Apesar dos avanços na igualdade no governo há um Ministério que até agora só foi ocupado por homens, o Ministério da Economia.
Para Augusto Santos Silva o 25 de abril representa uma “mudança absolutamente sistémica” para a igualdade de género. Destaca o “papel essencial” das mulheres no 25 de abril no apoio aos filhos e maridos no ultramar, e as que emigraram nos anos 70 para países europeus.
A paridade do governo “é um trabalho que ainda está por concluir”, afirma Augusto Santos Silva na 2ª conferência do ciclo “As Mulheres e o 25 de abril” na AR, na passada terça-feira.
Depois dos avanços ao longo desta década com a 1ª Ministra da Administração Interna, seguiu-se a pasta da Justiça e da Defesa, atualmente há apenas um Ministério que só foi ocupado por homens: o Ministério da Economia.
A desigualdade da participação das mulheres tem sido atenuada ao longo das décadas, mas atualmente os homens ainda ficam “embasbacados” quando as catedráticas passam de uma em cada universidade até às centenas aos dias de hoje. Atualmente, em cada 3/3 de doutoramentos em Portugal 2/3 são de mulheres.
A única vez que uma eleição pôs o regime em causa, em 1958, em que Humberto Delgado foi candidato à Presidência da Republica, a resposta imediata do regime foi terminar com esse tipo de eleição direta universal. “Os que votavam o voto não valia para nada, a assembleia nacional não tinha capacidade efetiva,” explica Santos Silva.
A participação das mulheres nos 2 grandes movimentos sociais contribuíram para o “empobrecimento” do anterior regime. Segundo o Presidente da Assembleia da República cessante a emigração maciça na década de 70, sobretudo para França e Alemanha, e as mulheres que integraram este processo, “foram essenciais para que a emigração fosse bem-sucedida.”
“Foi um abalo, porque a lógica do salazarismo era a lógica do fechamento, alheamento das realidades europeias, como também foi um aggiornamento da sociedade portuguesa nos meios rurais. Ano após ano quem vinha com a experiência da Alemanha, Luxemburgo, Suíça e França. Dos países democráticos e desenvolvidos, trouxeram mais poupança, mais consumo e novos valores para território português.”
Mas para o dirigente do Parlamento, hoje dissolvido, mais importante foi a experiência da guerra colonial, em que um milhão de jovens adultos participou na guerra. “É preciso não esquecer as suas mães, namoradas, as “madrinhas de guerra”. Esse papel das mulheres que vindo de baixo abalaram profundamente a emigração e a experiência da injustiça da guerra foi muitíssimo importante.”
O 25 de abril representa uma “mudança absolutamente sistémica para a igualdade de género”, Santos Silva recorda a mãe que votou pela 1ª vez aos 57 anos de idade, tal como foi a experiência da “esmagadora da maioria” das mulheres.
25 de abril abriu possibilidades às mulheres

Antes de 1974 as mulheres não podiam ser diplomatas, militares, magistradas, e foi o 25 de abril que abriu todas estas possibilidades. “Quando tinha 16 anos em 1972/73 lembro-me muito bem do ar embasbacado que os homens faziam nas esquinas quando viam as primeiras mulheres polícias”.
Um “embasbacamento” que considera “necessário para a absorção de uma realidade que se não existisse o mundo ficava dividido de uma das suas metades.”
Refere que ainda há caminho a fazer, e que “é preciso mesmo tomar medidas para acelerar esse caminho, ou impedir que coisas que não estão na lei, mas que na prática estão, os tais telhados de vidro continuem a encobrir o acesso segundo o mérito aos cargos públicos ou a gestão das empresas ou a outros lugares.”


