O Escândalo que Abala Espanha: Máscaras, Subornos e a Sombra sobre o Governo de Sánchez

José Padrão Mendes. Médico Neurologista

Tal como em Portugal, estes casos têm um enorme poder corrosivo na confiança dos cidadãos. A percepção de que as regras não se aplicam aos poderosos e de que o dinheiro dos contribuintes é desviado em momentos de crise nacional alimenta o populismo e a desafeição política.
O “Caso Koldo” já ultrapassou as fronteiras de Espanha, com a Procuradoria Europeia a investigar o possível uso indevido de fundos comunitários. O escândalo deixou de ser um problema interno para se tornar uma mancha na reputação internacional de Espanha.

O que começa com a urgência de uma pandemia e a compra apressada de máscaras, transforma-se num terramoto político que ameaça engolir o governo de Pedro Sánchez. O “Caso Koldo”, como foi batizado, é o mais recente e, talvez, o mais perigoso escândalo de corrupção a atingir a política espanhola.

Longe de ser uma história simples de comissões ilegais, evoluiu para um enredo complexo com ramificações que tocam o núcleo do poder em Madrid, envolvendo ministros, empresários, segredos de Estado e até a família do primeiro-ministro.

Koldo García Izaguirre, braço-direito de José Luis Ábalos, um dos políticos mais influentes de Espanha

Para Portugal, este caso é um espelho dos perigos que a promiscuidade entre a política e os negócios representa para a estabilidade e a confiança nas instituições democráticas.

A Anatomia de um Esquema Milionário
No auge da pandemia de COVID-19, em 2020, o pânico e a necessidade abriram a porta a procedimentos de contratação de emergência. Foi neste contexto que uma empresa desconhecida e sem qualquer experiência no setor da saúde, a Soluciones de Gestión y Apoyo a Empresas S. L., conseguiu nove contratos públicos no valor total de 54 milhões de euros para o fornecimento de máscaras.

Os contratos foram adjudicados diretamente, sem concurso público, por pelo menos três ministérios (Transportes, Interior e Saúde) e por dois governos regionais então liderados pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE): as Ilhas Canárias e as Baleares. A investigação da Guardia Civil espanhola, na chamada “Operação Delorme”, concluiu que esta empresa era apenas um instrumento para uma “organização criminosa” que obteve lucros de cerca de 17 milhões de euros, desviados através de uma rede sofisticada de empresas em paraísos fiscais como o Luxemburgo.

De ‘Faz-Tudo’ a Peça Central: Os Protagonistas
No centro da teia está uma figura peculiar: Koldo García Izaguirre. Antigo segurança de discoteca, com antecedentes criminais (posteriormente indultado), Koldo tornou-se o braço-direito, motorista e “faz-tudo” de José Luis Ábalos, um dos políticos mais influentes de Espanha, que na altura acumulava os cargos de Ministro dos Transportes e Secretário de Organização do PSOE (um cargo de enorme poder interno no partido).

Koldo era o homem que, segundo a acusação, usava a sua proximidade a Ábalos para abrir as portas do governo.
O elo de ligação ao mundo empresarial era Víctor de Aldama, um comissionista e então presidente do Zamora Club de Fútbol. Aldama, que já estava ligado a outro escândalo conhecido como “Delcygate” (o polémico encontro de Ábalos com a vice-presidente venezuelana no aeroporto de Madrid), era o “elemento corruptor” que conectava a administração pública às empresas da trama, pagando subornos em troca dos contratos. Segundo as investigações, Koldo recebia pagamentos periódicos de 10.000 euros em dinheiro.

As Ramificações: Um Polvo que Ameaça Moncloa
Se o caso se limitasse a isto, já seria grave. Mas as investigações revelaram um escândalo com múltiplos tentáculos, que se estendem muito para além da compra de máscaras e que chegam cada vez mais perto do Palácio da Moncloa, a sede do governo espanhol:
• Resgate da Air Europa: A investigação sugere que a mesma rede de influências foi usada para mediar o resgate estatal da companhia aérea Air Europa, um processo onde o nome de Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro Pedro Sánchez, também surgiu devido a encontros que manteve com responsáveis da empresa.

• O “Delcygate” e a Venezuela: A trama volta a cruzar-se com a misteriosa escala da vice-presidente venezuelana em Madrid, que tinha entrada proibida no espaço Schengen, levantando suspeitas sobre negócios paralelos.

• Confissões e Mensagens: A situação agravou-se drasticamente quando Víctor de Aldama, já detido por outro caso de fraude fiscal, confessou ter pago subornos a Koldo, Ábalos e até a Santos Cerdán, o sucessor de Ábalos na liderança organizacional do PSOE. Aldama afirmou ainda que o próprio Pedro Sánchez pediu para o conhecer pessoalmente para lhe agradecer pelas suas “atuações”. A juntar a isto, foram filtradas mensagens de WhatsApp em que Sánchez expressava a sua solidariedade e amizade a Ábalos, mesmo depois de este ter sido afastado do governo.

• Operação para silenciar a polícia: Numa reviravolta digna de um thriller, foram revelados áudios que sugerem uma operação clandestina, com pessoas ligadas ao PSOE, para obter informação comprometedora sobre os chefes da investigação policial e, assim, anular o processo.

Consequências: Um Governo sob Fogo Cruzado
As consequências políticas são imensas. Para o governo de Pedro Sánchez, que chegou ao poder com a bandeira da regeneração democrática após os escândalos de corrupção do Partido Popular (PP), este caso é um golpe devastador na sua credibilidade. A oposição não tem dado tréguas, usando o caso para pintar um retrato de um governo mergulhado na corrupção.

Tal como em Portugal, estes casos têm um enorme poder corrosivo na confiança dos cidadãos. A percepção de que as regras não se aplicam aos poderosos e de que o dinheiro dos contribuintes é desviado em momentos de crise nacional alimenta o populismo e a desafeição política.
O “Caso Koldo” já ultrapassou as fronteiras de Espanha, com a Procuradoria Europeia a investigar o possível uso indevido de fundos comunitários. O escândalo deixou de ser um problema interno para se tornar uma mancha na reputação internacional de Espanha.
Enquanto o processo judicial avança lentamente, com o Supremo Tribunal a investigar o ex-ministro Ábalos, a batalha política trava-se todos os dias. A questão já não é se o escândalo vai ou não chegar ao topo, mas sim qual será a dimensão dos estragos quando o terramoto finalmente abalar os alicerces do poder. Para já, a estabilidade do governo espanhol está refém de um escândalo que, nascido na sombra de uma pandemia, ameaça deixar a descoberto o lado mais obscuro da política.

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