A herança, o caminho e o legado

Diogo Moura Vereador do pelouro da Cultura da CML e Vice-Presidente do CDS

A nossa visão de Cultura e de Cidade – são indissociáveis – não vive sem a preservação da nossa história e sem o fortalecimento da nossa identidade cultural.

Garantir a visibilidade da dinâmica cultural de Lisboa é outro dos nossos objectivos estratégicos.

Num tempo turbulento, de guerra e pós-pandémico, e de horizonte pintado de incerteza para todos, falta esperança. E o âmago do que somos, mais do que ilusões em torno do que não somos, é o que nos deve servir de bússola para estes tempos. É a partir do que somos que encontraremos o caminho de esperança, e é firmes nessa identidade que encontraremos a capacidade para lá chegar. Estou, obviamente, a falar de Cultura.
E, como é de Cultura que falo, nada melhor do que usar palavras de quem veio antes de mim. Cito uma passagem que não me canso de citar: “A cultura e a ciência são os modos de sair da crise. Portugal é hoje um país que não pode viver do seu peso no mundo, tem que viver outra vez do seu engenho, do seu rigor, da sua capacidade inventiva, e isto passa pela cultura e pela ciência.”
Estas afirmações são de Francisco Lucas Pires, quando era Ministro da Cultura. E se digo que não me canso de a citar, é porque quis a vida que me encontrasse, décadas depois de ter sido proferida, na circunstância de ter que lidar, em serviço público, precisamente com estas matérias. Mas, e muito mais do que por força das vicissitudes das minhas circunstâncias particulares, porque não se perdeu uma vírgula de virtude e oportunidade destas palavras.

E digo-o assim, tão assertivamente, porque num país a duas décadas de celebrar nove séculos, isso é por demais evidente: Portugal evidencia-se em primeiro lugar pela sua Cultura. E se isto é verdade para Portugal, também é verdade para Lisboa.
Dito isto, e objectivando, os eixos estratégicos que norteiam a nossa actuação têm sido neste pouco mais de ano e meio: o direito acessível a todos de forma equitativa à cultura, o apoio às comunidades produtoras, a formação contínua, a salvaguarda do património e assegurar a visibilidade da dinâmica cultural da cidade.

Explico um pouco melhor e mais detalhadamente. Reafirmar a Cultura como um direito acessível a todos tem sido uma das nossas prioridades, transversal a toda a nossa actuação: desde a escolha dos programadores à definição das linhas orientadoras para a programação.

Mas fomos, materialmente, mais além: no quadro das medidas para mitigar os efeitos da inflação, e procurando evitar que o consumo cultural se ressentisse, lançámos o Passe Cultura, medida cujas condições de gratuitidade tem sido fundamental para manter o crescimento constante do público culturalmente activo na cidade, com a adesão de mais de 7000 pessoas, na sua maioria jovens.

Ainda neste âmbito, e porque estamos empenhados, também, em ampliar e melhorar a resposta já instalada, destacamos a valorização da rede de Bibliotecas, com espaços como a Biblioteca Lobo Antunes, a Biblioteca da Alta de Lisboa e a Biblioteca Ambiental da Estrela, a Biblioteca Mega Ferreira, a valorização da rede BLX, a criação do tão desejado novo Arquivo Municipal e Hemeroteca – finalmente, após 20 anos, e tão desejado pelos lisboetas.

Com estas iniciativas estamos também a democratizar o acesso à informação e ao conhecimento em todas as áreas da Cultura e, não será abusivo dizê-lo, a reforçar a participação informada dos cidadãos.
Valorizar e apoiar as comunidades produtoras de Cultura é essencial para a diversidade e a vitalidade cultural da cidade. Reconhecemos o trabalho dos agentes culturais locais e estamos empenhados em estimulá-lo e fortalecê-lo. Nesse sentido, o projeto “Teatro em Cada Bairro”, uma marca indelével dos Novos Tempos, tem-se destacado, criando uma rede de centros culturais de proximidade, com a participação activa das comunidades e agentes locais.

Já inaugurámos o Avenida e em breve abriremos o Turim.
A promoção da formação contínua e da aprendizagem ao longo da vida é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de todas as áreas do saber. Reconhecendo isso, investimos em programas e projectos que contribuem para a valorização do sector e dos seus profissionais, como por exemplo o Polo Cultural Gaivotas – Boavista.

Outra iniciativa, neste âmbito, que merece destaque é a criação de mais residências culturais para artistas nacionais e internacionais. Esses espaços promovem o encontro e a partilha de experiências nas áreas de arte contemporânea, artes performativas, literatura, filosofia e ciências sociais, querendo com isto, a Câmara Municipal, contribuir para enriquecer ainda mais a cena cultural de Lisboa.
A salvaguarda do património material e imaterial de Lisboa é uma responsabilidade que assumimos com seriedade. Estamos empenhados na reabilitação de locais históricos e icónicos, como a Casa Veva Lima, o Beau Sejour, a Torre da Pela, o MUDE e o Variedades.

E como não referir o já centenário Parque Mayer? Relativamente ao qual temos o compromisso de o reabilitar com um projecto inovador, que criará um polo polivalente e moderno da cultura para a cidade, respeitando a sua vocação original: o teatro de revista. A nossa visão de Cultura e de Cidade – são indissociáveis – não vive sem a preservação da nossa história e sem o fortalecimento da nossa identidade cultural.
Garantir a visibilidade da dinâmica cultural de Lisboa é outro dos nossos objectivos estratégicos. No panorama nacional – e porque não dizê-lo Europeu e Mundial – é incontornável o lugar que Lisboa sempre teve na oferta cultural.

As nossas práticas são hoje replicadas noutras cidades do mundo, os nossos projetos são uma referência e somos chamados a liderar redes internacionais de Cultura.

Nos últimos anos, os indicadores colocam-nos no topo dos rankings da dinâmica cultural. Assumimos essa responsabilidade. E reconhecemos a importância de promover eventos e actividades culturais que atraiam não apenas os lisboetas, mas também os visitantes de outras partes do mundo. Nesse sentido, é com muito orgulho que participaremos na grande Feira do Livro de Buenos Aires (FILBA), onde Lisboa será a cidade convidada, projectando ainda mais nosso nome e reafirmando a cidade como uma referência literária.
Uma palavra, merecida e necessária, a todos os que trabalham, na Câmara Municipal e na EGEAC, para colocar a Cultura em primeiro lugar: este ano, os serviços de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa fazem 90 anos, e sem os profissionais que diariamente lá trabalham, nada do que foi feito, nada do que pretendemos fazer, seria possível. É-lhes devido uma congratulação e um agradecimento.

Ainda nessa linha, se há trabalho que é mais visível, temos consciência que há outro mais desconhecido do público em geral, mas não menos relevante para a cultura da cidade.

Não posso, por isso, deixar de destacar o trabalho de áreas especializadas, como o Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) e o Gabinete de Estudos Olisiponenses (GEO), que preservam e disponibilizam importantes documentos históricos e culturais; que nos permitem conhecer melhor aquilo que somos.
Termino voltando a Lucas Pires; à segunda parte da sua afirmação. Além de tudo o que referi, estamos empenhados em promover uma sinergia virtuosa entre a Cultura, a Economia, a Ciência e a Inovação, apostando em medidas e opções que promovam o desenvolvimento cultural sustentável. Porque sendo a sustentabilidade um desígnio inexorável de todas as cidades liderantes, é uma obrigação que Lisboa não abandona. E eis a esperança: da memória de onde vimos, no caminho que percorremos e no legado que queremos deixar.

Diogo Moura escreve com antigo acordo ortográfico

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