natural \u00e9 o mecanismo na natureza capaz de hierarquizar funcionalmente os organismos. Durante a longa hist\u00f3ria humana os l\u00edderes do sexo masculino eram preferidos pela sua maior robustez para defenderem as comunidades em situa\u00e7\u00f5es de guerra, em lutas intergrupais e em contextos de cat\u00e1strofe, enquanto as mulheres eram mais eficazes em situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7as e de fome. O homem liderava nas situa\u00e7\u00f5es marcadas pela viol\u00eancia e a mulher nas situa\u00e7\u00f5es que reclamavam apoio \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>A especializa\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a do homem e da mulher teria resultado da coevolu\u00e7\u00e3o dos dois sexos chamados pelas comunidades para liderarem nas circunstancias diferentes em que eram mais eficazes. A evolu\u00e7\u00e3o natural foi diferenciando e especializando os estilos de lideran\u00e7a de homens e mulheres, de acordo com as suas funcionalidades, conduzindo a estilos de lideran\u00e7a sexualmente dim\u00f3rficos. A pandemia teria mostrado uma vez mais que, perante uma amea\u00e7a global \u00e0 sa\u00fade, a &#8220;lideran\u00e7a cuidadora&#8221; da mulher foi mais eficaz que a &#8220;coragem dos guerreiros&#8221;.<\/p>\n<p>Outros estudos t\u00eam abordado o desenvolvimento dos tra\u00e7os de lideran\u00e7a sob a press\u00e3o evolutiva. Defendem que os instintos de sobreviv\u00eancia e coopera\u00e7\u00e3o social levaram, ao longo de mil\u00e9nios, ao desenvolvimento dos tra\u00e7os de personalidade e em particular de lideran\u00e7a, com maior valor adaptativo. Deste modo, as compet\u00eancias de lideran\u00e7a s\u00e3o o produto de um longo processo de evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, em que os comportamentos com maior funcionalidade se foram geneticamente transmitindo. As compet\u00eancias de lideran\u00e7a s\u00e3o o produto de um longo processo adaptativo que em homens e mulheres prosseguiu por caminhos paralelos.<\/p>\n<p><strong>Barreiras psicossociais \u00e0 lideran\u00e7a das mulheres<\/strong><\/p>\n<p>O desempenho das fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a pelas mulheres \u00e9 dificultado por um conjunto de barreiras pessoais, sociais, organizacionais e culturais, mas pouco se tem comentado as consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas da incongru\u00eancia entre as caracter\u00edsticas de personalidade atribu\u00eddas \u00e0 mulher e o perfil estereot\u00edpico da personalidade do l\u00edder que \u00e9 socialmente aceite.<\/p>\n<p>O conceito de teoria impl\u00edcita de personalidade, proposto por Bruner e Taguiri, nos anos 50, ajuda a compreender essa incongru\u00eancia. O conceito refere-se \u00e0s cren\u00e7as que partilhamos sobre a maneira como se organizam os tra\u00e7os de personalidade. A teoria impl\u00edcita \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o perceptiva que cria um quadro consistente dos tra\u00e7os de personalidade a partir do qual \u00e9 poss\u00edvel explicar e prever os comportamentos. A teoria impl\u00edcita da personalidade do l\u00edder representa o sistema coerente de tra\u00e7os de personalidade que, de forma socialmente partilhada, atribu\u00edmos \u00e0s pessoas que exercem fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta constru\u00e7\u00e3o estereot\u00edpica que descreve a personalidade do l\u00edder, condiciona n\u00e3o apenas os decisores nos processos de selec\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o para fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, como a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o que a pessoa faz das suas compet\u00eancias de lideran\u00e7a e das oportunidades de que disp\u00f5e, ou seja, tamb\u00e9m condiciona as expectativas, os projectos pessoais e a auto-selec\u00e7\u00e3o dos potenciais candidatos. Os estudos s\u00e3o consistentes a indicar que a &#8220;personalidade do l\u00edder&#8221; est\u00e1 fortemente associada \u00e0s caracter\u00edsticas geralmente atribu\u00eddas ao homem, de assertividade, domin\u00e2ncia e competitividade, e a n\u00edveis baixos de sensibilidade, empatia e apoio.<\/p>\n<p>Estas caracter\u00edsticas masculinas s\u00e3o aplicadas igualmente aos homens e \u00e0s mulheres que se prop\u00f5em desempenhar fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, favorecendo os homens no acesso aos sucessivos n\u00edveis do poder. Independentemente do sexo dos colaboradores, os tra\u00e7os masculinos de personalidade do l\u00edder ideal v\u00e3o-se acentuando ao longo da carreira. S\u00e3o mais acentuados nos executivos de topo, o que significa que h\u00e1 uma progressiva masculiniza\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a ao longo da hierarquia, sobretudo na transi\u00e7\u00e3o para os n\u00edveis mais elevados.<\/p>\n<p>Outra abordagem explicativa \u00e9 a teoria da congru\u00eancia de pap\u00e9is. Esta teoria defende que o homem e a mulher comportam-se de acordo com os seus papeis de g\u00e9nero e sofrem consequ\u00eancias negativas se desempenharem de forma contra-estereot\u00edpica. O homem sens\u00edvel e apoiante pode ser considerado fraco e a mulher firme e arrogante pode ser vista como masculina e ser criticada. Isto coloca a mulher perante um &#8220;duplo v\u00ednculo&#8221; que a confronta com um dilema: se desempenha o papel de mulher, pode ser considerada inadequada para o papel de l\u00edder; se \u00e9 assertiva e disciplinadora, de acordo com o papel de l\u00edder, \u00e9 avaliada negativamente como mulher.<\/p>\n<p>Esta incongru\u00eancia \u00e9 uma barreira psicossocial que acompanha a vida profissional da mulher. A incongru\u00eancia entre o estere\u00f3tipo masculinizado do l\u00edder e o papel de g\u00e9nero da mulher torna-a v\u00edtima de preconceitos e erros de avalia\u00e7\u00e3o. O primeiro \u00e9 o preconceito que leva a ver a mulher como menos capaz de assumir uma fun\u00e7\u00e3o tida como exigindo atributos masculinos de personalidade. O segundo \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios mais exigentes com as mulheres, para as considerar com potencial para o exerc\u00edcio da lideran\u00e7a e para lhes reconhecer que exercem as fun\u00e7\u00f5es com sucesso.<\/p>\n<p>Como \u00e0 partida n\u00e3o se espera que tenha compet\u00eancias de lideran\u00e7a, a mulher tem de mostrar um potencial e um desempenho efectivo superior ao do homem para as suas capacidades serem reconhecidas. Neste sentido, as carreiras do homem e da mulher s\u00e3o geridas com base em crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o desiguais e que discriminam a mulher.<\/p>\n<p>\u00c9 esta a tese defendida pela teoria do duplo padr\u00e3o de compet\u00eancia. Como se parte do princ\u00edpio que os homens t\u00eam as compet\u00eancias para liderar e as mulheres n\u00e3o, o homem n\u00e3o tem que afirmar as suas qualidades e mesmo com um desempenho mediano ascende a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. A mulher, como \u00e0 partida essas compet\u00eancias n\u00e3o lhe s\u00e3o atribu\u00eddas, tem de ser muito mais qualificada para essas qualidades lhe serem reconhecidas. Exige-se muito mais \u00e0 mulher para mostrar que est\u00e1 apta para o papel, o que dificulta a sua ascens\u00e3o a fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. H\u00e1 mesmo provas de que o mesmo comportamento de lideran\u00e7a \u00e9 frequentemente avaliado como mais positivo se for atribu\u00eddo a um homem do que a uma mulher.<\/p>\n<p>Samantha C. Paustian-Underdahl e cols. analisaram 50 anos de investiga\u00e7\u00e3o sobre a compara\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres no que respeita \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o dos seus comportamentos de lideran\u00e7a (Gender and evaluations of leadership behaviors: A meta-analytic review of 50 years of research, 2024) e confirmaram a teoria do duplo padr\u00e3o de compet\u00eancia. As mulheres l\u00edderes s\u00e3o percebidas como mais orientadas para a tarefa e tendo mais comportamentos de refor\u00e7o contingente. Estes aspectos acentuam-se nos n\u00edveis superiores da carreira. Isto significa que a mulher tem que mostrar mais capacidade de lideran\u00e7a do que o homem para conseguir alcan\u00e7ar posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Enquanto em rela\u00e7\u00e3o aos homens basta supor que ser\u00e3o competentes, as mulheres tem que o demonstrar.<\/p>\n<p>O estudo ainda concluiu que as mulheres s\u00e3o percebidas como tendo um estilo de lideran\u00e7a mais orientado para as pessoas do que os homens e este facto \u00e9 mais evidente nos estudos mais recentes. Do ponto de vista pr\u00e1tico isto mostra a necessidade das organiza\u00e7\u00f5es adoptarem crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o dos desempenhos em lideran\u00e7a mais objectivos e uniformes para os dois g\u00e9neros.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia da incongru\u00eancia de pap\u00e9is \u00e9 levar algumas mulheres a pensar que, para terem sucesso em fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, t\u00eam que pensar e agir como os homens. A s\u00edndrome &#8220;pensa l\u00edder, pensa homem&#8221; pressiona as mulheres a abdiquem do seu estilo pessoal e a usem a dureza e o autoritarismo. Estes comportamentos, embora coerentes com o estere\u00f3tipo do l\u00edder, s\u00e3o mal aceites e percepcionados negativamente por violarem a expectativa de g\u00e9nero. Mas se exercem a lideran\u00e7a de acordo com o papel feminino, podem ser percebidas como fracas e pouco capazes de assumir fun\u00e7\u00f5es exigentes em autoridade e capacidade competitiva. Os conflitos de papel criam obst\u00e1culos \u00e0 mulher para alcan\u00e7ar, exercer e ter sucesso em fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e encerram-na num verdadeiro dilema em que em nenhum dos casos \u00e9 apreciada e valorizada.<\/p>\n<p>Um fen\u00f3meno psicossocial que tem sido muito estudado e que resulta da atribui\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher de caracter\u00edsticas desajustadas \u00e0 lideran\u00e7a, \u00e9 a amea\u00e7a de estere\u00f3tipo. Este conceito designa a amea\u00e7a concreta de se ser avaliado e tratado de forma negativa quando se \u00e9 atingido por um estere\u00f3tipo negativo.<\/p>\n<p>H\u00e1 provas de que as expectativas de inferioridade com base no estere\u00f3tipo de g\u00e9nero podem afectar a autoconfian\u00e7a, diminuir o sentido de perten\u00e7a a uma \u00e1rea de actividade, e a motiva\u00e7\u00e3o para prossegui-la e ter sucesso. Podem tamb\u00e9m levar a quebras no desempenho das mulheres em tarefas de gest\u00e3o, de lideran\u00e7a, de negocia\u00e7\u00e3o e nas tomadas de decis\u00e3o, e nos dom\u00ednios da ci\u00eancias, da tecnologia, da engenharia e da matem\u00e1tica. Por exemplo, expor a mulher a estere\u00f3tipos que associam o homem ao empreendedorismo, reduzem nas mulheres que estudam gest\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o de se dedicarem a projectos de empreendimento. Mulheres que t\u00eam profiss\u00f5es jur\u00eddicas, sujeitas a amea\u00e7as de estere\u00f3tipo continuadas, confiam menos na progress\u00e3o na carreira, t\u00eam atitudes menos positivas para com a profiss\u00e3o e mostram mais inten\u00e7\u00f5es de a abandonar.<\/p>\n<p>O desinvestimento na actividade e o afastamento do grupo que fere a autoestima pode ser uma forma de protec\u00e7\u00e3o do eu mas que leva em muitos casos \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do desempenho, \u00e0 desmotiva\u00e7\u00e3o e \u00e0 desidentifica\u00e7\u00e3o com a actividade. A amea\u00e7a de estere\u00f3tipo pode levar a mulher \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da sua identidade profissional e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do bem-estar psicol\u00f3gico, aumentando a probabilidade de n\u00e3o recomendar a sua carreira profissional a outras mulheres.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a de estere\u00f3tipo pode, no entanto, levar a respostas de react\u00e2ncia. Perante a amea\u00e7a de que os homens s\u00e3o melhores l\u00edderes, h\u00e1 mulheres que adoptam comportamentos tipicamente masculinos, o que pode ter, como vimos, custos sociais, mas que respondem ao desafio com tal efic\u00e1cia, que superam o desempenho dos homens, tanto em contextos de negocia\u00e7\u00e3o como de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os efeitos negativos da amea\u00e7a de estere\u00f3tipo n\u00e3o atingem igualmente todas as mulheres. O efeitos s\u00e3o piores naquelas que est\u00e3o mais identificadas com o seu g\u00e9nero, mais motivadas para desempenhar bem, para quem o estere\u00f3tipo negativo tem mais relev\u00e2ncia pessoal e nas mulheres com personalidades mais proactivas e empreendedoras. Por ironia, a amea\u00e7a de estere\u00f3tipo tem efeitos mais negativos nas mulheres que \u00e0 partida mostram maior potencial para ter sucesso.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, diferentes factores que podem proteger a mulher dos efeitos negativos da amea\u00e7a de estere\u00f3tipo. Factores pessoais como a confian\u00e7a nas suas aptid\u00f5es de lideran\u00e7a, a assertividade, a ambi\u00e7\u00e3o e uma vis\u00e3o das caracter\u00edsticas humanas como capazes de se desenvolver com a experi\u00eancia (growth mindset), podem activar respostas do tipo &#8220;vou mostrar que sou capaz&#8221;.<\/p>\n<p>Note-se que a amea\u00e7a de estere\u00f3tipo actua geralmente de forma impl\u00edcita e discreta, mas eficaz. A maior parte dos locais de trabalho t\u00eam refer\u00eancias que constituem amea\u00e7as de estere\u00f3tipo, a principal das quais \u00e9 a predomin\u00e2ncia de homens nas fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Mas h\u00e1 outras que est\u00e3o presentes nos crit\u00e9rios de selec\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o do desempenho, na distribui\u00e7\u00e3o das tarefas e responsabilidades, na forma de dar e receber feedback, na comunica\u00e7\u00e3o interpessoal e, sobretudo, nos tra\u00e7os dominantes da cultura. \u00c9 o caso das culturas organizacionais caracterizadas pela agressividade competitiva, pela orienta\u00e7\u00e3o para resultados e pelo lucro, \u00e0 custa do bem-estar psicol\u00f3gico e da realiza\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Os factores psicossociais que dificultam o acesso da mulher \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a t\u00eam como principal consequ\u00eancia a redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de autoconfian\u00e7a, levando muitas mulheres a internalizar que n\u00e3o possuem compet\u00eancias para liderar. A falta de confian\u00e7a em si pr\u00f3pria pode ajudar a explicar o que alguns estudos comprovam: a mulher s\u00f3 se candidata a uma fun\u00e7\u00e3o quando julga preencher todas as exig\u00eancias e tem menos capacidade para se autopromover e ser assertiva acerca do seu desempenho e das ambi\u00e7\u00f5es de carreira. Sabe-se ainda que a mulher tende a negociar as suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho com expectativas mais baixas, comparando-se com as recompensas auferidas por outras mulheres que auferem em geral menos que os homens. Ao usarem um padr\u00e3o mais baixo, mant\u00eam as suas condi\u00e7\u00f5es de inferioridade remunerat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apesar dos progressos que se t\u00eam observado no sentido de maior equil\u00edbrio de g\u00e9nero nas fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e de uma concep\u00e7\u00e3o andr\u00f3gena dos comportamentos de lideran\u00e7a, o estere\u00f3tipo masculino continua a ser dominante e pode estar a surgir uma nova vaga da amea\u00e7a de estere\u00f3tipo que atinge a mulher. Algumas das novas formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho que requerem elevados graus de flexibilidade, adaptabilidade, agilidade, mobilidade geogr\u00e1fica e disponibilidade podem, de forma ainda dif\u00edcil de avaliar, colocar obst\u00e1culos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da mulher e mostrar, implicitamente, que as fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a est\u00e3o mais &#8220;talhadas&#8221; para os homens\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a na Cat\u00f3lica Lisbon School of 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