A igualdade no trabalho: porque é que ainda estamos a discutir isto?

Joana Garoupa, Diretora Geral da Garoupa INC, Marketing Advisor, Autora

Se há algo que a história já provou é que as mulheres não são menos competentes. Se não chegam ao topo, o problema não está nelas, mas nas estruturas que ainda hoje favorecem os homens.

Na semana passada, celebrou-se o Dia da Mulher. E, como alguém que passou anos nos setores da tecnologia e energia, posso dizer que aprendi muitas coisas – algumas agradáveis, outras nem tanto. Entre elas, a experiência de ser, demasiadas vezes, a única mulher na sala: na equipa, nas reuniões de liderança e, claro, na direção.

É impossível negar que fizemos progressos gigantescos nos últimos 50 anos em termos de direitos e oportunidades. Mas é igualmente frustrante perceber que a igualdade no local de trabalho ainda parece uma miragem.

O problema das quotas e o teto de vidro que afinal é de betão

Politicamente foi decidido que uma quota de 30% de mulheres nos conselhos de supervisão seria suficiente para dar um “empurrão” à causa. Mas a questão impõe-se: porquê só 30%? Num mundo onde as mulheres entre os 25 e os 34 anos já superam os homens em qualificações universitárias (51% contra 39%), porque é que continuam a ser sistematicamente deixadas de fora das posições de topo?

A ideia das quotas era, ao colocar mais mulheres nos conselhos de supervisão, abrir caminho para a sua chegada aos conselhos executivos. Mas a realidade tem mostrado que não é assim tão simples. Porquê?

As mulheres continuam bloqueadas em cargos de gestão intermédia, enquanto os homens vão subindo para posições de topo. Se não há mulheres nos níveis superiores, como se espera que elas cheguem aos cargos executivos?

Os conselhos de supervisão não escolhem diretamente os gestores de topo. Escolhem entre os candidatos apresentados – e se só aparecem currículos de homens, como é que vão contratar mulheres?

Mesmo quando as empresas cumprem a quota de 30%, a tomada de decisões continua a depender da maioria – que, surpresa das surpresas, continua a ser masculina.

Se há algo que a história já provou é que as mulheres não são menos competentes. Se não chegam ao topo, o problema não está nelas, mas nas estruturas que ainda hoje favorecem os homens.

O rabo do cavalo e os líderes do século XXI

Há uns tempos, li um artigo que contava que a largura das estradas romanas foi feita para acomodar duas traseiras de cavalo, o que influenciou o tamanho das carruagens, que por sua vez determinou a largura dos caminhos-de-ferro, que depois limitou o tamanho dos túneis… e, por fim, acabou por definir o tamanho dos propulsores do Space X.

Ou seja, estamos a definir o futuro com base em decisões tomadas num contexto completamente diferente. Não será que estamos a fazer o mesmo com a definição de “líder”?

Um homem que fala alto e impõe respeito é um líder nato. Uma mulher que faz o mesmo é… mandona, agressiva, “difícil”. E, se tem alguma duvida, experimente imaginar a reação dos seus colegas de trabalho se fosse uma mulher a comportar-se como Elon Musk ou Steve Jobs.

Trabalho, família e a velha questão dos sacrifícios

Há outra realidade incontornável: o equilíbrio entre carreira e vida familiar. A dedicação extrema ao trabalho sempre foi vista como um fator determinante para o sucesso – mas historicamente, só os homens puderam fazê-lo sem abdicar da vida familiar.

Uma mulher pode ter um marido que divide as responsabilidades, mas quantos homens assumem 50% do peso da casa e dos filhos? E quantos políticos ou líderes empresariais conhecemos que tiraram licença parental ou reduziram o horário de trabalho para apoiar a família? Num casal onde ambos têm formação superior, quem disse que o homem é automaticamente o mais qualificado para trabalhar?

O problema da autoconfiança: criamos rapazes, educamos raparigas

Michelle Obama disse uma vez: “Nós amamos os nossos rapazes, educamos as nossas raparigas.” Os homens são ensinados a arriscar, a falhar, a confiar no seu potencial. As mulheres, por outro lado, são ensinadas a comportar-se, a ser perfeccionistas, a agradar aos outros.

E a diferença está à vista. Quando faço avaliações de desempenho com equipas mistas, os homens começam sempre por falar das suas conquistas; as mulheres, das suas fraquezas.

Se há algo que precisa de mudar urgentemente, é isto. As raparigas precisam de aprender desde cedo a acreditar nelas próprias, a quebrar as regras, a arriscar, a ser ambiciosas. No século XXI, a liderança já não depende da força física, mas sim da inteligência, da capacidade de adaptação e da coragem para desafiar o status quo.

Por isso, da próxima vez que alguém me disser que estou numa determinada posição “porque sou mulher”, a minha resposta será simples: “Lamento desapontar-te, mas tu é que estás na tua posição porque és homem. Caso contrário, terias 80% menos hipóteses de estar aí hoje.”

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