“Sou uma pessoa desorganizadamente organizada e, para além de escrever, gosto muito de falar. Tenho amizades que já duram há muito tempo, felizmente, e esforço-me para as manter. Para além disso sou muito curiosa. Gosto de saber coisas”, é a genuína apresentação da escritora Diana Brígida Correia, aos 25 anos.
Escreve desde os onze, ambiciona escrever mais e mais e em diferentes géneros de narrativas. Profundas. Idílicas e distópicas. Publicou a obra “Gin no Jardim” em 2017, e em 2018 lança “Os Libertistas”. Tem muito orgulho neste último livro por saber que tem um estilo que está muito na moda, enquadrado num cenário de distopia, onde há grupos de militares que lutam pela defesa de uma teoria filosófica”.
Entre a pluralidade temática da sua formação em direito e a “escrita automática”, a Diana, quase a completar 26 anos, a 14 de agosto, dá um novo look a uma nova geração de escrita criativa. Ainda a desenvolver, na parte da investigação científica, o seu método de redação sobre os seus estudos em direito. «Envolve tudo o que na escrita automática é proibido», revela na sua forma mais honesta e humilde possível.
Os padrões linguísticos de aproximação da narrativa ao cotidiano são bastante notórios nos seus livros, com enfoque em temas imponentes para a adolescência. Filha de pais artistas, Diana deu os seus primeiros passos no meio a partir do berço.
Fez uma exposição em Rio Maior há um mês onde divulgou os trabalhos – três textos do seu blog substack.com/ dianasmoshy7- vencedores da VI edição do concurso “ATUAARTE”, um projeto que promove a cultura entre jovens até aos 35 anos em Rio Maior. Diana já tinha participado na edição anterior em 2021.
É co-argumentista de um filme que vai estrear em dezembro nos cinemas, mas por enquanto mantém no segredo dos deuses…
Estado com Arte Magazine. Fale-nos de si sem advérbios de modo
Diana Brígida Correia. Gosto de pensar na natureza das coisas, de desconstruir processos rígidos de criação artística e, pelos vistos, de responder a perguntas que desafiam a linguagem, o raciocínio e a expressão.
Diria que sou uma pessoa atenta aos padrões sociais e dilemas comuns que surgem na vida do jovem adulto, procurando aprofundar as razões de certos bloqueios que prejudicam tomadas de decisão do quotidiano e no âmbito das relações humanas. E é sobre isso que escrevo. Procurando temas que fujam ao velho conselho “write what you know”, preferindo sempre escrever sobre o que ainda permanece na incerteza.
Tenho o hábito de canalizar para a arte as inquietações que vão surgindo. Este hábito é uma consequência da minha curiosidade, intuição e espírito analítico que também se manifestam noutras áreas da minha vida.
ECAM. Está nos seus planos uma nova obra literária?
DBC. Não tenho uma nova obra literária nos meus planos. Pretendo apenas continuar a escrever este tipo de textos, partilhá-los e melhorá-los. Neste momento, estou a dedicar-me ao crescimento do meu blog, que já consiste numa pequena comunidade de leitores que me desafiam e trazem novas perspetivas aos cenários imaginativos que construo.
ECAM. “Filha de peixe sabe nadar”, mais vale partir de um cliché do que chegar a um. É isso?
DBC. É verdade que cresci num ambiente artístico, e muito do que li (e filmes que vi) foi-me recomendado pelos meus pais, que se dedicam à sétima arte. O cliché de me dedicar à escrita part-time é moderado pelo facto de consolidar a minha veia artística com o meio corporativo e formal do Direito, que é a minha área profissional. Apesar do cliché a metade, há realmente um lado da moeda que parte de uma raiz liberal, de uma educação que me deu acesso ao backstage do cinema e televisão (à distância e mediatamente) e me permitiu ir recolhendo ideias e influências.
Como a escrita não é a minha atividade profissional, posso ter mais margem no que decido abordar e não tenho prazos, o que me permite escrever só quando tenho inspiração (o que é um privilégio). Esta leveza com que abordo a minha escrita permite-me um desvio de uma eventual chegada a um local comum, padronizado e empresarial. Mas posso confessar que esta chegada em queda livre se deve pelo modo obrigatório e constante em que a expressão artística, crítica e criativa surgiu desde a minha infância.
ECAM. Com que autores de literatura se identifica mais?
DBC. Manuel Alegre e Rilke.
O primeiro influenciou-me bastante, sobretudo com a obra “A Terceira Rosa”, que retrata uma história de amor em prosa, dividida pelo que identifico como pequenos contos em prosa poética. É um texto que aborda os temos da fragilidade das relações humanas, dos encontros e desencontros ao longo da vida, das linhas perpendiculares e paralelas que formamos com quem nos vamos cruzando. Daí um dos excertos mais marcantes, que cito: “(…) a descoberta de que ninguém é dono de ninguém e de que qualquer pessoa, por mais íntima que seja, pode aparecer de repente como sendo ela própria e outra, para sempre estrangeira, para sempre desconhecida”.
A fluidez e intuição que sobressai do texto é muito interessante e não são muitas as obras em prosa que costumo encontrar com esta naturalidade.
O segundo já conheço há mais tempo, tendo lido as “Cartas a um Jovem Poeta” durante a faculdade. O Rilke insiste que um escritor não deve procurar validação externa, mas descobrir se a necessidade de escrever nasce de uma convicção profunda e inevitável.

ECAM. Escreve sobre emoções, é o mote do seu blogue. O que mais a inspira: a tristeza, a alegria ou a saudade?
DBC. Já escrevi sobre as três, escreve quase sempre um bocadinho sobre a terceira, mesmo se for em segundo plano.
Em vez de construir a narrativa à volta de acontecimentos, construo através de lugares: um apartamento, um campo de batalha, um videoclube abandonado, uma pedreira ou o deserto. Estes cenários em que o personagem se insere relacionam-se com o objeto do texto: o apartamento simboliza estagnação; o campo de batalha é sinónimo de conflito interior; o videoclube abandonado de suspensão e intervalo; a pedreira significa processos longos e o deserto simboliza a procura.
A maioria dos textos não falam muito diretamente sobre tristeza e acho que nunca me foquei na alegria, nesse ponto de vista de estar pré-delineado para o que vou escrever.
Quanto à saudade, diria que há uma afinidade com uma tradição portuguesa em que a saudade não é apenas nostalgia, nem melancolia. Não me foco no aspeto passivo da saudade (no sentido lato de significar desesperança e falta de alguma coisa). Escrevo sobre saudade como impulso criativo de reconstrução da realidade, a partir do vazio.
Contudo, um dos meus temas centrais é a reflexão sobre a memória, identidade e pertença. Sobretudo esta última. Escrevo sobre a dificuldade de reconciliar o tempo vivido com a identidade presente. A saudade aparece como a consciência de que aquilo que fomos continua a agir em nós, mesmo quando já não queremos regressar a esse estado.
ECAM. “Gin no Jardim” e ” Os Libertistas” Como surgiram na sua cabeça os teus dois romances publicados?
DBC. Sinceramente, foram por influência de séries e filmes e pela vontade em sair da rotina. O primeiro sobretudo pela série skins (UK) e o segundo por influência de romances distópicos como “The Maze Runner”, “Divergent” e os célebres “The Hunger Games”. Lembro-me melhor do processo de escrita de “Os Libertistas”; por ter sido mais prolongado. A ideia era criar uma história que eu também gostasse de ler, sendo um livro de aventura e juvenil e sendo eu na altura adolescente. Segui o conselho que me tinham dado na primária, num workshop de escrita criativa que tivemos, o que escrever quando existe um problema. Parti daí e fui escrevendo quando tinha tempo livre, pensando nas personagens através de quem conhecia e de outras figuras da ficção que me inspiravam.
ECAM. De que ponto de partida surgiu a exposição na biblioteca municipal Laureano Santos em Rio Maior?
DBC. A exposição em Rio Maior divulgou os trabalhos vencedores da VI edição do concurso “ATUAARTE”, que é um projeto da associação “ATUAAÇÃO”, que promove a cultura entre jovens até aos 35 anos em Rio Maior.
O texto que submeti a concurso é uma junção entre três ensaios: (i) “Casa vazia”; (ii) “O homem apagado”; e (iii) Rosas das areias do deserto”. A intenção destes textos é também a de partilhar uma reflexão, normalmente fixa num cenário pré delineado e envolvendo apenas uma personagem, sem monólogo.


