Rui Gonçalvez

Desta vez a charlotanice política veio da Madeira

Rui Gonçalves, Arquiteto

As eleições da Madeira, não trouxeram nenhuma novidade ao ambiente político nacional. Nada saiu do protótipo das noites eleitorais à portuguesa. Vejamos.
O PS teve uma derrota estrondosa, que mais se assemelha a uma hecatombe, porque os madeirenses já perceberam que o governo da nação não lhes traz, como a nenhum português, nada de bom ou agradável. Os socialistas passaram dos 19 deputados que tinham, para apenas 11, no entanto o líder local, ao invés de se recolher e esconder em casa, decidiu enfrentar as câmaras de televisão, para questionar se o líder do PSD, por acaso o vencedor das eleições, se iria ou não demitir, com aquele ar insuflado a que os sem vergonha da política já nos habituaram.

O líder nacional, como é habitual, em momentos difíceis, cobardemente esconde-se e faz de conta que não tem nada a ver com o assunto.
Apesar de vencedor, o charlatão de serviço na noite eleitoral madeirense, foi sem dúvida o presidente do governo regional e recandidato do PSD, que durante a campanha eleitoral repetiu até à exaustão que se demitiria se não tivesse maioria absoluta, na tentativa de chantagear o povo madeirense, que não deixou chantagear-se. “Maioria absoluta”, significa matematicamente, metade dos deputados, mais um e a coligação do PSD com o CDS, elegeu 23 deputados, faltando 1 para a tal maioria.

Mesmo coligados e uma coligação potencia o somatório dos votos em termos de apuramento de deputados, os dois partidos ainda perderam um deputado em relação ao que tinham. Mas o homem não se demitiu, com aquela desfaçatez a que já estamos habituados, fazendo de conta que a tal maioria absoluta significava ter apoios para formar governo.

Gente sem caráter é isto mesmo, mas de facto é só mais um. Como se não bastasse e porque charlatão uma vez, será sempre charlatão, para constituir a tal maioria que lhe permitisse formar governo, fez um acordo com o PAN, um partido fundamentalista animalesco, obviamente de esquerda, defensor de políticas que prejudicam gravemente muito do natural eleitorado social-democrata. À falta de habilitação para o desempenho de qualquer outra profissão, Albuquerque vendeu a alma e a social-democracia ao diabo, para manter o emprego, como quem se agarra a uma boia de salvação, com a concordância líder nacional, Montenegro.

É caso para perguntar, em gente desta alguém pode confiar? Alguém imaginava PSD, CDS e PAN, numa amalgama ideológica, que jamais seria permitida por exemplo por Passos Coelho? Só um distraído, poderá no futuro confiar o voto a um PSD desta natureza. Eles fizeram agora, muito pior do que António Costa fez ao coligar-se com os extremistas de esquerda, que pelo menos são da mesma família política. A vergonha e o pudor que já eram escassos, trouxeram à tona os desclassificados dirigentes políticos a que estamos a entregues.

Mas as eleições da Madeira, tiveram um fator positivo, Montenegro saiu finalmente do armário e assumiu, que com o Chega não quer nada, nem na Madeira, nem no continente.
O PSD acéfalo, podia ao menos olhar para trás e questionar o que lhe está a acontecer e porquê. Mesmo esquecendo as demolidoras vitórias dos tempos áureos de Alberto João Jardim, em 2011 tiveram 48, 57% dos votos e 25 deputados e o CDS 17,63% e 9 deputados, com um total de 34.

Em 2015, o PSD conseguiu 44,57%, elegendo 24 deputados e o CDS 13,71% e 7 deputados, em 2019, o PSD já se ficou pelos 39,42 % e 21 deputados, perdendo a maioria, só alcançada em conjunto com o CDS e os seus já escassos 5,76% e 3 deputados, totalizando assim os 24, necessários para fazer uma maioria.

Desta vez e prevendo a derrota, foram a eleições coligados e mesmo assim escapou a almejada maioria absoluta, elegendo juntos apenas 23 deputados, porque o CDS perdeu um dos três que tinha.

Há quatro eleições consecutivas em queda livre, sem saberem o que lhes está a acontecer, já não é só distração, é mesmo falhanço político / ideológico, é mesmo falta de jeito.
Já fazem lembrar aquele ciclista de ego inchado que liderava a corrida, de tão superior que se julgava, que ao olhar para trás e percebendo que a diferença de avanço se desvanecia a cada minuto, mesmo assim decidiu ignorar o adversário e fazer de conta que não percebia, sempre na esperança de que um tropeção do perseguidor lhe desse a vitória que pelos seus meios não estava ao seu alcance. O PSD é aquele cego, que só é cego porque não quer ver.

Quando os partidos não têm o discernimento de olhar à sua volta, perceberem o que se passa e arrepiarem caminho, o abismo fica mais próximo e a queda é iminente.
Esta coligação contranatura, na Madeira, com a esquerda, poderá ser o golpe de misericórdia, face às miseráveis lideranças do PSD, pós Passos Coelho.

Talvez explicando devagarinho. Os 8 deputados perdidos pelo PS, foram oferecidos pelo governo do Os 8 deputados perdidos pelo PS, foram oferecidos pelo governo do continente ao PSD, que por sua vez perdeu estes 8 e mais 1, para os independentes do JPP, 4 e para o Chega outros 4, os dois vitoriosos da noite, mas dos quais, praticamente ninguém ouviu falar, porque os habituais comentadeiros alocados ao bloco central, não gostam. Chega, o grande vitorioso, que foi na noite das eleições renegado por Montenegro, esse infantil político que caiu mais uma vez na estratégia do PS e assim ofereceu, de mão beijada, mais uns quantos largos votos ao Chega que agradece e continua a crescer. Até quando as gentes do PSD vão tentar tapar o sol com a peneira, e percebem que jamais voltarão ao governo da nação por este caminho sinuoso e sem rumo, sem o Chega?

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