O nosso maior problema é que na próxima tempestade, tudo será como agora, a mesma falta de meios, a mesma ineficácia, a mesma incompetência, o mesmo caos e as pessoas continuarão sem luz e sem água, com o mesmo sofrimento a que, entretanto, se vão habituando. Sim, garantidamente nada vai mudar.”
Por acaso, o “tufão” que varreu o território nacional, com especial e dramática incidência na região de Leiria, ocorreu em plena madrugada e por isso e só por isso, é que fez cinco vítimas mortais, tivesse acontecido durante o dia e nada, nem Deus, evitaria que tivessem sido muitas mais. Depois, na sequência do rescaldo, mais vítimas vieram a sucumbir, alguns casos por quedas de telhados que desesperadamente tentavam reparar. Paz à sua alma.
Como sempre acontece nestas circunstâncias, e veja-se os casos dos incêndios, em que não corrigimos nada depois de 2017, nunca temos a capacidade de sermos pró-ativos, em Portugal, somos sempre reativos, não temos a capacidade de nos prepararmos para o que aí vem, de nos anteciparmos, mesmo quando sabemos exatamente o que aí vem e neste caso sabíamos, porque os meteorologistas avisaram. E temos vários níveis de responsabilidades, a começar também pela nossa forma de estar, somos por norma desleixados, não estamos habituados a este tipo de fenómenos, felizmente, e facilitamos ou ignoramos mesmo os avisos, porque achamos sempre que a coisa acaba por passar ao lado, mas desta vez não passou e arrasou.
Depois há responsabilidades das autarquias, algumas não têm sequer o respetivo Plano Municipal de Emergência, coisa obrigatória há muito, outros não estão atualizados e das que o têm, era interessante saber quantos foram acionados previamente e não a posterior, sabendo-se o que aí vinha, mas arriscaria adivinhar que nenhum. E já agora, se torram tantos milhares de euros em festaria, ou em “animação”, como lhe chamam, por que razão não se apetrecham com geradores que permitam garantir o abastecimento de água, mesmo sem eletricidade? Ah…é isso, não se vê e não dá votos, mas é inaceitável.
Mas e o Estado central, a partir do qual as entidades com responsabilidades na matéria se atropelam e se sobrepõem, numa perfeita e repetitiva desorganização, sem uma liderança única eficaz, porque ninguém admite perder o pedestal e o protagonismo, o importante é exibir as fardas vistosas, e as viaturas 4 x 4, bastante estilosas, diga-se de passagem e depois de meses sem nada de facto para fazer, nem se dão ao trabalho de se prepararem para darem respostas eficazes e atempadas, quando se deparam com aquilo para que existem.
Os egos dos dirigentes das várias entidades sobrepõem-se aos interesses das populações, sempre assim foi e a Proteção Civil não pode servir apenas para dar uns empregos aos amigos, militantes e simpatizantes. Mas podemos subir na tutela e a questão é a que todos colocaram, por onde andou a incapaz ministra da Administração Interna, a quem competia tomar a liderança de todo este processo? Pois, ninguém sabe, porque ela também não sabe, o jeito e a vocação para o cargo é nenhum, mas lá continua, quase uma semana depois, a ocupar o cargo e a fazer de conta que é ministra de qualquer coisa.
O ministro da Defesa, também fez o seu número para o “show off”, como se fosse necessária a presença do ministro para a montagem de uma tenda das Forças Armadas, tenham paciência. E já agora, teria sido importante, face à gravidade dos acontecimentos e porque se sabia exatamente o que ía acontecer, que o primeiro-ministro tivesse feito uma comunicação ao país, pelo impacto que teria na opinião pública, mas não, nada, porque vive numa bolha, uma bolha que não lhe permite perceber que tem um impacto profundamente negativo junto da população, exibir uma frota de sete automóveis de alta cilindrada, num cenário de catástrofe, cada ministro no seu carro. E isto quer dizer que ele deveria andar de Fiat 600? Não, quer dizer que devia ser contido e perceber que não o pode fazer. No final o governo vai fazer o que sempre faz, despejar dinheiro em cima do assunto, sem se saber ainda bem como.
O dinheiro que se gasta nas infindáveis e desnecessárias estruturas do estado, com aumentos de pessoal todos os dias, é o que não é investido em meios que minimizem os efeitos das catástrofes, como por exemplo com a instalação de geradores. E certamente já todos reparámos que após estas tragédias, agora, tal como no passado, nunca houve uma demissão, nem voluntária, nem forçada, tal é a dimensão da incompetência.
Depois temos a principal responsável de muito do drama vivido pelas populações, a EDP, que sendo uma empresa chinesa, é sinónimo de má qualidade, é certo, neste caso, dos serviços péssimos que são prestados, ou que deviam ser e não são prestados. Esta é a empresa que utiliza tecnologia de ponta no que respeita ao controlo de consumos e de cobrança aos clientes, e uso meios da época medieval no que respeita aos serviços prestados e aos direitos desses clientes, que ignora por completo.
Como é que é possível no ano de 2026 DC, vir a público anunciar que haverá povoações onde a energia elétrica só será restabelecida para o final de fevereiro, um mês depois? E pronto, fica assim, sem que o presidente seja chamado a dar explicações, porque esta é uma empresa sempre protegida pelos governos, sejam eles do PS ou do PSD, farinha do mesmo saco.
No meio de tudo isto, ainda há por aí quem tenha o descaramento de continuar a apregoar esse embuste da chamada “transição energética”, a quererem convencer o povo a passar tudo para elétrico, é que com o gás, ao menos era possível confecionar comida. Tenham pudor. Que se lixe isso da “transição energética”.
E a economia? Ninguém está a falar nas empresas que estarão encerradas durante meses e muitas provavelmente não terão condições para resistir e encerrarão definitivamente, com o desemprego resultante, numa região das mais dinâmicas do país e das que mais contribuem para as exportações.
O nosso maior problema é que na próxima tempestade, tudo será como agora, a mesma falta de meios, a mesma ineficácia, a mesma incompetência, o mesmo caos e as pessoas continuarão sem luz e sem água, com o mesmo sofrimento a que, entretanto, se vão habituando. Sim, garantidamente nada vai mudar.
Nota: Só uma visita à região poderá dar uma ideia aproximada do flagelo que aquele povo está a sofrer, nenhuma imagem ou reportagem consegue mostrar o que lá se passa, à quarta visita que fiz a amigos e familiares, há sempre pior para ver.


