Para o PS, se ficar confirmada a vitória tangencial da AD, a hipótese de em poucos meses existirem novas eleições pode significar “a esperança no arrependimento do eleitorado indeciso e volátil que votou à direita.” Para o CHEGA, “o desejo” de novas eleições pode ser “instigado pela confirmação da linha vermelha da AD.”
A governabilidade será difícil, mas “tudo depende da viabilização orçamental”.
Depois das declarações proferidas por Pedro Nuno Santos durante a campanha e na noite eleitoral, Sílvia Mangerona, politóloga e Professora Universitária de Ciência Política, ao Estado com Arte Magazine admite que “não é expectável que o grupo parlamentar do PS facilite a vida ao futuro (e provável) governo” liderado por Montenegro.
“A AD reafirmou a linha vermelha ao CHEGA deixando, na noite eleitoral, abertura à IL.” No entanto, pelos resultados obtidos nestas eleições “será difícil à IL ser a força que baste para a estabilidade à direita,” comenta a docente.
A instabilidade política que se perspetiva “abre a possibilidade de novas eleições legislativas num curto espaço de tempo e pode mesmo constituir uma tentação para várias forças partidárias: para o PS, se ficar confirmada a vitória tangencial da AD, a hipótese de voltarmos, em poucos meses, a novas eleições pode significar a esperança no arrependimento do eleitorado indeciso e volátil que votou à direita.
Para o CHEGA, o desejo de novas eleições o mais rápido possível pode ser instigado pela confirmação da linha vermelha da AD. “
A politóloga diz que para o PSD, pode “fazer sentido novas eleições”. Dependerá ainda do cenário, mas se o governo liderado por Montenegro cumprir com as prometidas “políticas de resolução instantânea” pode alterar, com isso, “profundamente o sentimento coletivo e a opinião pública”.
No entender da investigadora de ciência política o PSD “com maior folga orçamental pode, em pouco tempo promover decisões e políticas públicas que atenuarão o descontentamento dos profissionais de saúde, dos profissionais das forças de segurança, dos professores e dos pensionistas.” Se conseguir, Luís Montenegro e o seu governo “poderão mesmo tentar repetir o feito de 1987, desejando uma maioria absoluta em novas eleições.”
Governar no “fio da navalha”
Manuel Carneiro Frada, Professor de Direito Civil na Universidade de Direito do Porto, diz ao Estado com Arte Magazine que Pedro Nuno Santos ainda “não sabe como vai votar o orçamento da AD, embora gostasse de votar contra”. Depende da credibilidade e do programa de governo que Luís Montenegro apresentar, e da posição do Chega. O Professor catedrático de Direito acredita que PSN “não quer deitar abaixo o governo já”.
“Luís Montenegro governará no fio da navalha, possivelmente há eleições no fim do ano.” O líder da AD tem de escolher para que lado quer crescer: “a esquerda tem pouco espaço, mas se quiser crescer para a direita tem mesmo de assumir que uma parte relevante do país não quer políticas ideológicas ou amorfas, e espera mudanças claras.”
Montenegro vai “certamente ser confrontado no Parlamento com iniciativas do Chega e vai ter de se posicionar”. O PSD precisará de mudar algumas atitudes, comenta Manuel Carneiro Frada. “Luís Montenegro disse – a meu ver bem – que os partidos precisam de evoluir,” assume o docente.
Pedro Quartin Graça, Professor de Direito público e privado ISCTE, considera que “é provável que o PS se vá abster” e dessa forma pode viabilizar um orçamento de que o próprio PS foi “em grande parte autor”, recorda o docente.
Não acredita que a IL dê qualquer tipo de estabilidade acrescida ao Governo. “Não tem peso político-eleitoral suficiente, não tendo saído fortalecida do sufrágio. É ao PSD, ao Dr. Luís Montenegro em particular, que cabe refletir sobre aquilo que é melhor para o país”. O docente defende que o presidente do PSD deve “deixar de lado preconceitos prévios e pôr o interesse nacional acima do interesse partidário”. Para Pedro Quartin Graça é essa “postura” que os portugueses e os próprios votantes da AD lhe “exigem”.
E se assim não for o PSD sairá “muito debilitado aos olhos dos eleitores”. Acrescenta que não é nada “desejável” governar em circunstâncias “não potenciadoras” da estabilidade que Portugal precisa.
Graça diz que “não é inevitável termos eleições no curto prazo, nem o país o compreenderia.” Seria uma postura de “enorme irresponsabilidade imputável a Marcelo Rebelo de Sousa e a Luís Montenegro. A não ser que estes estejam definitivamente reféns de uma agenda externa, gravemente lesiva do interesse nacional.”
Carlos Blanco de Morais, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, comenta ao Estado com Arte Magazine do que ouviu do candidato derrotado a Primeiro-Ministro, Pedro Nuno Santos, não viabilizará o orçamento, apenas “ressalvada numa emergência”. O Catedrática considera que Pedro Pedro Nuno Santos procurará “forçar o Governo a entender-se com o Chega que, dada a composição parlamentar, teria de eventualmente de votar a favor para o OE passar.”
Blanco de Morais diz que a ida da IL para o Governo retira-lhe identidade e utilidade marginal em futuras eleições. “Não vejo qual a mais-valia da IL para a governabilidade a não ser a de dar ao Governo da AD o conforto de uma maioria não tangencial, com mais 8 deputados.”
“Não sei se este ano, mas haverá num curto prazo novas eleições, pois a governabilidade será difícil.” Mas garante que “tudo depende da viabilização orçamental”.


