Não se demite, nem mesmo depois da abertura do processo disciplinar pela FIFA. Não se demite porque o beijo foi, segundo o seu testemunho, mútuo e consentido. Não se demite, e só pediu desculpas, porque “algumas pessoas se sentiram afetadas por estes acontecimentos”.
“Não me demito!” – diz Luis Rubiales, Presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, na assembleia geral do respetivo órgão, após uma semana em que o “mundo”, se manifestou a propósito do controverso e triste episódio ocorrido na final do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino 2023, do beijo dado por Luis Rubiales à jogadora Jenni Hermoso, foi, ou não, consentido.
Luis Rubiales inicia a semana resumindo o seu comportamento à euforia da comemoração do momento; pressiona a campeã para publicar um vídeo conjunto com a campeã que pudesse por termo ao ruido da sociedade, e termina a semana a atacar a classe política, acusando-a de tentativa de assassinato público e de falso feminismo.
Não se demite, nem mesmo depois da abertura do processo disciplinar pela FIFA.
Não se demite porque o beijo foi, segundo o seu testemunho, mútuo e consentido.
Não se demite, e só pediu desculpas, porque “algumas pessoas se sentiram afetadas por estes acontecimentos”.
Em suma, não percebe a gravidade do que fez, nem percebe porque nos indignamos!
Mas lembremo-nos do comunicado emitido pela FutPro, associação constituída exclusivamente por mulheres futebolistas a competir em Espanha, (cuja missão é melhorar a situação das mulheres no mundo do futebol através de um acordo coletivo decente), a pedido e em representação da campeã Jenni Hermoso, que reitera a importância de ser assumido por quem representa a seleção os valores da igualdade, uma luta que para estas jogadoras (e para muitas/os atletas) é essencial ser travada.
A atitude de Luis Rubiales só pode ser condenada.
Consentir um beijo não significa que quem decide dar, decide que é consentido. Este comportamento revela a misoginia em que ainda se vive. No fundo Rubiales considera que a vitória é sua, que a taça é sua, que o esforço só existiu porque ele estava lá. Apaga assim o esforço, o trabalho e a dedicação das muitas mulheres desportistas que no mundo inteiro têm lutado para garantir que o seu esforço, as suas capacidades e as suas competências são respeitadas e que o direito ao palco também é seu.
As campeãs mundiais, numa atitude de enorme responsabilidade social, juntaram-se, e depois do triste episódio do “não me demito” renunciaram à seleção espanhola. Hermoso reitera que não consentiu o beijo e em conjunto, informam que “não voltarão a uma convocatória da seleção se os atuais dirigentes prosseguirem” nos cargos.
É desta forma que as campeãs reforçam a importância de Espanha ter retificado a convenção de Istambul, tratado internacional que consagra padrões de resposta pelos estados a todas as situações de violência contra Mulheres e Raparigas.
E por isso, o primeiro-ministro, Pedro Sanchez, agiu corretamente ao condenar publicamente o comportamento do Presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, remetendo para o tribunal arbitral do desporto o pedido de pronuncia.
Num evento, assumido como um marco para o futebol feminino, não permitam que este ou outro qualquer beijo ponha em causa o que foi conquistado por todas as mulheres e homens que fizeram deste mundial um símbolo da luta pela igualdade.
Todas/os juntas/os gritemos #SeAcabó.


