{"id":9277,"date":"2025-04-21T11:24:48","date_gmt":"2025-04-21T11:24:48","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=9277"},"modified":"2025-04-21T11:26:37","modified_gmt":"2025-04-21T11:26:37","slug":"violencia-domestica-o-padrao-comum-do-agressor-e-o-conluio-do-sistema-judicial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2025\/04\/21\/violencia-domestica-o-padrao-comum-do-agressor-e-o-conluio-do-sistema-judicial\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia Dom\u00e9stica. O padr\u00e3o &#8220;comum&#8221; do agressor e o conluio do sistema judicial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Grande Entrevista a Daniela Cosme<\/strong><\/p>\n<p><strong>Psic\u00f3loga com mais de 20 anos de experi\u00eancia, Daniela Cosme dedicou-se, nos anos mais recentes, a ajudar as v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que, de acordo com a sua descoberta, s\u00e3o agredidas por um perfil padronizado de homens, os narcisistas. Estes, por sua vez, tendem a ser protegidos pelo sistema judicial, que abandona as verdadeiras vitimas, e n\u00e3o poucas vezes, tenta transform\u00e1-las em culpadas das suas situa\u00e7\u00f5es e estatutos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como come\u00e7ou este caminho?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 cerca de seis anos, comecei a dedicar-me ao estudo da Perturba\u00e7\u00e3o da Personalidade Narcisista. Criei o meu Instagram e comecei a publicar sobre o modo de funcionamento dos indiv\u00edduos no espectro narcisista, as estrat\u00e9gias manipuladoras que utilizam para destruir psicologicamente as suas v\u00edtimas, e como usam os filhos para satisfazer as suas necessidades e causar sofrimento \u00e0 m\u00e3e. Abordei tamb\u00e9m as consequ\u00eancias traum\u00e1ticas que estas v\u00edtimas sofrem, nomeadamente na express\u00e3o da perturba\u00e7\u00e3o de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico complexo e no desenvolvimento de sintomatologia associada (ansiedade, ataques de p\u00e2nico, ins\u00f3nia, h\u00edper vigil\u00e2ncia, idea\u00e7\u00e3o suicida, entre outros).<\/p>\n<p>De repente, comecei a surpreender-me com os in\u00fameros contactos de mulheres a dizerem que o que eu escrevia nos <em>posts<\/em> era exatamente o que viviam.<br \/>\nComo este tipo de perfil, quando tem filhos, acaba inevitavelmente por estar envolvido em processos judiciais \u2014 n\u00e3o falha \u2014 devido ao seu car\u00e1cter altamente conflituoso, \u00e9 frequente encontr\u00e1-los em tribunal. Pela pr\u00f3pria patologia, n\u00e3o conseguem manter-se est\u00e1veis. Estabilidade, paz e harmonia s\u00e3o, para eles, algo entediante; para se sentirem vivos, precisam de criar conflito.<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o suportam a felicidade, a espontaneidade e a alegria. Como genuinamente carecem destas qualidades, invejam-nas nas outras pessoas e, por isso, tendem a destruir datas especiais. E, claro, t\u00eam empatia nula. Por isso, s\u00e3o frequentemente caracterizados por um perfil mal\u00e9volo e, consoante o grau do espectro em que se encontram, podem cometer diversos crimes \u2014 altamente elaborados, gra\u00e7as ao seu n\u00edvel de intelig\u00eancia superior \u2014 mas sem escr\u00fapulos nem empatia, o que os torna propensos a cometer crimes, sobretudo sem deixar marcas, que depois s\u00e3o dif\u00edceis de provar em tribunal.<br \/>\nI\u00f1aki Pi\u00f1uel chama-lhes &#8220;psicopatas integrados&#8221;, pois, socialmente, parecem pessoas normais, com at\u00e9 certos atributos de carisma e charme. Contudo, \u00e9 na privacidade que todo o desprezo e maldade v\u00eam ao de cima. Raramente tocam nas v\u00edtimas (agress\u00e3o f\u00edsica), pois n\u00e3o precisam: a manipula\u00e7\u00e3o destes indiv\u00edduos \u00e9 t\u00e3o destrutiva que acaba por criar instabilidade nas parceiras e nos filhos. Ou seja, a m\u00e9dio prazo, estas pessoas adoecem psicologicamente ou desenvolvem doen\u00e7as psicossom\u00e1ticas.<br \/>\nO contacto com estas v\u00edtimas, em contexto de consulta psicol\u00f3gica, trouxe-me um conhecimento cada vez mais aprofundado dos processos em tribunal, uma vez que partilhavam comigo requerimentos dos seus advogados, per\u00edcias e pareceres psicol\u00f3gicos. Fiquei chocada como estas mulheres eram desconsideradas e humilhadas e, pior ainda, como as crian\u00e7as foram traumatizadas e colocadas em risco, nas m\u00e3os de progenitores abusivos e agressivos.<br \/>\nOs processos s\u00e3o, essencialmente, dois: Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Suspeita de Abuso Sexual Infantil Intrafamiliar.<\/p>\n<p><strong>Existe um padr\u00e3o comportamental que identifique estas pessoas, quer as v\u00edtimas, quer os agressores?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, existe um padr\u00e3o comum. \u00c9 precisamente por isso que se trata de uma patologia, que pode ser identificada e categorizada clinicamente.<br \/>\nTanto o narcisista como a v\u00edtima s\u00e3o frequentemente produtos de uma din\u00e2mica familiar abusiva e agressiva. Estas din\u00e2micas tendem a ocorrer em fam\u00edlias disfuncionais com tra\u00e7os narcisistas \u2014 onde ambos os progenitores podem apresentar caracter\u00edsticas de personalidade narcisista ou psicop\u00e1tica, ou em que um \u00e9 claramente abusivo e o outro assume um papel submisso, permissivo e facilitador do abuso.<br \/>\nOs estudos em psicologia do desenvolvimento e trauma relacional indicam que, quando as crian\u00e7as crescem em contextos marcados por viol\u00eancia, neglig\u00eancia emocional ou abuso psicol\u00f3gico, esses comportamentos tornam-se internalizados e normalizados. A crian\u00e7a interoriza estas din\u00e2micas como sendo &#8220;o normal&#8221; \u2014 muitas vezes s\u00f3 reconhecendo, j\u00e1 na idade adulta, que aquilo que viveu foi profundamente disfuncional.<br \/>\nComo refere Judith Herman em Trauma and Recovery (1992), muitas v\u00edtimas de abuso desenvolvem mecanismos de adapta\u00e7\u00e3o que envolvem dissocia\u00e7\u00e3o, idealiza\u00e7\u00e3o dos agressores ou minimiza\u00e7\u00e3o do sofrimento vivido, precisamente porque o trauma foi incorporado como parte fundadora da identidade.<br \/>\nDe facto, muitos pacientes afirmam que s\u00f3 mais tarde, ao entrarem em contacto com outras realidades ou atrav\u00e9s da psicoterapia, descobriram que nem todas as fam\u00edlias eram violentas ou desestruturadas \u2014 porque, at\u00e9 ent\u00e3o, acreditavam que a viol\u00eancia era uma norma universal.<br \/>\nAo n\u00edvel da psicodin\u00e2mica infantil, e segundo a teoria da identifica\u00e7\u00e3o proposta por Freud e desenvolvida por autores como Alice Miller (O Drama da Crian\u00e7a Bem Dotada, 1979), a crian\u00e7a pode, inconscientemente, alinhar-se com uma das figuras do sistema abusivo: identifica\u00e7\u00e3o com o agressor: a crian\u00e7a interioriza que, para deixar de ser vulner\u00e1vel, precisa de assumir o papel do agressor \u2014 &#8220;se eu for o agressor, deixo de ser a v\u00edtima&#8221;. Esta defesa \u00e9 muitas vezes a g\u00e9nese de tra\u00e7os de personalidade narcisista, agressiva ou at\u00e9 psicop\u00e1tica.<br \/>\nIdentifica\u00e7\u00e3o com a v\u00edtima (salvador): noutras situa\u00e7\u00f5es, a crian\u00e7a assume a responsabilidade de &#8220;proteger&#8221; o progenitor mais fr\u00e1gil \u2014 normalmente aquele que tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima. Esta identifica\u00e7\u00e3o leva a padr\u00f5es de co- depend\u00eancia, autossacrif\u00edcio e toler\u00e2ncia excessiva ao abuso emocional, o que torna estas pessoas, mais tarde, especialmente vulner\u00e1veis a rela\u00e7\u00f5es abusivas.<br \/>\nO psic\u00f3logo espanhol I\u00f1aki Pi\u00f1uel, especialista em narcisismo perverso, alerta para estas repeti\u00e7\u00f5es inconscientes: \u201cAs v\u00edtimas n\u00e3o escolhem os narcisistas \u2014 s\u00e3o programadas desde a inf\u00e2ncia para se ligarem a eles.\u201d (Amor Zero, 2017)<br \/>\nO psiquiatra portugu\u00eas Daniel Sampaio, no seu livro &#8220;Vozes e Ru\u00eddos \u2013 Di\u00e1logos com adolescentes e pais&#8221;, (2008), sublinha precisamente como os padr\u00f5es relacionais familiares se repetem de forma quase autom\u00e1tica, se n\u00e3o forem interrompidos. Refere ainda que muitos jovens repetem os comportamentos abusivos que observaram na inf\u00e2ncia, seja como v\u00edtimas, seja como agressores \u2014 perpetuando ciclos de viol\u00eancia invis\u00edveis, mas profundamente destrutivos.<br \/>\nA transgeracionalidade do trauma \u00e9 tamb\u00e9m bem documentada. Estudos como os de Bessel van der Kolk (The Body Keeps the Score, 2014) explicam como o trauma pode ser transmitido e reproduzido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, caso n\u00e3o haja interven\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia cr\u00edtica.<br \/>\nNas din\u00e2micas familiares narcisistas, \u00e9 comum que os filhos sejam atribu\u00eddos a pap\u00e9is r\u00edgidos e disfuncionais, os 3 papeis principais s\u00e3o: o bode expiat\u00f3rio, o menino de ouro e o menino invis\u00edvel. Estes pap\u00e9is n\u00e3o s\u00e3o escolhidos pelas crian\u00e7as, mas impostos pelo(s) progenitor(es) narcisista(s) com o intuito de manter o controlo, refor\u00e7ar a sua pr\u00f3pria auto imagem inflacionada e projetar a sua disfun\u00e7\u00e3o interna para o exterior. Estes padr\u00f5es t\u00eam consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas profundas e duradouras para os filhos que crescem neste tipo de ambiente t\u00f3xico e manipulador.<br \/>\nO menino de ouro (ou filho dourado) \u00e9 idealizado e colocado num pedestal. Este filho \u00e9 frequentemente tratado como uma extens\u00e3o do ego do progenitor narcisista, sendo constantemente elogiado (\u00e0s vezes de forma desproporcionada) e usado como exemplo para desvalorizar os outros filhos. Esta idealiza\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 condicional: o amor e a aceita\u00e7\u00e3o dependem da conformidade com as expectativas do progenitor. O filho dourado pode desenvolver um sentido inflacionado de si ou, pelo contr\u00e1rio, sofrer internamente com ansiedade, medo do fracasso e crises de identidade, j\u00e1 que nunca lhe \u00e9 permitido ser verdadeiramente ele pr\u00f3prio.<br \/>\nO bode expiat\u00f3rio \u00e9 o alvo preferido para todas as frustra\u00e7\u00f5es, cr\u00edticas e projetos de culpa da fam\u00edlia. Este filho \u00e9 frequentemente culpabilizado por tudo o que corre mal, mesmo quando n\u00e3o tem qualquer responsabilidade. O objetivo do progenitor narcisista \u00e9 deslocar as suas pr\u00f3prias inseguran\u00e7as e sentimentos de vergonha para algu\u00e9m \u201cseguro\u201d dentro do sistema familiar.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias para o bode expiat\u00f3rio incluem baixa autoestima, sentimentos de inadequa\u00e7\u00e3o, depress\u00e3o e, muitas vezes, dificuldade em estabelecer limites saud\u00e1veis na vida adulta. No entanto, em termos psicoterap\u00eauticos \u00e9 o que mostra mais propens\u00e3o para a recupera\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica.<br \/>\nO menino invis\u00edvel \u00e9 aquele que, para sobreviver, aprendeu a tornar-se \u201cinvis\u00edvel\u201d, evitando, conflitos e apagando-se para n\u00e3o atrair a aten\u00e7\u00e3o negativa dos pais. Este filho pode parecer calmo e independente, mas sofre frequentemente de solid\u00e3o profunda, dificuldade em expressar emo\u00e7\u00f5es e medo de intimidade. Muitas vezes, s\u00e3o adultos que sentem que n\u00e3o t\u00eam \u201cdireito a existir\u201d ou que n\u00e3o s\u00e3o dignos de amor e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a DARVO?<br \/>\nDARVO \u00e9 uma estrat\u00e9gia de manipula\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o dos agressores,\u00a0\u00e9 uma poderosa estrat\u00e9gia de manipula\u00e7\u00e3o utilizada por agressores- abusadores para se ilibarem dos crimes que cometem. A sigla em ingl\u00eas refere-se a:<br \/>\nDeny (Negar), Attack (Atacar), Reverse Victim and O\ufb00ender (Inverter o papel de v\u00edtima e agressor).<br \/>\nOu seja, o abusador nega os factos, ataca quem denuncia e faz-se passar por v\u00edtima, descredibilizando quem tenta proteger os mais vulner\u00e1veis.<br \/>\nImagine uma m\u00e3e que, ao tentar proteger os seus filhos de um ambiente hostil, agressivo e\/ou abusivo \u2014 altamente perturbador \u2014 decide apresentar uma den\u00fancia, na esperan\u00e7a de que o tribunal garanta a prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. O que sucede \u2014 e este \u00e9 um padr\u00e3o que se repete, n\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, \u00e9 que o progenitor acusado nega os abusos, ataca a m\u00e3e, difama-a, descredibiliza-a, isola-a e vira familiares, institui\u00e7\u00f5es e at\u00e9 amigos contra ela. Apresenta-se como v\u00edtima: &#8220;Sou um bom pai, quero estar com os meus filhos, mas ela n\u00e3o permite. Ela est\u00e1 a alienar. \u00c9 inst\u00e1vel. N\u00e3o tem capacidade psicol\u00f3gica para cuidar das crian\u00e7as.&#8221;<br \/>\nPara refor\u00e7ar essa narrativa, contrata um mandat\u00e1rio de perfil agressivo, \u201cpit bull\u201d, que reproduz e amplifica esse discurso nos tribunais, enchendo o processo de requerimentos infundados \u2014 muitas vezes em clara litig\u00e2ncia de m\u00e1-f\u00e9. O procurador, em vez de investigar os factos com rigor, acaba por acolher essa narrativa, sem o devido contradit\u00f3rio. A entidade cuja miss\u00e3o \u00e9 proteger as crian\u00e7as torna-se, assim, c\u00famplice do agressor e transfere a culpa para a m\u00e3e. Os ju\u00edzes, muitas vezes sem tempo para ler os processos na totalidade, limitam-se a subscrever o que o procurador alega.<\/p>\n<p>Tenho v\u00e1rios casos em que o denunciado nem chega a ser constitu\u00eddo arguido, mas a m\u00e3e, sim, porque este abre processos-crime contra ela, por difama\u00e7\u00e3o, maus-tratos, etc. sem qualquer fundamento, simplesmente continuando o jogo perverso da viol\u00eancia e do massacre psicol\u00f3gico. E infelizmente, muitas vezes este jogo funciona nos tribunais e as crian\u00e7as s\u00e3o retiradas das m\u00e3es com v\u00ednculo seguro e entregues aos pais abusadores.<\/p>\n<p>Assim, a estrat\u00e9gia DARVO promove a invers\u00e3o da culpa, muitas vezes sustentada na acusa\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o parental contra a m\u00e3e protetora. Esta narrativa, quando aceite sem uma an\u00e1lise criteriosa, resulta na re vitimiza\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e na desprote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, as partes mais vulner\u00e1veis.<br \/>\nA alega\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o parental tem sido usada, em muitos casos, como uma ferramenta de silenciamento, obscurecendo a verdadeira din\u00e2mica de viol\u00eancia e abuso. Em vez de proteger, este argumento transforma-se, em certos contextos, num instrumento de manuten\u00e7\u00e3o do poder por parte de quem deveria ser responsabilizado.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias para as mulheres? E para os filhos?<\/strong><br \/>\nO abuso institucional \u00e9 uma revitimiza\u00e7\u00e3o, tanto para a m\u00e3e como para a crian\u00e7a. De forma geral, qualquer ser humano, ao pedir ajuda \u2014 especialmente estas mulheres, j\u00e1 psicologicamente desgastadas \u2014 f\u00e1-lo na esperan\u00e7a de receber apoio, amparo para a sua dor, acolhimento para a sua hist\u00f3ria de sofrimento. Tal como uma crian\u00e7a que, quando est\u00e1 desregulada, triste, zangada, com um problema que n\u00e3o consegue gerir, procura um dos pais ou o seu cuidador para ser acolhida e ajudada a regular-se.<br \/>\nProcura uma &#8220;m\u00e3e boa&#8221;. No entanto, o que estas mulheres e crian\u00e7as encontram \u00e9 uma &#8220;m\u00e3e narcisista&#8221;: fria, ego\u00edsta e conivente com o agressor.<br \/>\nUma mulher que trabalha 8 horas por dia e aufere pouco mais do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de proteger o seu filho. E sabemos que h\u00e1 m\u00e3es que trabalham mais de 8 horas e ganham ainda menos \u2014 estas n\u00e3o t\u00eam qualquer hip\u00f3tese de proteger os filhos. Tal como o sistema judicial est\u00e1 estruturado, essas mulheres \u2014 pelas suas condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas \u2014 n\u00e3o conseguem contratar um advogado, e, se tiverem acesso a um nomeado pelo Estado, veem rapidamente o processo encerrado, sendo aconselhadas a entregar os filhos ao abusador. Caso contr\u00e1rio, o Estado poder\u00e1 aplicar-lhe coimas por incumprimento, que podem ascender aos 500 ou 750 euros por cada incumprimento. Se essa mulher aufere 830 euros mensais, encontra-se de m\u00e3os e p\u00e9s atadas.<br \/>\nEstes processos s\u00e3o longos 3-5 anos e os valores podem rondar entre 30-50 mil euros. Este \u00e9 pre\u00e7o para salvar um filho e n\u00e3o h\u00e1 garantias de nada.<br \/>\nTrata-se, no fundo, de um neg\u00f3cio. Muitas pessoas lucram com este sistema. Inserido numa l\u00f3gica capitalista, o pr\u00f3prio sofrimento e o risco a que as crian\u00e7as est\u00e3o expostas tornaram-se elementos lucrativos. A dor destas fam\u00edlias \u00e9, para alguns, uma oportunidade de rendimento \u2014 transformando a vulnerabilidade em mercadoria.<br \/>\nAs que t\u00eam capacidade financeira para recorrer a meios legais acabam muitas vezes por ser destratadas, humilhadas, e, mesmo assim, os filhos s\u00e3o entregues aos abusadores. Porque a lei privilegia o direito do pai em detrimento da prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e porque os profissionais dos tribunais mant\u00eam a cren\u00e7a de que o mais importante \u00e9 a crian\u00e7a crescer com ambos os progenitores \u2014 mesmo que um deles seja agressivo e abusivo.<br \/>\nAs consequ\u00eancias s\u00e3o a perpetua\u00e7\u00e3o do ciclo abusivo geracional, o agravamento da sintomatologia nas crian\u00e7as e nas mulheres, e o desenvolvimento de patologias graves.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que o sistema judicial falha na prote\u00e7\u00e3o destas mulheres?<\/strong><br \/>\nExistem v\u00e1rios fatores. Um j\u00e1 mencionei que \u00e9 o DARVO, o outro \u00e9 a quest\u00e3o financeira, e tamb\u00e9m j\u00e1 referi que tem a ver com um conjunto de cren\u00e7as machistas e mis\u00f3ginas, altamente prejudiciais na prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Exercidas pelos intervenientes dos tribunais: Policias, (CJPJ, CAFAP, EMAT, SANTA CASA DE MISERIC\u00d3RDIA) procuradores e ju\u00edzes, que t\u00eam interesses em comum n\u00e3o de proteger as crian\u00e7as, mas de se auto-alimentarem financeiramente, retraumatizando as crian\u00e7as, for\u00e7ando-as a conv\u00edvios supervisionados. H\u00e1 muitos advogados a falar sobre isso que est\u00e3o mais dentro do assunto do que eu.<br \/>\nAlgumas cren\u00e7as que n\u00e3o nos deixam evoluir e que p\u00f5em em risco as crian\u00e7as s\u00e3o: Minimizar a Viol\u00eancia Dom\u00e9stica &#8220;o pai agrediu a m\u00e3e, mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja um bom pai.&#8221; Impacto: Desconsidera a conex\u00e3o entre viol\u00eancia dom\u00e9stica e a capacidade de exercer uma parentalidade saud\u00e1vel;<\/p>\n<p>Tratar a Crian\u00e7a como um Objeto &#8220;ambos os pais t\u00eam direito a conviver com a crian\u00e7a.&#8221; Impacto: Trata a crian\u00e7a como um bem a ser dividido, negligenciando seu bem-estar, seguran\u00e7a e necessidades individuais e consequ\u00eancias traum\u00e1ticas;<\/p>\n<p>Ignorar Den\u00fancias de Abuso &#8220;N\u00e3o h\u00e1 provas de abuso sexual, logo n\u00e3o ocorreu.&#8221; Impacto: Ignora a complexidade da revela\u00e7\u00e3o de abusos e a dificuldade em produzir evid\u00eancias tang\u00edveis em casos t\u00e3o sens\u00edveis;<\/p>\n<p>&#8220;Foi a m\u00e3e que inventou o ASI para afastar a crian\u00e7a do pai.&#8221; \u00a0Impacto: Estigmatiza den\u00fancias leg\u00edtimas, transformando a preocupa\u00e7\u00e3o materna num suposto ato de manipula\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o parental.<\/p>\n<p>Desqualificar Preocupa\u00e7\u00f5es Maternas &#8220;a m\u00e3e \u00e9 que \u00e9 muito ansiosa, est\u00e1 a precisar de terapia&#8221; (demonstrar preocupa\u00e7\u00e3o). Impacto: Rotula rea\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas como patol\u00f3gicas, desconsiderando contextos de viol\u00eancia, amea\u00e7a ou medo real.<\/p>\n<p>Simplificando as Necessidades da Crian\u00e7a &#8220;a crian\u00e7a precisa de um pai e de uma m\u00e3e.&#8221; Impacto: Reduz as necessidades emocionais da crian\u00e7a a uma f\u00f3rmula r\u00edgida, ignorando a qualidade dos v\u00ednculos e os impactos da viol\u00eancia dom\u00e9stica e do abuso sexual.<\/p>\n<p>Priorizar Direitos sobre Responsabilidades &#8220;o pai tem os mesmos direitos.&#8221; Impacto: Prioriza a igualdade formal de direitos em detrimento da seguran\u00e7a e do bem-estar infantil, desconsiderando comportamentos nocivos.<\/p>\n<p>Reduzir V\u00ednculos Afetivos a Competi\u00e7\u00e3o &#8220;n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a m\u00e3e que gosta do filho.&#8221; Impacto: Simplifica o v\u00ednculo afetivo numa disputa de sentimentos, desconsiderando a qualidade e a seguran\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEssas cren\u00e7as refletem discursos que, ao serem simplistas e descontextualizados, obscurecem din\u00e2micas de poder, minimizam situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e abuso sexual, comprometendo a prote\u00e7\u00e3o integral da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes discursos continuam a ecoar em contextos judiciais, ignorando d\u00e9cadas de pesquisa psicol\u00f3gica, sobre o impacto da viol\u00eancia dom\u00e9stica e do abuso sexual no desenvolvimento infantil.<br \/>\nN\u00e3o creio que seja falta de informa\u00e7\u00e3o ou forma\u00e7\u00e3o destes profissionais, mas sim, falta de \u00e9tica e responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o financeira ou, na sua opini\u00e3o, existe um conluio narcisista entre o pai e o advogado?<\/strong><br \/>\n\u00c9, primeiramente, uma quest\u00e3o de dinheiro. No entanto, se o advogado tiver tamb\u00e9m um perfil no espectro narcisista, consciente ou inconscientemente, forma-se uma esp\u00e9cie de &#8220;pacto de lealdade&#8221; ou de irmandade. Tal como a v\u00edtima, se for uma advogada que tamb\u00e9m tenha sofrido, na inf\u00e2ncia, viol\u00eancia dom\u00e9stica (VD) ou abuso sexual infantil (ASI), ou que tenha atualmente um processo-crime, ela adotar\u00e1 uma postura muito mais defensiva. Estas ser\u00e3o as melhores advogadas para as v\u00edtimas, pois se tornam muito mais emp\u00e1ticas.<br \/>\nS\u00f3 o sofrimento ativa a empatia e torna-nos seres humanos mais elevados.<\/p>\n<p><strong>Quantos casos destes conhece? H\u00e1 algum caso que possa partilhar que represente este estigma?<\/strong><br \/>\nInfelizmente, conhe\u00e7o muitos casos. Sim, j\u00e1 falei publicamente sobre v\u00e1rios: o Noah, a Eva, o Rafael (filho da m\u00e3e Elza) e a Marta. Estes dois \u00faltimos t\u00eam publica\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo.<br \/>\nO problema \u00e9 que as m\u00e3es s\u00e3o intimidadas pelos advogados para n\u00e3o falarem. Instala- se todo um clima de medo e elas ficam paralisadas. N\u00f3s incentivamos as mulheres a falar. Elas t\u00eam o direito de se expressar \u2014 desde que protejam as identidades e as comarcas, podem e devem falar sobre os seus casos. \u00c9 a \u00fanica forma de o abuso institucional vir \u00e0 tona e ser revelado publicamente.<br \/>\nSabemos que s\u00f3 assim haver\u00e1 mudan\u00e7a&#8230; mas n\u00e3o basta uma; t\u00eam de ser muitas mulheres.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as estrat\u00e9gias por parte do sistema judicial para retirar a capacidade de afirma\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas?<\/strong><br \/>\nAs estrat\u00e9gias s\u00e3o DARVO e aliena\u00e7\u00e3o parental \u2013 que, basicamente, representam sempre o mesmo mecanismo: inocentar o agressor, alegando que n\u00e3o existem provas suficientes para o incriminar, acabando por arquivar os processos.<br \/>\nAo mesmo tempo, difamam e descredibilizam as mulheres, afirmando que est\u00e3o a tentar afastar a crian\u00e7a do pai \u2013 invocando o a s\u00edndrome de aliena\u00e7\u00e3o parental. Sugiro a leitura do texto \u201cA fraude da s\u00edndrome de aliena\u00e7\u00e3o parental e a protec\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as v\u00edtimas de abuso sexual\u201dda Ju\u00edza Maria Clara Sottomayor que t\u00e3o bem descreve esta realidade.<br \/>\nA chamada S\u00edndrome de Aliena\u00e7\u00e3o Parental n\u00e3o tem qualquer validade cient\u00edfica e foi criada por um m\u00e9dico ped\u00f3filo, Richard Gardner, com o objectivo de facilitar que pais pudessem abusar sexualmente dos pr\u00f3prios filhos.<br \/>\nExistem situa\u00e7\u00f5es profundamente dram\u00e1ticas em que m\u00e3es apenas querem proteger os filhos de abusos sexuais por parte dos pais e apresentam den\u00fancia \u2014 mas nem sequer s\u00e3o aplicadas medidas de afastamento, o que coloca em risco a vida das mulheres e das crian\u00e7as.<br \/>\nQuando, por vezes, h\u00e1 uma medida de afastamento, rapidamente se iniciam visitas supervisionadas, porque o pai ainda n\u00e3o foi constitu\u00eddo arguido \u2014 e, portanto, \u00e9 legalmente considerado inocente <em>(in dubio pro reo<\/em>). No entanto, por mais chocante que seja, o pai continua com direito \u00e0s visitas quando \u00e9 acusado e incriminado. \u00c9 rid\u00edculo, ningu\u00e9m entende, mas as crian\u00e7as s\u00e3o obrigadas a visitar os pais mesmo presos e tendo sido agredidos e abusados por eles. Aqui vemos &#8211; o n\u00edvel de patologia em que nos encontramos -.<br \/>\nCom frequ\u00eancia, os procuradores alegam que \u201c\u00e9 do superior interesse da crian\u00e7a manter os v\u00ednculos com o pai\u201d, ignorando por completo os ind\u00edcios de viol\u00eancia e abuso.<br \/>\nA juntar a tudo isto, temos ainda uma mentalidade machista, mis\u00f3gina e patriarcal, na qual n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a prote\u00e7\u00e3o nem das mulheres, nem das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Existir\u00e3o h\u00e1bitos culturais enraizados que fazem parte desta forma de aturar?<\/strong><br \/>\nCom certeza, h\u00e1 50 anos, a mulher em Portugal era considerada propriedade do marido. N\u00e3o tinha autonomia financeira e dependia, a todos os n\u00edveis, do homem.<br \/>\nTenho 48 anos e, durante 8 anos da minha vida (dos 8 aos 16 anos), vivi numa pequena aldeia no norte do pa\u00eds, na Beira Alta. E era como se ainda vivesse no Antigo Regime.<br \/>\nA professora da escola batia nas crian\u00e7as, o que me chocava profundamente. Tinha acabado de chegar de um pa\u00eds muito mais desenvolvido, a Alemanha, onde as crian\u00e7as n\u00e3o eram tratadas assim.<br \/>\nOutro fen\u00f3meno que vivi de perto \u2014 sem ter verdadeira consci\u00eancia do que se tratava \u2014 Foi o abuso sexual intrafamiliar.<br \/>\nOuvia-se dizer, sem eu entender o real significado das palavras: \u201co fulano tal desonrou a filha\u201d. Era algo comum e, de certo modo, aceite \u2014 at\u00e9 porque a mulher, a m\u00e3e, pouco podia fazer. Era totalmente dependente do homem e n\u00e3o conseguia proteger as filhas, mesmo quando estas eram abusadas pelo pr\u00f3prio pai.<br \/>\nAt\u00e9 que, um dia, aconteceu com a minha prima. Eu teria uns 12 anos e pedi explica\u00e7\u00f5es ao meu pai. Ele, com o seu n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o e sensibilidade, l\u00e1 explicou-me. E eu fiquei muito perturbada.<br \/>\nS\u00f3 me perguntava: \u201cPorque \u00e9 que aquela m\u00e3e n\u00e3o a protegeu?\u201d Na altura, eu n\u00e3o compreendia a impot\u00eancia daquela mulher.<br \/>\nHoje, as mulheres s\u00e3o, felizmente, mais independentes. Podem e devem denunciar.<br \/>\nMas o problema \u00e9 que os tribunais n\u00e3o facilitam. Est\u00e3o ainda presos a uma mentalidade de h\u00e1 50 anos, onde a mulher que denuncia \u00e9 vista como mentirosa, conflituosa, e acusada de usar o abuso sexual como vingan\u00e7a contra o ex-companheiro. \u00c9 um disparate completo \u2014 mas \u00e9 o que se ouve frequentemente nos tribunais.<br \/>\nAs mulheres acabam por ser condenadas por difama\u00e7\u00e3o, por maus-tratos aos filhos que querem proteger, e n\u00e3o por aliena\u00e7\u00e3o parental \u2014 porque isso ainda n\u00e3o \u00e9 lei em Portugal.<br \/>\nMas temo que em breve seja. E, se isso acontecer, as mulheres deixar\u00e3o de ter liberdade para denunciar. Isso ser\u00e1 um problema grav\u00edssimo.<br \/>\n\u00c9 o que j\u00e1 est\u00e1 a acontecer no Brasil, onde m\u00e3es que denunciam abusos perdem a cust\u00f3dia dos filhos e acabam por v\u00ea-los entregues ao agressor, que continua a abusar<br \/>\n\u2014 delas e das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Se o sistema judicial abandona estas mulheres, o que lhes acontece?<\/strong><\/p>\n<p>Quando uma m\u00e3e \u00e9 abandonada, desamparada, negligenciada ou violentada \u2014 seja f\u00edsica, emocional ou economicamente \u2014 n\u00e3o \u00e9 apenas ela que sofre. Os seus filhos absorvem esse sofrimento, mesmo que em sil\u00eancio, mesmo que sem palavras. Uma m\u00e3e doente, cansada ou emocionalmente exaurida n\u00e3o consegue oferecer aquilo que uma crian\u00e7a mais precisa: presen\u00e7a, seguran\u00e7a, amor incondicional e consist\u00eancia. Temos de dar condi\u00e7\u00f5es dignas \u00e0s m\u00e3es!<br \/>\nQuem faz mal a uma m\u00e3e, faz mal aos seus filhos. E isto n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora \u2014 \u00e9 uma realidade concreta e mensur\u00e1vel nas consequ\u00eancias sociais e emocionais que da\u00ed adv\u00eam. Ao atacarmos ou ignorarmos as necessidades das m\u00e3es, estamos a comprometer o futuro de uma gera\u00e7\u00e3o inteira. Estamos a moldar seres humanos fr\u00e1geis, ansiosos, por vezes agressivos ou desligados de si e dos outros. Estamos a contribuir para a doen\u00e7a mental, para o desespero silencioso, para a repeti\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es agressivos.<br \/>\nSocialmente, estamos a perpetuar um modelo disfuncional e violento: o modelo patriarcal, que se alimenta da dor, da hierarquia, da domina\u00e7\u00e3o. Neste modelo, em vez de seres humanos \u00edntegros e conscientes, estamos a formar narcisistas \u2014 que aprendem a proteger-se atacando, manipulando, dominando \u2014 e co dependentes \u2014 que aprendem a sobreviver servindo, anulando-se, pedindo migalhas de afeto. Ambos vivem presos num ciclo de guerra emocional constante, onde um precisa do outro para confirmar a sua exist\u00eancia. \u00c9 a dan\u00e7a da v\u00edtima e do predador, perpetuada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe quisermos realmente evoluir como seres humanos, temos de come\u00e7ar por cuidar das m\u00e3es. A sua sa\u00fade, a sua dignidade, o seu bem-estar emocional e f\u00edsico s\u00e3o fundamentais. Porque m\u00e3es saud\u00e1veis criam filhos saud\u00e1veis. E filhos saud\u00e1veis constroem sociedades mais justas, emp\u00e1ticas e equilibradas. Cuidar de uma m\u00e3e \u00e9 um ato revolucion\u00e1rio. E \u00e9, acima de tudo, um investimento no futuro. Todos nascemos de uma m\u00e3e.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Como se d\u00e1 a volta a toda esta situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nPara mim, \u00e9 f\u00e1cil perceber. Porque existe um padr\u00e3o comportamental que, uma vez identificado, torna-se mais simples de compreender e trabalhar. Este processo assemelha-se a um processo psicoterap\u00eautico: come\u00e7amos por reconhecer o padr\u00e3o patol\u00f3gico \u2014 aquele que origina sofrimento \u2014 e, a partir da\u00ed, inicia-se a desconstru\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as que sustentam esse comportamento. Este confronto com a realidade, muitas vezes dura e dolorosa, pode levar-nos a atravessar fases dif\u00edceis, como a depress\u00e3o cl\u00ednica. No entanto, \u00e9 precisamente nesse processo que come\u00e7amos a libertar-nos das ilus\u00f5es e a funcionar de forma mais aut\u00eantica e saud\u00e1vel.<br \/>\nPara isso, \u00e9 essencial ter coragem. Coragem para quebrar v\u00ednculos doentios, para desafiar estruturas internas e externas, e para olhar a vida com isen\u00e7\u00e3o e verdade. S\u00f3 assim conseguimos abrir espa\u00e7o interior para a empatia \u2014 essa capacidade de nos ligarmos ao outro de forma genu\u00edna e compassiva.<br \/>\nJesus de Nazar\u00e9, um dos maiores mestres espirituais da hist\u00f3ria, sintetizou este princ\u00edpio de empatia na c\u00e9lebre frase: &#8220;Ama o pr\u00f3ximo como a ti mesmo&#8221; (Mateus 22:39). N\u00e3o se trata apenas de um apelo moral, mas de uma orienta\u00e7\u00e3o profunda sobre o equil\u00edbrio entre amor-pr\u00f3prio e amor ao outro.<br \/>\nBuda, por sua vez, ensinou que a liberta\u00e7\u00e3o do sofrimento humano passa pela compaix\u00e3o e pela ren\u00fancia ao desejo ego\u00edsta. A sua filosofia convida-nos a cultivar a aten\u00e7\u00e3o plena, a n\u00e3o viol\u00eancia e a compaix\u00e3o universal, como caminhos para uma exist\u00eancia mais consciente e pac\u00edfica.<br \/>\nGandhi aplicou estes princ\u00edpios \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, defendendo a ahimsa (n\u00e3o- viol\u00eancia) como forma de resist\u00eancia. A sua vida demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel lutar contra a injusti\u00e7a sem ceder \u00e0 reatividade, transformando o mundo atrav\u00e9s da paz.<br \/>\nS\u00f3crates, o fil\u00f3sofo grego, \u00e9 o s\u00edmbolo do esp\u00edrito cr\u00edtico. O seu m\u00e9todo \u2014 a mai\u00eautica \u2014 Consistia em fazer perguntas, questionar cren\u00e7as enraizadas, e conduzir o interlocutor at\u00e9 \u00e0 verdade. \u201cUma vida n\u00e3o examinada \u00e9 escusado ser vivida\u201d, dizia ele, lembrando-nos da import\u00e2ncia da consci\u00eancia e do autoquestionamento.<br \/>\nEstes mestres, cada um \u00e0 sua maneira, apontaram para o mesmo caminho: o da consci\u00eancia, da empatia, da verdade e da liberdade interior. No entanto, enquanto humanidade, parece que ainda estamos longe de integrar plenamente esses ensinamentos. Continuamos presos em ciclos de ego\u00edsmo, medo e separa\u00e7\u00e3o \u2014 muitas vezes alimentados por sistemas como o capitalismo, que refor\u00e7am o narcisismo e a competi\u00e7\u00e3o em detrimento da compaix\u00e3o e da coopera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTalvez esteja na hora de voltarmos a escutar. Verdadeiramente escutar. Porque os mestres j\u00e1 nos falaram \u2014 s\u00f3 falta, agora, AGIR em conformidade.<\/p>\n<p><strong>Que papel pode a sociedade civil ter?<\/strong><br \/>\nSempre que se confrontar com uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia ou abuso sexual, deve denunci\u00e1-la. Calar ou fingir que n\u00e3o v\u00ea \u00e9 tornar-se c\u00famplice do criminoso. E j\u00e1 sabe: \u201ctanto \u00e9 ladr\u00e3o o que vai \u00e0 horta como aquele que fica \u00e0 porta.\u201d Aqui, denunciamos os criminosos.<br \/>\nEstes casos devem ser trazidos \u00e0 luz do dia. Quanto mais falarmos dos abusos que se perpetuam nos tribunais, contando as hist\u00f3rias reais das v\u00edtimas, mais indigna\u00e7\u00e3o e impacto social se gera. E, se o povo reage, os tribunais s\u00e3o obrigados a agir e a travar os abusos. Aqui, denunciamos os tribunais.<br \/>\nOs portugueses tendem a ser submissos, n\u00e3o reagem, evitam reclamar \u2014 e esta postura faz com que o abuso se mantenha e se propague. \u00c9 necess\u00e1rio adotar uma atitude de coragem e de auto-respeito. E sair do ego\u00edsmo, do interesse pr\u00f3prio, do capitalismo, ganhando dinheiro e estatuto de como o sistema judicial est\u00e1 montado.<\/p>\n<p><strong>E a Daniela?<\/strong><br \/>\nEu sozinha n\u00e3o fa\u00e7o nada, uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz com um cravo. Preciso que outros cravos queiram abra\u00e7ar esta miss\u00e3o e faz\u00ea-la crescer t\u00e3o grande que espontaneamente se d\u00ea o salto qu\u00e2ntico para um novo paradigma de pensamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Almeida<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9278,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[846,845],"class_list":["post-9277","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-bernardo-almeida","tag-daniela-cosme"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Viol\u00eancia Dom\u00e9stica. 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