A Bronx Tale, 30 anos de uma história paternal

Bernardo Almeida

O dia de 26 de setembro de 1993 marcava não uma, mas duas estreias no cinema americano. A Bronx Tale entrava para a tela do cinema e Robert De Niro iniciava a sua curtíssima carreira de realizador, tendo apenas se sentado na cadeira da realização por uma segunda ocasião em 2006, com o filme The Good Shepherd.

Originalmente escrito por Chazz Palminteri para uma peça de teatro em 1989, A Bronx Tale era um monólogo autobiográfico, protagonizado pelo mesmo actor.

Quatro anos mais tarde e após muitas tentativas por parte de grandes estúdios para comprarem os direitos do filme, Palminteri concorda na adaptação do monólogo para filme desde que o argumento fosse escrito por ele e pudesse ele interpretar o papel de Sonny.

Para esta adaptação é escolhido o actor Lillo Brancato para interpretar o papel de Calogero (que em 93 era um prefeito desconhecido) para contracenar com De Niro que fazia o papel de seu pai, Lorenzo. A escolha destes nomes é também uma nota autobiográfica já que são baseados no nome original de Palminteri, nascido no Bronx sob o nome de Calogero Lorenzo Palminteri.

A Bronx Tale é uma história de ritual de passagem, de crescimento e maturação de um jovem (Calogero) entre os ensinamentos de dois adultos que configuram dois mundos diferentes.

Lorenzo é um condutor de autocarro, conhecido e acarinhado por todos os passageiros do bairro e Sonny é um gangster, líder local que todos respeitam e temem.

A história começa com Calogero, ainda em criança vê Sonny a cometer o crime de homicídio. Quando perguntado pela polícia num line up se Calogero sabia quem era o assassino, Calogero mente e protege Sonny.

A partir daqui começa uma relação complicada entre os dois e com Lorenzo que não aprova esta aproximação.

Esta é a rampa de lançamento para os temas que compõem esta história de relações, sabedorias, oposições e complementaridades.

Ao vermos Calogero na perspetiva do que um jovem simboliza, ou seja, uma pessoa ainda em busca de modelos e aprendizagens que veiculem a sua afirmação e auto-conhecimento, ele é também o receptáculo das projeções e falhanços dos dois adultos que o acompanham.

Sonny é um homem temido por todos, e é por isso um homem desconfiado que tem de manter esta imagem por também ele ter medo de perder o seu lugar hegemónico. Por outro lado, é também um homem vivido e solitário que aprendeu a confiar apenas em si. Sonny não tem filhos, nem mulher o que justifica a  representação da ideia daquilo que Calogero lhe traz, a possibilidade de ser pai.

Há uma cena que elucida bem esta tema. O carro de Sonny é armadilhado pronto a explodir a matá-lo e a desconfiança vai na direcção de Calogero (nome que é transformado em C, por Sonny)  é encostado à parede e só quando este chora e diz a Sonny que o vê como um pai, é que ele muda a sua disposição e desconfiança.

Esta cena é também paradigmática uma vez que representa a vontade de Sonny de ser pai e moldar um filho, mas também a impossibilidade de confiar em quem quer que seja, o que o remete para alguém que tem a vontade de atravessar a sua herança emocional, mas não consegue, já que desconfia de alguém que só tem admiração por ele.

Apesar dessa impossibilidade que o seu estilo de vida lhe trouxe, Sonny tem várias conversas sábias cheias de ensinamentos alguns deles saídos dos livros que lera nos 10 anos que esteve preso.

Há aqui uma referência a Maquiavel, na cena em Sonny mostra a Calogero como se diferencia entre uma mulher que “vale a pena” e alguém que não lhe merece. Outro momento “maquiavelesco” é a conversa onde Sonny explica que é melhor ser temido do que amado, algo que serve também como um prelúdio para o fim do filme.

A personagem Lorenzo representa um outro tipo de adulto que Calogero pode seguir moldar-se. Este é o homem que trabalha para alimentar e manter a sua família, aquele que se sacrificou os outros terem subsistência. É um homem orgulhoso que não aceita as “ajudas” de Sonny ao seu filho e rejeita todo o dinheiro que este está disposto a oferecer. Porém, esta é apenas uma camada daquilo que esta personagem representa. Ele é também o pai que não compreende o filho e ao querer o melhor para ele, acaba por afastá-lo. É por isso um pai ausente cujo vazio é preenchido por Sonny que tem uma relação muito mais próxima com Calogero.

Só mais tarde Lorenzo apercebe-se desta distância e tenta aproximar-se do filho da mesma forma que este estava já habituado com o seu “pai” adoptivo. Sentado à mesa, a conversar, a dar-lhe atenção e ouvi-lo.

Apesar de serem personagens opostas e aqui servirem de encruzilhadas no caminho do jovem C, existem algumas semelhanças entre Sonny e Lorenzo.

Os dois querem que C seja melhor que eles. Sonny criou um nome para Calogero, não quer que a sua vida de crime seja o caminho a escolher, esta ideia fica clara quando Sonny rebenta com a porta do carro onde C estava, obriga-o a sair daquele carro que ia na direcção do crime. C ia a conduzir o carro onde os seus amigos o obrigam (pelo tema da pressão de pares, muito típica da adolescência) a fazer tomar parte na guerra racial, quando decidem ir ao bairro onde estão os afro-americanos para os agredir.

Lorenzo também quer que o filho seja melhor que ele. Apesar de ter uma profissão honesta e ter o carinho dos habitantes, Lorenzo é um homem endurecido pelos sacrifícios que fez, nomeadamente os seus próprios sonhos e possíveis ambições que trocou pela sua família. Na conversa mais icónica que tem com o filho, dá-lhe o conselho de que não há nada pior do que talento desperdiçado. À superfície pode parece que Lorenzo se referia à vida de crime que Sonny preconiza, porém, como pai ele não quer que o filho fique aquém do pode ser. É aqui que a semelhança dos dois adultos se encontra. Nenhum deles quer que C seja como eles apesar de lhe darem conselhos constantes.

Esta é a dicotomia e paradoxo que acompanha o filme até ao fim quando se percebe a escolha do caminho a percorrer por parte do jovem já adulto.

A Bronx Tale por ser passada na década de 60, traz temas próprios da década como sejam o bairrismo comunitário italo-americano, onde o que se passa no bairro é lá resolvido, longe da polícia que é vista como uma entidade invasora e exterior. Tem também o tema dos direitos civis e a forma como os afro-americanos eram rotulados nessa época. O filme tenta dar um twist progressivo a este último tema com a introdução de uma relação inter-racial que é aceite e incentivada por Sonny e assim o remete para uma personagem que é clássica na imagem de gangster, mas progressivo no que toca a aceitação racial.

Talvez por ter colaborado com Scorsese muitas vezes, é clara a sua influência na realização de De Niro. A Bronx Tale é um filme de época, o local é um bairro da cidade de Nova York, é uma história com violência por parte de Gangsters de origem italiana, e tem diálogos conversacionais icónicos.

É um filme apaixonante que passou ao lado no seu tempo uma vez que não foi um grande êxito de bilheteira, mas é soberbo.

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