Fátima Campos Ferreira. “A nossa razão de existir é o outro que está ao nosso lado”

Marta Roque

Fátima Campos Ferreira marcou presença no encontro “A voz dos livros” na Casa de Letras, em Cabrela, este sábado, para apresentar o seu mais recente livro “O infinito está nos olhos do outro”, com a moderação de David Lopes.

No livro de memórias recorda a vida familiar e a experiência da relação, o “grande amor filial” que une a família da jornalista. “É uma passagem de testemunho aos netos na defesa dos valores humanos, o amor e a compaixão, que serão sempre a alavanca da felicidade.”

A autora revela que este livro é uma promessa cumprida à mãe no último ano da sua vida, que lhe pediu: “diz-lhes quem somos”.

“O infinito está nos olhos do outro”, a 3ª obra de Fátima Campos Ferreira, reuniu um auditório de 95 pessoas, na Casa de Letras, em Cabrela, uma localidade que pretende vir a ser “uma vila de livros”. É no alojamento local Beds&Books que teve lugar a iniciativa literária, uma conversa moderada por David Lopes, organizador do evento, e que contou com o apoio do Âmbito Cultural do El Corte Inglês e do Estado com Arte Magazine.

“O infinito com o qual me habituei a crescer foi o humanismo do meu pai, que viveu para os filhos e para os livros”. O pai só ia aos alfarrabistas de coleção. “Fascinado nos livros, pelos conteúdos e em colecionar a 1ª obra. Sacrificou muito a vida familiar em função destes gastos. Era o grande objetivo. Não era ir de férias”, explica Fátima Campos Ferreira sobre o título do livro.

Com o pai aprendeu que “o infinito está nos olhos dos outros. Dizia-me: nunca queiras o sangue dos outros”. Tinha respeito pela espécie humana e pelos animais. “A nossa razão de existir é o outro que está ao lado. Se estivermos numa ilha, quem é que nós somos? Nós somos o outro.”

No livro recorda a memória de momentos da família para contar aos netos e ao público. “A memória é a alavanca do futuro. Eis-me aqui para dizer o que sei, o que vi e o que vivi.”

A filha de Virgínia e do Luís, revela que “a vida é o grande contraditório da existência. Venho destes pais que nos amaram sem condições.”

A jornalista quis escrever “um legado que deixa aos netos que não tiveram o privilégio de conhecer os bisavôs. Para tirarem as suas conclusões. Apesar das máquinas que vão dominar o vosso mundo, a esperança percorre a geração de avós e netos. É a passagem de testemunho aos netos na defesa dos valores humanos, o amor e a compaixão serão sempre a alavanca da felicidade. Com a mesma felicidade que sinto ao cumprir a promessa que fiz à minha mãe no último ano da minha vida. Diz-lhes quem somos. “

Fatima Campos Ferreira em conversa com David Lopes, proprietário da Beds&Books, num auditório com 95 pessoas na Casa de Letras, em Cabrela

Adianta na conversa intimista que “descobri muita coisa na vida, mas que ainda me falta descobrir mais”.

Os pais morreram com 15 dias de diferença,” são iguais aos pais de toda a gente”. O pai era funcionário público e a mãe trabalhava em casa. É um retrato da história de tragédia de doenças, mas igual à vida de tantos portugueses. Com a diferença de que “houve muitas mortes na família.” Facto que se deve ao séc. XX ter sido marcado por guerras e doenças infecciosas, conta.

Retrata com pormenores o “grande amor filial” que os une. A memória “mais persistente é a emoção, essa que nos faz gente.”

“Esse exercício de memória ajudou-me a conhecer-me muito melhor: conhecer melhor os pais, coisas que tinha vivido,” confessa. Admite que agora compreende melhor, porque “sofreu muito”.

“Tive de descer sobre mim própria. Tive de os levantar (os pais) outra vez, viver os momentos de infância, aquela casa, o colégio, as conversas.”

Explica que “a perda é um sofrimento enorme, colocar as pessoas perante nós”. Mas tinha de “ser leal” com os netos.

Um dia perguntou a Eduardo Lourenço: o que é a morte? O pensador respondeu: “Não sei. É na morte do outro que sabemos o que é a morte”. A jornalista defende que a “nossa morte é a morte do outro. Quando morrem os parentes. É na morte do outro que encontramos a nossa própria morte”.

Vida reservada

“A sua vida tem um outro lado da sua vida pessoal desconhecida”, observa David Lopes como que a provocar a resposta da jornalista que diz ter tido “recato”.

“Há uma maneira de ser que está expressa no livro: o facto de ser mulher e ter de sobreviver com os próprios meios. Há uma pessoa que está no meu coração para sempre o senhor Fernando Martins, presidente do Benfica deu-lhe conselho em conversas dizia-me: vai ser convidado para tudo o que é social. Porque você tem os fatores que vão levar a isso. Nunca se deixe transformar num personagem, nesse dia vai morrer,” conta FCF.

Para a jornalista a ideia de “nunca se transformar em personagem” fazia todo o sentido. “Eu sou a Fátima, não sou mais do que isso. Sou igual a todos os que aqui estão. E se alguém pensa que é mais do que isso está enganado. Somos poeiras, coisitas que andam no universo.”

Sobre o programa em que trabalhou durante 18 anos, Prós e Contras, o programa de debate com maior longevidade na televisão em Portugal, assume que era um trabalho público, “até uma missão” e que atribuiu “um valor demasiado estrito.” Hoje olha para trás e diz que “tudo vale o que vale. Nada é tão importante assim. Mas se tivesse de voltar a fazer o Prós e Contras metia a cabeça nos papéis e não pensava em mais nada.”

No fundo apesar da relatividade não quer dizer que não corra atrás do “americano” a qualquer instante, como no final do livro dos Maias.

Assume os valores em que acredita: ser a mulher que sou. Ser “a cidadã que é, a necessidade de corresponder ao grilo falante que é a minha consciência.”

Prós e Contras: o maior desafio de todos

Em entrevista FCF ao DN, em 2020, disse que “o mundo passou pelo prós e contras”, mas David Lopes acrescenta que “é verdade porque nós estávamos lá. “

“Esse é o maior desafio de todos: O trabalho de memória e de conhecimento, o Prós e Contras foi uma grande árvore de conhecimento, uma panela de pressão para sair a pressão da sociedade. Inclusive os temas que eram mais íntimos: o amor, os conceitos de tempo, questões psicológicas. Os anseios da sociedade naquela semana. Reunia os “grandes decisores, o senado, e misturava-os com o cidadão humilde que estava estratos sociais mais baixos, que tinha sua palavra a dizer.”

“E eu com algum mérito, (e porque não?) interligava uns e outros. Esses espaços da sociedade são extremamente importantes, existem desde o tempo da Grécia Clássica: a “Ágora”. Um programa que deu contribuição de pensamentos de fatores que ajudaram as pessoas “a conhecerem-se melhor uns aos outros, em que cada um tira a sua interpretação e discernimento sobre os assuntos e não para estarmos uns de um lado e outros de outro.”

Na 1ª pessoa – espaço profundo sobre a pessoa e a sua obra

O critério da escolha das figuras do programa da RTP1 é transversal à sociedade. “Sou uma generalista, não sei de nada.  Sei um bocadinho de qualquer coisa. Sei um bocado de história, filosofia, de política e economia.”

Acredita ser “fruto da interação de muita gente” que a ajudou. Recorda que Medina Carreira, ex-Ministro das Finanças, dava-lhe aulas de economia quando fazia programas sobre Orçamento de Estado, a troco de favores na ajuda de compras para casa (torradeira e aquecimento). Recebeu ajudas de muitas pessoas de várias áreas da sociedade, desde colegas a cidadãos, e hoje recebe ajuda da empregada e vizinhos de cima. “Aprendemos uns com outros, ninguém nasce ensinado,” esclarece.

“Uma ideia revolucionária para os nossos líderes públicos a troco de alguns aconselhamentos de comprarem algum eletrodoméstico correto receberem aulas de literacia economia e financeira”, diz David Lopes perante uma plateia que solta gargalhadas com os comentários.

Vida dedicada à informação

A jornalista nasceu em Lisboa, mas passou a infância em Valencia do Minho, licenciada em história pela Faculdade de Letras do Porto em 1982, e em jornalismo em 1986. Em Televisão fez quase tudo. Estreou-se em informação no bom dia entre 1988 e 1994 da RTP Porto e apresentou o jornal da tarde. Em 1994 foi para Lisboa como pivot do telejornal do canal 1 da RTP. Em 2002 passou para a RTP Porto para o jornal 2.

Em outubro de 2002 aceitou dirigir o programa de debates Prós e Contras, um dos programas com maior longevidade da história da TV portuguesa, durou 18 anos. Entrevistas sobre o país e debate os temas de atualidade.

Acompanhou o Papa Bento em 2010 na visita a Portugal, e  o Papa Francisco na sua vinda a Lisboa durante a JMJ 2023.

Lecionou na Universidade Livre do Porto e desde 1996 é Professora Associada da Universidade Lusófona, no curso jornalismo da Faculdade de Humanidades e Tecnologia.

É autora e apresentadora do programa na “1ª pessoa”, quinzenalmente, onde faz entrevistas a personalidades com relevância na vida pública portuguesa.

Em 2005, foi nomeada Comendadora e recebeu a Ordem de Mérito pelo Presidente Jorge Sampaio.

Em 2022, recebeu de Rui Moreira a Medalha de Mérito da cidade do Porto.

Fatima Campos Ferreira continua a fazer a cobertura de reportagens de grandes temas internacionais a nível político, económico, cultural e religioso.

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