{"id":9524,"date":"2025-05-10T14:22:58","date_gmt":"2025-05-10T14:22:58","guid":{"rendered":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/?p=9524"},"modified":"2025-05-10T14:24:01","modified_gmt":"2025-05-10T14:24:01","slug":"a-manipulacao-das-emocoes-na-lideranca-de-donald-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadocomarte.pt\/site\/2025\/05\/10\/a-manipulacao-das-emocoes-na-lideranca-de-donald-trump\/","title":{"rendered":"A Manipula\u00e7\u00e3o das Emo\u00e7\u00f5es na Lideran\u00e7a de Donald Trump"},"content":{"rendered":"<p><strong>A ideia generalizada de que a lideran\u00e7a \u00e9 uma forma de manipula\u00e7\u00e3o resulta n\u00e3o s\u00f3 da manipula\u00e7\u00e3o ser praticada por muitos l\u00edderes, tanto nas organiza\u00e7\u00f5es como na comunica\u00e7\u00e3o de massa, mas tamb\u00e9m de os dois conceitos terem pontos em comum: s\u00e3o processos de influ\u00eancia que usam a persuas\u00e3o para mudar as formas de pensar, sentir e agir. Tanto a lideran\u00e7a como a manipula\u00e7\u00e3o t\u00eam objectivos concretos e utilizam t\u00e1cticas comportamentais para os alcan\u00e7ar. Na pr\u00e1tica, \u00e9 f\u00e1cil resvalar da lideran\u00e7a para a manipula\u00e7\u00e3o quando queremos que os outros tenham as atitudes que desejamos.<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, a manipula\u00e7\u00e3o e a lideran\u00e7a n\u00e3o devem confundir-se. A manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de influ\u00eancia social enganadora e abusiva com a qual o manipulador quer satisfazer os seus interesses, escondendo os verdadeiros objetivos e utilizando t\u00e1ticas dissimuladas. Uma das defini\u00e7\u00f5es mais comuns descreve-a como uma forma de influ\u00eancia ou de controlo em que se usam meios ocultos, enganosos ou desonestos, para obter vantagens \u00e0 custa dos outros. Os manipuladores baseiam o seu poder na posi\u00e7\u00e3o e na coer\u00e7\u00e3o. Usam t\u00e1cticas de explora\u00e7\u00e3o emocional como o medo, a culpa, a press\u00e3o e a bajula\u00e7\u00e3o, e t\u00e1cticas cognitivas que podem envolver o condicionamento do pensamento cr\u00edtico, o controlo da informa\u00e7\u00e3o, o enquadramento da selectividade, a modela\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es, as fal\u00e1cias argumentativas e a mentira.<\/p>\n<p>A lideran\u00e7a, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma forma de influ\u00eancia conduzida com base em objetivos claros e transparentes, utilizando t\u00e1ticas que respeitam os outros e visam o benef\u00edcio tanto do l\u00edder como dos seus seguidores. Baseia-se na confian\u00e7a m\u00fatua, em valores comuns e objectivos partilhados, gerando rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas de lealdade e compromisso.<\/p>\n<p>Uma vez que tanto a lideran\u00e7a como a manipula\u00e7\u00e3o s\u00e3o processos de influ\u00eancia, o que realmente as distingue \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o com que a influ\u00eancia \u00e9 exercida, o sistema de valores que a orienta e as t\u00e1cticas utilizadas. O que se pretende \u00e9 obter alguma coisa das pessoas, ou com as pessoas e para as pessoas? Por isso, a distin\u00e7\u00e3o entre persuas\u00e3o manipuladora e persuas\u00e3o \u00e9tica \u00e9 essencial para orientar as pr\u00e1ticas nas \u00e1reas da comunica\u00e7\u00e3o institucional, do marketing, das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na lideran\u00e7a pol\u00edtica, a manipula\u00e7\u00e3o pode ser definida como uma forma de controlo sobre o comportamento das pessoas, fazendo-as acreditar que as pol\u00edticas s\u00e3o prosseguidas em seu benef\u00edcio quando o verdadeiro objectivo \u00e9 favorecer a posi\u00e7\u00e3o de poder e a ideologia do manipulador. O acesso das figuras pol\u00edticas aos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa permite-lhes dominar o discurso p\u00fablico e com isso controlar a informa\u00e7\u00e3o que chega aos cidad\u00e3os. \u00c9 esta a chave para condicionar a sua percep\u00e7\u00e3o da realidade, as suas reac\u00e7\u00f5es emocionais e padr\u00f5es de conduta.<\/p>\n<p>Uma forma frequente de manipula\u00e7\u00e3o na lideran\u00e7a pol\u00edtica \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o emocional que se caracteriza pela tentativa de controlar o comportamento dos cidad\u00e3os influenciando os seus sentimentos. O objectivo do manipulador emocional \u00e9, atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, conseguir respostas emocionais nos seus alvos que levem a mudan\u00e7as de comportamento no sentido desejado.<\/p>\n<p>O uso das emo\u00e7\u00f5es na comunica\u00e7\u00e3o persuasiva aparece consagrado na tradi\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica. Segundo Arist\u00f3teles um bom discurso deve combinar tr\u00eas elementos: a credibilidade do emissor (<em>ethos<\/em>), uma fundamenta\u00e7\u00e3o racional dos argumentos (<em>logos<\/em>) e ser capaz de despertar emo\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am a aceita\u00e7\u00e3o da mensagem (<em>pathos<\/em>).<\/p>\n<p>Todas as palavras combinam elementos descritivos e emotivos, denota\u00e7\u00f5es e conota\u00e7\u00f5es. O significado emocional corresponde aos sentimentos, atitudes ou predisposi\u00e7\u00f5es, positivos ou negativos, que a palavra \u00e9 capaz de induzir nos receptores. Se a nossa opini\u00e3o for descrita como um &#8220;preconceito&#8221; ou &#8220;redutora&#8221;, sentimo-nos depreciados. Mas a carga emocional da palavra tamb\u00e9m pode depender do contexto em que \u00e9 utilizada e de quem a utiliza: o termo &#8220;imigrante&#8221; tem cargas emocionais diferentes quando \u00e9 usado por l\u00edderes da direita ou da esquerda pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pela posi\u00e7\u00e3o que ocupa na lideran\u00e7a da maior potencia mundial, o presidente norte-americano tem sido dos l\u00edderes pol\u00edticos mais estudados. V\u00e1rios estudos confirmam que uma parte importante do sucesso das campanhas eleitorais de Donald Trump se deve ao uso eficaz de uma narrativa manipuladora com forte carga emocional.<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada por Viktoria Gavryliak, da Universidade Nacional de Poltava\/Ucr\u00e2nia, (Linguistic manipulation in campaign speeches of Donald Trump, 2019) incidiu sobre a manipula\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, isto \u00e9, sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da fala e de outras formas de linguagem para influenciar as percep\u00e7\u00f5es, as emo\u00e7\u00f5es e os comportamentos no sentido favor\u00e1vel aos objectivos do emissor.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos principais discursos de campanha de Donald Trump, em 2016, revelou que 67% dos termos utilizados dirigiam-se \u00e0 esfera emocional da audi\u00eancia. Este \u00e9 apenas um exemplo &#8221; Quando venceremos o M\u00e9xico na fronteira? Eles est\u00e3o a rir-se de n\u00f3s, da nossa estupidez. E agora est\u00e3o a derrotar-nos economicamente. N\u00e3o s\u00e3o nossos amigos, acreditem. Est\u00e3o a matar-nos economicamente&#8221;. A mesma an\u00e1lise concluiu que mais de 60% das express\u00f5es emocionais utilizadas t\u00eam a forma de reprova\u00e7\u00f5es, elogios, acusa\u00e7\u00f5es, insultos ou amea\u00e7as.<\/p>\n<p>Os mecanismos psicolingu\u00edsticos t\u00eam um papel importante na comunica\u00e7\u00e3o dos nacionalismos populistas e Trump utiliza-os com particular mestria. A sua ret\u00f3rica longe de ser uma simples improvisa\u00e7\u00e3o revela uma constru\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-cognitiva politicamente impactante e capaz de conseguir um forte apoio eleitoral a candidatos que se posicionam \u00e0 margem do sistema.<\/p>\n<p>Um dos estudos mais reveladores da arquitectura do discurso eleitoral do presidente norte-americano foi realizado por Alexandra Homolar e Ronny Scholz, da Universidade de Warwick (The power of Trump-speak: populist crisis narratives and ontological security, 2019). Nas campanhas eleitorais em que participou, a estrat\u00e9gia ret\u00f3rica de Trump, intencional ou n\u00e3o, assentou em tr\u00eas pilares.<\/p>\n<p><strong>O primeiro \u00e9 o da grandeza hist\u00f3rica da Am\u00e9rica<\/strong>. O seu discurso acentua como o pa\u00eds era no passado uma na\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera, com oportunidades para todos e internacionalmente respeitado. Trazer este passado glorioso para o presente \u00e9 uma forma de criar no eleitorado um &#8220;efeito de nostalgia&#8221;, estimulando a vontade de regressar a um estado ideal (ficcionado ou n\u00e3o) que se perdeu.<\/p>\n<p><strong>O segundo pilar narrativo \u00e9 a crise actual da Am\u00e9rica.<\/strong> Trump utiliza um discurso carregado de elementos emocionais para empolar a crise da Am\u00e9rica em tr\u00eas dimens\u00f5es principais: a crise econ\u00f3mica e social, a ac\u00e7\u00e3o dos inimigos externos e internos do pa\u00eds, e a decad\u00eancia da elite pol\u00edtica. O discurso de crise amplifica a percep\u00e7\u00e3o negativa que os eleitores j\u00e1 tinham da sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, da situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e das amea\u00e7as globais. Trump soube criar o cen\u00e1rio de uma imagin\u00e1ria &#8220;Am\u00e9rica \u00e1 beira do colapso&#8221;, contra as evid\u00eancias factuais, e identificou as causas: a elimina\u00e7\u00e3o de empregos e a pobreza, a criminalidade e a viol\u00eancia, a imigra\u00e7\u00e3o ilegal e as drogas, o terrorismo isl\u00e2mico, os desequil\u00edbrios no com\u00e9rcio internacional, as despesas do estado e o &#8220;wokismo esquerdista&#8221;. Trump chegou a caracterizar o estado actual da Am\u00e9rica como &#8220;um pa\u00eds do terceiro mundo&#8221; e &#8220;um dep\u00f3sito de lixo para os problemas dos outros pa\u00edses&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O terceiro elemento narrativo tem por objetivo opor Trump aos seus principais opositores.<\/strong> Os &#8220;outros&#8221; incluem os estrangeiros que entram ilegalmente no pa\u00eds, os l\u00edderes de pa\u00edses que apenas visam explorar o EUA e contribuem para o seu desprest\u00edgio, e a elite pol\u00edtica &#8220;est\u00fapida&#8221;, &#8220;corrupta&#8221; e &#8220;incapaz&#8221;, que tem governado a Am\u00e9rica. Na sua ret\u00f3rica, a crise da Am\u00e9rica continuar\u00e1 &#8220;apenas e enquanto continuarmos a depender da mesma elite que a criou&#8221;. Esta polariza\u00e7\u00e3o ergue uma barreira discursiva entre o &#8220;verdadeiro povo&#8221; e Trump como seu leg\u00edtimo representante, e os inimigos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica de uma Am\u00e9rica em crise suscita sentimentos de inseguran\u00e7a, ansiedade e indigna\u00e7\u00e3o, e estimula o desejo do regresso ao &#8220;para\u00edso perdido&#8221; atrav\u00e9s da agenda pol\u00edtica do narrador. Trump construiu uma narrativa capaz de utilizar a nostalgia do passado perdido e a revolta contra um presente frustrante e humilhante, para se apresentar como aquele que, fora do sistema, \u00e9 capaz de tornar a Am\u00e9rica grande novamente.<\/p>\n<p><strong>Esta \u00e9 a base discursiva da sua lideran\u00e7a populista<\/strong>: a cria\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo ret\u00f3rico que o identifica com o povo e este se reconhece na sua proposta redentora. Este v\u00ednculo ganha particular efic\u00e1cia ao apoiar-se numa <strong>personalidade narc\u00edsica<\/strong> que mostra uma convic\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a ilimitadas nas suas capacidades. Deve-se-lhe afirma\u00e7\u00f5es como &#8220;sou a pessoa mais presidenci\u00e1vel que j\u00e1 conheci&#8221; e &#8220;entendo as coisas melhor que qualquer outra pessoa&#8221;. Esta ret\u00f3rica serve igualmente o objectivo de o diferenciar da elite que, na sua opini\u00e3o, levou o pa\u00eds ao desastre.<\/p>\n<p>A teoria da perspectiva de Kahneman e Tversky ajuda a compreender, neste quadro, a heur\u00edstica subjacente \u00e0s decis\u00f5es de voto favor\u00e1veis a Trump. Perante o cen\u00e1rio de crise que foi apresentado, e a perspectiva de que perdas e humilha\u00e7\u00f5es mais graves ainda v\u00e3o ocorrer, as pessoas ficam inclinadas a assumir op\u00e7\u00f5es mais arriscadas para evitar males maiores. Por outras palavras, sentem que, perante o quadro de amea\u00e7as que lhes \u00e9 apresentado, nada t\u00eam a perder apostando em solu\u00e7\u00f5es radicais que prometem restaurar o controlo, previsibilidade e seguran\u00e7a do passado, com pol\u00edticas autorit\u00e1rias, solu\u00e7\u00f5es radicais e protagonistas fora do sistema.<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia ret\u00f3rica serviu para manipular o quadro psicol\u00f3gico dos eleitores e foi essencial na mobiliza\u00e7\u00e3o do voto. O empolamento da crise, a amea\u00e7a dos inimigos externos e internos e a incompet\u00eancia da elite pol\u00edtica, fizeram muitos aceitar o risco de confiar no radicalismo nacionalista de um outsider que lhes prometia o regresso ao passado glorioso da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Outra investiga\u00e7\u00e3o conduzida por Erick Firmansyah, da Universidade Estadual de Surabaya\/Indon\u00e9sia, analisou a forma como Trump utilizou a linguagem para comunicar as emo\u00e7\u00f5es ao eleitorado, durante a campanha de 2016 (Interpersonal analysis of Donald Trump\u2019s emotional language, 2019). O estudo concluiu que a sua estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o utilizou tr\u00eas dimens\u00f5es. A primeira foi a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es com afirma\u00e7\u00f5es declarativas cujo objectivo era provocar o medo da situa\u00e7\u00e3o presente, manter a esperan\u00e7a num futuro melhor e convencer a audi\u00eancia a aceitar as ideias do emissor. Trump estimulou a aproxima\u00e7\u00e3o e envolvimento emocionais dos eleitores utilizando com frequ\u00eancia express\u00f5es imperativas (&#8220;Vejam o que os afro-americanos est\u00e3o a sofrer com controlo democrata&#8221;) e interrogativas (&#8220;Mas ela (Hillary Clinton) alguma vez pediu desculpa pelas mortes e destrui\u00e7\u00e3o que causou?&#8221;).<\/p>\n<p>A segunda dimens\u00e3o \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es emocionais utilizadas, para exprimir emo\u00e7\u00f5es positivas ou negativas. 68% das express\u00f5es emocionais analisadas no estudo tinham elevada intensidade emocional (&#8220;Hillary Clinton \u00e9 um legado de morte, destrui\u00e7\u00e3o e terrorismo&#8221;).<\/p>\n<p>A terceira forma de intensificar a carga emocional ao servi\u00e7o da estrat\u00e9gia persuasiva \u00e9 o uso frequente da repeti\u00e7\u00e3o. Neste exemplo, a repeti\u00e7\u00e3o serve para aumentar a resson\u00e2ncia de medo na audi\u00eancia (&#8220;Metade dos residentes em Detroit n\u00e3o trabalham, n\u00e3o podem trabalhar e n\u00e3o conseguem encontrar emprego&#8221;). Neste outro exemplo (&#8220;Se continuarmos a votar nas mesmas pessoas, continuaremos a ter os mesmos, exactamente os mesmos, resultados&#8221;) a repeti\u00e7\u00e3o intensifica a ideia de n\u00e3o se dever voltar a votar nos incumbentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 provas de que a repeti\u00e7\u00e3o abre novos circuitos neuronais a n\u00edvel cerebral, o que pode justificar que uma mensagem em que n\u00e3o se acredita, se for repetida, pode vir a ser gradualmente aceite. Do mesmo modo, uma mensagem de medo, se for repetida, leva \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do sentimento.<\/p>\n<p>A campanha eleitoral norte-americana de 2016 pode dizer-se que inaugurou a &#8220;era do tweet&#8221; na comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora Obama j\u00e1 tivesse utilizado este meio de forma muito expressiva. Desde ent\u00e3o os tweets de Trump tem sido objecto de extensa investiga\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica \u00e0 luz de diversos modelos de an\u00e1lise do discurso, designadamente aplicando as categorias do modelo da estil\u00edstica cr\u00edtica para revelar a perspectiva ideol\u00f3gica do emissor. Um bom exemplo desta abordagem \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o de Gibreel Sadeq Alaghbary, da Universidade Quassim\/Riad, (Ideological Manipulation in Twitter Communication: A Critical Stylistic Analysis of Donald Trump&#8217;s Tweets, 2022).<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do presidente norte-americano e em particular os seus tweets utilizam uma estrat\u00e9gia dial\u00e9tica em que a linguagem emocional tem um papel central. A linguagem emotiva n\u00e3o procura mostrar os fundamentos de uma ideia para conseguir a sua aceita\u00e7\u00e3o, mas visa produzir um ju\u00edzo de valor sobre uma realidade com base em sentimentos de atrac\u00e7\u00e3o\/repuls\u00e3o ou simpatia\/antipatia.<\/p>\n<p>A persuas\u00e3o emocional impede que se compreendam os fundamentos e a racionalidade de uma proposta, dificulta a partilha serena de pontos de vista e a discuss\u00e3o aprofundada dos temas, deslocando o confronto de posi\u00e7\u00f5es para o terreno dos estados de \u00e2nimo. A linguagem emocional impede a compreens\u00e3o e o di\u00e1logo, e estimula a polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma equipa de investigadores liderada por Peggy Kakisina, da Universidade de Brawijaya, na Indon\u00e9sia, aprofundou o papel da polariza\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia manipuladora, nas lideran\u00e7as de Donald Trump e Jair Bolsonaro, durante a pandemia (Discursive Strategies of Manipulation in COVID-19 Political Discourse: The Case of Donald Trump and Jair Bolsonaro, 2022). A an\u00e1lise cr\u00edtica do discurso dos dois pol\u00edticos mostrou que ambos utilizaram uma estrat\u00e9gia de polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o expl\u00edcita ou impl\u00edcita da informa\u00e7\u00e3o, da utiliza\u00e7\u00e3o de um l\u00e9xico carregado de emo\u00e7\u00e3o e de fal\u00e1cias ret\u00f3ricas. Em ambos os casos os discursos tinham como objectivo condicionar os conhecimentos, cren\u00e7as e atitudes dos cidad\u00e3os sem apresentarem fundamenta\u00e7\u00e3o objectiva. Utilizavam uma linguagem fortemente emocional, desacreditavam os opositores e acusavam os meios de comunica\u00e7\u00e3o de espalhar o medo. Ao mesmo tempo, os dois l\u00edderes sublinhavam o seu poder e capacidade para enfrentar a crise, a sua credibilidade e superioridade moral, e apresentavam provas aparentemente irrefut\u00e1veis a seu favor.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es pode ser particularmente eficaz quando n\u00e3o h\u00e1 um verdadeiro suporte argumentativo, conseguindo mobilizar fortes milit\u00e2ncias a favor do emissor, mas divide a sociedade, estimula o radicalismo e, sobretudo, impede a formula\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es fundamentadas e realistas.<\/p>\n<p>Um estudo muito ilustrativo da manipula\u00e7\u00e3o emocional nos tweets de Donald Trump foi realizado por Vanessa Masella (An Analysis of Donald Trump\u2019s strategies in the 2016 Elections, 2019) numa amostra de 147 mensagens argumentativas, publicadas durante a campanha eleitoral de 2016. O estudo mostra que a estrat\u00e9gia argumentativa de Trump utiliza diversas formas de manipula\u00e7\u00e3o emocional. Em cerca de 90% do corpus analisado, utiliza argumentos mal constru\u00eddos que assumem a forma de fal\u00e1cias l\u00f3gicas, 63% das quais s\u00e3o fal\u00e1cias ad hominem, consistindo em ataques directos ou circunstanciais aos advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em vez de uma abordagem l\u00f3gica e racional dos conte\u00fados, Trump opta por destruir a credibilidade dos seus opositores, sejam advers\u00e1rios pol\u00edticos ou \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o o apoiam, como o <strong>The New York Times<\/strong> e a<strong> CNN,<\/strong> com mensagens que induzem sentimentos negativos (&#8220;Hillary Clinton devia ser processada e posta na cadeia. Em vez disso, est\u00e1 a concorrer \u00e0 presid\u00eancia no que parece uma elei\u00e7\u00e3o fraudulenta&#8221;). Todos os seus advers\u00e1rios eram citados com nomina\u00e7\u00f5es pejorativas que visavam moldar negativamente a sua percep\u00e7ao p\u00fablica (Crazy Bernie, Lying Ted, Little Marco, Crooked Hillary). S\u00e3o formas de mobilizar as emo\u00e7\u00f5es do eleitorado contra os opositores, em vez de rebater os seus argumentos, para se afirmar como \u00fanica alternativa.<\/p>\n<p>Trump utiliza tamb\u00e9m em 12% do corpus analisado a fal\u00e1cia <em>ad hoc<\/em> ou fal\u00e1cia da falsa causa que consiste em assumir, sem fundamento claro, que pelo facto de um evento ter antecedido outro h\u00e1 entre eles uma rela\u00e7\u00e3o causal. A falsa rela\u00e7\u00e3o de causalidade visa tirar ila\u00e7\u00f5es igualmente falsas que favorecem a posi\u00e7\u00e3o do argumentador.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um exemplo : &#8220;Vejam ao que isto chegou: quantos mais crimes, quantos mais tiroteios ser\u00e3o necess\u00e1rios, para que os afro-americanos e latinos votem Trump=SEGURO&#8221;. A mensagem pressup\u00f5e que h\u00e1 responsabilidade da administra\u00e7\u00e3o incumbente no aumento da viol\u00eancia, o que n\u00e3o \u00e9 demonstrado, e que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 votar no candidato que garante a seguran\u00e7a. Noutro <em>tweet<\/em>, Trump atribui implicitamente a causa dos casos de overdose de hero\u00edna em crian\u00e7as, \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o, concluindo que, por isso, \u00e9 necess\u00e1rio construir um muro na fronteira sul.<\/p>\n<p>Ao longo da campanha Trump utilizou ainda como formas de argumenta\u00e7\u00e3o a fal\u00e1cia do espantalho que consiste em distorcer os argumentos dos opositores para ser mais f\u00e1cil refut\u00e1-los, a fal\u00e1cia da generaliza\u00e7\u00e3o precipitada, tirando conclus\u00f5es gerais a partir de casos raros ou pouco significativos e a fal\u00e1cia do falso dilema reduzindo o n\u00famero de alternativas dispon\u00edveis na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas de modo a colocar os eleitores perante escolhas entre polos opostos com todas as vantagens concentradas no polo posicional que defende.<\/p>\n<p>O estudo mostra ainda que as palavras emotivas representam 67% das palavras-chave, tendo 57% conota\u00e7\u00e3o negativa e 10% conota\u00e7\u00e3o positiva. Os termos utilizados com mais frequ\u00eancia s\u00e3o &#8220;desonesto&#8221;, &#8220;falhado&#8221;, &#8220;inapto&#8221;, &#8220;desastre&#8221;, &#8220;radical&#8221; e &#8220;ilegal&#8221;. Os termos &#8220;honesto&#8221; e &#8220;trabalhador&#8221; s\u00e3o sempre aplicados aos seus apoiantes, por oposi\u00e7\u00e3o aos advers\u00e1rios, o que ilustra bem o uso de um falso dilema e o est\u00edmulo \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um aspecto interessante da dial\u00e9ctica persuasiva de Trump \u00e9 a forma como redefine alguns conceitos de modo a manipular a sua carga emocional. \u00c9 o que acontece com o conceito de &#8220;politicamente correcto&#8221;. O conceito tido como o cuidado na linguagem para respeitar determinados grupos de pessoas, passou a ser identificado como um sinal de cobardia, hipocrisia e incapacidade de tomar decis\u00f5es firmes no interesse da maioria do povo. As conota\u00e7\u00f5es negativas que atribuiu a este conceito foram um instrumento importante para mobilizar a indigna\u00e7\u00e3o contra as elites pol\u00edticas e intelectuais, e obter a ades\u00e3o emocional do eleitorado.<\/p>\n<p>Na mesma linha de an\u00e1lise, Fabrizio Macagno, da Universidade Nova de Lisboa, estudou a estrat\u00e9gia dial\u00e9tica e ret\u00f3rica usada por Matteo , Donald Trump, Jair Bolsonaro e Joe Biden, nas mensagens de twitter, para defenderem os seus pontos de vista, nos seis meses seguintes a serem eleitos. (Argumentation profiles and the manipulation of common ground. The arguments of populist leaders on Twitter, 2022). A an\u00e1lise dos perfis argumentativos concluiu que nos tr\u00eas l\u00edderes populistas \u00e9 muito mais frequente o uso de fal\u00e1cias argumentativas, de palavras emotivas e de ataques pessoais, bem como a ocorr\u00eancia de ju\u00edzos de valor que n\u00e3o s\u00e3o partilhados pela generalidade das pessoas, sem os fundamentar. Estes l\u00edderes n\u00e3o t\u00eam por objectivo informar o conjunto dos cidad\u00e3os sobre a ac\u00e7\u00e3o governativa, mas manipular as ideias partilhadas pela maioria, com premissas, generaliza\u00e7\u00f5es ou valores que n\u00e3o fundamentam nem permitem uma discuss\u00e3o esclarecedora, e que s\u00f3 s\u00e3o aceites pelos seus apoiantes.<\/p>\n<p>Outros estudos sobre os tweets do presidente norte-americano confirmam que utiliza as acusa\u00e7\u00f5es, a imputa\u00e7\u00e3o de culpas, a atribui\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es, conte\u00fados que inspiram \u00f3dio ou viol\u00eancia, e linguagem com forte conte\u00fado emocional numa frequ\u00eancia acima da m\u00e9dia. De forma surpreendente ou talvez n\u00e3o, estas caracter\u00edsticas aumentam a probabilidade das suas mensagens serem reencaminhadas.<\/p>\n<p>Uma importante vantagem comunicacional de Trump que tem sido sublinhada \u00e9 o n\u00edvel de legibilidade da linguagem. Algumas pesquisas indicam que utiliza nos debates e na comunica\u00e7\u00e3o por tweet frases simples e vocabul\u00e1rio reduzido, equivalente aos n\u00edveis 4\/5 de legibilidade, isto \u00e9, um n\u00edvel inferior ao do adulto m\u00e9dio nos Estados Unidos, embora nos discursos de campanha a linguagem se situe ao n\u00edvel standard para adultos. Isto \u00e9 uma vantagem face aos seus competidores republicanos, favorece a sua popularidade junto da classe m\u00e9dia-baixa e evidencia o seu posicionamento \u00e0 margem do <em>establishment.<\/em><\/p>\n<p>O sucesso desta manipula\u00e7\u00e3o emocional, que n\u00e3o sabemos em que grau \u00e9 intencional, mostra que o papel da linguagem na determina\u00e7\u00e3o dos comportamentos pode ser discreto mas nunca \u00e9 inocente, e a psicolingu\u00edstica n\u00e3o pode ser ignorada na interpreta\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as. A diferen\u00e7a entre liderar e manipular n\u00e3o est\u00e1 apenas naquilo que explicitamente se diz, mas tamb\u00e9m no que as palavras ocultam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Caeiro,<br \/>\nProfessor de Lideran\u00e7a na Catolica Lisbon School of Business and Economics<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[64,11],"tags":[105,488,889,380],"class_list":["post-9524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-isto-para-nos","category-opiniao","tag-lideranca","tag-luis-caeiro","tag-manipulacao","tag-trump"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.1 - 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