A apresentação do livro Santos Corpos | Um atlas dos corpi santi em Portugal, publicado no âmbito do projeto Holy Bodies financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), é coordenado pela Universidade de Évora, vai ter lugar hoje dia 3 de junho, na Sala das Bellas Artes, na Biblioteca Geral do Colégio do Espírito Santo, em Évora.
A sessão conta com a participação de vários membros da equipa de investigação, que vão discutir diferentes aspetos abordados na obra, desde questões históricas e artísticas até à materialidade, conservação, ética e estudo científico destes relicários. Fazem parte da equipa de investigação: António Camões Gouveia, Ana Curto, Ana Manhita, Beatriz Nunes, Teresa Ferreira, Fernanda Olival, Leonel Alegre.
Teresa Ferreira, investigadora do projecto Holy Bodies e Professora Associada na Universidade de Évora, ao Estado com Arte Magazine adianta que durante três anos, “a equipa interdisciplinar do projeto Holy Bodies observou, pensou e discutiu os remanescentes ósseos dos primeiros mártires do Cristianismo ( corpi santi ), exumados das catacumbas de Roma e montados em relicários antropomórficos (simulacra) de notável qualidade artística e técnica. Inúmeras interrogações foram colocadas, respondidas e deixadas em aberto.”
A investigadora diz ao Magazine Estado com Arte que nesta apresentação, vários membros da equipa terão “oportunidade de partilhar a sua investigação e experiência com um património singular que ultrapassa a esfera do religioso e que dificilmente deixa alguém indiferente.”
Desde a redescoberta do coemeterium Jordanorum a 31 de maio de 1578, até à proibição decretada pelo Papa Leão XII em 1881, os ossos de homens, mulheres e crianças – conhecidos como corpi santi (corpos santos) ou santos das catacumbas – foram exumados dos cemitérios subterrâneos de Roma e amplamente distribuídos pela Europa e pelas Américas, incluindo Portugal, revela o projecto no site da investigação Holy Bodies pela Universidade de Évora.
O projeto Santos Corpos | Um Atlas dos Corpi Santi em Portugal
Os simulacros dos mártires das catacumbas são artefactos religiosos de grande importância, notáveis pelo seu contexto histórico e religioso, bem como pelos materiais diversos e pelas complexas técnicas de produção envolvidas na sua criação.
Para a equipa do projecto Holy Bodies “a urgência em estudar estes artefactos é reforçada pela escassez de literatura científica nacional e internacional, o que tem levado a interpretações imprecisas do seu significado e a um potencial e irreversível desaparecimento deste património religioso.”
“Estes mártires cristãos primitivos destinavam-se a promover e fortalecer a devoção religiosa em igrejas, conventos, mosteiros e capelas privadas, servindo também como símbolos de poder e influência para aqueles que os encomendavam”, revela a investigação no site holybodies.uevora.pt. O estudo apurou que “inicialmente, os corpi santi eram transportados em caixas de madeira (capsulae lignea), acompanhadas por documentação legal (authentica) e selos de cera vermelha, servindo como atestados da sua autenticidade”.
“Ao contrário dos relicários medievais tradicionais, feitos de madeira ou metal, estes recipientes modernos procuravam simular os corpos físicos dos mártires. A criação destes artefactos devocionais teve início no final do século XVII e prolongou-se até meados do século XIX. Provavelmente produzidas em conventos e mosteiros ou por artesãos especializados em precisão anatómica e técnicas de moldagem, estas figuras eram frequentemente elaboradas sob a orientação de profissionais da área médica. Construídas com materiais como tecido, papel, gesso ou cera, eram montadas em estruturas metálicas e adornadas com vestes ricamente decoradas. Representadas, em geral, em posições laterais ou reclinadas, estas figuras incluíam também símbolos da sua santidade e martírio,” lê-se no site da investigação.
A partir do século XIX, o entusiasmo e a piedade afetiva por estas relíquias e relicários diminuíram. A investigação arqueológica contribuiu para o descrédito generalizado da autenticidade dos corpi santi como mártires cristãos primitivos, devido à falta de provas concretas. “Um dos fatores deste cepticismo foi o vaso sanguíneo (vas sanguinis), outrora considerados prova definitiva de martírio, a par da palma, conforme reconhecido pela Sagrada Congregação das Indulgências e das Relíquias Sagradas (10 de abril de 1668). A secularização dos bens da Igreja durante as Guerras Revolucionárias, bem como o subsequente processo de descristianização, contribuíram para um progressivo enfraquecimento da devoção popular,” segundo a pesquisa.
Com o declínio acentuado do culto, muitos simulacros foram ocultados ou removidos dos espaços sagrados, acabando por cair no esquecimento. Com o passar do tempo, os documentos oficiais de autenticação que acompanhavam estas relíquias, bem como a memória da sua origem e significado histórico perderam-se.
O projeto Santos Corpos | Um Atlas dos Corpi Santi em Portugal (DOIhttps://doi.org/10.54499/2022.01486.PTDC) é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e teve a duração de março de 2023 a março de 2026.


