Uma História do Rosário na I Guerra Mundial

Ricardo Formigo, Professor de Portugês

A presença de padres capelães portugueses na I Guerra Mundial foi uma prova de uma fé cristã que não se perdeu em 1910, com a proclamação da República.

O capelão militar Padre Manuel Caetano, pároco de Cós, escreveu uma carta ao Prior da Benedita onde explica o que viu acontecer nos corações dos soldados portugueses do CEP em França, a 1 de dezembro de 1917.

Meu caro:

No local em que me encontro não há tinta. Tens que desculpar esta miséria. Aproveito esta oportunidade para, à fraca luz de uma vela e num casebre a desconjuntar-se, te dizer duas coisas desta interminável hecatombe que levará muitos povos à ruína.

Desta terra de ruínas, de luto, de sangue e de lágrimas, há sempre muito que contar. Cada dia aparecem novos factos. A cada momento se sentem novas impressões. Em cada dia se vive um século; em momentos se passam anos. Nesta guerra sente-se todo o nosso passado de grandezas. Vêem-se todos os heroísmos do passado. Constata-se a fé, a crença que nos fez grandes. Não se combate com a espada na mão e a cruz na outra, porque é uma luta de bomba e de punhal, mas luta-se com o amor pátrio, com fé, com crença no coração. A arma de ataque mudou, como muda tudo que é material; mas a arma de defesa – a fé, couraça onde se quebram todas as forças – é sempre a mesma.

O Deus que nos deu as vitórias de Ourique, Aljubarrota, Montes Claros e tantas mais, proteger-nos-á-mais uma vez, e nos dará a vitória.

Na França forjam-se almas novas. Nas trincheiras depuram-se os corações. O sofrimento, a dor, é mensageira de melhores dias. O sangue português derramado no Norte da França será o elo para melhores dias. A Pátria, banhada no sangue de seus filhos e nas lágrimas das suas filhas, mostrará ao mundo que tem direito à existência.

Portugal será o que forem os soldados que regressarem de França.

Estes saberão ser crentes, respeitadores, submissos, irão dizer que viram por toda a parte, junto das estradas, as grandes imagens do Redentor e que os Franceses passavam por esse grandes Cruzeiros e faziam o sinal da cruz, em vez de os apedrejar, derrubar e cobrir de insultos.

Dirão ao povo português que junto das estradas se encontram pequenas capelas-nicho onde se venera a Virgem, e que eles – soldados portugueses – lá se juntavam a recitar o seu Terço e a entoar cânticos à Padroeira de Portugal.

Dirão…

Agora digo eu: Como é belo, meu caro amigo, como nos enche a nossa alma de alegria, ver o nosso soldado orando! Que compostura! Que atenta devoção! Na povoação onde estou, passa uma grande estrada. Os soldados estão acantonados numa extensão de dois quilómetros.

Há dois nichos onde não cabem mais de quatro pessoas.

Está frigidíssimo. Parece o nosso Janeiro. Corre um vento que corta. Só se está bem em casas bem confortadas. São sete horas da noite. Vou jantar. A messe é a mil e duzentos metros do meu casebre.
Passo defronte de uma dessas capelas; ao longe, oiço uns cânticos em português. Aproximo-me, vejo a capela copiosamente iluminada. Em volta, por não caberem dentro, estão uns 50 soldados. Um preside. Vai lendo os mistérios e recitam alternadamente o Terço. Em cada mistério um cântico. O vento sopra rijamente. Mas eles lá estão de barrete na mão. O seu pensamento é estranho a tudo quanto se passa em volta, voou para o Céu, está junto da Virgem.

Quantos dos que ali estão se não envergonhariam, há um ano, de pegar num Terço, de entrar numa igreja, de fazer uma oração!? Agora são eles… Só eles! Não precisam de Padre.

Um abraço do teu muito amigo

Manuel Caetano

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