SUSANA DUARTE. «HÁ COISAS QUE O CORAÇÃO AINDA NÃO SABE, MAS QUE JÁ DECIDIU»

Pedro Gaspar

Susana Duarte, nasceu a 8 de setembro de 1983, em Lisboa, é a autora do livro “Amar Por Dois”, publicado em fevereiro deste ano. Conta-nos a história de Leonor, uma mulher que cresce num contexto de abandono, de pobreza emocional e de violência, aprendendo, desde cedo, a resistir mais do que a ser cuidada. A infância deixa marcas profundas na forma como ama e se relaciona com o mundo.

“Sou uma mulher simples, mãe, esposa e autora”, mas há muito mais para além disso. Existem as palavras que ligam as emoções às pessoas e a escritora é apaixonada por elas desde que se conhece, de forma eloquente.
Formada em Solicitadoria, com formação jurídica, a Susana encontrou na escrita a liberdade que o mundo muitas vezes lhe negou. Este romance «é um reflexo do reencontro com a sua essência e da capacidade de transformar dor em beleza». É uma história real, “não foi feita para agradar. Nem para culpar. Foi escrita para libertar», escreve no livro “Amar Por Dois”.

Quem é a Susana Duarte?

Sou uma mulher simples, mãe, esposa e autora. Sou muito ligada às palavras, às emoções e às pessoas. Escrevo sobre aquilo que nos torna humanos: o amor, a perda, a esperança, os recomeços e as lutas que quase ninguém vê. Não me considero diferente de quem me lê. Talvez seja precisamente por isso que os leitores se reconhecem tanto nas minhas histórias.

Como autora do seu primeiro romance, quais são as dificuldades que um autor enfrenta neste país?

A maior dificuldade é conseguir chegar aos leitores. Em Portugal existem muitos autores com talento, mas nem sempre existem oportunidades, divulgação ou investimento suficientes. Um autor acaba por ter de ser escritor, vendedor, gestor de redes sociais e responsável por grande parte da promoção do livro. É cansativo, mas também nos ensina a lutar pela nossa obra e a valorizar cada leitor que escolhe caminhar connosco.

Desde quando escreve?

Escrevo desde muito nova. A escrita sempre foi o lugar onde consegui organizar aquilo que sentia e dar voz ao que, muitas vezes, não conseguia dizer. Durante muitos anos escrevi apenas para mim, sem imaginar que um dia outras pessoas iriam ler as minhas palavras. A escrita cresceu comigo e tornou-se uma parte muito importante de quem sou.

O que sentiu quando viu o livro publicado?

Senti uma mistura de felicidade, orgulho, medo e incredulidade. Ter o livro nas mãos foi perceber que todas aquelas horas de escrita, dúvidas e inseguranças tinham finalmente ganhado forma. Foi um momento muito especial. Ao mesmo tempo, senti uma grande responsabilidade, porque o livro deixou de ser apenas meu e passou a pertencer também a cada pessoa que o lê.

Quem são as suas personagens?

Leonor e Miguel são duas pessoas imperfeitas, com medos, sonhos, falhas e sentimentos muito humanos. Erram, sofrem, amam e tentam encontrar o seu lugar na vida e um no outro. Eles existem para lembrar que ninguém ama de forma perfeita e que, muitas vezes, é precisamente nas fragilidades que nos reconhecemos.

Riu e chorou durante o processo de escrita?

Sim, muitas vezes. Houve momentos em que me ri sozinha com algumas situações e outros em que tive de parar porque estava demasiado emocionada para continuar. Quando escrevemos com verdade, acabamos por viver um pouco daquilo que as personagens estão a viver. Para mim, escrever não é apenas contar uma história. É senti-la.

A sua história abraça o coração dos leitores. Qual foi o elogio mais bonito que recebeu?

O elogio que mais ouço, e que mais me toca, é o de que cada leitora encontra na Leonor um pouco de si.
Houve também uma leitora que me disse: “Ninguém me avisou de que, quando começasse a ler o livro, ia esquecer-me de tudo à minha volta.” Guardei esta frase, porque é exatamente isso que desejo: que quem lê entre na história e, por alguns instantes, se esqueça do resto do mundo.

O que diria às editoras nacionais sobre aquilo que precisa de mudar?

Diria que é importante existir mais abertura para novos autores e mais transparência durante todo o processo editorial. Um autor precisa de acompanhamento, de uma revisão cuidada, de uma comunicação clara e de sentir que existe um verdadeiro compromisso com a divulgação do livro. Publicar não pode ser apenas imprimir uma obra. É necessário ajudá-la a chegar aos leitores. Há muito talento em Portugal que merece ser descoberto e tratado com respeito.

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