O desenvolvimento tecnológico chinês é impressionante. As metas estabelecidas pelas autoridades, a concorrência entre cidades, a escala dos mercados, a disponibilidade de mão de obra qualificada, o sistema meritocrático, a colaboração entre empresas, a dedicação dos trabalhadores, a infra-estrutura digital, a automação logística e, desde 2018, a pressão ocidental para restringir o desenvolvimento da China, conduziram o país a um pioneirismo e criatividade sem paralelo nos últimos anos ou em qualquer outro ponto no mundo.
A cidade de #Shenzhen é o ex-líbris entre as cidades chinesas. Nomeadamente, com empresas como a Huawei a inovarem continuamente a comunicação, em tempo real e seguro, entre as coisas, veículos, fábricas, portos comerciais, aeroportos, estradas, infra-estruturas, etc.
Destaque particular para os veículos autónomos, onde apanhar um táxi sem condutor já faz parte da vida diária de muitos shenzhenenses em zonas piloto da cidade. A mega-metrópole de mais de 20 milhões de habitantes avança agora para as auto-estradas, tendo sido definidos 4 trajectos, onde os “robô-táxis” e os autocarros sem condutor, podem circular, livre e legalmente. A responsabilidade legal fica com os operadores em caso de acidente.
Tudo isto é possível na sequência de um substancial desenvolvimento tecnológico e convergência de indústrias que comunicam entre si, incentivadas pelas autoridades centrais e fruto de uma cultura meritocrática e altamente competitiva entre as cidades chinesas, além da pressão internacional que procura isolar a China mas que acaba por dar razão ao popular ditado que nos diz que “a necessidade cria o engenho”.
Até final do ano, Shenzhen espera atingir a meta de 100 “robô-táxis” e 100 autocarros inteligentes, sem condutor, nas estradas da cidade. As autoridades locais acreditam que esta indústria emergente dos veículos inteligentes alcançará o equivalente a mais de 20 bilhões de euros em receitas, para a cidade, até 2025! A visão e a ambição não tem paralelo em nenhuma outra cidade do mundo.
A Associação dos Produtores Automóveis da China revelou que, nos primeiros 8 meses de 2023, foram vendidos 5,37 milhões de novos veículos eléctricos, dos quais 727 mil foram exportados.
Destaque aqui, mais uma vez, para as marcas de Shenzhen, nomeadamente a AITO, da Huawei, que lançou esta semana o SUV M7. O novo modelo vem adicionar inovações na condução autónoma, que já não requer mapas de alta definição e exige apenas uma intervenção humana a cada 200 km em viagens de longa distância, permitindo ainda a condução autónoma urbana sob condições pré-definidas. Acresce a conexão do carro ao sistema operacional HarmonyOS, também desenvolvido pela Huawei – na sequência da errática proibição de utilização dos sistemas operacionais ocidentais que impusemos -, e que vem com funcionalidades como tirar fotos com o telemóvel que surgem em tempo real nos ecrãs dos carros, ou utilizar as valências MagLink para fazer reuniões na parte de trás do carro numa configuração que ajusta a traseira a uma sala de reuniões!
Todas estas proibições e restrições contribuíram para o acentuar do desenvolvimento tecnológico chinês. Veja-se: banimos os chineses da Estação Espacial Internacional, pelo que construíram a sua própria estação espacial. Impedimo-los de colaborarem em investigação científica internacional, pelo que construíram um sector próprio e são hoje o país que lidera em publicações científicas e de engenharia. Proibimos e restringimos o acesso das empresas chinesas aos famigerados semicondutores avançados, dando origem à mais dinâmica indústria de pesquisa e desenvolvimento do mundo, tendo a Huawei, já este mês, lançado o modelo de telemóvel Mate 60 Pro, com circuitos integrados 100% nacionais, com processador de 7-nanômetros, produzido pela chinesa SMIC.
Ainda antes, transferimos todas as indústrias poluentes para a China, no sentido de manter o consumo e crescimento ocidentais, mas logo os acusámos de serem o país mais poluidor do mundo; vai daí, os chineses dedicaram-se à pesquisa e desenvolvimento de energias limpas, liderando, hoje, de forma destacada, em mais um sector que serve agora todo o mundo.
Colocámos em lista negra centenas de entidades chinesas, dando origem à expansão fulgurante do comércio chinês com os restante 80% do mundo. Já foi mencionada a proibição de uso dos sistemas operacionais ocidentais, que deu origem à criação do HarmonyOS, que em apenas 4 anos de existência já alcançou o pódio mundial em número de utilizadores. Ou seja, demonizamos a China por tudo e mais um par de botas, quase sempre com muito pouca razão e impulsionando o rápido ajuste chinês e subsequente salto tecnológico, precipitando o fim da predominância ocidental tecnológica, que evidentemente nos interessava prolongar. Com a agravante de gerar no povo chinês um ressentimento absolutamente desnecessário e contraprodutivo, que estimula o nacionalismo popular.
Ou seja, regressando ao sector dos veículos eléctricos, é lamentável observar as autoridades europeias a criarem barreiras proteccionistas anti-concorrenciais -típicas de Estados fechados e sub-desenvolvidos -, que são os veículos inteligentes de amanhã, ao invés de estarmos a negociar a abertura dos mercados europeus com a partilha de tecnologias, com a fusão entre empresas europeias e chinesas na esteira destes desenvolvimentos tecnológicos, e com o desenvolvimento de projectos piloto na Europa que possam andar a par e passo com Shenzhen, no sentido de não perdermos o comboio do futuro da inovação tecnológica, desenvolvimento social e prosperidade europeia.
É fundamental construir a confiança e a colaboração para um crescimento económico e social partilhado. Infelizmente, os líderes europeus parecem mostrar-se empenhados em seguir o caminho oposto – populista e de horizontes curtos, que esquece os conceitos humanistas que estão na génese da moral e valores europeus -, um roteiro perfeito para colocar povos contra povos, gerar atraso económico e retrocesso social na Europa.
As boas notícias é que, não obstante a ignorância e o populismo, as empresas chinesas continuam, ainda, disponíveis para colaborar e trabalhar com as empresas estrangeiras, designadamente as europeias e as portuguesas.
Devemos, quanto antes, alterar o guião da confrontação pelo estandarte da colaboração e do desenvolvimento tecnológico e económico, que conduz à paz, beneficia todas as partes e está em sintonia com os valores e moral europeia.


