Rosália, o que precisas? Vê lá se te lembras do que faz falta lá em casa! Papel higiénico? detergente da louça? molas para a roupa? Ah, pois era…, e mais um estendal novo… com esta chuva nada seca… e enquanto ia pensando no que precisava e passando pelos corredores da loja do chinês já quase a fechar, a Dra Rosália, acabada de sair do Centro de Saúde, de repente, viu-a muito perto de si!
E viu-a a meter uma coisa na mala que trazia a tiracolo, tinha quase a certeza! Estacou, cruzaram um olhar rápido, nunca a tinha visto, mas percebeu que ela estava a roubar… e ao passar junto dela, apenas lhe disse ao ouvido ‘não faça isso !’ E abanando a cabeça, pôs o dedo indicador sobre os lábios em sinal de silêncio. Depois, virando as costas, seguiu corredor fora até ao fundo da loja, para ir buscar o estendal, enquanto a senhora de meia-idade se dirigia à chinesa para pagar. Não havia mais ninguém na loja. Era hora de encerrar. A senhora de meia-idade levantou a voz e começou a dizer, indignada :’Imagine- se… mas quem é ela para me acusar? Sou pobre, mas não roubei nada… que ideia! Se calhar ela é que anda ali a roubar…!’
Entretanto pagou qualquer coisa e saiu apressadamente.
De seguida, a Dra. Rosália, muito calada, aproximou- se do balcão, nada comentando sobre o sucedido. A chinesa sorriu-lhe com ar de reconhecimento e encolhendo os ombros, agradeceu- lhe.
À saída, ofereceu- se para ajudar a Dra. Rosália a acondicionar o estendal dentro do carro, mas a médica recusou, esboçou um sorriso triste, agradecendo e dizendo não ser necessário. Entretanto, viu a senhora de meia-idade a subir a rua, já a alguma distância. Em vez de entrar no carro, foi em passo lesto no encalce dela e arrependida, aproximou- se, tomou-a pelo braço e disse-lhe :‘Peço muita desculpa, não queria ofende-la… foi um engano meu… desculpe!’
A senhora de meia- idade, soltando o braço num arremedo, olhou-a com aspereza e disse apenas:’ Fez muito mal! Não tinha o direito…’ E voltando as costas, caminhou apressada rua acima.
A Dra. Rosália foi- se embora, sem dizer palavra. Estava muito cansada da longa tarde de consultas ininterruptas e sentia-se arrependida dos seus maus juízos…( essa tua mania de te meteres na vida dos outros. Pobre mulher, tinha um ar triste e talvez esteja a passar mal… se fosse ao contrário também não reagirias bem, se te acusassem de ladra…).
Passaram-se vários meses. O Centro de Saúde ganhara outra fama desde que chegara a Dra. Rosália. Aquela médica, jovem e recém-casada, tinha-se mudado com seu marido para aquela aldeia simpática, onde arranjaram uma casa de renda mais acessível e sobretudo perto do Centro de Saúde. Na terra, rapidamente se tornou conhecida! Olhava para os doentes nos olhos, observava- os e escutava- os com atenção e carinho, dedicava-lhes tempo como se não tivesse pressa, interessava- se por cada um.
Tinha um ar doce e compreensivo, ficava até tarde para que ninguém se fosse embora sem ser consultado, e os doentes iam passando palavra uns aos outros. Gostavam muito da sua doutora! Ela a todos procurava conhecer e ia memorizando os seus nomes e queixas…
Num fim de tarde de domingo, já em avançado estado de gravidez, quando a Dra. Rosália se preparava para sair com o marido para irem jantar fora, ouviram chamar em tom aflito e bater à porta repetidas vezes. Ao abrir, a jovem médica reconheceu- a de imediato, apesar de nunca mais se terem encontrado. Era aquela senhora de meia-idade da loja do chinês, que com visível esforço, e em lágrimas, trazia ao colo, uma criança muito pálida !
‘Doutora, por favor, veja a minha netinha, ela deu uma queda, bateu com a cabeça no chão e desmaiou…não sei o que tem, mas está mal…não a deixe morrer… por favor, Doutora!’
A Dra. Rosália , chamando o marido, pediu- lhe que guiasse o carro e com a criança ao colo , rapidamente seguiram os quatro para o hospital mais próximo… à chegada ela própria entrou com a criança em braços, deixando o marido e a avó no balcão da recepção.
Passaram-se algumas horas e por fim, a médica veio à sala. Chamou a avó e explicou- lhe que a pequenita parecia estar fora de perigo, mas teria de ficar toda a noite em observação. Sofrera um traumatismo craniano, mas estava consciente e a reagir bem. Quis saber mais pormenores. A avó acabou por contar um pouco da sua vida. A neta vivia sozinha com ela e estava a seu cargo, porque os pais tinham emigrado em busca de uma vida melhor.
Ela era viúva e estava reformada, mas a reforma era pequena, mal chegando para as duas. Nessa noite, a Dra. Rosália disse ao marido que não podia deixar sozinhas, avó e neta, ali no hospital. Ela ficaria com elas. Pediu ao marido que tivesse paciência, fosse para casa e se possível as viesse buscar na manhã seguinte.
E assim aconteceu. Quando a pequenita teve alta, já perto da hora do almoço, a Dra. Rosália pediu ao marido para as ir buscar às três e regressaram às suas casas. A pequenita parecia recuperada e tudo não teria passado de um grande susto, embora fosse necessário reforçar repouso e vigilância.
Ao chegar à porta de casa da senhora de meia- idade, esta convidou a Dra. Rosália a entrar, só por um momento, dizendo que não a demoraria. A médica entrou de mão dada com a pequenita, e deitou-a na sua caminha, enquanto a avó, numa voz embargada lhe sussurrava: ‘ Não queria que o seu marido ouvisse… não sei como lhe agradecer, a Dra. Rosália é única! Mas eu tenho uma coisa para lhe confessar.
E ao dizer isto afastaram-se até perto da porta do quarto. E a senhora de meia-idade continuou, a custo: ‘…naquela tarde em que me viu na loja da chinesa… a Dra. tinha razão! eu estava mesmo a roubar aquela bonequinha que ali vê em cima da cama dela! Foi para oferecer à minha neta, era o dia dos seus 5 anos… os pais tinham-se ido embora na véspera, a pequenita estava muito triste e eu não tinha dinheiro nenhum para lhe dar um presente…! Mas eu tinha um peso na consciência e alguns dias depois voltei lá e contei à senhora chinesa. Na altura paguei-lhe o que lhe devia e ela perdoou- me, mas agora preciso do seu perdão… Doutora, desculpe-me, por favor!’
A médica e a senhora de meia-idade abraçaram- se num longo e enternecido abraço. A pequenita olhava-as espantada, e pegando na sua boneca, dava-lhe beijinhos!
Lá fora, o marido buzinava, impaciente, e a Dra. Rosália afastou-se, e de lágrimas nos olhos entrou no carro rapidamente.
‘Que se passa? Mais algum problema? ’ – perguntou-lhe o marido.
‘Não, nada de especial… coisas da vida!’- respondeu-lhe a Dra. Rosália, e com um beijo agradeceu- lhe a sua paciência …


