Tal como sucedeu com Macau e Hong Kong, sob as lideranças de Deng Xiaoping, Mário Soares e Cavaco Silva (Declaração Conjunta de 1987), e Margaret Thatcher (Declaração Conjunta de 1984), os responsáveis políticos de hoje têm uma oportunidade única de demonstrar a sua maioridade e dar um exemplo ao mundo de como, com paciência, diálogo e habilidade, a questão de Taiwan também pode ser resolvida.
A questão de Taiwan tem sido usada para manipular as opiniões públicas por motivos populistas e efémeros, ao invés de ser um assunto estritamente diplomático e de longo prazo, antes de as soluções alcançadas nesse foro serem gerenciadas de forma pública.
Esta questão poderia, no entanto, ser usada para dar um bom exemplo ao mundo de como a diplomacia é sempre melhor do que a resolução militar, cujo resultado testemunhamos hoje na Ucrânia, conflito israelo-palestino e em tantos outros locais do mundo em luta armada, morte e empobrecimento. Nunca será demais afirmar que privilegiar a via diplomática, ao invés de ceder ao confronto militar, é claramente uma responsabilidade política.
No que diz respeito ao Ocidente, tendencialmente procura-se mobilizar a opinião pública para diabolizar a República Popular da China na questão de Taiwan, colocando-se de um lado os bons e do outro os maus, típico de propaganda de guerra e muito permeável quando a ignorância prevalece; portanto, contribuindo dessa forma para infantilizar o diálogo e inviabilizar a via diplomática que, ao invés, deveria estar a ser liderado por políticos e responsáveis adultos em busca de resoluções pacíficas, conformes ao interesse dos Povos.
Sucede que, na realidade, nos dois lados do estreito existe unanimidade quanto a Uma Só China, princípio esse formalmente também respeitado, quer do ponto de vista bilateral, quer multilateral, incluindo por parte dos Estados Unidos e ONU. Ou seja, respeita-se que a região de Taiwan é uma parte inalienável do território da República Popular da China, à semelhança de Hong Kong e Macau, que a seu tempo evoluíram para um conceito, paciente e habilmente alcançado, de “um país, dois sistemas”.
Esta solução teve o grande mérito de salvaguardar os interesses dos povos da China, Macau e Hong Kong, pois estabeleceu um período gracioso para a integração numa só China, que é partilhada por todos; por outro lado, salvaguardaram-se os interesses e a face de países terceiros, nomeadamente Portugal e Inglaterra – e mesmo os Estados Unidos da América no seu papel de maior potência mundial.
Neste caso de Macau e Hong Kong, tratou-se claramente de uma cedência da parte da China. A tudo isto chama-se “Diplomacia”, com “D” maiúsculo, i.e. , cedências e respeito de parte a parte para alcançar resoluções pacíficas para questões internacionais. Não é expectável que daqui se retire a papel químico a solução para Taiwan, mas com certeza que este precedente abre muitas avenidas de diálogo e resoluções possíveis, haja vontade política e líderes à altura.
Tal como sucedeu com Macau e Hong Kong, sob as lideranças de Deng Xiaoping, Mário Soares e Cavaco Silva (Declaração Conjunta de 1987), e Margaret Thatcher (Declaração Conjunta de 1984), os responsáveis políticos de hoje têm uma oportunidade única de demonstrar a sua maioridade e dar um exemplo ao mundo de como, com paciência, diálogo e habilidade, a questão de Taiwan também pode ser resolvida.
Existem muitos exemplos na história, da mesma forma que existem múltiplos negociadores capazes de alcançar acordos, se empoderados politicamente. O mundo clama por mais líderes políticos da qualidade de Nelson Mandela, que coloquem os interesses de longo prazo dos países e povos acima das emoções, eleições ou ambições, que são sempre momentâneas.
Ainda relativamente à diabolização da China, não posso deixar de, enquanto observador privilegiado que me considero, apontar alguns exemplos adicionais observados em 2023:
No decorrer do ano de 2023, toda a imprensa, órgãos sociais e influencers económicos afirmavam que a China tinha colapsado economicamente, se tinha japanizado e a nova moda seria de estagnação. Sucede que ao mesmo tempo, no decorrer de 2023, o International Monetary Fund ía actualizando as suas previsões para a economia chinesa sempre acima dos 5%, o que efectivamente se veio a verificar.
Com certeza que a China, como qualquer outro país, tem os seus problemas económicos e desafios financeiros, mas tem também uma balança comercial superavitária com décadas, acesso a ferramentas sem paralelo no resto do mundo (por exemplo, o sistema financeiro, i.e. é os bancos, são controlados pelo Governo central) e sucede ainda que não tem problemas como guerras ou imigração. Na realidade, o que está a acontecer na China é uma reforma estrutural da economia chinesa. O próprio sobreaquecimento imobiliário foi interrompido por iniciativa do Governo central no âmbito da reforma económica, no sentido de que foi Pequim quem decidiu, de forma controlada, deixar cair empresas de construção com modelos de negócio especulativos, apoiando as sustentáveis.
Isto sucedeu, não por falta de liquidez, mas porque foi decidido alocar parte desses recursos para a industrialização de ponta e o sector tecnológico chineses, que fazem parte estruturante da reforma económica em curso. Quem não se lembra dos artigos na imprensa ocidental que vaticinavam o fim do crescimento chinês e da bolha imobiliária no decorrer deste ano de 2023? Sobretudo gostaria de chamar a atenção para que não se dê credibilidade a algo só porque foi escrito em algum jornal ou dito por alguma estação de televisão. Por trás do que se diz, tem de haver uma explicação lógica, de 1+1=2, que o racionaliza e justifica. Sempre que não exista, seria melhor investigar antes de papaguear disparates como o fim económico da China, sem prejuízo de todos os desafios que sempre existem e afectam cada país do mundo.
Os responsáveis políticos americanos e europeus afirmaram durante o ano de 2023, repetidamente, que a China constitui a maior ameaça que o mundo enfrenta, sem definir a que tipo de ameaça se referem; e determinaram diversas sanções económicas com o objectivo de restringir o desenvolvimento tecnológico da China, negando assim aos chineses a prosperidade social que todos os povos almejam para si próprios e seus descendentes, especialmente os que ainda atravessam estágios de desenvolvimento mais primários.
Ou seja, o verdadeiro receio dos EUA e Europa relativamente à China não é qualquer ameaça militar, que não existe; é antes o de sermos ultrapassados economicamente, num ambiente de mercado aberto e competitivo, por um povo que altamente motivado para o trabalho e desenvolvimento tecnológico. Mas pergunto-me se não deveríamos estar preocupados em ser mais competitivos por nosso próprio mérito do que competitivos à custa de infligir atrasos e precariedade nos nossos concorrentes.
Não esqueçamos que é o desenvolvimento tecnológico e a cooperação internacional que estão na base da erradicação da fome, sustentabilidade do Planeta e prosperidade das sociedades. Não esqueçamos também que as tecnologias verdes, energias renováveis, construção sustentável, carros eléctricos, armazenamento de energia, eficiência logística, produtividade laboral e tantas outras indústrias são hoje essencialmente apostas chinesas, mas necessárias em todos o Planeta. Reparem também que se trata de indústrias de desenvolvimento e não de armamento.
Enfim, parece tudo uma grande falta de habilidade, visão e prossecução do interesse europeu. Ao invés de negociarmos a entrada de todas estas empresas chinesas altamente competitivas nos nossos mercados ricos (ainda), a troco de integrarmos o capital daquelas empresas e nos tornarmos importantes fornecedores nas cadeias produtivas do futuro, ao mesmo tempo que competimos pelo desenvolvimento sustentável do Planeta, só contribuímos para a necessidade chinesa de se tornar cada vez mais dependente apenas de si própria ou de parceiros confiáveis. E sabemos bem que a necessidade cria o engenho. Acresce que a China tem ao seu alcance instrumentos e mercados que lhe permitem fazer precisamente isso.


