A discussão não se limitou à responsabilidade política imediata. Houve também um debate — ainda que fragmentado — sobre o próprio modelo de Estado.
O debate quinzenal de hoje, adiado duas vezes devido às devastadoras consequências das tempestades que assolaram o país, foi uma autêntica dor de cabeça. Sim, quem, por gosto ou motivos de ofício, teve de acompanhar, esta tarde, o debate na Assembleia da República ganhou muito provavelmente uma valente dor de cabeça. Gritos, muitos. Ofensas, algumas. Pouco brio, pouca elevação e pouco respeito pelo o momento que atravessamos. O tema em agenda merecia mais cuidado e contenção por parte dos deputados da Nação.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, procurou defender a atuação do Governo com uma mensagem simples: afirma que coordenou, comunicou, decidiu e esteve no terreno. Mas a insistência na narrativa da prontidão — alegadamente assegurada desde 28 de janeiro — não dissipou as dúvidas que continuam a pairar sobre a gestão da crise.
Do lado da oposição, as críticas foram duras e variadas. O Chega acusou o Governo de falhar redondamente na gestão da crise e responsabilizou-o diretamente pelas mortes. O Partido Socialista procurou posicionar-se como força de solução, disponibilizando-se para viabilizar um orçamento retificativo exigindo, como contrapartida, a apresentação mensal dos resultados no parlamento. Ao mesmo tempo, acusou o primeiro-ministro de falhar princípios fundamentais da proteção civil — da prevenção à coordenação, passando pela informação e pelo comando único — concluindo que este “não é um governo para tempos difíceis”.
A discussão não se limitou à responsabilidade política imediata. Houve também um debate — ainda que fragmentado — sobre o próprio modelo de Estado. Mariana Leitão, da Iniciativa Liberal, questionou a eficácia das estruturas existentes, sugerindo que o país vive de anúncios e compensações e deveria antes avançar com reformas estruturais e gestão eficiente. É uma crítica recorrente — e talvez uma das mais relevantes — porque aponta para um problema sistémico: reagimos muito, planeamos pouco.
Outras forças políticas tentaram recentrar o debate em propostas concretas. O Livre defendeu regras claras de comunicação em catástrofes e disponibilizou-se para colaborar nas soluções.
A CDU voltou a trazer ao debate os confrontos ideológicos entre setor público e privado na disputa pelo fornecimento e prestação dos serviços essenciais.
O Bloco de Esquerda criticou a falta de resposta imediata do Estado. O PAN insistiu nos apoios às populações, aos animais e chamou a atenção, uma vez mais, para as alterações climáticas.
O CDS veio, pela voz de Paulo Núncio, em defesa do comportamento do governo recordando episódios passados, como as férias de António Costa após os incêndios de Pedrógão Grande, para comparar comportamento de gestão de crises entre os governos do PS e os governos do PSD.
Quase a terminar o debate, Hugo Soares veio dar o mote para a defesa final de Luís Montenegro que prometeu anunciar o novo(a) ministro(a) da administração Interna durante a próxima semana e garantiu a pronta aplicação do plano de recuperação e resiliência português.
Parafraseando o primeiro- ministro – “O debate político muitas vezes resvala”. Este, com toda a certeza, resvalou.


