Escape From New York: Mais do que um filme, uma crítica ao poder

Bernardo Simões de Almeida, Jornalista

São já alguns os filmes que estão nas suas quadragésimas “vidas”, e este filme é um daqueles que toda a gente viu, ou devia ter visto. É mais um filme do rebelde realizador John Carpenter.

Escrito pelo mesmo realizador ainda nos anos 70, mais propriamente em 1974, este filme é largamente influenciado pelo zeitgeist americano de então, nomeadamente o escândalo de Watergate, a guerra do Vietname e pela fuga da cidade rumo aos subúrbios e crescente onda de crime urbano.

A onda de crime na cidade de Nova York vinha já em crescendo desde os anos 60 em paralelo com a corrupção dentro da polícia. Para se ter uma ideia, no princípio de década de 70 havia já mais de 1500 homicídios por ano e mais de 250 crimes por dia. O desemprego já andava pelos 9% e a cidade entrava em falência com pedidos de empréstimos na casa dos 100 milhões.

O relatório da Knapp Comission de 1973 demonstrava que a corrupção das forças policiais era endémica e até os classificava entre os grass-eaters (polícias que aceitavam subornos e “presentes”) e os meat-eaters (polícias envolvidos no jogo, drogas e prostituição). A sensação de selva urbana era palpável. Havia inclusive a normalização do crime ao ponto que as pessoas andavam com dinheiro à parte para dar em caso de assalto, sabendo que não haveria protecção policial.

A juntar a esta confusão dá-se, em agosto de 1974, o caso Watergate. Sem entrar em grandes pormenores, certo é que este verdadeiro escândalo expôs a tentativa presidencial de controlar a oposição, mas também a tentativa de Nixon de se agarrar ao poder até ao último momento e ter apenas saído para evitar ser despejado. De qualquer forma o mal estava feito e aquilo que a Democracia seria em teoria, era substituído pelo abuso de poder e a indiferença pelo povo americano por parte da classe governante.

Finalmente O Vietname, uma guerra que durou cerca de 20 anos, cuja entrada dos EUA ainda hoje é difícil de aceitar dado que o evento que serviu de catalisador chamado o incidente do Golfo de Tonkin, a 4 de agosto de 1964, é hoje visto por muitos como um false flag ou seja, (alegadamente) não aconteceu. Certo é que morreram mais 52 mil soldados americanos.

É neste contexto que Escape from New York é escrito. É sob esta influência que Carpenter escreve este guião que fica na gaveta até ao início da década de 80.

Lançado a 8 de julho de 1981, Escape From New York tem no papel de protagonista um actor que até então era famoso apenas nos EUA e por fazer filmes da Disney. Trata-se de Kurt Russell no papel de Plissken.

Sucintamente, e sobre a sinopse deste filme. Num futuro distópico o avião do presidente é alvo de um assalto que leva a este a usar uma cápsula de fuga que cai algures em Nova York. Perante este evento e porque a cidade tem um mural à volta enclausurando os criminosos que lá vivem, é chamado um ex-soldado das forças especiais, Plissken, para salvar o presidente americano das garras do elemento criminal, chefiado pela personagem The Duke (Isaac Hayes).

Porém este não é só um filme de acção dos anos 80. É uma crítica, tal como em outros filmes de Carpenter. Neste caso, é uma crítica ao imperialismo americano e à autoridade.

Comecemos pelo princípio do filme. Ao contrário da face típica do inimigo americano, que é normalmente o russo ou chinês perpetuando o tema da guerra fria ou do Vietname, em Escape from New York o suposto inimigo é interno. O grupo que atenta contra o Airforce One, (símbolo de poderio americano no que toca à segurança e armamento, mas que aqui é claramente um símbolo de opressão), é um bando de revolucionários americanos, liderados por uma mulher, que querem libertar os EUA da ditadura e distopia.

A cidade prisão é governada por criminosos, o que é claramente a visão de Carpenter sobre a cidade no mundo real e que traz ainda outro elemento. Nem todos os habitantes da cidade são criminosos, o que confere mais uma crítica por parte do realizador.

Neste caso é a criação dos subúrbios somente acessíveis à classe média e predominantemente caucasiana, deixando o centro das cidades para a classe mais pobre, transformando vários bairros em guetos. Neste sentido é a cidade que é abandonada e deixada ao seu degredo e por isso é caracterizada como um local imundo e desolado.

Plissken, como ex-soldado, representa o militar desiludido com o seu governo e como este trata os veteranos de guerra. Logo no começo do filme percebe-se pela atitude que tem, a forma como fala e anda, o olhar que tem sobre todas as figuras de autoridade, Plissken é a personificação de Carpenter e a forma como este vê o declínio da identidade americana.

A figura do presidente e a forma como este é caracterizado enfatiza a crítica geral que este filme tenta demonstrar. Interpretado por Donald Pleasence (conhecido pelo papel de Blofeld no filme James Bond Só se vive duas vezes) a representação do presidente é uma dicotomia entre a pessoa e o cargo. Ele é aprisionado e parodiado pelo lugar que ocupa e fragilizado para se demonstrar que é uma pessoa. É mais perto do fim do filme, quando assistimos à morte de Duke pela mão de um presidente visivelmente irado e empenhado em se vingar dos maus-tratos, que se revela a pessoa, o ser humano por detrás do cargo.  Este lado humano é depois substituído pelo menosprezo que o presidente demonstra quando lhe é perguntado o que sente pelas pessoas que morreram para que ele pudesse ser salvo. Nesse sentido desaparece a pessoa e volta a cadeira do poder.

Há, no entanto, outros factores que trouxeram a Escape from New York a mística que tem, são pormenores mais pequenos, mas nem por isso menos interessantes.

Escape from New York teve um orçamento um pouco parco para aquilo que é um filme de acção, pouco mais de 6 milhões de dólares. Por isso, a cidade em que é filmado é St. Louis e não Nova York. Esta cidade do estado do Missouri tinha sido palco de grandes incêndios e havia zonas completamente desertas e abandonadas, o que trouxe a Carpenter as circunstâncias ideais para ilustrar o degredo nova iorquino.

Muitos dos planos são abertos e algo longos e os closeups não são muito utilizados, o que nas cenas de luta quer com armas ou corpo-a-corpo é algo inesperado, fruto do baixo orçamento deste filme.

Foi criado um modelo à escala da cidade de Nova York, com o auxílio do realizador James Cameron, para se filmar o envio de Plissken para dentro do mural criando o efeito de um plano aéreo. A música do filme foi criada por Carpenter, com o uso de sintetizadores (uma marca muito típica do 80s).

No que toca a papeis secundários muitos deles marcam colaborações que vinham detrás. A actriz Jamie Lee Curtis, que aparecera tanto em Halloween como em The Fog. empresta a sua voz que é ouvida nos altifalantes no complexo militar. David Pleasence tinha já sido uma personagem importante em Halloween interpretando o papel de Dr. Loomis e Tom Atkins já tinha entrado também em The Fog.

A então mulher de Kurt Russell, Season Hubley também entra no filme muito embora num papel muito pequeno. Para dar alguma força ao poder da autoridade Carpenter vai buscar ainda o veterano Lee Van Cleef, conhecido pela voz forte que tinha e pelos filmes de spaghetti westerns que tinha já participado e pelos quais era amplamente conhecido. O próprio Kurt Russell é uma teimosia do realizador que, perante as sugestões de Chuck Norris ou Tommy Lee Jones, força a sua vontade apostando num actor que não tinha ainda sido testado no género de acção.

O filme conta ainda com Harry Dean Stanton que tinha participado no primeiro filme da franchise Alien e com Ernest Borgnine que era já um actor enorme, tendo ganho um Óscar em 1956 pelo filme Marty.

A este elenco junta-se a utilização de planos computorizados, que em 1981 eram ainda recentes. Mais tarde são popularizados em filmes como WarGames ou mesmo Blue Thunder, o que confere a Escape from New York um lugar pioneiro em filmes de acção, ficção científica e distopias.

É por todas estas razões que Escape from New York é mais do que um filme de acção. É um clássico do imaginário americano dentro de uma década recheada de bons filmes.

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