In-te-li-gên-ci-a? Óbviamente! Natural ou Artificial?

Susana Mexia, Professora de Filosofia

O desafio consiste em ver onde estão os riscos, orientar a ciência e a tecnologia ao serviço do bem para a Humanidade. No ser humano, o conhecimento, embora ligado a uma matéria orgânica, não é limitado por ela, devido à sua imaterialidade que a transcende.

Não obstante ser um tema que vem sendo abordado e trabalhado há várias décadas, é um facto que só muito recentemente saltou para a ribalta, exaltando os seus defensores, retraindo os mais cépticos e atraindo todos os mass media com teses e argumentos, aparentemente, imbatíveis.

A sofisticação dos processos de simulação da inteligência humana, a chamada Inteligência Artificial, tem levantado diversas questões sobre a sua evolução, a sua utilidade ou a eventual submissão dos seres humanos a estes processos. A questão de até onde a Inteligência Artificial pode ir, permanece na vanguarda da problemática ética.

Na mensagem do Papa Francisco para a celebração do DIA MUNDIAL DA PAZ 1º de 2024, foi escolhido o tema: Inteligência Artificial e Paz.

“Justamente nos alegramos e sentimos reconhecidos pelas extraordinárias conquistas da ciência e da tecnologia, graças às quais se pôs remédio a inúmeros males que afligiam a vida humana e causavam grandes sofrimentos. Ao mesmo tempo, os progressos técnico-científicos, que permitem exercer um controle – até agora inédito – sobre a realidade, colocam nas mãos do homem um vasto leque de possibilidades, algumas das quais podem constituir um risco para a sobrevivência humana e um perigo para a casa comum. (…)

«Deste modo os progressos notáveis das novas tecnologias da informação, sobretudo na esfera digital, apresentam oportunidades entusiasmantes mas também graves riscos, com sérias implicações na prossecução da justiça e da harmonia entre os povos. Por isso torna-se necessário interrogar-nos sobre algumas questões urgentes: quais serão as consequências, a médio e longo prazo, das novas tecnologias digitais? E que impacto terão elas sobre a vida dos indivíduos e da sociedade, sobre a estabilidade e a paz?»

Os avanços tecnológicos conduziram à utilização da inteligência artificial em, praticamente, todas as áreas da vida. Este progresso levou, por exemplo, ao desenvolvimento de teorias que defendem um futuro em que os robôs não são apenas iguais, mas superiores aos seres humanos, ou até mesmo à desintegração do conceito de ser humano, nomeadamente no que toca a realidade da morte e da procriação natural.

Admitindo que um sistema de Inteligência Artificial inclua uma percentagem muito elevada de alterações no seu sistema, nunca podemos programar a enorme variedade de contextos que nascem com o ser humano e que com ele se desenvolvem. Há fins que não podemos criar sem viver, e isto só é possível devido à infinita potencialidade que nos dá o espírito, o nosso conhecimento imaterial. No ser humano, o conhecimento, embora ligado a uma matéria orgânica, não é limitado por ela, devido à sua imaterialidade que a transcende.

«Nas suas múltiplas formas, a inteligência artificial, baseada em técnicas de aprendizagem automática (machine learning), embora ainda numa fase pioneira, já está a introduzir mudanças notáveis no tecido das sociedades, exercendo uma influência profunda nas culturas, nos comportamentos sociais e na construção da paz. (…)

Desenvolvimentos como a aprendizagem automática (machine learning) ou a aprendizagem profunda (deep learning) levantam questões que transcendem os âmbitos da tecnologia e da engenharia e têm a ver com uma compreensão intimamente ligada ao significado da vida humana, aos processos basilares do conhecimento e à capacidade que tem a mente de alcançar a verdade. (…)

«A capacidade de alguns dispositivos produzirem textos sintática e semanticamente coerentes, por exemplo, não é garantia de fiabilidade. Diz-se que podem «alucinar», isto é, gerar afirmações que à primeira vista parecem plausíveis, mas na realidade são infundadas ou preconceituosas. Isto coloca um sério problema quando a inteligência artificial é utilizada em campanhas de desinformação que espalham notícias falsas e levam a uma desconfiança crescente relativamente aos meios de comunicação. A confidencialidade, a posse dos dados e a propriedade intelectual são outros âmbitos em que as tecnologias em questão comportam graves riscos, aos quais se vêm juntar outras consequências negativas ligadas a um uso indevido, como a discriminação, a interferência nos processos eleitorais, a formação duma sociedade que vigia e controla as pessoas, a exclusão digital e a exacerbação dum individualismo cada vez mais desligado da coletividade. Todos estes fatores correm o risco de alimentar os conflitos e obstaculizar a paz.»(…)

«Os seres humanos não podendo saber tudo, podem mostrar interesse em sabê-lo; embora sejam limitados, uma vez que não podem substituir a Criação ou a própria evolução do universo. De facto, as mutações naturais continuam a ser um enigma para o Homem. Não podemos programar a evolução, embora possamos conceber dispositivos engenhosos para resolver problemas específicos. (…)

«As experiências realizadas ou a realizar, têm subjacente a ideia de que tais teses se baseiam numa concepção completamente materialista do ser humano o que nos leva a questionar sobre a questão moral e ética da liberdade versus responsabilidade.  Em última análise, uma máquina não é livre, pelo que não pode ser responsável pelas suas acções. Falar de “ciborgues”, ou seres “humanoides” com intelectos programados, não acabará por se resumir à teorização de uma nova espécie de escravos com infinitas possibilidades, mas sem liberdade ou responsabilidade?»

Importa saber distinguir que o ser humano é apenas matéria ou considerar a possibilidade de melhorar o ser humano, através da genética, nanotecnologia, robótica, inteligência artificial. O desafio consiste em ver onde estão os riscos, orientar a ciência e a tecnologia ao serviço do bem para a Humanidade.

Os progressos da informática e o desenvolvimento das tecnologias digitais, nas últimas décadas, começaram já a produzir profundas transformações na sociedade global e nas suas dinâmicas.

«Os novos instrumentos digitais estão a mudar a fisionomia das comunicações, da administração pública, da instrução, do consumo, dos intercâmbios pessoais e de inúmeros outros aspetos da vida diária. Além disso as tecnologias que se servem duma multiplicidade de algoritmos podem, dos vestígios digitais deixados na internet, extrair dados que permitem controlar os hábitos mentais e relacionais das pessoas para fins comerciais ou políticos, muitas vezes sem o seu conhecimento, limitando o exercício consciente da sua liberdade de escolha. De facto, num espaço como a web caraterizado por uma sobrecarga de informações, pode-se compor o fluxo de dados segundo critérios de seleção nem sempre coerentes ou verdadeiros. (…)

Devemos recordar-nos de que a pesquisa científica e as inovações tecnológicas não estão desencarnadas da realidade nem são «neutrais», mas estão sujeitas às influências culturais. Sendo actividades plenamente humanas, os rumos que tomam refletem opções condicionadas pelos valores pessoais, sociais e culturais de cada época. E o mesmo se diga dos resultados que alcançam: enquanto fruto de abordagens especificamente humanas do mundo envolvente, têm sempre uma dimensão ética, intimamente ligada às decisões de quem projecta a experimentação e orienta a produção para objetivos particulares.

A própria designação, que já entrou na linguagem comum, abrange uma variedade de ciências, teorias e técnicas destinadas a fazer com que as máquinas, no seu funcionamento, reproduzam ou imitem as capacidades cognitivas dos seres humanos. Falar de «formas de inteligência», no plural, pode ajudar sobretudo a assinalar o fosso intransponível existente entre estes sistemas, por mais surpreendentes e poderosos que sejam, e a pessoa humana: em última análise, aqueles são «fragmentários» já que têm possibilidades de imitar ou reproduzir apenas algumas funções da inteligência humana. Com efeito o seu impacto, independentemente da tecnologia de base, depende não só da projetação, mas também dos objetivos e interesses de quem os possui e de quem os desenvolve, bem como das situações em que são utilizados. » (…)

«Por conseguinte a inteligência artificial deve ser entendida como uma galáxia de realidades diversas e não podemos presumir a priori que o seu desenvolvimento traga um contributo benéfico para o futuro da humanidade e para a paz entre os povos. O resultado positivo só será possível se nos demonstrarmos capazes de agir de maneira responsável e respeitar valores humanos fundamentais como «a inclusão, a transparência, a segurança, a equidade, a privacidade e a fiabilidade». (…)

«E não é suficiente presumir, por parte de quem projeta algoritmos e tecnologias digitais, um empenho por agir de modo ético e responsável. É preciso reforçar ou, se necessário, instituir organismos encarregados de examinar as questões éticas emergentes e tutelar os direitos de quantos utilizam formas de inteligência artificial ou são influenciados por ela.

Assim, a imensa expansão da tecnologia deve ser acompanhada por uma adequada formação da responsabilidade pelo seu desenvolvimento. A liberdade e a convivência pacífica ficam ameaçadas, quando os seres humanos cedem à tentação do egoísmo, do interesse próprio, da ânsia de lucro e da sede de poder. Por isso, temos o dever de alargar o olhar e orientar a pesquisa técnico-científica para a prossecução da paz e do bem comum, ao serviço do desenvolvimento integral do homem e da comunidade. (…)

«A dignidade intrínseca de cada pessoa e a fraternidade que nos une como membros da única família humana devem estar na base do desenvolvimento de novas tecnologias e servir como critérios indiscutíveis para as avaliar antes da sua utilização, para que o progresso digital possa verificar-se no respeito pela justiça e contribuir para a causa da paz. Os avanços tecnológicos que não conduzem a uma melhoria da qualidade de vida da humanidade inteira, antes pelo contrário agravam as desigualdades e os conflitos, nunca poderão ser considerados um verdadeiro progresso.

A inteligência artificial tornar-se-á cada vez mais importante. Os desafios que coloca não são apenas de ordem técnica, mas também antropológica, educacional, social e política. Deixa esperar, por exemplo, poupança de esforços, produção mais eficiente, transportes mais fáceis e mercados mais dinâmicos, bem como uma revolução nos processos de recolha, organização e verificação de dados. Precisamos de estar conscientes das rápidas transformações em curso e geri-las de forma a salvaguardar os direitos humanos fundamentais, respeitando as instituições e as leis que promovem o progresso humano integral. A inteligência artificial deveria estar ao serviço dum melhor potencial humano e das nossas mais altas aspirações, e não em competição com eles».

«Isto deve fazer-nos refletir sobre um aspeto transcurado frequentemente na atual mentalidade tecnocrática e eficientista, mas decisivo para o desenvolvimento pessoal e social: o «sentido do limite». Com efeito o ser humano, mortal por definição, pensando em ultrapassar todo o limite mediante a técnica, corre o risco, na obsessão de querer controlar tudo, de perder o controlo sobre si mesmo; na busca duma liberdade absoluta, de cair na espiral duma ditadura tecnológica. Reconhecer e aceitar o próprio limite de criatura é condição indispensável para que o homem alcance ou, melhor, acolha a plenitude como uma dádiva; ao passo que, no contexto ideológico dum paradigma tecnocrático animado por uma prometeica presunção de autossuficiência, as desigualdades poderiam crescer sem medida, e o conhecimento e a riqueza acumular-se nas mãos de poucos, com graves riscos para as sociedades democráticas e uma coexistência pacífica».

«O mundo não precisa realmente que as novas tecnologias contribuam para o iníquo desenvolvimento do mercado e do comércio das armas, promovendo a loucura da guerra. Ao fazê-lo, não só a inteligência, mas também o próprio coração do homem, correrá o risco de se tornar cada vez mais “artificial”. As aplicações técnicas mais avançadas não devem ser utilizadas para facilitar a resolução violenta dos conflitos, mas para pavimentar os caminhos da paz».(…)

«Um olhar humano e o desejo dum futuro melhor para o nosso mundo levam à necessidade dum diálogo interdisciplinar voltado para um desenvolvimento ético dos algoritmos – a algor-etica -, em que sejam os valores a orientar os percursos das novas tecnologias». (…)

Uma breve reflexão, sabendo que nos corresponde alguma responsabilidade na evolução ou regressão da Humanidade, num compromisso de desenvolvimento integral, sereno e lúcido. É com este espirito que a todos desejo um magnifico ano de 2024.

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