{"id":9144,"date":"2025-04-04T09:36:53","date_gmt":"2025-04-04T09:36:53","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=9144"},"modified":"2025-04-11T09:53:03","modified_gmt":"2025-04-11T09:53:03","slug":"as-falsas-crencas-sobre-a-lideranca-donald-trump-uma-lideranca-carismatica-personalizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2025\/04\/04\/as-falsas-crencas-sobre-a-lideranca-donald-trump-uma-lideranca-carismatica-personalizada\/","title":{"rendered":"AS FALSAS CREN\u00c7AS SOBRE A LIDERAN\u00c7A. Donald Trump: uma lideran\u00e7a carism\u00e1tica personalizada."},"content":{"rendered":"<p><strong>As decis\u00f5es pol\u00edticas radicais assumidas pelo presidente Donald Trump, em dois meses de governa\u00e7\u00e3o, puseram os Estados Unidos em p\u00e9 de guerra e produziram uma reviravolta na ordem internacional que vigorava nos \u00faltimos oitenta anos. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Comentadores e especialistas t\u00eam interpretado o impacto destas pol\u00edticas nos planos econ\u00f3mico, geoestrat\u00e9gico e das rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas pouco se reflectiu sobre o processo de lideran\u00e7a carism\u00e1tica que levou o presidente ao poder. Compreend\u00ea-lo \u00e9 essencial para explicar as decis\u00f5es pol\u00edticas que agora tanto nos surpreendem.<\/strong><\/p>\n<p>Para interpretar o desempenho pol\u00edtico de Donald Trump \u00e9 preciso come\u00e7ar por conhecer a sua personalidade. Apesar da directiva Goldwater, uma norma \u00e9tica publicada em 1973 pela <strong>American Psychiatric Association,<\/strong> recomendar que n\u00e3o se fa\u00e7am diagn\u00f3sticos da sa\u00fade mental de figuras p\u00fablicas sem observa\u00e7\u00e3o directa, n\u00e3o faltam os perfis psicol\u00f3gicos do presidente norte-americano feitos por psic\u00f3logos, psiquiatras, investigadores e universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ainda durante a campanha eleitoral de 2016, um grupo de 3 000 psicoterapeutas sob a designa\u00e7\u00e3o de <strong>Citizen Therapists for Democracy<\/strong> publicaram um manifesto (Citizen Therapists Against Trumpism) alertando para o surgimento de uma ideologia &#8220;trumpista&#8221; que amea\u00e7ava o bem-estar e a democracia. O criador do manifesto, William Doherty, professor de psicologia da <strong>Universidade do Minnesota,<\/strong> justificou a sua posi\u00e7\u00e3o dizendo que &#8220;temos que nos preocupar com a sa\u00fade mental p\u00fablica e as condi\u00e7\u00f5es sociais que promovem o florescimento ou a disfun\u00e7\u00e3o humana, o que significa termos um envolvimento p\u00fablico&#8230;&#8221;. Pouco depois, um grupo de 35 especialistas de sa\u00fade mental enviou uma carta ao T<strong>he New York Times<\/strong> declarando que os sinais de grave instabilidade emocional de Trump o tornavam incapaz de desempenhar as fun\u00e7\u00f5es de presidente.<\/p>\n<p>Em 2017, o grupo Duty to Warn, criado por John Gartner, um psicoterapeuta professor da <strong>Escola M\u00e9dica da Universidade Johns Hopkin<\/strong>s, recolheu mais de 60 000 assinaturas de profissionais de sa\u00fade mental e enviou para Washington uma peti\u00e7\u00e3o (Mental Health Professionals Declare Trump is Mentally Ill And Must Be Removed) onde se afirmava que Donald Trump tinha &#8220;problemas mentais graves que o tornavam psicologicamente incapaz de desempenhar de forma competente os deveres de presidente dos Estados Unidos&#8221;.<\/p>\n<p>Numa confer\u00eancia na <strong>Universidade de Yale<\/strong>\u00a0Gartner disse que &#8220;temos a responsabilidade \u00e9tica de alertar o p\u00fablico sobre a perigosa doen\u00e7a mental de Donald Trump&#8221;. Em resposta a estas declara\u00e7\u00f5es, Allen Frances, da Universidade de Duke, escreveu uma carta \u00e0 <strong>Times<\/strong> denunciando que n\u00e3o havia bases para se considerar Trump um doente mental, mas afirmou que, no entanto, &#8220;pode e deve ser denunciado pela sua ignor\u00e2ncia, incompet\u00eancia, impulsividade e busca de poderes ditatoriais&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2018, o grupo <strong>National Coaliation of Concerned Mental Health Experts<\/strong>, liderado por Bandy Lee, um professor de psiquiatria forense da <strong>Escola M\u00e9dica de Yale<\/strong>, especialista em psicologia da viol\u00eancia, encontrou-se com membros do Congresso para expressar a sua preocupa\u00e7\u00e3o sobre o ajustamento de Trump ao cargo, transmitindo que &#8220;o estado mental de Trump \u00e9 um risco para a seguran\u00e7a nacional e internacional&#8221;. Lee acrescentou que &#8220;aquilo que nos preocupa n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o pessoal da sua sa\u00fade mental. O que nos preocupa \u00e9 os efeitos que a sua instabilidade mental pode ter na sa\u00fade p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2024 um grupo de 230 psiquiatras publicou no<strong> The New York Times<\/strong> uma carta aberta declarando que Trump tinha &#8220;sintomas de grave perturba\u00e7\u00e3o da personalidade, narcisismo maligno&#8230;&#8221; que o tornava uma pessoa &#8220;enganadora, destrutiva, iludida e perigosa&#8221;. Os signat\u00e1rios afirmaram ainda que &#8220;parece mostrar sinais de decl\u00ednio cognitivo &#8230; uma forte diminui\u00e7\u00e3o da flu\u00eancia verbal, pensamento tangencial, vocabul\u00e1rio reduzido, uso excessivo de superlativos e palavras de enchimento, confabula\u00e7\u00e3o, parafasias fon\u00e9ticas e sem\u00e2nticas, confus\u00e3o de pessoas, deteriora\u00e7\u00e3o do julgamento&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Em Outubro \u00faltimo reacendeu-se o debate sobre o seu quadro psicol\u00f3gico quando num evento pol\u00edtico parou de responder \u00e0s perguntas que lhe estavam a fazer, e passou meia hora balan\u00e7ando o corpo ao som de uma lista de m\u00fasicas que tinha seleccionado.<\/p>\n<p>Os numerosos diagn\u00f3sticos que vieram a p\u00fablico s\u00e3o quase sempre severos: descontrolo emocional, transtorno narc\u00edsico, &#8220;complexo de messias&#8221;, mitomania, paranoia e sociopatia. Nenhuma destas conclus\u00f5es se baseia em diagn\u00f3sticos directos. As avalia\u00e7\u00f5es foram realizadas a partir da an\u00e1lise de entrevistas, interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mensagens e decis\u00f5es pol\u00edticas que foram conhecidas. Estas fontes n\u00e3o p\u00f5em em causa a import\u00e2ncia do estudo dos perfis percebidos de personalidade. A reac\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras p\u00fablicas \u00e9 influenciada pela forma como os seus padr\u00f5es de comportamento s\u00e3o percepcionados. Com a queda das ideologias, o decl\u00ednio dos partidos pol\u00edticos, a emerg\u00eancia das redes sociais e do &#8220;voto impulsivo&#8221;, o perfil percebido dos candidatos \u00e9 cada vez mais determinante como heur\u00edstica da decis\u00e3o de apoio. V\u00e1rios estudos mostram que os eleitores tendem a apoiar os l\u00edderes cuja personalidade &#8220;combina&#8221; com a sua, e que o perfil psicol\u00f3gico do l\u00edder, tal como \u00e9 percepcionado, \u00e9 um bom preditor tanto da sua ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como do perfil dos seus apoiantes.<\/p>\n<p>Um dos estudos mais consistentes sobre a personalidade percebida de Donald Trump foi publicado por uma equipa internacional liderada por Alessandro Nai, professor de ci\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o da<strong> Universidade de Amesterd\u00e3o<\/strong> (Donald Trump, populism, and the age of extremes: Comparing the personality traits and campaigning styles of trump and other leaders worldwide, 2019; Can anyone be objective about Donald Trump? Assessing the personality of political figures, 2019).<\/p>\n<p>O comportamento observ\u00e1vel do presidente americano foi avaliado por um grupo de acad\u00e9micos especialistas em pol\u00edtica eleitoral, comunica\u00e7\u00e3o, comportamento pol\u00edtico e \u00e1reas afins, com recurso a dois instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o da personalidade de validade reconhecida: o <strong><em>Big Five<\/em><\/strong> e o <em>Dark Triad<\/em>.<\/p>\n<p><strong> O perfil do presidente americano apresentava os seguintes tra\u00e7os dominantes:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Muito elevada extrovers\u00e3o<\/strong>. \u00c9 uma pessoa fortemente comprometida com o meio social. \u00c9 activo, greg\u00e1rio e comunicativo. Assume atitudes sociais dominantes. Tem atitudes assertivas e gosta de protagonismo. Obt\u00e9m visibilidade nos grupos falando e afirmando-se. \u00c9 entusi\u00e1stico e orientado para a ac\u00e7\u00e3o. Estas pessoas podem ser vistas como en\u00e9rgicas, influentes, liderantes e gostando de se exibir.<\/p>\n<p><strong>Muito baixa agradabilidade<\/strong>. P\u00f5e os seus interesses acima de tudo. N\u00e3o se preocupa com os problemas e o bem-estar dos outros. Revela indiferen\u00e7a, frieza, dist\u00e2ncia e, por vezes, hostilidade. \u00c9 egoc\u00eantrico e competitivo, antagon\u00edstico e sarc\u00e1stico. Suspeita das inten\u00e7\u00f5es dos outros e, por isso, tem dificuldade em confiar e cooperar. Pode ser visto como frio, desagrad\u00e1vel, antip\u00e1tico e ego\u00edsta.<\/p>\n<p><strong>Baixa conscienciosidade<\/strong>. \u00c9 negligente e improvisador. Evita assumir responsabilidades. \u00c9 indisciplinado e espont\u00e2neo. Tende a seguir os seus gostos e impulsos do momento. Procrastinador. Estas pessoas podem ser percebidas como desorganizadas, ineficientes, caprichosas, pouco diligentes, imprevis\u00edveis e pouco confi\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Baixa estabilidade emocional<\/strong>. \u00c9 facilmente perturb\u00e1vel, demonstrando tens\u00e3o e instabilidade emocional, e revelando-se insatisfeito e desiludido com o mundo. Mostra emo\u00e7\u00f5es negativas como a irrita\u00e7\u00e3o, a impaci\u00eancia, a depress\u00e3o e a ansiedade. Tem baixa toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e ao stresse. \u00c9 tenso, descontrolado e imprevis\u00edvel. Tem estados de humor vari\u00e1veis. Tende a interpretar as situa\u00e7\u00f5es como amea\u00e7adoras, as dificuldades como obst\u00e1culos e a avaliar as situa\u00e7\u00f5es pelo lado negativo. \u00c9 pessimista e revela mau humor. A dificuldade em regular as reac\u00e7\u00f5es emocionais diminui a capacidade de pensar com clareza, tomar decis\u00f5es e lidar com situa\u00e7\u00f5es de crise. Estas pessoas s\u00e3o vistas como nervosas e irrit\u00e1veis, pessimistas, com &#8220;mau feitio&#8221;, descontroladas, e de humor imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Narcisismo muito elevado.<\/strong> Mostra tend\u00eancia para se engrandecer, captar a aten\u00e7\u00e3o e o reconhecimento dos outros. \u00c9 arrogante, autoconfiante e muito competitivo. \u00c9 agressivo e desconfiado, mostrando sinais de irrita\u00e7\u00e3o quando \u00e9 contrariado ou desobedecido. S\u00f3 aceita as realidades que confirmam a imagem empolgada que t\u00eam de si pr\u00f3prio e rejeita todos os feedbacks cr\u00edticos que a podem p\u00f4r em causa.<\/p>\n<p><strong>Psicopatia muito elevada.<\/strong> Tend\u00eancia para perceber hostilidade nas inten\u00e7\u00f5es dos outros. Insensibilidade aos problemas. Impulsividade e procura do confronto pessoal.<\/p>\n<p><strong>Maquiavelismo muito elevado<\/strong>. Estrat\u00e9gico e ardiloso, c\u00ednico, manipulador e amoral, procurando obter vantagens \u00e0 custa dos outros. Estas pessoas tendem a ser vistas como pouco honestas e pouco confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>O estudo ainda comparou o perfil de Trump com o de 21 outros l\u00edderes populistas. Em todos os factores analisados, est\u00e1 sempre entre os tr\u00eas resultados extremos. No conjunto dos perfis, tem os n\u00edveis mais elevados em narcisismo e maquiavelismo, e os n\u00edveis mais baixos em agradabilidade, conscienciosidade e estabilidade emocional. O facto de os resultados de Trump se destacarem em rela\u00e7\u00e3o aos valores m\u00e9dios do grupo de compara\u00e7\u00e3o sugere que se trata de uma figura \u00fanica e paradigm\u00e1tica entre os l\u00edderes populistas analisados.<\/p>\n<p>Dan McAdams, professor da Northwestern University e director do <strong>Foley Center for the Study of Lives<\/strong>, usou tamb\u00e9m o Big Five para avaliar os comportamentos expressos por Trump em entrevistas, declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e nas redes sociais, e confirmou aqueles resultados (The mind of Donald Trump, 2016). Concluiu que Trump tem um perfil muito diferente do que se espera de um presidente dos EU: um n\u00edvel muito elevado de extrovers\u00e3o acompanhado de um n\u00edvel muito baixo de agradabilidade.<\/p>\n<p>As suas tend\u00eancias agressivas foram tamb\u00e9m referidas por Barbara Res, que liderou a constru\u00e7\u00e3o da Trump Tower, em Manhattan, numa entrevista ao <strong>Daily Beast:<\/strong> &#8220;Os ataques de raiva fazem parte da sua personalidade&#8221;. A sua elevada domin\u00e2ncia social e baixa agradabilidade explicam que as manifesta\u00e7\u00f5es de raiva sejam uma parte central do seu carisma e da sua ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>A mentira tem fun\u00e7\u00f5es importantes na actividade pol\u00edtica mas no caso de Trump apresenta n\u00edveis incomuns, podendo levar a defini-lo como mit\u00f3mano. Num estudo feito pela <strong>PolitiFact<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade das afirma\u00e7\u00f5es feitas pelos candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2016, os dados mostraram que no seu caso s\u00f3 2% das afirma\u00e7\u00f5es eram inteiramente exactas, 7% eram maioritariamente verdadeiras, 15% eram meias verdades e 75% eram maioritariamente falsas ou completamente falsas. Este \u00faltimo valor era de 31% e de 29%, respectivamente , para Bernie Sanders e Hillary Clinton.<\/p>\n<p>O <strong>Washington Post<\/strong> tamb\u00e9m fez uma an\u00e1lise detalhada das mentiras do presidente. Durante os primeiros 77 dias do primeiro mandato, Trump fez 367 afirma\u00e7\u00f5es falsas ou enganosas, e reagiu com irrita\u00e7\u00e3o quando foi confrontado com as suas fantasias. Chegou a afirmar que Obama e Hillary Clinton foram os fundadores do grupo terrorista ISIS, durante a presid\u00eancia de J. Bush!<\/p>\n<p>A &#8220;Teoria da Personalidade Autorit\u00e1ria&#8221;, desenvolvida em meados do s\u00e9culo passado pelo professor de <strong>Barclays<\/strong>, Theodor Adorno, tamb\u00e9m ajuda a compreender a personalidade de Trump. As pessoas autorit\u00e1rias s\u00e3o r\u00edgidas, convencionais, e t\u00eam tend\u00eancia para dicotomizar as pessoas em &#8220;n\u00f3s&#8221; e os &#8220;outros&#8221;. T\u00eam ideias feitas sobre o que \u00e9 &#8220;bom&#8221; ou \u00e9 &#8220;justo&#8221;. S\u00e3o etnoc\u00eantricas, preconceituosas e hostis com os mais fracos e com as minorias. Veem o mundo como perigoso e as pessoas com desconfian\u00e7a. Apelam a pensamentos amea\u00e7adores para exercer o seu poder atrav\u00e9s do medo. O l\u00edder autorit\u00e1rio \u00e9 dominador e agressivo, pretende antes de mais satisfazer as suas necessidades e tem baixa resist\u00eancia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, percebendo os opositores como inimigos.<\/p>\n<p>Numa entrevista que deu \u00e0 <strong>People<\/strong>, em 1981, Trump declarou que &#8220;O homem \u00e9 o mais vicioso de todos os animais e a vida \u00e9 uma s\u00e9rie de batalhas que acabam sempre em vit\u00f3rias ou derrotas&#8221;. Mais adiante disse, acerca de Manhattan, &#8220;Esta ilha \u00e9 uma verdadeira selva. Se n\u00e3o tiveres cuidado, mastigam-te e cospem-te&#8221;.<\/p>\n<p>As pessoas com tend\u00eancias autorit\u00e1rias que sentem a sua estabilidade amea\u00e7ada, tendem a aderir a lideran\u00e7as autorit\u00e1rias que lhes prometem seguran\u00e7a. Um estudo recente de Matthew MacWilliams (On Fascism: 12 Lessons from American History, 2020), mostra que n\u00edveis elevados de autoritarismo s\u00e3o um bom preditor do apoio a Trump. V\u00e3o no mesmo sentido as conclus\u00f5es do estudo realizado por Dan McAdams sobre as tend\u00eancias pol\u00edticas dos crist\u00e3os evang\u00e9licos radicais (The Strange Case of Donald J. Trump: A Psychological Reckoning, 2020). Para eles, &#8220;uma f\u00e9 forte, tal como um l\u00edder forte, livra-os do caos, e impede os medos e os conflitos. Trump \u00e9 um salvador&#8221;. Este epis\u00f3dio durante a campanha, na Carolina do Norte, ajuda a compreender muito do que referi acima. Depois de Trump repetir que &#8220;algo de muito perigoso est\u00e1 para acontecer&#8221;, uma jovem dirigiu-se-lhe e disse: &#8220;Estou com medo. O que pode fazer para proteger o pa\u00eds?&#8221;. Trump responde: &#8220;Tu n\u00e3o vais ter medo. Eles \u00e9 que v\u00e3o ficar aterrorizados&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos tra\u00e7os mais estudados da personalidade de Trump \u00e9 o seu acentuado narcisismo. Inscreveu o seu nome em quase todos os empreendimentos, de torres urbanas a casinos, e at\u00e9 numa universidade que criou para formar empreendedores imobili\u00e1rios, a qual redundou num esc\u00e2ndalo e na condena\u00e7\u00e3o a uma indeminiza\u00e7\u00e3o de 21 milh\u00f5es de d\u00f3lares aos estudantes defraudados.<\/p>\n<p>George Simon, um conhecido psic\u00f3logo cl\u00ednico que trabalha na \u00e1rea da persuas\u00e3o, declarou \u00e0 <strong>Vanity Fair<\/strong> que utiliza nos seus semin\u00e1rios os v\u00eddeos de Trump para ilustrar os comportamentos narc\u00edsicos. Mas a melhor ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 provavelmente a declara\u00e7\u00e3o que Trump fez, no dia do funeral do pai. Quando foi questionado pela imprensa sobre qual foi a principal obra do seu progenitor, respondeu &#8220;foi ter criado um filho brilhante e famoso&#8221;.<\/p>\n<p>As pessoas narc\u00edsicas t\u00eam um conceito empolado de si pr\u00f3prias e elaboram racionaliza\u00e7\u00f5es complexas para mostrar que t\u00eam sempre raz\u00e3o, que n\u00e3o t\u00eam fracassos e que s\u00e3o as mais competentes. Atribuem os insucessos \u00e0 mediocridade dos outros e quando a realidade n\u00e3o \u00e9 coerente com a imagem grandiosa que t\u00eam de si, mudam a realidade criando &#8220;factos alternativos&#8221; coerentes com essa imagem.<\/p>\n<p>Trump considera-se &#8220;o melhor negociador do mundo&#8221;, ia construir no M\u00e9xico &#8220;o maior e mais belo muro&#8221;, conhece o ISIS &#8220;melhor que os pr\u00f3prios generais&#8221; e considerava-se &#8220;a pessoa mais presidenci\u00e1vel que alguma vez apareceu&#8221;. Confrontado com os diagn\u00f3sticos de patologia que lhe eram atribu\u00eddos, respondeu: &#8220;Eu sou a pessoa mais saud\u00e1vel que conhe\u00e7o, talvez a mais saud\u00e1vel do mundo. Eles \u00e9 que s\u00e3o loucos e ineptos&#8221;. A prop\u00f3sito das suas capacidades, declarou que &#8220;o meu quociente intelectual \u00e9 dos mais elevados; n\u00e3o se sintam est\u00fapidos porque n\u00e3o t\u00eam culpa&#8221;.<\/p>\n<p>Os narcisistas tamb\u00e9m querem mostrar a sua superioridade pondo em causa as conven\u00e7\u00f5es sociais. Numa entrevista a Lary King, Trump abre a entrevista dizendo &#8220;Voc\u00ea tem mau h\u00e1lito. J\u00e1 lhe tinham dito?&#8221;. A quebra das regras \u00e9, aos olhos de muitos seguidores, uma demonstra\u00e7\u00e3o de coragem e de lideran\u00e7a. A elevada auto-estima que caracteriza as pessoas com transtorno narc\u00edsico leva-as a querer a admira\u00e7\u00e3o e o reconhecimento de todos, e a reagirem mal \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o. Por isso, s\u00f3 admitem o feedback que confirme as cren\u00e7as sobre si pr\u00f3prios. Os feedbacks negativos s\u00e3o liminarmente rejeitados. Muito antes da segunda elei\u00e7\u00e3o, Trump repetiu que s\u00f3 aceitaria o resultado se lhe fosse favor\u00e1vel e que, caso contr\u00e1rio, iria contest\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A barreira que levantam a qualquer oposi\u00e7\u00e3o faz com que limitem as suas perspectivas, impe\u00e7am novas aprendizagens e expandam sem limites o poder do eu. Trump vive obcecado com a popularidade e reage \u00e0s cr\u00edticas com raiva e express\u00f5es insultuosas, sobretudo atrav\u00e9s do <em>twitter.<\/em> Em algumas confer\u00eancias de imprensa chegou a proibir a presen\u00e7a dos \u00f3rg\u00e3os que lhe eram desfavor\u00e1veis e classificou-os de &#8220;inimigos do povo&#8221;. A escritora Ariana Haffington, sua opositora, foi objecto deste coment\u00e1rio: &#8220;\u00c9 pouco atractiva tanto por dentro como por fora. Compreendo perfeitamente porque \u00e9 que o ex-marido a trocou por um homem. Dou-lhe toda a raz\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A intoler\u00e2ncia \u00e0 cr\u00edtica \u00e9 ainda acompanhada por outra caracter\u00edstica do transtorno narc\u00edsico, a falta de empatia, que faz os narc\u00edsicos centrarem-se apenas em si e serem insens\u00edveis aos sentimentos dos outros. Tendem, por isso, a ser frios e at\u00e9 cru\u00e9is nas suas atitudes. Por exemplo, em reposta a um rep\u00f3rter do<strong> The New York Times<\/strong> que sofre duma doen\u00e7a articular cong\u00e9nita, e que p\u00f4s em causa algumas afirma\u00e7\u00f5es de Trump, este respondeu publicamente imitando e ridicularizando os espasmos articulares do rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Esta insensibilidade humana explica tamb\u00e9m a atitude de Trump em rela\u00e7\u00e3o aos problemas ambientais e aos interesses das minorais raciais, culturais, religiosas e de g\u00e9nero. Quando lhe disseram que apoiantes seus agrediram e humilharam um emigrado hisp\u00e2nico, respondeu que os seus apoiantes &#8220;&#8230; s\u00e3o muito apaixonados; encanta-os que este pa\u00eds volte a ser grande outra vez&#8221;. E quando foi questionado se aprovava a asfixia simulada por mergulho da cabe\u00e7a na \u00e1gua, para obter confiss\u00f5es, respondeu: &#8220;N\u00e3o se enganem, rapazes, resulta mesmo! S\u00f3 um est\u00fapido diria que n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Um estudo publicado por Aubrey Immelman, da <strong>Universidade de S. Jos\u00e9,<\/strong> na Calif\u00f3rnia (The leadership style of U.S. president Donald J. Trump, 2017), com base em informa\u00e7\u00e3o psicobiogr\u00e1fica, e utilizando o Millon Inventory of Diagnostic Criteria, confirma estes dados. Conclui que Trump apresenta o perfil de um l\u00edder carism\u00e1tico de elevada domin\u00e2ncia, e que tem compet\u00eancias para mobilizar o apoio popular e conseguir manter a autoconfian\u00e7a em situa\u00e7\u00f5es de adversidade.<\/p>\n<p>Num estudo que realizou posteriormente com Anne Marie Griebie (The Personality Profile and Leadership Style of U.S. President Donald J. Trump in Office, 2020) explicou que as principais limita\u00e7\u00f5es de Trump eram &#8221; a tend\u00eancia para uma compreens\u00e3o superficial das quest\u00f5es complexas, uma predisposi\u00e7\u00e3o para se aborrecer facilmente com a rotina (com o risco inerente de n\u00e3o se manter adequadamente informado), uma inclina\u00e7\u00e3o para agir impulsivamente sem apreciar plenamente as implica\u00e7\u00f5es das suas decis\u00f5es ou as consequ\u00eancias a longo prazo das suas iniciativas pol\u00edticas, e uma predile\u00e7\u00e3o por favorecer as rela\u00e7\u00f5es e lealdades pessoais, em vez da compet\u00eancia, nas decis\u00f5es sobre o seu staff e nas nomea\u00e7\u00f5es. Tudo isto torna a administra\u00e7\u00e3o Trump relativamente vulner\u00e1vel a erros de julgamento e esc\u00e2ndalos pol\u00edticos&#8221;.<\/p>\n<p>Outra investiga\u00e7\u00e3o publicada por uma equipa liderada por Courtland Hyatt, da Unidade de Estudo da Personalidade dos Pol\u00edticos, tamb\u00e9m da <strong>Universidade de S. Jos\u00e9<\/strong> (Dr. Jekyll or Mr. Hyde? President Donald Trump\u2019s personality profile as perceived from different political viewpoints, 2018), comparou a percep\u00e7\u00e3o que os apoiantes de Trump tinham das suas caracter\u00edsticas de personalidade, com a percep\u00e7\u00e3o dos seus opositores pol\u00edticos. Concluiu que ambos viam o presidente como assertivo, imodesto e impulsivo (narcisismo). Mas, contrariamente aos opositores, os apoiantes de Trump percebiam-no como agrad\u00e1vel, consciencioso e emocionalmente est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estes resultados confirmam o estudo de Nai e Mayer (Can anyone be objective about Donald Trump? Assessing the personality of political figures, 2019) feito em amostras de americanos votantes e advers\u00e1rios de Trump. Os dois grupos concordam nos tra\u00e7os acentuados de extrovers\u00e3o e narcisismo, mas os apoiantes de Trump avaliam-no como mais agrad\u00e1vel, mais consciencioso, emocionalmente mais est\u00e1vel e mais aberto \u00e0 experi\u00eancia, menos maquiav\u00e9lico e menos psicopata, do a avalia\u00e7\u00e3o feita, quer pelos advers\u00e1rios pol\u00edticos, quer por um grupo de peritos.<\/p>\n<p>Esta abund\u00e2ncia de evid\u00eancias tem levado muitos a perguntar como \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m com este perfil ter chegado \u00e0 presid\u00eancia da maior pot\u00eancia mundial. Na verdade, Donald Trump n\u00e3o &#8220;chegou&#8221; a presidente. Foi levado \u00e0 presid\u00eancia pelo vontade livre de milh\u00f5es de cidad\u00e3os, numa democracia consolidada. Apesar do perfil do candidato ser largamente conhecido antes da sua primeira elei\u00e7\u00e3o, ainda podia argumentar-se que o eleitorado desconhecia a sua verdadeira face no desempenho do papel presidencial. Mas ap\u00f3s 4 anos como presidente, o argumento n\u00e3o colhe.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2020 Biden foi o presidente eleito com o maior n\u00famero de votos de sempre, mas Trump foi tamb\u00e9m o derrotado com a maior vota\u00e7\u00e3o de sempre. Conseguiu quase 73 milh\u00f5es de votos, isto \u00e9, 47,4%, mais 10 milh\u00f5es de votos e mais 1,2% do eleitorado, do que em 2016, ap\u00f3s um mandato em que revelou atitudes discriminat\u00f3rias, arrog\u00e2ncia, desrespeito pelas institui\u00e7\u00f5es, agressividade com os opositores, falta de sentido de estado e recurso sistem\u00e1tico \u00e0 mentira.<\/p>\n<p>Passados quatro anos, Trump \u00e9 reeleito com uma maioria incontestada. Que rela\u00e7\u00e3o liga este homem \u00e0 maioria dos norte-americanos? A resposta pode ser mais clara se percebermos o quadro psicossocial dos seus apoiantes e a forma como se articula com o perfil da sua lideran\u00e7a carism\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um estudo de Diana Mutz, do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da <strong>Universidade da Pensilv\u00e2nia<\/strong> (Status threat, not economic hardship, explains the 2016 presidential vote, 2018), e outro publicado por Adam Enders e Joseph Uscinsky (On Modeling Support for Donald Trump, 2020) ajudam a explicar a rela\u00e7\u00e3o entre o perfil psicol\u00f3gico de Trump e os seus milh\u00f5es de seguidores.<\/p>\n<p>O estudo de Mutz utilizou um amplo painel representativo do eleitorado americano que foi entrevistado em 2012 e novamente em 2016, antes da elei\u00e7\u00e3o de Trump. O objectivo era saber que mudan\u00e7as ao longo dos 4 anos podiam explicar a sua vit\u00f3ria. Os resultados mostraram, de forma algo surpreendente, que o &#8220;voto do bolso&#8221; n\u00e3o funcionou. O desemprego e a quebra de rendimentos n\u00e3o favoreceram o apoio a Trump. As mudan\u00e7as de opini\u00e3o mais significativas entre as duas elei\u00e7\u00f5es foram no sentido do governo dever fazer menos acordos de mercado livre, os emigrantes deverem regressar aos seus pa\u00edses de origem e a China constituir uma amea\u00e7a crescente \u00e0 seguran\u00e7a e ao emprego nos EUA. Estas mudan\u00e7as aproximaram o eleitorado dos pontos de vista mais conservadores e mostraram ser os melhores preditores do voto em Trump.<\/p>\n<p>A autora concluiu que, subjacente a estas mudan\u00e7as de opini\u00e3o, est\u00e1 um sentimento de amea\u00e7a externa e interna ao estatuto social que atinge uma larga faixa da popula\u00e7\u00e3o americana, sobretudo branca, masculina, tradicionalista e com estatuto social reconhecido. A investiga\u00e7\u00e3o tem confirmado que a amea\u00e7a percebida por um grupo social dominante tende a desencadear reac\u00e7\u00f5es de apoio a solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas conservadoras que restaurem os equil\u00edbrios do passado e lhe restituam a domin\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A teoria da amea\u00e7a de <em>status<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 apoiada pela investiga\u00e7\u00e3o de Enders e Uscinsky. Foi constru\u00eddo um Perfil de D. Trump com afirma\u00e7\u00f5es que representam as suas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas em cinco dom\u00ednios: ressentimento racial, pensamento conspirativo, atitudes anti-emigra\u00e7\u00e3o, sexismo e atitudes anti-politicamente correcto. O estudo conclui que a ades\u00e3o a este perfil de atitudes \u00e9 o melhor preditor do voto em Trump, melhor do que a ideologia ou a op\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, mesmo entre os republicanos. Os que t\u00eam resultado elevado no perfil, t\u00eam uma probabilidade de 70% de votar Trump; os que t\u00eam um resultado baixo, t\u00eam uma probabilidade de apenas 13%.<\/p>\n<p>Mas a conclus\u00e3o mais interessante \u00e9 esta: existe uma correla\u00e7\u00e3o positiva muito elevada entre as atitudes negativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias raciais, aos emigrantes, \u00e0s mulheres, ao politicamente correcto, e \u00e0 defesa da teoria conspirat\u00f3ria. Isto pode indicar que subjacente \u00e0 variedade dos perfis dos apoiantes de Trump (nem todos s\u00e3o racistas, sexistas e anti-emigra\u00e7\u00e3o\u2026) est\u00e1 subjacente uma orienta\u00e7\u00e3o geral: um quadro psicol\u00f3gico de amea\u00e7a percebida que estimula a for\u00e7as <em>in-group<\/em> e polariza o \u00f3dio contra o que \u00e9 estranho ou parece adverso.<\/p>\n<p>Psicologicamente, o sentimento de amea\u00e7a de<em> status<\/em> \u00e9 diferente do racismo ou do sexismo. Ao contr\u00e1rio destes, \u00e9 auto-protector, passivo e pouco consciente. \u00c9 sobretudo o medo da mudan\u00e7a na sociedade e nos valores, e a nostalgia do regresso ao passado, que d\u00e1 origem a atitudes racistas, sexistas, xen\u00f3fobas e anti-elitistas. Na realidade elas n\u00e3o radicam em antagonismos estruturais mas s\u00e3o uma reac\u00e7\u00e3o ao medo. A lideran\u00e7a de Trump n\u00e3o foi a causa. Limitou-se a despoletar uma din\u00e2mica que estava latente.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora utilizada por Shamir para descrever o fen\u00f3meno carism\u00e1tico \u00e9 particularmente \u00fatil para se compreender a nossa tese: a articula\u00e7\u00e3o entre o perfil do l\u00edder, o quadro psicol\u00f3gico dos seus apoiantes e a situa\u00e7\u00e3o objectiva em que ambos interagem. O fen\u00f3meno carism\u00e1tico \u00e9 semelhante a um inc\u00eandio que necessita de combust\u00edvel (o quadro psicol\u00f3gico dos seguidores), oxig\u00e9nio (um contexto social que induza esse quadro) e uma fonte de igni\u00e7\u00e3o (a personalidade e a ac\u00e7\u00e3o do l\u00edder).<\/p>\n<p>As profundas mudan\u00e7as (oxig\u00e9nio) que a sociedade americana sofreu nos \u00faltimos anos s\u00e3o internas \u00e0 sociedade mas tamb\u00e9m ocorrem no ecossistema econ\u00f3mico e pol\u00edtico que a envolve. Estes s\u00e3o alguns factos.<\/p>\n<p>&#8211; Pela primeira vez os europeus brancos que fundaram a Am\u00e9rica est\u00e3o na imin\u00eancia de constituir uma minoria racial pondo em causa o seu sentimento de domin\u00e2ncia social e pol\u00edtica. Ao mesmo tempo t\u00eam-se implementado pol\u00edticas que apoiam os direitos e o poder social das minorias.<\/p>\n<p>&#8211; O desemprego, a instabilidade laboral e a imprevisibilidade dos rendimentos do trabalho degradaram o n\u00edvel de vida de uma parte da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>&#8211; A globaliza\u00e7\u00e3o, com a consequente desindustrializa\u00e7\u00e3o e a transfer\u00eancia de muitos sectores de actividade para o leste da Europa e \u00c1sia, colocaram a sociedade americana numa situa\u00e7\u00e3o de falta de oportunidades e depend\u00eancia externa que as actuais gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o conheciam.<\/p>\n<p>&#8211; A prosperidade econ\u00f3mica j\u00e1 n\u00e3o permite o &#8220;elevador social&#8221; que tradicionalmente levava \u00e0 ascens\u00e3o dos pobres \u00e0 classe m\u00e9dia e m\u00e9dia-alta.<\/p>\n<p>&#8211; Os Estados Unidos (EU) est\u00e3o a perder a lideran\u00e7a da economia mundial e o <em>&#8220;softpower<\/em> americano&#8221; que fez da sociedade americana uma refer\u00eancia social e cultural desde o p\u00f3s-guerra, est\u00e1 a perder influ\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; O d\u00f3lar est\u00e1 sujeito a m\u00faltiplas amea\u00e7as e dificilmente manter\u00e1 o seu papel como moeda de refer\u00eancia nas transa\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>&#8211; A ascens\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica da China est\u00e1 a eclipsar o papel dominante dos EU no mundo. S\u00f3 28% dos americanos acredita, hoje, que a Am\u00e9rica &#8220;est\u00e1 acima dos outros pa\u00edses&#8221;. A depend\u00eancia americana da industria e do investimento chineses limita o poder negocial dos EU e condiciona o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Este contexto determina as atitudes de muitos dos apoiantes de Trump que percebem este quadro como uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a e bem-estar, e ao seu sentido de orgulho nacional. O quadro psicol\u00f3gico (combust\u00edvel) que corresponde \u00e0s perce\u00e7\u00f5es e sentimentos induzidos pelo contexto pode descrever-se com os tra\u00e7os seguintes.<\/p>\n<p>&#8211; Sentimento de que se perdeu a seguran\u00e7a, estabilidade e previsibilidade que caracterizavam a vida social, e que permitiam planear os percursos de vida e o futuro da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; A frustra\u00e7\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es associadas ao &#8220;sonho americano&#8221;, isto \u00e9, a cren\u00e7a de que na Am\u00e9rica h\u00e1 oportunidades para todos, de que o trabalho duro leva ao sucesso e \u00e0 prosperidade, e de que os filhos ter\u00e3o um futuro melhor que os pais.<\/p>\n<p>&#8211; Medo de que a ascens\u00e3o demogr\u00e1fica e a aquisi\u00e7\u00e3o de direitos por parte de outros grupos sociais possa por em causa a domin\u00e2ncia social do grupo de perten\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Sentimento de humilha\u00e7\u00e3o por fazer parte duma na\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a perder poder no plano internacional, independ\u00eancia econ\u00f3mica e capacidade de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Medo de que &#8220;o perigo Chin\u00eas&#8221;, a globaliza\u00e7\u00e3o, a abertura dos mercados e as pol\u00edticas ambientalistas, aumentem a depend\u00eancia do exterior, agravem o desemprego e arru\u00ednem a prosperidade que caracterizou a vida americana.<\/p>\n<p>&#8211; A cren\u00e7a de que as mudan\u00e7as na sociedade vieram destruir a sociedade ideal do passado caracterizada pelas hierarquias est\u00e1veis, pela coes\u00e3o dos grupos sociais, pelo respeito da lei e da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A cren\u00e7a de que os respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios do passado s\u00e3o os emigrantes, as minorias raciais, religiosas e algumas elites, contra os quais \u00e9 preciso agir para restaurar o &#8220;para\u00edso perdido&#8221;.<\/p>\n<p>A actua\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Trump, a ret\u00f3rica de campanha e sobretudo o seu perfil comportamental, s\u00e3o a fonte de igni\u00e7\u00e3o que faltava. As mensagens transmitidas ajustam-se quer ao contexto quer ao quadro psicol\u00f3gico que descrevemos e, por isso, operaram como um ignitor.<\/p>\n<p>&#8211; O lema de campanha <em><strong>Make America Great Again<\/strong> <\/em>e as promessas de que a sua presid\u00eancia recuperaria &#8220;a nossa riqueza e os nossos sonhos&#8221;, apelam \u00e0 ideia de restaurar o que se perdeu. \u00c9 tamb\u00e9m uma refer\u00eancia \u00e0s m\u00faltiplas perdas que a classe m\u00e9dia americana sofreu e ao desejo de recuperar o sonho americano. O n\u00facleo da mensagem de campanha de Trump \u00e9 um misto de tradicionalismo e nostalgia do passado.<\/p>\n<p>&#8211; Para unir os seus apoiantes e refor\u00e7ar o sentimento de seguran\u00e7a, Trump socorre-se da estrat\u00e9gia bem conhecida de polarizar a culpa e os sentimentos de \u00f3dio noutros grupos, apontando um conjunto de alvos: emigrados, estrangeiros, outros pa\u00edses (incluindo aliados), grupos raciais, minorias religiosas e algumas elites. Esta estrat\u00e9gia teve o sucesso facilitado, porque veio acordar as tend\u00eancias isolacionistas e segregacionista que sempre estiveram latentes na sociedade americana.<\/p>\n<p>&#8211; O estilo desagrad\u00e1vel e transgressivo de Trump, contra o politicamente correcto, muitas vezes grosseiro e inconveniente, \u00e9 percebido como um sinal de domin\u00e2ncia, coragem, assertividade e capacidade de mudan\u00e7a. Estes tra\u00e7os tornam-no um l\u00edder atractivo para pessoas que se sentem amea\u00e7adas e acreditam que a mudan\u00e7a s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de medidas radicais.<\/p>\n<p>&#8211; O acentuado narcisismo da sua personalidade \u00e9 percebido como um sinal de autoridade e de confian\u00e7a em si pr\u00f3prio, que \u00e9 apelativo a pessoas dependentes ou inseguras que veem em Trump o l\u00edder que \u00e9 capaz de fazer a mudan\u00e7a. A agressividade com que reage aos opositores projecta a ira e a revolta de muitos descontentes com as mudan\u00e7as sociais que os amea\u00e7am. Um grande n\u00famero de ressentidos e revoltados sente-se representado nas suas teatraliza\u00e7\u00f5es agressivas e a identifica\u00e7\u00e3o emocional \u00e9 um meio eficaz de obter seguidores.<\/p>\n<p>Donald Trump \u00e9 o actor que entra em cena quando o cen\u00e1rio j\u00e1 est\u00e1 montado, os espectadores enchem a sala e sabe bem que papel representar para os cativar. N\u00e3o montou o cen\u00e1rio nem escolheu a assist\u00eancia. Compreendeu o que queriam e foi capaz de ter um desempenho convincente. N\u00e3o foi a causa. Veio acordar ansiedades e expectativas, e dar voz ao &#8220;mal estar&#8221; duma parte importante da sociedade norte-americana.<\/p>\n<p>Enquanto tivermos o mesmo tipo de cen\u00e1rio e de espectadores, porque n\u00e3o fomos capazes de resolver os grandes problemas que nos perturbam, como a inseguran\u00e7a no trabalho, a falta de perspectivas de futuro, a crise da classe m\u00e9dia, a destrui\u00e7\u00e3o dos mecanismos de elevador social, as amea\u00e7as ambientais, a desindustrializa\u00e7\u00e3o e os obst\u00e1culos \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional, continuaremos a alimentar o risco destes &#8220;inc\u00eandios&#8221;, com Trump ou com uma sua r\u00e9plica, nos Estados Unidos ou noutro lugar qualquer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a na  Catolica Lisbon School of Business and Economics<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[54,64],"tags":[821,822,105,820,754],"class_list":["post-9144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bolha-mediatica","category-isto-para-nos","tag-donald-trump","tag-falsas-crencas","tag-lideranca","tag-luis-cairo","tag-politica-americana"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>AS FALSAS CREN\u00c7AS SOBRE A LIDERAN\u00c7A. 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