Durante a visita do Papa Leão XIV a Espanha fomos desafiados a erguer o olhar – “Alzad la mirada” – e a proferir “as palavras do alto” que derivam do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Poucas expressões resumem tão bem a visita de Leão XIV a Espanha. Um convite simples e profundo: levantar os olhos acima das divisões, dos preconceitos e das lógicas de confronto que hoje marcam tantas sociedades. Talvez seja essa a grande mensagem desta 4ª visita internacional do Papa: Erguer o olhar – olhar mais alto do que os conflitos, mais longe do que os interesses imediatos e de forma mais profunda para aquilo que nos une enquanto humanidade.
Esta semana, também o Presidente da República, António José Seguro, marcou o discurso de 10 de junho com a expressão “as palavras do meio” querendo afirmar que estas são as palavras que levam “à criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias.” Defendeu, à semelhança de Leão XIV, que a moderação do discurso é “o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação enquanto humanidade”.
Desde a eleição de Robert Prevost para o 267º sucessor de Pedro, multiplicaram-se as comparações com os seus antecessores mais próximos. Afirma-se que não possui o carisma arrebatador de João Paulo II, nem a profundidade doutrinal de Bento XVI, nem a proximidade popular de Francisco. Confesso que tenho uma perceção diferente. À medida que acompanho os primeiros passos deste pontificado, reforço a convicção de que poderemos estar perante um Papa capaz de reunir, de forma única e singular, aquilo que de melhor encontrámos nos últimos Papas: a firmeza de convicções, a profundidade intelectual, a proximidade humana e uma extraordinária capacidade de diálogo.
A visita a Espanha foi exemplo desta capacidade singular de Leão XIV. Ao longo de seis dias, percorreu cerca de 2500 quilómetros e proferiu doze discursos. O Papa mostrou um perfil marcado pela serenidade, pelo rigor e por uma visão agregadora da missão da Igreja. Num contexto internacional particularmente complexo, marcado por conflitos armados, tensões migratórias, transformações tecnológicas e crescente polarização política, o Papa apresentou uma mensagem centrada na dignidade humana, na verdade, na responsabilidade e na fraternidade.
Madrid foi palco de um momento histórico. Pela primeira vez, um líder da Igreja Católica discursou no Parlamento espanhol. Num país onde o debate político se encontra profundamente polarizado, Leão XIV conseguiu algo raro: ser ouvido e aplaudido por todos. Falou de forma imperativa sobre o valor da vida humana desde a concepção até à morte natural e destacou o tema da migração. O Papa classificou o fenómeno migratório como um “trágico drama” que interpela a consciência das nações e recordou que estamos perante uma questão não apenas política ou económica, mas sobretudo moral e jurídica. Uma das frases mais marcantes desta viagem foi também uma das mais necessárias para o nosso tempo: “a firmeza não exige desprezo; a discordância não implica humilhação”. Num mundo cada vez mais dividido entre extremos, esta afirmação constitui uma verdadeira lição de cultura democrática e de convivência humana.
No entanto, a viagem não se limitou à dimensão política. Em Barcelona, Leão XIV quis sublinhar o papel da beleza e da Arte na evangelização. A visita coincidiu com o centenário da morte de Antoni Gaudí, o chamado “arquiteto de Deus”, e com a bênção da Torre de Jesus da Sagrada Família, que passa a ser o ponto mais alto da basílica e um dos símbolos mais expressivos da fé cristã contemporânea.
A Sagrada Família, obra iniciada há 144 anos e ainda em construção, tornou-se uma poderosa metáfora da própria Igreja: uma realidade viva, inacabada, em permanente crescimento e renovação. Perante quarenta mil pessoas reunidas numa vigília, Leão XIV insistiu ainda na necessidade de “caminhar juntos, todos, fiéis e pastores”, retomando um dos pilares do pontificado de Francisco: a sinodalidade que mais do que uma reforma organizacional, constitui uma visão de Igreja baseada na escuta, na participação e na corresponsabilidade – “caminhar juntos”.
Nas Canárias, a última etapa da visita, o Papa deu continuidade a uma das grandes preocupações do Papa Francisco – os migrantes. O arquipélago tornou-se um dos rostos mais dramáticos da crise migratória global, recebendo milhares de pessoas provenientes de África em embarcações precárias provocando elevado número de mortos e desaparecidos. Com esta escolha, Leão XIV voltou a colocar no centro do debate aquilo que tantas vezes é esquecido: cada migrante tem um rosto, uma história e uma dignidade que não podem ser ignorados.
O Pontificado de Leão XIV está na agenda mediática. Os seus discursos são acompanhados atentamente e a sua sensatez, moderação e imparcialidade já o catapulta para líder mundial. A primeira encíclica “Magnifica Humanitas” posiciona Leão XIV e a Doutrina Social da Igreja perante os principais desafios da atualidade e a sua pertinência já é amplamente reconhecida. A reflexão sobre a inteligência artificial e o transumanismo revela uma Igreja atenta às transformações do mundo contemporâneo. As preocupações expressas pelo Papa vão desde os riscos da vigilância em massa e da concentração de poder tecnológico até à tentação de reduzir a pessoa humana a um simples conjunto de dados.
É precisamente neste contexto que ganha particular relevância a decisão da Igreja em Portugal de dedicar as próximas Jornadas Pastorais à reflexão sobre a Inteligência Artificial e as novas formas de comunicação na evangelização. A tecnologia representa uma oportunidade extraordinária, mas exige igualmente discernimento ético, responsabilidade e uma visão humanista capaz de colocar a pessoa no centro.
Temos de continuar a ouvir “ as palavras do alto”.


