Portugal concedeu a cidadania portuguesa aos descendentes dos judeus sefarditas expulsos no século XVI. Foi justo. Mas falar em indemnizações?! A quem? Em dinheiro? E com que dinheiro? Com dinheiro dos contribuintes atuais? E porque não pedir à França a devolução de tudo que as tropas de Napoleão roubaram? Vá lá que não tiveram tempo ou não conseguiram levar o pelourinho que se encontra em frente à Câmara Municipal, em Lisboa.
Não podemos olhar o passado com os olhos de hoje. O que noutros tempos eram as regras, o normal, hoje, é crime. Tudo o bem e o mal deve ser situado na sua época e avaliado no seu contexto histórico. Significa esta atitude que se transforme o erro em verdade, o mal em bem? De modo algum. Escravizar, matar, roubar é sempre mal. Ao longo da História, todos os povos ora roubaram, ora foram roubados, ora foram escravizados ora foram senhores, ora foram dominados, ora foram dominadores.
Vem isto a propósito das vozes que se levantam de vez em quando pedindo perdão pelo crime da escravatura, pelos crimes cometidos em nome da construção de impérios à custa da subjugação e, muitas vezes, genocídio das populações indígenas. Em nome de Deus fizeram-se guerras, perseguições.
Genocídios que nos horrorizam – O papa João Paulo II pediu perdão pelo horror que foi a Inquisição. Foi um gesto bonito. Portugal concedeu a cidadania portuguesa aos descendentes dos judeus sefarditas expulsos no século XVI. Foi justo. Mas falar em indemnizações?! A quem? Em dinheiro? E com que dinheiro? Com dinheiro dos contribuintes atuais? E porque não pedir à França a devolução de tudo que as tropas de Napoleão roubaram? Vá lá que não tiveram tempo ou não conseguiram levar o pelourinho que se encontra em frente à Câmara Municipal, em Lisboa.
Há que conhecer e estudar o lado negro da História. Há que relembrá-lo. No Largo de São Domingos, em Lisboa, uma placa assinala o lugar em que judeus foram massacrados. Em Roma uma placa igualmente assinala o local em que Giordano Bruno foi queimado vivo pela Inquisição. Em Genève, uma pequena inscrição inserida num gradeamento junto ao rio assinala o local onde um jovem de dezasseis anos foi atirado ao rio depois de torturado por ser homossexual.
Hoje está instituído o crime de ódio e severamente punido. Fizeram se horrores. Continuam a fazer-se. Olhar para o passado é fundamental, para o estudar, para conhecer as suas repercussões na atualidade. Mas que não faça esquecer o presente. Como recebe a Europa os migrantes atuais vindos dos países onde fundou os seus impérios? Que se vejam em Lisboa as filas intermináveis de migrantes, que chegam a ir de véspera às seis da tarde marcar lugar.
Que se vejam os colchões e mantas nos bancos corridos no metro da estação do Oriente, em Lisboa, e não um ou dois: são dezenas e dezenas, de migrantes e portugueses sem casa. A televisão mostrou de raspão, numa fração de segundos, e quem nunca viu ao vivo nem sequer percebeu. Fica-se à espera que daqui a cinquenta ou cem anos alguém se lembre que é preciso indemnizar os seus descendentes?


