Liderança. “Uma visão de grandeza nas pessoas que te foram confiadas”

Marta Roque

Alexandre Havard, especialista em  ensino de liderança, esteve na passada semana na Católica em Lisboa a apresentar o sistema Virtuous Leadership.

Considera que um líder deve entender a “grandeza do ser humano” e dar condições aos colaboradores para desenvolver os talentos.

É através da pratica das virtudes que o carácter se desenvolve, com vista a formar líderes mais humanos e “não apenas eficientes”.

Três meses por ano viaja por todo o mundo para inspirar as pessoas a liderar “como um verdadeiro ser humano”.

Para Alexandre Havard  é o desenvolvimento do carácter e de virtudes como a justiça, prudência e coragem, que se desenvolvem desde a juventude, que promovem um bom líder. “Todos os indivíduos têm de praticar estas virtudes se querem ser um verdadeiro ser humano,” disse  na conferência “Cultivar o carácter para o sucesso sustentável” na Católica Business School.

Na análise de Havard a liderança consiste em “revelar a grandeza que existe em nós” e estar ao serviço das pessoas com quem trabalhamos ou nos relacionamos.

“Um líder é alguém que tem uma visão de si próprio, entende que é um ser humano, que tem espírito e uma mente racional. Tem vontade livre, pode fazer escolhas, tem um coração,” Alexandre Havard justifica que um animal não tem nada disto, tem instinto, não tem espírito.

“O líder entende qual o sentido a grandeza da dignidade pessoal, as pessoas têm talentos pessoais, por isso um líder tem de investigar que talentos são esses e como os multiplicar.” Além disso, continua Havard, o líder tem de ter um sonho sobre si, sobre as pessoas que chefia, os amigos, para que sejam grandes seres humanos. “Existe uma visão de grandeza que tens de ter nas pessoas que te foram confiadas.”

Explica que liderança é um serviço de magnanimidade: “a liderança é grandeza e serviço.” Esclarece que as virtudes de grandeza e serviço são as virtudes de magnanimidade e humildade, são as duas virtudes específicas dos líderes. Já os talentos não são resultado do trabalho, são “puros dons.”

Mas como se coloca em conjunto a magnanimidade e humildade? Para a maioria das pessoas não é óbvio. O docente acredita que andam juntas não se separam uma da outra.

Com o dono da empresa Michelin aprendeu uma grande lição sobre como desenvolver os talentos dos colaboradores: “tens de partir a pedra para descobrir o diamante que está lá dentro”. Para Havard liderança é sobre colocar as pessoas na direção certa.

O líder pensa como no futuro as coisas têm de ter feitas, cria as condições para as pessoas serem melhores, mais eficientes, mais imaginárias. “Não é sobre o dinheiro, não é a tecnologia, são as pessoas que são o futuro das organizações.” Os líderes investem em pessoas, servem, não há contradição com a gestão, é gestão no longo prazo.

“Podem dizer que é apenas um lindo discurso mas que não funciona. Claro que funciona, porque pessoas são pessoas. Têm imaginação e talentos. Se criarem condições para eles desenvolverem os talentos fazem um bom trabalho, é o que é natural para os seres humanos. As pessoas não são más, tem de ser estimuladas a atingir resultados,” conclui Havard.

Sistema Virtuous leadership

Alexandre Havard é francês, descendente de avós russos que fugiram a União Soviética, diz ser fruto dos seus antepassados. Estudou Direito em Paris, aos 26 anos foi viver para a Finlândia, tendo regressado à Rússia depois da Perestroika para dar ao seu povo tudo o que recebeu dos avós. Da Rússia foi a todo o mundo: China, América do Sul, Africa, Austrália, Europa. Três meses por ano viaja e conhece pessoas de todo o mundo para os inspirar  neste sistema de liderança.

Nos anos 90 um amigo convidou-o a dar aulas em Helsínquia sobre da integração europeia. “Tive de pensar nos fundadores da união europeia: Robert Shuman, Jean Monet. Não sou fã da União Europeia, hoje já não tem nada a ver com o que os fundadores fizeram.”

Harvard diz que foram “grandes líderes, seres humanos extraordinários, um tipo de pessoas” que não os vemos hoje em dia, e esse é o problema atual.

“Aos meus alunos dizia que líderes eram extraordinários, tinham grandes virtudes, ambições na vida, sabiam o que tinham de fazer, perseguiram os seus objetivos. Os meus alunos espantados perguntavam: Como se transforma um sonho em paixão como eles fizeram?”

O questionamento obrigou à reflexão de Harvard sobre qual a diferença entre temperamento biológico e carácter; o que se desenvolve no ser humano; e ainda se podemos mudar alguma coisa?

No inicio desta reflexão percebeu que os alunos queriam compreender o conceito de liderança.

As perguntas antropológicas dos seus alunos questões revelavam-se tão importantes que decidiu desistir de exercer Direito e investiu na investigação do sistema de Virtuous Leadership.

“Os meus alunos trouxeram-me à ideia de liderança virtuosa. Nos anos 90 ajudaram-me a perceber que devia desistir de direito e dedicar-me a liderança.”

Escreveu o primeiro livro “Virtuous leadership”, traduzido em várias línguas, sobre os princípios de natureza humana.  As pessoas gostaram tanto que tem sido convidado para falar em todo o mundo para todo o tipo de áreas: exércitos, negócios, educação, alunos e professores de universidades. “Nunca pararei de ensinar a alunos, foram eles que me trouxeram aqui.”

Depois de estudar estas virtudes chegou ao raciocínio será que estas virtudes são específicas dos líderes? Descobriu que não, mas que são fundamentais para cada um de nós.

Praticar a virtude para sermos mais humanos e “não mais eficientes”

A motivação não deve ser eficiência, mas sim a vontade de  “eu quero ser um ser humano.”  É importante saber usar as emoções como a energia das paixões, self mastery (pessoas que dirigem as emoções, e não destruir). É preciso saber usar as emoções para o cumprimento da missão na vida. “Como seres humanos precisamos de usar esta energia no nosso corpo humano. Muita gente não usa bem esta energia, reage como animais.”

Elenca a virtude da Justiça como a virtude de comunicação com outras pessoas, virtude de falar a verdade com sinceridade, empatia, misericórdia, amizade, são virtudes que fazem um grande comunicador. Cada um de nós deve ser uma pessoa prudente, um ser inteligente, mas deve entender a realidade, para tomar decisões para resolver a realidade, mas não de forma ideológica.

Dá o exemplo da virtude da coragem, é a virtude de quem implementa e vai até ao fim da decisão, não volta a atrás. A persistência molda-nos e ajuda-nos a tomar riscos.

Admite que hoje muita gente não toma nenhuns riscos e que “não pode haver liderança se não há capacidade para tomar riscos.”

No seu livro “Virtuous Leadership – A arte de bem liderar”  relembra a importância fundamental das virtudes clássicas para uma liderança eficaz e frutífera. Alexandre Havard hoje dedica-se a desenvolver o seu sistema Virtuous Leadership através de conferências em todo o mundo.

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