elenco da série Frasier, NBC

30 anos de Frasier. Spin-off de enorme sucesso e promete continuar

Bernardo Almeida

Foi no ano de 1993, a 16 de setembro, que foi para o ar o primeiro episódio da  série Frasier, um êxito da comédia americana produzida pela NBC. 

Originalmente um spin-off da série Cheers (também um sucesso televisivo  da NBC), a personagem Frasier Crane, protagonizada por Kelsey Grammer,  tinha um papel secundário, mas frequente. Porém, Frasier acabou a rivalizar  com a longevidade da série original com as mesmas 11 temporadas de Cheers. 

Frasier foi criada por 3 dos mesmos escritores de Cheers, concretamente, David  Angell, Peter Casey e David Lee que desta forma acumulavam os cargos de  criadores e co-escritores. Tem como personagens principais para além de  Kelsey Grammer, Jane Leeves, David Hyde Pierce, Pen Gilpin e John Mahoney.

Na génese desta série estava um acordo entre os criadores e a personagem  principal que Frasier não iria ser uma mera continuação de Cheers, focada na  relação conjugal complicada com a sua ex-mulher (protagonizada por Bebe  Neuwirth).

A condição de Grammer era que Frasier não fosse uma típica série de comédia familiar ao género de Roseanne, Cosby Show, ou mesmo Family Ties, formatos estes que na década anterior tinham sido um sucesso.

Deste modo é introduzida uma história nova. O psiquiatra Dr. Frasier Crane volta para a sua cidade natal de Seattle. Começa um talk show na rádio onde  transmite os seus pensamentos e sabedorias sobre o mundano e o profundo.  Ao mesmo tempo, Frasier vive um clima de tensão constante com os colegas  de trabalho, com o irmão e até com o pai, um ex-detetive que, devido a um  ferimento, é forçado a aceitar viver com o filho, mas traz o seu cão.

Este é o universo de Frasier e a chave para o sucesso da comédia, a divisão  entre as suas relações pessoais e familiares e o seu trabalho. Esta dicotomia  divide também a personalidade do protagonista.

No seu trabalho, Frasier tem a tendência arrogante de se superiorizar perante  os colegas e ouvintes, através de um discurso intelectual e uma retórica que é  tão insuportável quanto cómica.

Na sua vida familiar e pessoal, Frasier é um homem inseguro e cheio de  dúvidas constantes no que toca às suas relações conjugais. É também um filho  à procura da atenção do seu pai, este que é emocionalmente indisponível.

Sendo a personagem principal um psiquiatra, não é de estranhar que alguns  dos temas desta série recaiam nas relações entre pessoas e a fórmula  cómica de as mostrar.

As personagens secundárias que gravitam à volta do protagonista assumem o  carácter indispensável para esta receita. Fazendo uma análise aos indivíduos,  também se compreenderá as suas complementaridades.

No local de trabalho a personagem Roz (Gilpin) serve como uma espécie de  antagonista que esbate com o snobismo intelectual de Frasier e dessa forma  consegue produzir um paradoxo cómico. A dinâmica desta “equipa” remete Roz, muitas vezes como uma personagem irónica, representa as possíveis  reacções dos espectadores, que se identificam com esta ironia e humor  rasgado.

No seu lado pessoal as dinâmicas produzem o efeito cómico devido às  hegemonias e as procuras de validação. Apesar de Frasier ser um psiquiatra  reconhecido, educado e abastado, é filho de um polícia que aqui representa a  figura de um pai ausente e desconectado do crescimento cognitivo dos filhos  que em termos de intelecto, estão claramente acima dele.

Martin Crane personifica o pai simplório, que gosta de ver desporto e beber  cerveja, uma narrativa muito americana. A dinâmica cómica é aqui alcançada  através dos opostos entre a simplicidade do pai com um humor curto e duro,  que representa a vida dura do ex-polícia forçado a viver em casa do filho, mas  que mantém a tentativa de autoridade em casa alheia.

O pormenor do cão representa a inveja dos filhos perante o pai cujo afecto  físico é inteiramente alocado ao pequeno Eddie, que mostra o lado dócil de um  pai que se recusa a fazer o mesmo pelos filhos.

Por outro lado, esta autoridade é fragilizada pela presença de Daphne (Moon).  Como ajudante e cuidadora do pai, enfraquece a posição deste no papel  autoritário e hegemónico que Martin não quer abdicar, o que tem um claro  apelo cómico. Martin é um homem que não quer aceitar a sua velhice, e ao mesmo tempo também não quer que os filhos sejam independentes, porque  isso significaria o fim da sua necessidade.

O papel de Niles Crane (Pierce) é mais um destes papéis de problemática  familiar, Niles é também um psiquiatra, e por isso seguidor do irmão mais velho,  o que representa a necessidade de aprovação do irmão mais novo ao querer a validação do mais velho.

Em consequência disso existe uma semelhança entre Frasier e Niles que lhes  permite uma partilha de snobismo e arrogância intelectual. Niles é, tal como  Frasier, um homem bastante inseguro nas suas relações pessoais, fruto das  mesmas carências afectivas. É aqui que a rivalidade entre eles aparece, para  efeito cómico da audiência. É na procura da atenção do pai, como duas  crianças inseguras a competir pelo lugar de preferência, a um pai que só quer saber a que horas é o próximo jogo na televisão.

Em termos simples, Frasier é a história em formato de comédia, de um homem sofisticado bastante desequilibrado entre a necessidade de se afirmar e a sua insegurança afectiva. É brilhante.

Recorde-se que Frasier ainda não acabou. À semelhança de outras séries dos  anos 90, irá voltar aos ecrãs naquilo que Grammer considera ser o terceiro acto  da personagem.

Pode ver o trailer aqui.

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